Aproximam-se os franceses! Devagar, em boa ordem, como uma mole imensa e compacta aproximam-se inexoravelmente da fortaleza . De dentro, o governador, o ouvidor, os demais oficiais, observam aquela marcha que mais parece uma manada cega e incapaz de ser detida. Mas mesmo assim, ao tê-los a uma distância que julga boa para o tiro, o governador manda abrir fogo nutrido sobre o inimigo.
Para seu espanto, quase imediatamente uma considerável parte da força de Cassard desorienta-se e bate em retirada. Mas o que é mais incompreensível é que a outra parte mantém-se ali firmemente a flagelar os sitiados, como se a parte debandada do exército nada tivesse a ver com a que ainda luta com ferocidade. Só depois se fica a saber que tudo aquilo tinha sido devidamente ensaiado para ser uma simples manobra de diversão: porque a tropa que fingiu retirar-se em debandada, na realidade contorna a fortaleza, desce à Ribeira Grande exactamente no sítio onde nasce a Maria Parda, e sem qualquer oposição entra e saqueia a cidade, e rouba tudo o que apanha a jeito, incluindo os paramentos da capela do Espírito Santo...
A perda foi tão grave que o Bispo teve que ir negociar com Cassard a devolução de alguns objectos sagrados e paramentos, porque com esse saque tinha ficado impossibilitado de rezar a santa missa. ...
...a vergonha vai um pouco mais longe. A fortaleza está provida com pouco mais de cinquenta homens, e diante do poder de fogo de que o inimigo está a mostrar-se capaz, começa-se a admitir a conveniência de uma capitulação. ...são enviados emissários de bandeira branca.
Cassard não entende uma única palavra de português... Porém, aceita tudo sem hesitar e assina de cruz o papel que lhe apresentam para esse efeito. As tropas sitiadas abandonam a fortaleza em boa ordem e dirigem-se para o interior da ilha.
E Cassard toma posse física da mesma... De seguida as suas tropas restantes descem também para a cidade e acabam de saquear o que os seus camaradas tinham deixado para trás: as casas do bispo, do ouvidor-geral, do almoxarife, do feitor, de D. Isabel de Barros, avó do nosso coronel, e também do seu filho tenente Pedro Cardoso a quem, aliás, até se permitiram fazer judiarias como tomar-lhe o bastão, puxar-lhe a gravata, meter-lhe as mãos nos bolsos, etc. E para tudo concluir em grandeza, terminam arrebanhando cento e dez peças de escravos, belos rapazes e belas raparigas, cativos e forros misturados.
E vão-se embora finalmente, não sem antes terem minado com explosivos grande parte da muralha da fortaleza, abrindo nela grandes e avultados rombos.
E assim termina o ataque do pirata francês à Ribeira Grande...
...a consolação que historicamente restou aos enganados ilhéus foi terem ficado a saber que a seguir a esse saque Cassard foi para França, onde acabou preso.
In: "A morte do Ouvidor", de Germano Almeida, pgs 121 a 124
A bem dizer, os ilhéus nunca se recuperaram dessa afronta. Tantos anos volvidos, ainda se conta com emoção o ataque de Jacques Cassard à ilha de Santiago, a 5 de Maio de 1712, ao comando de uma frota de 12 navios.
Tenham uma boa semana, meus amigos.
Saúde!
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Imagens net : Forte de São Filipe, Santiago , Cabo Verde
Ribeira Grande de Santiago - hoje Cidade Velha
Maria Parda - Ribeira Grande de Maria Parda

