domingo, 16 de agosto de 2015

A Terceira Miséria

32.

Estão as praças,
Como ágoras de outrora, estonteadas
Pela concentração dos organismos,
Pelo uso da palavra, a fervilhante
Palavra própria da democracia,
Essa que dá a volta e ilumina
O que, por um instante, a empunhou.
Oh, os amigos, os abandonados,
Esses, os destinados ao extermínio,
Esses os belos despojados, nus,
Os que, mesmo nascendo no Inverno,
Pouco sabem do frio, gente que dorme
Na sombra do meio-dia, ouvindo o canto
Das cigarras, o canto sobre o qual
Hesíodo escreveu. Gente do Sul,
Gente que um dia se desnorteou.

33.

De que armas disporemos, senão destas
Que estão dentro do corpo: o pensamento,
A ideia de polis, resgatada
De um grande abuso, uma noção de casa
E de hospitalidade e de barulho
Atrás do qual vem o poema, atrás
Do qual virá a colecção dos feitos
E defeitos humanos, um início.

Hélia Correia


Do Bibliotecário de Babel trago estes dois excertos dum post denominado: Dois fragmentos finais (de A Terceira Miséria).
Hélia Correia, sabemos quem é, pela sua obra, pela sua competência nas letras, pela sua polivalência em termos de géneros e de estilos. Ainda não há muito tempo foi notícia ao ser agraciada com o Prémio Camões. Em 2013 recebeu o Prémio Casino da Póvoa.


E...

Do Sul, mais a Sul, chegam-nos gritos de desespero. Tenhamos a coragem de sentir essa dor como nossa. Apropriemo-nos de ideias sublimes que o nosso pensamento, a nossa melhor arma, nos induz e procuremos criar um lar de hospitalidade para os deserdados da sorte.

Um bom domingo para todos. :)

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Imagem da Net

domingo, 9 de agosto de 2015

Dá-me a tua mão

Marco o meu regresso, da minha ausência* forçada, trazendo comigo Clarice Lispector. Melhor companhia não haverá. 
No toque das mãos sentimos o bater do coração e o encontro das emoções. É o que as suas palavras me transmitem, neste momento:



Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.

De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.


Melhores escritores brasileiros

Clarice Lispector: É certamente a escritora de literatura brasileira mais lida entre nós. Clarice nasceu na Ucrânia em 10 de dezembro de 1920 e veio ao Brasil logo em seguida, sendo naturalizada brasileira. Morreu aos 56 anos em 9 de dezembro de 1977. Sua obra se constitui de romances e contos, além de ter escrito artigos de jornal em colunas femininas e poucos livros infantis. Sua literatura é de caráter existencial, introspectivo e filosófico, mostrando com maestria o lado misterioso das coisas mais simples e do cotidiano. Suas principais obras são: Perto do Coração Selvagem (1944), A Paixão segundo G.H. (1964), Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres (1969), Água Viva (1973), A Hora da Estrela (1977), Laços de Família (1960).aqui

Desejo-vos um bom domingo.  

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*Obrigações familiares
Poema de aqui
Imagem: aqui

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Aquela jarra





É tão triste, a casa. Fica como a deixaram,
Afeita ao conforto dos últimos a partir,
Como que para os reaver. Mas, despojada
De gente a quem agradar, vai definhando
Sem alma para esquecer o roubo

E recordar outra vez o que era a princípio,
Um ensaio radioso das coisas como deviam ser,
Há muito malogrado. Bem se vê como foi:
É só olhar para os quadros e talheres.
As músicas no banco do piano. Aquela jarra.

Philip Larkin, "É tão triste, a casa"


Retirei este poema de um livro chamado NÓS, de David Nicholls, um livro que andei a ler e que acabei há já algum tempo. Fiz referência a ele num dos meus posts e disse que não sabia se iria gostar dele. Pois bem, gostei. A princípio um pouco maçador, mas com a continuação acaba-se por entrar na pele da personagem que relata a história.

Uma casa que definha à medida que vai ficando sem a alma que lhe deu vida. À vista desarmada apenas os vestígios: quadros e talheres, as músicas no banco do piano e...aquela jarra. Tanto pode ser a da imagem ou outra, com flores ou sem flores. O importante é a carga das recordações que poderá transportar.

Estive nos últimos dias impossibilitada de aceder ao blog por causa de problemas no portátil. Penso que ainda não acabaram mas, neste momento estão a dar-me uma pequena folga.

Desejo-vos um bom fim de semana.:)

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Imagem:aqui