'Amo esta língua', dizia. 'Não é uma língua fácil. É um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve querendo roubar às coisas e pessoas a sua primeira camada superficial. É uma língua que por vezes reage contra um pensamento mais complexo. Por vezes o imprevisto de uma frase causa-lhe medo. Mas eu gosto de manejá-la - tal como outrora gostava de montar um cavalo para o levar pelas rédeas, umas vezes lentamente, outras a galope'.
Extraí estas palavras da contracapa de Laços de Família, de Clarice Lispector, palavras que lhe são atribuídas. Este livro, que hoje vos trago, é prefaciado por Lídia Jorge, que nele traça o percurso literário e as características desta figura maior da literatura de língua portuguesa. A dado passo e referindo-se a este livro ela escreve:
'Laços de Família, obra com que na prática se inicia a publicação da Clarice Lispector entre nós, é um conjunto de treze contos surgidos no Brasil em 1960, e contêm alguns dos traços que esse género costuma ter. Tem personagens, tem aventura, acidentes e desfechos. Só que neles, tanto quanto nos romances, os personagens começando por ser comuns, logo se revelam incomuns, avançando como se não tivessem olhos para ver, e quando quisessem ouvir não tivessem ouvidos. Ou inversamente, se têm ouvidos não têm sons, e se têm olhos não há paisagem que se veja. Quando acontece a coincidência, e é por escassos instantes, a visão produz-se, dá-se a fulminação e a matéria ficcional sucede.'
Lídia Jorge evoca Sartre e La Nausée quando fala de Laços de Família, referindo-se sobretudo ao conto Amor de 'leitura obrigatória para quem se inicie na compreensão do processo epifânico de Clarice'. Mas é do conto Uma Galinha que transcrevo as seguintes passagens, da página 28:
'Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre.
Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se poderia contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista.'
'Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcançou-a. Entre gritos e penas, ela foi presa. Em seguida carregada em triunfo por uma asa através das telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência.'
'Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, parecia uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu coração tão pequeno num prato solevava e abaixava as penas enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. Só a menina estava perto e assistiu a tudo estarrecida. Mal porém conseguiu desenvencilhar-se do acontecimento despregou-se do chão e saiu aos gritos:
- Mamãe, mamãe, não mate a galinha, ela pôs um ovo! Ela quer o nosso bem!'
Pois bem, 'A Hora da Estrela' é o nome da Exposição dedicada a Clarice Lispector na Fundação Calouste Gulbenkian, e que decorre de 5/Abril a 23/ Junho de 2013, no âmbito das comemorações do Ano do Brasil em Portugal. Vem anunciada assim:
Como não podia deixar de ser, estarei entre os visitantes um dia destes!