quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Não quero possuir ou dominar porque quero ser: esta é a necessidade






Dai-me a casa vazia e simples onde a luz é preciosa. Dai-me a beleza intensa e nua do que é frugal. Quero comer devagar e gravemente como aquele que sabe o contorno carnudo e o peso grave das coisas.
 
Não quero possuir a terra mas ser um com ela. Não quero possuir nem dominar porque quero ser: esta é a necessidade.


Com veemência e fúria defendo a fidelidade ao estar terrestre. O mundo do ter perturba e paralisa e desvia em seus circuitos o estar, o viver, o ser. Dai-me a claridade daquilo que é exactamente o necessário. 


Dai-me a limpeza de que não haja lucro. Que a vida seja limpa de todo o luxo e de todo o lixo. Chegou o tempo da nova aliança com a vida. 

                                                                                                                                            Inédito sem data

A Casa

A casa que eu amei foi destroçada
A morte caminha no sossego do jardim
A vida sussurrada na folhagem
Subitamente quebrou-se não é minha

In Dual - 1972


Sophia de Mello Breyner Andresen
           (1919-2004)

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Imagem: Internet

sábado, 4 de janeiro de 2014

Quando à noite desfolho e trinco as rosas és tu a Primavera que eu esperava

Sabe, se quer que lhe diga, do eu que me lembro bem, e para mim o que é importante, é os sítios onde eu escrevi. Há um poema que diz «Quando à noite desfolho e trinco as rosas». Isto é absolutamente verdade: eu ia para o jardim da minha avó colher rosas, a minha avó já tinha morrido e era um jardim semi-abandonado, colhia camélias no Inverno e rosas na Primavera. Trazia imensas rosas para casa, havia sempre uma grande jarra cheia delas em frente da janela, no meu quarto. E depois eu desfolhava e comia as rosas, mastigava-as... No fundo era a tentativa de captar alguma coisa a que só posso chamar a alegria do universo, qualquer coisa que floresce. * Sophia






AS ROSAS

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes
Todo o fulgor das tardes luminosas

O vento bailador das Primaveras
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas

Quando à noite desfolho e trinco as rosas

És tu a Primavera que eu esperava,
A vida multiplicada e brilhante,
Em que é pleno e perfeito cada instante

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
És tu a Primavera que eu esperava


Sophia de Melo Breyner Andresen
          1919-2004

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Precioso contributo da M.

Sophia de Mello Breyner era, de facto, uma mulher inspirada e inspiradora! E tinha um cenário inspirador também, penso que hoje esse jardim é o Jardim Botânico do Porto.

A Casa dos Andresen 

"...A verdura das árvores ardia,
O vermelho das rosas transbordava
Alucinado cada ser subia
Num tumulto em que tudo germinava...

Jardim Perdido
Sophia de Mello Breyner Andresen"

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Leiam, meus amigos, tudo sobre o Jardim Botânico do Porto, aqui

Muito Obrigada, M.

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*Sophia - Citação aqui
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Imagem:internet

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Cidade dos outros




Uma terrível atroz imensa
Desonestidade
Cobre a cidade


Há um murmúrio de combinações
Uma telegrafia
Sem gestos sem sinais sem fios


O mal procura o mal e ambos se entendem
Compram e vendem


E com um sabor a coisa morta
A cidade dos outros
Bate à nossa porta


Sophia de Mello Breyner Andresen
          1919-2004


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Comecei a escrever numa noite de Primavera, uma incrível noite de vento leste e Junho. Nela o fervor do universo transbordava e eu não podia reter, cercar, conter - nem podia conter-me em noite, fundir-me na noite (...) Sophia
Citação aqui

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Poema - Banco de Poesia Fernando Pessoa

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Imagem: Sophia fotografada por Fernando Lemos,
anos 50.