PRELÚDIO
O prenhe barro que sustinha o mar
abriu-se como uma boca ou uma flor
e o sopro de um deus imaginário
- que já existia antes de Deus – fez abrir um pedaço do Mundo
cuja alma já não cabia no corpo…
e nasceram as ilhas
que nadavam e nadavam.
As ilhas nascem nadando como as crianças nascem chorando,
mas no gérmen tudo é diferente: as crianças nadam muito tempo
antes de chorar
e as ilhas choram muito tempo antes de nadar
os dois prantos sob o signo de um pranto mestiço
de água e fogo.
LUZ
LAVA e
DOR.
Assim será.
Assim foi, creio eu:
Dez embriões num ventre
dez vozes num parto
dez ilhas no mar e
Eu assisti ao nascimento de um mundo
que gerou o fogo
e ficou elevado o umbigo da terra
ou vulcão
ou a raiz que evoca a diferença e a identidade.
Tudo passou num segundo e depois - conceito que foi instante,
logo e agora –
o deserto… o inaudível … a luz
e eu mil novecentos e sessenta e quatro anos depois atrás.
In:Nascimento de um Mundo
Hino à Gratidão
Mário Lúcio
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Imagem: Ilha de Santo Antão - 29/Nov.2023
Foto minha