quinta-feira, 20 de abril de 2017

Linguagens

À entrada da cidade o trânsito intensifica-se e, alguns metros mais à frente, bifurca-se. Parte dele segue pelo túnel e outra parte pela superfície. Aqui, surge o primeiro semáforo e do lugar onde me encontro consigo ver a vida que se agita, em azáfama, nos segundos que dura a paragem forçada dos carros. Mulher de lenço na cabeça com uma braçada de jornais ou revistas oferece exemplares aos condutores dos veículos, mulheres e homens de coletes reflectores aparecem com papelinhos na mão, talvez rifas, e também miúdos com o que me parece ser pensos rápidos. O tempo urge, mas nem todas as janelas se abrem. 



No meio disto, vislumbro algo inusitado, para mim: um jovem na passadeira a produzir para os carros parados um espectáculo de malabarismo, com três, quatro, cinco peças, como se tivesse todo o tempo do mundo. Começo a pensar já com uma certa ansiedade se ele conseguirá acabar em pleno o seu intento, se ele está com atenção aos sinais. Mas eis que com elegância recolhe as peças e faz duas vénias, cabelos longos em movimento para a frente e para trás, saltando de seguida para o passeio mesmo a tempo, sem um segundo a mais ou a menos.

Minutos depois saio do autocarro e desço as escadas que me conduzem ao metropolitano. Mas antes tenho de ir à casa de banho ou retrete ou WC. Encontro o que procuro. As casas de banho públicas têm quase todas o mesmo aspecto, não só são pequeníssimas como o asseio deixa muito a desejar. Penduro a mala ao pescoço, não há um ganchinho sequer como sempre, e faço a ginástica que todas as mulheres conhecem. Nisto os meus olhos são atraídos pela escrita que povoa as portas desses recintos. Declarações de amor, "amo-te Filipe", "amo-te Diana", bem como toda a espécie de desabafos com linguagens da mais variada gradação. Dir-se-ia tratar-se de um receptáculo privilegiado para os momentos em que o nosso lado mais básico se apresenta, sem vernizes.



Porém, entre os milhentos dizeres um deles destaca-se pelo trocadilho ou, quem sabe, pela intenção: "O diabo veste farda".*

Desejo-vos uma boa semana ou então, desde já, um bom fim-de-semana.

Abraço.

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Imagens net

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