sexta-feira, 23 de maio de 2014

Na Terra Prometida...

O tambor ressoava por todos os cantos do lugar. Era o modo de fazer chegar a todos as notícias. Havia sempre a esperança de serem boas, embora nem sempre o fossem. Aos poucos as pessoas começaram a juntar-se. Ainda longe, via-se a forma arredondada do tambor. Por detrás, adivinhava-se José de Nica, homem de estatura baixa, muito ciente da sua qualidade de arauto. No grupo que se ia formando ao pé de Joana as perguntas fervilhavam, quase em surdina: O que diz o tambor? O que diz o tambor? Mas a contenção foi abandonando as pessoas e já a correr e quase aos gritos: Ó José de Nica, o que diz o tambor? -Móia!!! Na sua linguagem codificada queria dizer que havia algures uma abundância qualquer. - Móia? Onde e de quê? -Na Praia Formosa. Encalhou lá o John. O navio está cheio de milho e de outras coisas... Não foi preciso ouvir mais nada. Todos sabiam o que fazer. Naqueles anos de estiagem e de racionamentos aquilo soava a milagre. Toda a gente começou a juntar o necessário, em ferramentas e vasilhames, e a reunir a família toda, incluindo velhos e crianças. Muitos partiram a pé, e quem ainda tinha alguma alimária carregava-a com os seus poucos haveres. Miriam lembrava-se muito bem daquele dia. Foram de bote e já na Praia Formosa, à noite, deitada e a olhar para as estrelas, ouvia vozes alegres de homens que vinham do navio com os seus salvados. Nas noites de lua cheia contava-se a história da Praia Formosa. Miriam dizia:- Ah! Lembro-me tão bem...-Não, filha, eras tão pequenina, nem três aninhos tinhas! Talvez te lembres por ouvires contar...- respondia-lhe Joana. 

Mas ela fitava a lua com um sorriso luminoso e cheio de mistério. Revia, nitidamente, a terra do leite e do mel...






Imagem daqui

10 comentários:

  1. Uma cena que poderia ter se passado, perfeitamente, no litoral brasileiro...na Bahia, por exemplo! Há lembranças que vem à memória em que parecem termos vivenciado mas, no entanto, foram contadas na tenra infância...Um belíssimo texto, minha amiga. Só, como "ilustração": aqui em Fortaleza, quando eu era menina, havia uma "Praia Formosa"...(vou pesquisar sobre ela...)
    Ótimo final de semana,Olinda querida.
    Beijos,
    da Lúcia

    ResponderEliminar
  2. Parece que voltamos de novo "aos salvados" mas agora de uma forma mais cruel: o mar é hoje a rua, com naufrágios em cada braço de água.
    Ótimo Olinda!
    Bom fim de semana
    beijinhos

    ResponderEliminar
  3. Uma bonita lembrança sem dúvida!

    Bjxxx

    ResponderEliminar
  4. Excelente texto, é da autoria da Olinda?
    Outros tempos, mas hoje também é o "salve-se quem puder"...
    Beijinhos

    ResponderEliminar
  5. Um texto muito bonito , que gostei muito de ler !

    ResponderEliminar
  6. O texto é muito bom, e traz à memória tempos muito dolorosos.

    Minha querida, bom final de semana

    ResponderEliminar
  7. Querida amiga

    As palavras
    que por meio de metáforas,
    nos falam de fé,
    são para mim,
    preciosas.


    Que por onde passarmos,
    deixemos o desejo do reencontro...

    ResponderEliminar
  8. Olá cara amiga!
    Eis um belíssimo texto que nos remete para outros tempos, bem difíceis e ...infelizmente parece que os vamos viver de novo.
    Dei uma olhadela no pão, deve ser bem saboroso! É altura de pensar seriamente em meter a mão na massa.
    Um abraço e bom domingo.

    ResponderEliminar
  9. Muito do que se sabe nos chegou pelas palavras de quem passou por momentos difíceis. E também pela história, quando os apresenta com fidelidade. A linguagem/chamado do tambor imperou por muito tempo, proporcionando comunicação e providências. Um ótimo texto. Bjs.

    ResponderEliminar