Ele não conseguia dormir. Dava voltas e mais voltas na cama, com jeito, para não acordar a mulher, companheira de muitos anos, mãe dos seus quatro filhos. Mas, não conseguia deixar de pensar naquela que ele considerava a mulher da sua vida e que se encontrava noutro continente. Recordava amargamente o momento aziago em que a perdera, talvez por culpa sua. Reencontrara-a há três anos, casada, com uma filha e uma vida profissional de sucesso. Nunca a esquecera e como lamentava não ter feito tudo para que continuassem juntos, não dando ouvidos a mexericos. Na altura, ela era uma menina de dezoito anos e ele já trintão. Tivera de partir, o dever chamava-o. Agora, ele, homem que cumprira todos os seus objectivos, que se fez a si próprio, chorava. Chorava porque sabia que algo de muito importante se escapara das suas mãos, irremediavelmente. Parecia-lhe que também ela ainda sentia a magia que os atraíra há tanto tempo. Outras vezes era ríspida e dizia-lhe que nada tinha a ver com ele. Tinha-lhe dito abertamente que não queria que lhe telefonasse. Sofria horrores e, nesse momento, eram cinco horas da manhã, revolvia-se impaciente. Estava decidido: logo assim que fossem horas decentes telefonar-lhe-ia. A urgência de ouvir a sua voz era mais forte do que o receio de ela se zangar. Começou então a contar os minutos, os segundos. Levantou-se, pôs os calções; ia dar um mergulho. Era um hábito diário, com o mar logo ali, convidativo, a dois passos. Na praia não havia ninguém. Deu umas quantas braçadas vigorosas, expelindo a energia acumulada numa noite de completa insónia.

Depois do pequeno-almoço saiu e, em largas passadas, percorreu a pequena distância que o separava do local donde podia telefonar. Consultou o relógio. Era uma boa hora, tendo em conta os fusos horários. Pegou no telefone, discou o número a medo e aguardou. Depois de alguns momentos ouviu-a:
Sim?!
Ele: Olá! Queria ouvir a tua voz...
...
Sim, eu sei que ainda é cedo, mas...
...
Não queres ouvir o que eu tenho para te dizer?
...
Repito-me porque o meu desejo é que falemos sobre as coisas...
...
Ok, já se passou uma vida quase, mas...
....
Sim, eu sei que devia ter lutado por ti, devia ter-te ouvido...
...
Qual é a minha proposta? Bem...
Sentiu-se cobarde de novo. Afinal, o que poderia oferecer-lhe? Não se sentia capaz de dar uma reviravolta à sua vida...
De facto, não a merecia. Tinha de reconhecer isso. Talvez tivesse mesmo de se contentar com as suas noites de insónia e com a premissa de que a distância também aproxima e que ninguém é só corpo. Quem sabe numa outra vida, numa próxima reencarnação tudo se compusesse. Esta linha de raciocínio perseguia-o, impedindo-o de resolver a vida aqui e agora. Com um friozinho na barriga afastou-se dali.
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13/02
NOTA: Como vêem, terminei a história. Agradeço a vossa participação que foi muito valiosa. Muito obrigada.
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Fevereiro, mês de todos os contos de amor.
Como terminará esta história, ou esta conversa?
Nem eu sei... :)
Querem alvitrar alguma coisa?
Abraço
Olinda
Imagem: daqui
Parece que é um pôr-do-sol, não? Bem, preferia uma alvorada...