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sábado, 30 de novembro de 2019

Sons da vida


Oiço-o. Trauteia algo. É o canto do corvo. Nunca canta. Assobia. Das poucas vezes que resolve cantar vem-me aos lábios um sorriso divertido. Nunca vi ninguém tão musical, ouvido muito apurado, arrancando sons divinos da sua viola de doze cordas, com voz desafinada de tal calibre. E digo-lhe, eu não sei afinar o meu violão (seis cordas) e ele responde é fácil, basta seguires o canto do corvo, começa na quarta corda (ou quinta?) e vai descendo até ao mi, depois sintoniza o mi agudo com o mi grave e afina a corda de baixo pelo seu som. Simples. E mais, ainda podes fazer mais e melhor: esticando a prima e passando daqui para ali podes afiná-lo ficando com os sons de uma guitarra.  Assim fazia ele. Os acordes doces e afinadíssimos começam a soar, fazendo gala dos bemóis e sustenidos misturados com notas simples que, no seu conjunto, fazem a vida mais bela.

E dedilhador como só ele, aparecem logo as mazurkas de sempre que, quase automaticamente, me fazem marcar o ritmo. Aproveitando a última nota da mazurka surge a valsa que me faz rodopiar a saia curta e pondo-me na ponta dos pés finjo apoiar-me no meu par. E assim por diante, uma rapsódia cada vez mais inspiradora faz nascer a dançarina em mim, de pés alados. Sinto e ouço, os sons vão baixando... Ali está ele. Adormece com os dedos na primeira posição do dó maior. É sempre assim. Deixa-se embalar pela própria música. 



Dezembro é o nosso mês. Meu, dele e do António. E mesmo não estando por cá todos tenho a certeza de que faremos uma festa. O João e o Elísio com pretensões a Paganinis. A Inês com a sua voz maviosa e a Maria alcançando tons de soprano. E o António, Ah, o António! Belo, com os seus ares de cientista louco comandará os passos da contra-dança, en avant! en avant quatre! deixem a dama brincar agora! 

Da Bela, belíssima, recordaremos as canções que ouvimos tantas vezes, tantas que as sabemos de cor, as suas leituras, o dizer das palavras, os livros que adorava ler, e que depois li. Dela ficou-me também isto de Lamartine, em Regina e Graziela: Para quê recordar os dias do passado? Pranteiam o vento e o mar a triste sorte não chores coração amargurado, medita nesta morte.

Mas é de vida que se trata aqui. Dos sons da vida. 
     E debaixo da Figueira mansa faremos a nossa festa.





e qual a diferença entre a valsa e a mazurka? Aqui ficamos a saber...

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sábado, 16 de novembro de 2019

Liberdade


Voar como um pássaro, livre de qualquer amarra e reencontrar o momento, o lapso de tempo exacto em que perdi o meu norte. 
Refazer tudo, os nós e os laços, vestir nova roupagem, reviver, para outro destino, outra meta, e entre o céu e a terra, enfim pousar!




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quarta-feira, 3 de julho de 2019

Sabores




Aconchega-te aqui, no âmago do meu ser. Imprime-te em mim em espírito e essência. Não nos percamos de vista. Se outra vida houver, unamos as nossas forças para nos reconhecermos e reviver. Provam os nossos desencontros que este tempo não é o nosso. Tempo virá em que saberemos saborear o pouco ou o muito que soubermos ganhar.



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Foto - minha
Video - Jorge Palma
"Encosta-te a mim"


domingo, 30 de junho de 2019

Presença





Em passo leve e estugado percorro o empedrado em direcção à praça estrela, hoje muito descaracterizada. Passo-lhe ao lado rumo ao mar. Livro-me de um passeio bizarro que acaba abruptamente a um bom metro de altura, desemboco na rua do plurim de peixe, já fechado. Rapazes, cá fora, oferecem ainda pratos cheios de peixe: freguesa, seis é só cem escudos. Mulheres de cócoras, de saias entaladas entre as pernas, pesam a olho o conteúdo dos cestos e fazem o preço: é banana, é feijão, é peixe fresco que não pode ficar para amanhã. Pequenos tomates sopesados na palma da mão, é cinquenta. Grupinhos aqui e ali sem pressas, tagarelando.

Não paro mas reduzo o passo, fujo de umas quantas pedras soltas da calçada que um vereador distraído há muito esqueceu. Passo pelo velho cais bem guardado pela águia, testemunha estática de tantos desembarques enjoados ainda na minha impúbere idade. Vou pela marginal e uma aragem oferece-me resistência, ajeito a camisola à volta das ancas, pois não está frio. Já regressam pessoas em traje de desporto da sua caminhada à beira-mar.

Chego à lajinha e descubro o banco de pedra à minha espera. Coloco as mãos na nuca, espreguiço-me interiormente. A brisa brinca com os meus cabelos, embora presos. Chega até mim o som de vozes de jovens na praia jogando à bola e atirando-se à água, num mar um tanto revolto. 

Abstraio-me concentrada em mim e então sinto o toque quase físico, vivo, real, mas contraditoriamente etéreo, coisa sublime, vivida noutro plano, sinto o coração estalar em ondas de alvoroço e oiço joe dassin na sua canção eterna ...il y un an, il y un siècle, il y une eternité ...

fragmentos desencontrados trespassam-me, já não oiço o mar nem os miúdos, a brisa aquieta-se, sinto aquele arquétipo de antanho que se dilui ...
deixando acesa a fogueira do mundo das emoções.









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imagem -foto minha

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Planuras





E então a noite se fez dia em dádivas de alvoradas boreais. Um deus criador de bonanças me aspergia de doçuras que inundavam o meu âmago. E eu procurava-o no seu génio de artista, inventor de palavras que transformavam o meu mundo. Nasciam rios,  afirmavam-se planícies. E eu, ingrata, alegremente inconsciente, aceitava como se tudo me fora devido. Agora, começa a despontar-se a íngreme montanha 
que terei de galgar.


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sábado, 22 de junho de 2019

Na vacuidade dos dias






Por vezes esvazio-me de tudo: Dos sucessos e insucessos, das alegrias e tristezas, das ilusões e desilusões, das frustrações, das decepções. Então enovelo-me em mim, embrulho-me na teoria da tábua rasa e espero. Pouco a pouco reconstruo-me a partir do vácuo. Chamo a mim os meus átomos que, cuidadosamente, se encaixam no meu ser - matéria e espírito. Livre de todo o peso, subo facilmente ao monte mais alto e grito a plenos pulmões. A minha voz ecoa nos lugares mais recônditos. E danço e danço e danço. Rodopio até ver as estrelas a sorrir. Tonta, deixo-me levar e rolo ribanceira abaixo. O cheiro a terra molhada e a musgo envolvem-me e sinto que somos um só. Dedilho a música mais linda e oiço o som do silêncio da eternidade.


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sexta-feira, 21 de junho de 2019

...e a montanha pariu um rato...




Num mundo encantado feito de belas sinfonias, cresciam flores de todas as cores. Todos os perfumes, fragrâncias nunca sentidas envolviam o ar em revoadas de azul e ouro. Miríades de miríades de estrelas cintilavam para além do imaginável. E a estrada de Santiago, dos caminhos da sua infância, indicava-lhe que a chuva ansiada e prometida não tardaria, fecundando a terra sedenta donde nasceriam belos frutos. Na regência desse mundo idílico existia um ser dotado de qualidades raras. Tocava alaúde, cantava belas trovas de que lhe fazia preito em meio a juras de grande estima. O seu jogral. Nesse embalo tudo lhe parecia, a ela, simples, bonito, possível... Em sonhos, estende a mão para alcançar o seu belo rosto. Este vai se distanciando mais e mais, incomensuravelmente, tornando-se difuso até se transformar numa mancha. 

Afinal, nem mancha era, mas apenas...um rato.


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O Fortuna - Carl Orff (Carmina Burana)




Imagem: daqui
Video: Youtube

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Tentações

Vejo Odisseu atarefado, procurando equilibrar o barco por entre tempestades alterosas, contornando mil e um perigos. Tanto tempo se passara já, e lá longe na Ítaca amada a sua Penélope fugindo, sabe-se lá com que estratagemas, aos vários pretendentes que já o terão dado como morto. A ele, ardiloso guerreiro, nada nem ninguém o fará desistir, nem ciclopes, nem Posídon na sua fúria insana. Contudo, sinto que há ali um receio, quase irracional, contra todas as expectativas, posto que se vive num tempo em que tudo faz parte do maravilhoso. Nada do que venha será impossível aos deuses do Olimpo que velam pelos escolhidos. E se ele, Odisseu, por motivos que não consegue vislumbrar, tiver caído em desgraça? Dúvidas terríveis. Só assim se explica essa premonição paralisante à medida que o barco avança. Aproximam-se perigos maiores, sente-o, perigos que o farão praticamente esquecer a pátria e a sua amada. Atentai agora: Cânticos maviosos de belas sereias ressoam. E tão cativantes que os levariam, a si e aos seus homens, a atirarem-se ao mar e para ali ficar, nas profundezas, para sempre. Seguindo conselhos avisados, medidas drásticas se impunham: taparam os ouvidos com cera e amarraram-se aos mastros com nós indestrutíveis. Eu, enroscada num canto, atónita, tomando para mim, inexplicavelmente e de forma excruciante, as divinais promessas, tapei os ouvidos com as mãos, atei-me o mais que pude, mas as vozes das sereias ressoavam-se-me no cérebro, músicas que me prometiam paraísos alteavam-se inundando céus e terra em tentações incontornáveis. Seguindo o exemplo de Odisseu reuni forças e declarei: Agora é a hora, soçobrar ou vencer. Adiantando-me no tempo, desliguei tudo... Enfim, o Silêncio. Porém, pobre de mim, as promessas, os cânticos das sereias, as músicas, haviam lançado raízes bem fundas no meu coração.





Meus amigos,

Desejo-vos um bom fim-de-semana.

Olinda

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Video - Youtube

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Dª Celeste

Ia a passar, hoje, por volta do meio-dia, vi a Dª Celeste à varanda do seu primeiro andar. Fiz-lhe adeus e ela disse: Dª Olinda quer vir cá a casa um bocadinho? -Sim, e quando lhe dá jeito? -Pode ser à tarde? Sim, com certeza. Continuei o meu caminho para casa e às tantas senti um baque dentro de mim... e comecei a repreender-me intimamente. Então, não era para já lá ter ido? Todos os dias digo, Tenho de ir à Dª Celeste; Tenho de ir à Dª Celeste...E todos os dias é porque isto, porque aquilo, e os dias vão passando. Ela não é uma pessoa qualquer, de se cumprimentar na rua com um bom dia e pronto. É a pessoa que, a pedido de outra pessoa sua amiga, também minha amiga, me ajudou imenso com a miúda quando vinham trazê-la do colégio, que não tinha na altura sistema de prolongamentos, e ficava com ela até eu chegar. Seriam uns quinze, vinte minutos, mas os suficientes para me deixar aflita caso os transportes se  atrasassem.

Cheguei à casa da Dª Celeste por volta das 17h30. Previa que a conversa ia ser um tanto dolorosa e já verão porquê. Veio abrir-me a porta, a coxear um pouco, um tanto curvada, e levou-me para a varanda de trás onde ela costumava costurar. Mostrou-me três pares calças de uma vizinha às quais ia levantar as bainhas.- Ainda costura, Dª Celeste? - Ai filha, isto ainda faço. Sabe? Tenho os braços fortes. As dores nas pernas é que não me deixam. Tenho ido a uma rapariga aqui em frente que é fisioterapeuta, mas agora já me custa descer as escadas. Mas ela já me disse para não me preocupar, ela vem à noitinha cá a casa e faz-me os exercícios e as massagens.

Ia falando do seu dia-a-dia com vivacidade mas, na realidade, o que ela queria era falar da amiga que refiro acima. Ela faz-me muita falta, sabe? Ela vinha de manhã, tinha a chave, dizia: "Ó Celeste já está acordada, menina? O João fez café, venha daí. Tenho umas torradinhas quentes, com manteiguinha, uma delícia!" E lá íamos para o segundo andar, para a casa dela...E era assim, muito minha amiga. E muito amiga das filhas, dos netos, estava sempre disponível... Quando me queixava das minhas mazelas dizia-me: "O que quer, já não é uma menina, tem uma bonita idade, 93 anos. E está muito bem." E quem havia de dizer que ela iria antes de mim. Tão nova...

Uma quebra na voz. Tossica um pouco. Diz que, naqueles dias, a princípio a voz não lhe saía da garganta, que se sentia e sente muito enervada e que tem caído bastante dentro de casa. E eu conforto-a, sentindo e comungando da sua solidão. E é tanta que quando lhe disse que vou passar a visitá-la mais amiúde ela ficou contente e disse que, realmente, precisa de companhia. Devo dizer que tem filhos e netos amorosos que lhe dão muito apoio, mas ela própria reconhece que eles têm a sua própria vida e que não podem estar sempre ao pé dela, em todos as horas do dia.

A vida a cumprir o seu ciclo.


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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

el mundo continúa rodando, pero...



Voltarei em breve.
Entretanto, ouçamos os Poetas Andaluces




¿Qué cantan los poetas andaluces de ahora?
¿qué miran los poetas andaluces de ahora?
¿qué sienten los poetas andaluces de ahora?

Cantan con voz de hombre
pero, ¿dónde los hombres?
Con ojos de hombre miran
pero, ¿dónde los hombres?
Con pecho de hombre sienten
pero, ¿dónde los hombres?

Cantan, y cuando cantan parece que están solos
Miran, y cuando miran parece que están solos
Sienten, y cuando sienten parece que están solos

¿Qué cantan los poetas, poetas andaluces de ahora?
¿Qué miran los poetas, poetas andaluces de ahora?
¿Qué sienten los poetas, poetas andaluces de ahora?

Y cuando cantan, parece que están solos
Y cuando miran, parece que están solos
Y cuando sienten, parece que están solos

Y cuando cantan, parece que están solos
Y cuando miran, parece que están solos
Y cuando sienten, parece que están solos

Pero, ¿dónde los hombres?

¿Es que ya Andalucía se ha quedado sin nadie?
¿Es que acaso en los montes andaluces no hay nadie?
¿que en los campos y mares andaluces no hay nadie?

¿No habrá ya quien responda a la voz del poeta,
quien mire al corazón sin muro del poeta?
Tantas cosas han muerto, que no hay más que el poeta

Cantad alto, oireis que oyen otros oidos
Mirad alto, vereis que miran otros ojos
Latid alto, sabreis que palpita otra sangre

No es más hondo el poeta en su oscuro subsuelo encerrado
Su canto asciende a más profundo, cuando abierto en el aire
ya es de todos los hombres

Y ya tu canto es de todos los hombres
Y ya tu canto es de todos los hombres

Y ya tu canto es de todos los hombres
Y ya tu canto es de todos los hombres (bis)





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Imagem: daqui
Video e letra : Youtube e Vaga lume

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

A vós que me visitais

Chegados ao dia de hoje*, impunha-se um balanço do que fiz e do que deixei para trás. Houve situações sobre as quais eu deveria ter-me debruçado. Depois via que já estavam a ser tratadas, vistas e revistas e comentadas, não indo eu acrescentar nada de relevante. Outras houve em que, impulsivamente, lá dizia da minha justiça. Mas, o que na verdade acontece é que por aqui as coisas vão acontecendo sem prazos nem periodicidades. Penso que poderia ser de outro modo, mas ainda bem que apareceis apesar destas minhas falhas.



Hoje gostaria de produzir um grande texto se a isso me assistissem o engenho e a arte. Em vez disso prefiro recorrer às interrogações sobre o desconcerto do mundo do grande Luís Vaz de Camões nestes versos em oitava. Eis as três primeiras:

O desconcerto do mundo**

Quem pode ser no mundo tão quieto,
ou quem terá tão livre o pensamento,
quem tão exp'rimentado e tão discreto,
tão fora, enfim, de humano entendimento
que, ou com público efeito, ou com secreto,
lhe não revolva e espante o sentimento,
deixando-lhe o juízo quase incerto,
ver e notar do mundo o desconcerto?


Quem há que veja aquele que vivia
de latrocínios, mortes e adultérios,
que ao juízo das gentes merecia
perpétua pena, imensos vitupérios,
se a Fortuna em contrário o leva e guia,
mostrando, enfim, que tudo são mistérios,
em alteza de estados triunfante,
que, por livre que seja, não se espante?


Quem há que veja aquele que tão clara
teve a vida que em tudo por perfeito
o próprio Momo às gentes o julgara,
ainda que lhe vira aberto o peito,
se a má Fortuna, ao bem somente avara,
o reprime e lhe nega seu direito,
que lhe não fique o peito congelado,
por mais e mais que seja exp'rimentado?

.... (excerto)

Luís Vaz de Camões
in:Líricas - pg 85





Neste oitavo ano que agora começa aqui no Xaile de Seda, comunico-vos a intenção de reeditar a Quinzena do Amor, que irá de 31 de Janeiro a 14 Fevereiro. Por isso, peço o vosso contributo, como das outras vezes, trazendo-me poemas de amor, vossos ou de quem admirais, os quais publicarei durante esses quinze dias. Podereis deixá-los no espaço dos comentários. Para já, os meus agradecimentos.

Um grande abraço.


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* 7º aniversário do Xaile de Seda

** Nota de rodapé, do livro:
Esta célebre poesia moral foi endereçada ao seu amigo D. António de Noronha, filho do Conde de Linhares, companheiro e talvez discípulo algum tempo. Alude ao desconcerto, à má organização em que andam as coisas neste mundo: os bons por baixo, os maus no galarim

Imagens: Pixabay


segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Fintar a morte

Era a guerra. Nas minhas costas sentia o crepitar das balas e a moto, puxada ao máximo, galgava por onde desse. Eu era a protecção de quem ia a conduzir e não podia ser doutro modo. Para a frente é que era o caminho em direcção ao downtown, onde morava uma prima minha. A filha mais nova, a Margarida, de 3 anos, saltou de alegria quando nos viu, cantando e dançando. E com tanta pouca sorte que caiu e bateu com a boca no fio da mesinha da sala. Muito sangue. Não havia meio de fazê-lo parar. Tivemos de decidir depressa e ir à procura de um hospital onde pudesse ser atendida. Com a tensão existente, tivemos de passar por vários postos de controlo. O importante é que ela ficou bem. Desses dias de susto compostos de vários episódios aflitivos, é o que mais me emociona ainda hoje. A lembrança das filas de racionamento, da pouca água, do perigo constante, serve-me para dar importância a umas coisas e não a outras, relativizando-as.


Assim, acredito que toda a história tem vários lados e a própria História, como disciplina, sendo uma construção humana, é passível de várias interpretações. Ocorre-me perguntar, de que são feitos os heróis? Respondo: Penso que são feitos, muitas vezes, de momentos fortuitos. E, sim, precisamos deles e dos nossos mitos e lendas como do pão para a boca. Os rituais associados a essa representação são elementos fundamentais para que nos sintamos unidos como povo. São eles que nos guiam e, em momentos de crise, é bom que os tenhamos bem presentes. Lembro-me de ter lido, no tempo em que tinha de fazer essas leituras, que na mitologia romana os  mortos tinham a designação de Manes, espíritos dos entes queridos com a função de proteger a família, uma espécie de deuses do lar, já para não falar de culturas no nosso mundo contemporâneo que têm um relacionamento similar com a morte.

Camões, em "Os Lusíadas", universaliza para sempre a melhor maneira de fintar a morte, pondo a tónica em: (...) E aqueles que por obras valerosas/ Se vão da lei da morte libertando;/ Cantando espalharei por toda a parte/ Se a tanto me ajudar o engenho e arte.



É isso. Tenhamos elevação de espírito. Honremos os nossos mortos, celebrando a vida. As nossas conquistas de todos os dias, pequenas ou grandes, não interessa o tamanho. O fundamental é sentir que estamos a construir algo de útil para nós e para os outros, com a mente aberta. Ficarmos enredados em tricas, intrigas e quejandos é uma forma depressiva de nos diminuirmos como povo. Cantemos e dancemos em honra dos nossos heróis, espalhando por toda a parte a notícia do legado de que somos herdeiros.

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Imagem 1 - daqui
Imagem 2

   

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Caminhos de pedras e de abrolhos




Os meus pés nus já palmilharam montes e vales e caminhos de cabra incrustados em rochas abruptas e levadas secas desenhadas em precipícios. Achataram-se em solos de cascalhos e de vidros partidos. Comi solas de sapatos demolhadas em suor e lágrimas. Em lugares quase ermos, sem recursos, levantava-me de noite à procura de socorro quando filhos meus se engasgavam e ardiam em febre. Em desespero, esburaquei as paredes da minha casa com as unhas em sangue quando alguns deles partiram para sempre, sem que para isso o ser supremo me desse uma razão plausível. Com os olhos cansados e enevoados já perscrutei os céus, caminhando pela estrada de santiago, via leitosa, em busca de sinais de nuvens prenhes dispostas a deixar cair o líquido precioso para a renovação e despertar da terra sequiosa. Por elas esperei vezes sem conta. Teimosas e sovinas deixariam cair algumas gotas. Antes que estas desaparecessem nas entranhas subterrâneas apressava-me a lançar as sementes que, contentes, germinariam. Sachando e mondando, tudo vicejando, a segunda fase do precioso líquido não marcaria presença, tudo mirrando e secando. Os ventos avaros carregariam as nuvens, levando-as para paragens desconhecidas. Vi estiolarem-se vidas numa sequência esmagadora. De lábios gretados e abdómenes inchados pela fome fariam a sua passagem para além desta vida terrena. Vi entes queridos partirem para longe. Lembro-me de um deles fazendo a sua despedida ao som do seu clarinete, a figura jovem, de fato branco, congregando atrás de si crianças e populares. Nunca mais voltou. A vida não lho permitiu. De todas as lembranças é a que mais me marcou. Não sei porquê. Mas nada aquebranta a minha esperança. Dos filhos que me restaram e da vida que me resta espero ainda grandes coisas. O quê não sei. On verra
O velho homem calou-se e olhou para mim. Tomou-me as mãos e apertou-as contra as suas. Depois pegou no terço e começou as passar as contas, movendo os lábios em silêncio. No seu olhar via-se todo o mistério do mundo.

Meus amigos, desejo-vos uma boa semana.

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Nota:Compus este texto a partir de situações reais, de que tomei conhecimento de muito perto. Olinda

Imagem:daqui 

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Na Terra Prometida...

O tambor ressoava por todos os cantos do lugar. Era o modo de fazer chegar a todos as notícias. Havia sempre a esperança de serem boas, embora nem sempre o fossem. Aos poucos as pessoas começaram a juntar-se. Ainda longe, via-se a forma arredondada do tambor. Por detrás, adivinhava-se José de Nica, homem de estatura baixa, muito ciente da sua qualidade de arauto. No grupo que se ia formando ao pé de Joana as perguntas fervilhavam, quase em surdina: O que diz o tambor? O que diz o tambor? Mas a contenção foi abandonando as pessoas e já a correr e quase aos gritos: Ó José de Nica, o que diz o tambor? -Móia!!! Na sua linguagem codificada queria dizer que havia algures uma abundância qualquer. - Móia? Onde e de quê? -Na Praia Formosa. Encalhou lá o John. O navio está cheio de milho e de outras coisas... Não foi preciso ouvir mais nada. Todos sabiam o que fazer. Naqueles anos de estiagem e de racionamentos aquilo soava a milagre. Toda a gente começou a juntar o necessário, em ferramentas e vasilhames, e a reunir a família toda, incluindo velhos e crianças. Muitos partiram a pé, e quem ainda tinha alguma alimária carregava-a com os seus poucos haveres. Miriam lembrava-se muito bem daquele dia. Foram de bote e já na Praia Formosa, à noite, deitada e a olhar para as estrelas, ouvia vozes alegres de homens que vinham do navio com os seus salvados. Nas noites de lua cheia contava-se a história da Praia Formosa. Miriam dizia:- Ah! Lembro-me tão bem...-Não, filha, eras tão pequenina, nem três aninhos tinhas! Talvez te lembres por ouvires contar...- respondia-lhe Joana. 

Mas ela fitava a lua com um sorriso luminoso e cheio de mistério. Revia, nitidamente, a terra do leite e do mel...






Imagem daqui

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Salpicos da vida

Ele não conseguia dormir. Dava voltas e mais voltas na cama, com jeito, para não acordar a mulher, companheira de muitos anos, mãe dos seus quatro filhos. Mas, não conseguia deixar de pensar naquela que ele considerava a mulher da sua vida e que se encontrava noutro continente. Recordava amargamente o momento aziago em que a perdera, talvez por culpa sua. Reencontrara-a há três anos, casada, com uma filha e uma vida profissional de sucesso. Nunca a esquecera e como lamentava não ter feito tudo para que continuassem juntos, não dando ouvidos a mexericos. Na altura, ela era uma menina de dezoito anos e ele já trintão. Tivera de partir, o dever chamava-o. Agora, ele, homem que cumprira todos os seus objectivos, que se fez a si próprio, chorava. Chorava porque sabia que algo de muito importante se escapara das suas mãos, irremediavelmente. Parecia-lhe que também ela ainda sentia a magia que os atraíra há tanto tempo. Outras vezes era ríspida e dizia-lhe que nada tinha a ver com ele. Tinha-lhe dito abertamente que não queria que lhe telefonasse. Sofria horrores e, nesse momento, eram cinco horas da manhã, revolvia-se impaciente. Estava decidido: logo assim que fossem horas decentes telefonar-lhe-ia. A urgência de ouvir a sua voz era mais forte do que o receio de ela se zangar. Começou então a contar os minutos, os segundos. Levantou-se, pôs os calções; ia dar um mergulho. Era um hábito diário, com o mar logo ali, convidativo, a dois passos. Na praia não havia ninguém. Deu umas quantas braçadas vigorosas, expelindo a energia acumulada numa noite de completa insónia.




Depois do pequeno-almoço saiu e, em largas passadas, percorreu a pequena distância que o separava do local donde podia telefonar. Consultou o relógio. Era uma boa hora, tendo em conta os fusos horários. Pegou no telefone, discou o número a medo e aguardou. Depois de alguns momentos ouviu-a:

Sim?!
Ele: Olá! Queria ouvir a tua voz...
...
Sim, eu sei que ainda é cedo, mas...
...
Não queres ouvir o que eu tenho para te dizer?
...
Repito-me porque o meu desejo é que falemos sobre as coisas...
...
Ok, já se passou uma vida quase, mas...
....
Sim, eu sei que devia ter lutado por ti, devia ter-te ouvido...
...
Qual é a minha proposta? Bem...

Sentiu-se cobarde de novo. Afinal, o que poderia oferecer-lhe? Não se sentia capaz de dar uma reviravolta à sua vida...

De facto, não a merecia. Tinha de reconhecer isso. Talvez tivesse mesmo de se contentar com as suas noites de insónia e com a premissa de que a distância também aproxima e que ninguém é só corpo. Quem sabe numa outra vida, numa próxima reencarnação tudo se compusesse. Esta linha de raciocínio perseguia-o, impedindo-o de resolver a vida aqui e agora.  Com um friozinho na barriga afastou-se dali.


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13/02

NOTA: Como vêem, terminei a história. Agradeço a vossa participação que foi muito valiosa. Muito obrigada.


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Fevereiro, mês de todos os contos de amor.

Como terminará esta história, ou esta conversa?

Nem eu sei...  :)

Querem alvitrar alguma coisa?


Abraço

Olinda



Imagem: daqui
Parece que é um pôr-do-sol, não? Bem, preferia uma alvorada...

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

É nas minhas noites insones que elas me namoram, fugidias, voláteis

Sinto-as a entrar pé-ante-pé. Surgem de nenhures, ligeiras e afáveis prometendo descobertas, com um não sei quê de mistério. Um laivo de sabor a fruta, de perfume, de mil odores. Passam, e deixam o seu rasto. Sigo-as assim, ouvindo os seus sussurros, um risinho casquinado destaca-se. Oiço rumores da sua passagem. Subo escadas, desço escadas. Procuro nos cantos e recantos. Perscruto sombras, uma réstia de luz que distingo por entre as frinchas. A espaços, oiço o silêncio da noite. É um silêncio familiar que fala comigo. Já lhe conheço a cadência. Uma cadência que se vai alterando conforme a madrugada se anuncia. Também elas a adivinham. Saem para a brisa fresca, de sabor a sal. Vou-lhes no encalço. Vejo que a alvorada vai tingindo a linha do horizonte. Elas já menos irrequietas, menos ariscas, alinham-se. Os meus joelhos afundam-se na areia molhada e, com elas, começo a desenhar formas. Apercebo-me de uma onda que começa a formar-se. Uma coisa linda que me enternece. É um espectáculo para os meus olhos que, entretanto, se aplicam na sua tarefa. Elas ajudam, eu sei, mostram-se afáveis. E, a pouco e pouco, surge: 'Para ser grande sê inteiro'. Contente, contemplo a minha obra. Consegui por fim agarrá-las e construir uma ideia. Mas será que a ideia é minha? Há qualquer coisa de estranho que ecoa dentro de mim. Há um sentimento de impotência que se afirma. Debato-me com esta dúvida e também com a quase certeza de que já não há ideias novas. Fogem de nós a sete pés. Um marulhar fininho, sorrateiro, aproxima-se. É a onda que vem buscar o que lhe pertence. Espraia-se e cobre as palavras alinhadas na areia e leva-as...






Da querida Emília, o contraponto (comentário):

Mas...

Serão novas as ideias? Novas acho que nunca são; muitas já vêm do nosso passado, fruto das ideias dos nossos antepassados e do passado desse antepassados; são as mesmas as ideias, mas cada um as foi melhorando à sua maneira...cada um as foi transformando de acordo com as suas necessidades...de acordo com as suas perspectivas de vida...de acordo com os seus sonhos.E o dia chega...algumas das ideias são postas em prática, mas outras nem sequer nelas pensamos. Resta-nos esperar que a noite caia...que o sono chegue e que desta vez a insonia nos poupe a mais ideias. 

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Muito obrigada, amiga.

Beijinhos

Olinda



Imagem: Internet

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Entre o Céu e a Terra

Do Alto onde eu me encontro, domino tudo o que a minha vista alcança. Estou tão perto deste céu azul que quase toco as nuvens brancas de algodão, e este é o meu sonho secreto, o poder algum dia tocar-lhes. Continuo na minha posição descontraída, mas alerta. Firmo-me bem nas pontas da escarpa. Balanço-me um pouco para testar a elasticidade dos meus membros. Olho para baixo. Reparo na imensa beleza que se me oferece, a verdura, o barulho da nascente que daqui adivinho e, tenho de o admitir...o chilreio dos passarinhos assemelha-se a uma sinfonia perfeita. Uma leve aragem brinca com algumas das minhas penas e refresca-me o interior dos meus tendões possantes, sempre prontos para a acção. Neste momento nada me incomoda, não há empecilhos à vista. Posso dar-me ao luxo de me entregar a uma certa emoção. Estico as asas, como que a espreguiçar-me, e ensaio um pequeno voo.Tudo bem. Inicio um planado daqueles de que tanto gosto, imprimindo a pouco e pouco a velocidade necessária para resistir ao vento. Sinto-me livre e poderoso. Mais um pouco e pouso-me na primeira reentrância rochosa que se me depara. Passeio de novo o meu olhar, detenho-me nuns pontinhos que, lá em baixo, andam, saltitam dum lado para o outro. Sinto o meu lado mais feio vir à tona e o pior é que tenho a plena consciência disto. A minha natureza começa a querer tomar conta de mim com um frenesim que não me deixa pensar. O voo picado inicia-se automaticamente como se tivesse vida própria, numa velocidade desmedida. Passo rasando a avezinha que debica pequenos vermes. Como detesto isto... coisas rastejantes e afins! Não consigo controlar a descida. Vou quase de trambolhão em trambolhão e enfio o bico na terra dura. Ela dá saltinhos, gritando feita tonta. Que nervos...Fico frustradíssimo. Com certa dificuldade, tomado de vertigens, levanto voo, dou algumas voltas para me orientar e acalmar, tento uma nova investida, mas já não é a mesma coisa. Lá está ela ainda desorientada, toda coxa, asinha caída, a piar, enfim uma lástima. Deixá-la estar. Não chego a descer, dou meia volta e aponto-me para o espaço infinito. Quem sabe se ainda hoje não alcançarei as minhas nuvens...