quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Mãe Negra




A mãe negra embala o filho
  
  Canta a remota canção
  Que seus avós já cantavam
  Em noites sem madrugada.

  Canta, canta para o céu
  Tão estrelado e festivo.

  É para o céu que ela canta,
  Que o céu
  Às vezes também é negro.

  No céu
  Tão estrelado e festivo
  Não há branco, não há preto,
  Não há vermelho e amarelo.
  -Todos são anjos e santos
  Guardados com mãos divinas.

  A mãe negra não tem casa
  Nem carinhos de ninguém...

  A mãe negra é triste, triste,
   E tem um filho nos braços...

  Mas olha o céu estrelado
  E de repente sorri.
  Parece-lhe que cada estrela
  É uma mão acenando
  Com simpatia e saudade...

   Aguinaldo Fonseca
      (1922-2014)

  (Linha do Horizonte, 1951)

in; No Reino do Caliban, pg 163


***

E a nossa querida Elvira recorda-nos aqui Prelúdio/MÃE-NEGRA, de Alda Lara, na maravilhosa voz de Paulo de Carvalho:





Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra, desce com ela...

Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.

Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...

Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada...

Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?...

Que é feito desses meninos 
que ela ajudou a criar?...
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...

Mãe-Negra não sabe nada...

Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe-Negra!...

Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar...

Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar!...

Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.

É a tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada..

Lisboa, 1951 (Poemas, 1966)

Poema: retirado do comentário e de O Castendo

****Imagem: Pintura de Keith Mallet, norte-americano.
Estilo pictórico africano, moderno

7 comentários:

  1. Linda pintura e versos que gostaria estivessem muito distantes da realidade. É para o céu que olham aqueles que estão tristes. Bjs.

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  2. É um belíssimo poema. Mas falar em Mãe Negra sempre me lembra uma das melhores poetisas que tivemos e que tão esquecida ficou. Alda Lara. Abençoado seja o Paulo de Carvalho que imortalizou o Prelúdio, um poema que fala exatamente da Mãe Negra.
    Prelúdio

    Pela estrada desce a noite

    Mãe-Negra, desce com ela...


    Nem buganvílias vermelhas,

    nem vestidinhos de folhos,

    nem brincadeiras de guisos,

    nas suas mãos apertadas.

    Só duas lágrimas grossas,

    em duas faces cansadas.


    Mãe-Negra tem voz de vento,

    voz de silêncio batendo

    nas folhas do cajueiro...


    Tem voz de noite, descendo,

    de mansinho, pela estrada...


    Que é feito desses meninos

    que gostava de embalar?...


    Que é feito desses meninos

    que ela ajudou a criar?...

    Quem ouve agora as histórias

    que costumava contar?...


    Mãe-Negra não sabe nada...


    Mas ai de quem sabe tudo,

    como eu sei tudo

    Mãe-Negra!...


    Os teus meninos cresceram,

    e esqueceram as histórias

    que costumavas contar...


    Muitos partiram p'ra longe,

    quem sabe se hão-de voltar!...


    Só tu ficaste esperando,

    mãos cruzadas no regaço,

    bem quieta bem calada.


    É a tua a voz deste vento,

    desta saudade descendo,

    de mansinho pela estrada..

    Alda Lara

    um abraço e tudo de bom parea si

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  3. É de uma humanidade imensa, a poesia do Aguinaldo sempre nos leva à busca e ao encontro de nós mesmos. O reconhecimento das nossas origens, lindíssima, emocionante!

    Obrigada por tão belo gesto, nos trazer a poesia caboverdiana!

    Beijinho, amiga e tenhas um ótimo dia!

    ;))

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  4. Minha querida Olinda
    A minha modesta incursão no campo da poesia deu origem a um post que publiquei hoje, dia 30.
    Devo continuar? É melhor desistir? Qual é a tua opinião?
    Aguardo-te na minha «CASA», para te pronunciares…
    Obrigada.
    Beijinhos

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  5. Retrato de riqueza de espírito da Mãe Negra.

    Beijos querida!

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