sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Retrato de Mulher Triste

Aproprio-me do título do poema de Cecília Meireles para este post e, por uma associação de ideias, lembro-me agora de Lídia, a mulher triste, uma história profundamente humana, escrita por UJM. E lembro-me também de mulheres que se tornaram números estatísticos neste ano de 2012, sem recuarmos muito mais no tempo, vítimas de maus tratos e de homicídio. É certo que não são as únicas vítimas de violência doméstica, porque as há em pessoas idosas, crianças...mas elas, as mulheres, penso, representam a maior parte. Em sua homenagem, trago-vos dois poemas de dois grandes poetas, Cecília Meireles, brasileira e Daniel Faria, português. 

Apreciemo-los:

Retrato de Mulher Triste 

Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel. 

Está vendo os salões que se acabaram, 
embala-se em valsas que não dançou, 
levemente sorri para um homem.

O homem que não existiu. 
Se alguém lhe disser que sonha, 
levantará com desdém o arco das sobrancelhas, 
Pois jamais se viveu com tanta plenitude. 

Mas para falar de sua vida 
tem de abaixar as quase infantis pestanas, 
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas. 

Cecília Meireles



Há uma Mulher a Morrer Sentada

Há uma mulher a morrer sentada
Uma planta depois de muito tempo
Dorme sossegadamente
Como cisne que se prepara
Para cantar

Ela está sentada à janela. Sei que nunca
Mais se levantará para abri-la
Porque está sentada do lado de fora
E nenhum de nós pode trazê-la para dentro

Ela é tão bonita ao relento
Inesgotável

É tão leve como um cisne em pensamento
E está sobre as águas
É um nenúfar, é um fluir já anterior
Ao tempo

Sei que não posso chamá-la das margens

Daniel Faria




Em tempo:

VER AQUI - LEI MARIA DA PENHA (Lei nº 11.340, de 7 de agosto 
de 2006)- Brasil - Contributo de Canto da Boca, para este post.
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 O Profeta, trouxe-nos estes sentidos versos:

Já não posso dar-te a mão, cheguei tarde
Entre ruinas procuro o sentido, a razão
Já não canto aos deuses, não rezo
Já esqueci o sabor do desprezo, não desprezo

Tracei um círculo de solidão
Ausente do meu nome está o chamamento
Jazem mudas as folhas de silêncio
Errantes brumas ao sabor do vento

Percorri um longo e tortuoso caminho
Moro numa casa da memória no topo da saudade
Prodígios de mil cores espalhei pelo caminho
Pintei almas, mentiras, girassóis e singelas verdades

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Cecília Meireles (1901-1964),Daniel Faria (1971-1999)
Poemas retirados de Citador - Imagem:Internet-Jeanne Hébuterne por A. Modigliani
ReflexãoDia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres - 25 de Novembro

16 comentários:

  1. Querida Olinda
    A violência doméstica é um flagelo que dificilmente terá fim.
    Por um motivo ou por outro algumas mulheres sujeitam-se anos a fio aos maus tratos que os maridos lhes infligem.
    Não vou pôr em causa o que as leva a proceder assim, mas estou convicta de que, bem no fundo, há um grande pânico de represálias.

    Os poemas apresentados são muito bonitos, nem sei de qual gosto mais, embora eu tenha um fraquinho por Cecília Meireles...

    Um fim-de-semana radioso.
    Beijinhos

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  2. Cecília Meireles é uma grande poetisa. Este poema é um dos mais bonitos.
    Não conhecia Daniel Faria, mas gostei muito do poema.
    Obrigada Olinda.
    Um beijinho e um bom fim de semana
    Maria

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  3. Estou aqui eu, uma mulher, sentada e triste depois de ler estes lamentos em forma de poesia. Lamentos de mulheres sentadas do lado de fora da vida...prestes a desistirem dela; tristes, porque a vida nunca lhes permitiu realizar os sonhos que tinham...magoadas profundamente, porque a vida deu-lhes a oportunidade de conseguirem o que dela queriam, mas...sem aviso...de repente lhes retirou tudo... até a esperança. Lutaram pelo amor essas mulheres...acreditaram nele, mas até ele a dado momento lhes virou as costas...as maltratou...as matou por dentro. Mulheres tristes de ontem...mulheres maltratadas...magoadas...desesperançadas também de hoje; creio que essas mesmas mulheres estarão aqui também amanhã...sentadas...tristes...totalmente desamparadas.
    Uma triste realidade, Olinda, infelizmente. Parabéns pelas duas escolhas. Muito bonitos os dois poemas que nos levam a uma reflexão profunda. Obrigada pela informação, pois não sabia que o dia 25 era o dia pela eliminação da violência doméstica, uma praga que, infelizmente deverá continuar, por mais alertas que se façam. Um beijinho e um bom fim de semana
    Emília

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  4. Olá Olinda,

    Agradeço muito a referência. Gostei de ver a 'minha Lídia' aqui recordada. Sensibilizou-me.

    São muito belos e tristes os poemas que escolheu no dia de hoje, ou melhor, a propósito do dia de hoje, tal como o é a imagem que escolheu, uma (ou a) mulher triste de Modigliani.

    Tudo o que se diga sobre a violência sobre as mulheres é pouco.

    Um abraço, Olinda!

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  5. Apesar de tristes, ambos os poemas são lindos. E também bem escolhidos para retratar o tema...

    Obrigada pela visita, será sempre bem vinda a visitar de novo

    Beijo, um bom fim de semana

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  6. Belíssimos os poemas que escolheu. As mulheres tristes costumam ficar em silêncio, afogando-se nas lágrimas que, nem sempre, podem deixar rolar.
    De fato, a violência atinge, na maioria das vezes, mulheres, porque se calam utilizando justificativas que vão além da razão. Grande beijo!

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  7. Minha Querida Olinda:
    A violência doméstica é efectivamente um pesadelo sem fim à vista. E muito mais graves do que os casos que são trazidos a lume, muitas vezes pelas próprias vítimas, são os "gritos silenciados", os gritos mudos, as vozes emudecidas, as palavras sem eco, que ninguém suspeita sequer que existam. Quantas mulheres e também quantos homens existirão nessas condições? Penso que é um imperativo de consciência para todos nós denunciar tais situações, precisamente porque bastas são as vezes em que as próprias vítimas já nem têm forças para o fazer, ou porque são coagidas a não o fazer. (Crime de Coacção que se sobrepõe ao de Violência Doméstica.) Há vidas negras!... Há mulheres vivas que arrastam com elas uma morte lenta.
    Um grande abraço para si e Filhotinha.

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  8. Publicas autores de que gosto muito.

    Que pena que hajam mulheres tristes, mas há...

    Beijinho

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  9. Amiga Olinda uma linda homenagem a uma realidade tão triste e que infelizmente continua tão presente ainda nos dias de hoje.
    Bom domingo
    Beijinhos
    Maria

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  10. Como a poesia triste pode ser tão bela?!
    Como retrata tão bem a tristeza de ´cinderela`
    que guarda lágrimas de cristal
    fechando porta e janela?
    E Modigliani remata com sua arte
    a imagem que fazemos dela...
    Mulher triste, tão carente de Amor
    Mulher que vive, com algemas de terror...

    Obrigada pelo momento!
    Trás um nó ao peito
    Pesadelo, morte sem respeito...
    Mas é a verdade e merece este e mais evento!

    Meu beijinho num domingo de pingo!
    E mto obrigada pelas visitas...
    a falta de teeeempo são nossas desditas :)))

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  11. Há demasiada violência doméstica, ainda que se houvesse apenas 1 caso, ele já seria exagerado.
    E a crise ou a crescente pobreza não explica o drama de muitas famílias, já que a violência doméstica alastra em todas as classes sociais, porventura com igual incidência.
    Ou seja, há demasiadas mulheres tristes e demasiadas mulheres a morrer sentadas, e quase ninguém faz nada...
    Excelente post, e muito oportuno.
    Olinda, querida amiga, tem um bom domingo e uma boa semana.
    Beijo.

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  12. Gostei dos poemas. Embora tristes. Não conheço bem Daniel Faria e adoro Cecília Meireles que a par de Sophia de Mello Breyner são para mim as maiores poetisas de sempre.
    No Sexta também assinalei o dia.
    Um abraço e bom Domingo

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  13. Minha querida

    Infelizmente uma realidade mais presente que seria de desejar.
    Quanto aos poemas que escolheste são perfeitos.


    Um beijinho com carinho
    Sonhadora

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  14. Já não posso dar-te a mão, cheguei tarde
    Entre ruinas procuro o sentido, a razão
    Já não canto aos deuses, não rezo
    Já esqueci o sabor do desprezo, não desprezo

    Tracei um círculo de solidão
    Ausente do meu nome está o chamamento
    Jazem mudas as folhas de silêncio
    Errantes brumas ao sabor do vento

    Percorri um longo e tortuoso caminho
    Moro numa casa da memória no topo da saudade
    Prodígios de mil cores espalhei pelo caminho
    Pintei almas, mentiras, girassóis e singelas verdades




    Boa semana


    Doce beijo

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  15. Você sempre atenta, Olinda e trazendo-nos não apenas belos poemas, mas reflexões sobre a vida, sua densidade e descaminhos.

    Não sei se sabes, mas temos uma "lei" aqui no Brasil, a 11.340, a Lei Maria da Penha, uma homenagem do Estado Brasileiro, à uma das tantas vítimas da violência doméstica e que não desistiu da sua árdua busca de se fazer justiça.
    Qualquer pessoa que ouvir, ver, assistir uma mulher sendo violentada pode denunciar e o agressor vai mesmo preso.
    Não podemos aceitar isso como algo natural, ou naturalizar, banalizar qualquer tipo de violência, não apenas contra a mulher, mas à pessoa e qualquer ser vivente....

    O link: http://www.cepal.org/oig/doc/Bra2006Leimariadapenha.pdf

    Maria da penha sofreu todo tipo de violência, pelo esposo, desde a tentativa de matá-la através de choque elétrico, no chuveiro à simulação de assalto, que culminou na perda de algumas das suas funções, e hoje ela é paraplégica, mas não perdeu a esperança e foi à luta.

    Beijos, amiga e uma ótima semana que se inicia.

    ;)

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