terça-feira, 4 de setembro de 2012

Receita para salvar o mundo...ou apenas ser feliz

Já devem ter reparado que este tema, mundo, está a tornar-se demasiado recorrente neste espaço.Tenham paciência, por mais umas linhas. O pior é que desta vez é crise e mundo, mundo e crise. Isto não ajuda nada. Mas lá para o fim apresento propostas irrecusáveis ... plus ou moins

Achei interessantíssimo o desabafo deste poeta, desabafo que poderíamos subscrever na íntegra e acrescentar-lhe ainda mais alguns pormenores. Como o próprio refere, não se lembra se é uma receita para salvar o mundo ou apenas ser feliz, mas que não apresenta grandes resultados. Valerá como exercício, digo eu. 


Queixas de um utente

Pago os meus impostos, separo o lixo, 
já não vejo televisão
há cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à minha família,
utilizo sempre os transportes
públicos, raramente me esqueço
de deixar  água fresca no prato
do gato, tento ser correto
com os meus vizinhos e não cuspo
na sombra dos outros.

Já não me lembro se o médico
Me disse ser esta receita a indicada
Para salvar o mundo ou apenas
Ser feliz. Seja como for,
Não estou a ver resultado nenhum.




Crítica social mordaz e oportuna, o poema faz-nos sorrir e se, por um lado, encontramos pontos coincidentes com o dia-a-dia de muita gente, por outro, convida-nos a pensar em milhentas de coisas que poderíamos fazer para alegrar os nossos dias. Poderemos elaborar uma extensa lista delas. Acredito que ainda temos escapatória. O conceito de felicidade é bastante relativo. Ela poderá estar em pormenores que, à primeira vista, parecerão insignificantes para alguns de nós, mas de grande relevância para tantos outros.

Sem grande esforço encontrei uma lista com tudo ou quase tudo, tesourinhos que nos levarão a acreditar que a vida merece ser vivida, sorvendo todos os momentos. Claro que teremos de adaptar o que é adaptável, retirando umas coisitas ou acrescentando outras, conforme a maneira de ser de cada um, e desejando com veemência algumas outras, como o aumento do salário e o dia de pagamento, passe o materialismo. Aqui vão algumas destas propostas:


As coisas boas da vida são simples

Sapatos velhos, de couro;

Comida de mãe;

Abraço de filho;

Aumento de salário;

Colo de avó;

Calcinha velha;

Sutiens novos;

........
Caminhar à noite;

Virar para o canto na hora de acordar;

Travesseiro cheiroso;

Havaianas, as legítimas;

Cobertor do tempo de criança;





 




O primeiro beijo;

Café com rosca;

Pão com mortadela;

Coca-cola, de garrafinha;

Calça jeans nº 38

Jô Soares;

Namoro novo;

Amigo de infância;

Saudade boa;

Noite de sono;

Penúltimo capítulo de novela das 8h;

Casa limpa;

Noite de sono bem perdida;

Banheiro grande;

Café da manhã  em hotel;

Sol no inverno;

Espreguiçar;





 




…….
Espelho camarada;

Colcha de retalhos;

Roupa preta;

Cabelo escovado;

Namorado romântico;

Enxoval de bebê;

Sexo com amor;

Segundo encontro;

Telefonema no dia seguinte;

Fazer amor de manhãzinha;

Carne de porco;

Beijo na boca;











Paquerar um amigo;

Dia de pagamento;

Promoção daquela marca cara de sapatos;

Amizade nova;

Viagem para a praia;

Acordar para trabalhar e se lembrar que é domingo;

Anel de compromisso;

……..
Bronzeado Gabriela Cravo e Canela;

…….
Perder aqueles 2 quilinhos!





Depois de terminado este post, li por acaso, uma entrevista de Mia Couto, na revista Visão da última semana, e retive estas suas palavras:

Das várias vezes que tenho vindo a Portugal sempre me falam da crise..Mas agora as pessoas incorporaram esse sentimento - como se a crise fosse uma casa e já estivessem a morar nela, o que me perturbou.


Tratemos, pois, de sacudir esta coisa antes que ela se transforme numa segunda pele...



Queixas de um utente, de:José Miguel Silva
Excerto de:As coisas boas da vida são simples: Fabiane Ponce, em O Pensador.
Imagens da internet. Serão retiradas se implicarem direitos de autor ou de imagem. 

25 comentários:

  1. Grande post Olinda, grande post. Que lista extraordinária de tão simples, tão verdadeira, tão completa.

    E que palavras e poema e imagens tão bem escolhidos. Está de parabéns por tudo e, sobretudo, pelo tema. A observação do Mia Couto dá que pensar. somos mesmo assim, uns fatalistas, uns deprimidos. Por isso concordo consigo: vamos mas é despir isso e vestir uma pele mais alegre, mais animada e... mais lutadora.

    Um beijinho, Olinda!

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    1. Querida UJM

      Muito obrigada por estas palavras tão carinhosas.

      Eu também achei as sugestões da lista de grande inspiração. Faz-nos tomar consciência de que é preciso valorizar aquilo que temos e que muito do que recebemos da vida não custa nada. Bastará saboreá-la e viver com mais alegria, com mais sorrisos,com mais afecto pelos nos rodeiam.

      Beijos

      Olinda

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  2. Eu acho que nós, portugueses, somos um bocadinho tristes, ou nostálgicos, o que ajuda a incorporar essa tal crise. Que existe, claro! Mas não nos impedes de ser felizes, poerque a felicidade está nas pequenas coisas do dia a dia.
    Obrigada por este post. Também já me apetece falar de coisas positivas.
    Bjs

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    1. Olá, Teresa

      Sim, a crise existe. O pior é que já não nos deixa pensar em mais nada e deixamos passar, sem o devido apreço, momentos que poderiam ser de felicidade, e que está, como bem diz, nas pequenas coisas do dia a dia.

      Obrigada.

      Beijo

      Olinda

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  3. Respostas

    1. Obrigada, Fernando.
      Uma boa semana.

      Abraço

      Olinda

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  4. Olinda um poema, um clamor... mas seja lá como for, como tem aquele ditado depende dos olhos que vêem ou do ponto de vista a ser observado. Concordo com vc. Sua lista é bem interessante, acrescento-a em muiiitos ítens. Pode crer. E a Mia Couto muito feliz e sábia no comentário feito. Ela tem toda a razão. Concordo de todo coração!!

    Beijos querida e boa noite!!

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    1. É verdade, cada um valoriza as coisas à sua maneira, entrando em linha de conta, a maneira de ser, as vivências, e tudo o que nos rodeia. Então, é a partir deste nosso mundo tão particular que destacaremos as ocasiões que fazem parte do nosso quotidiano e que nos parecem fortuitas, sem importância, porque já entraram na rotina e que, no entanto, nos preenchem, se olharmos para elas de uma forma diferente.

      Beijinhos.

      Olinda

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  5. Minha amiga, de fato as pequenas coisas são fundamentais para que nossa vida agitada e estressante tenham um sentido que valha a pena.
    Crise aqui, crise aí, crise acolá! Crise, crise, crise!
    Ela existe, mas muitas vezes passa a impressão de que estamos numa sociedade hipocondríaca...
    Muito oportuno teu post e bom para que reflitamos naquelas coisas citadas acima.

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  6. Respostas

    1. Caro Antônio

      É mesmo.Crise, crise, em todo o lado, aliás, ouvem-se as notícias e isto é a nível mundial. A pessoa sente-se realmente doente no meio de tanto pessimismo. E há que espairecer. Cantemos, dancemos, façamos do nosso quintal ou varanda um lugar de festa.

      Grande abraço.

      Olinda

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  7. Muito bom, querida Olinda.
    Acabei há minutos de ler a entrevista de Mia Couto. Essa frase, ficou a trabalhar na minha cabeça. Certíssima. É assim que estamos.
    Magoados e ofendidos, por um bando de cretinos, que até a vontade de viver nos tiram.
    Beijinho
    Maria

    PS Fez-me bem, este poste. Obrigada.

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    1. Querida Maria

      Acertou em cheio, minha amiga, magoados e ofendidos, fazendo dos nossos dias, dias sem graça e de tristeza. Por isso mesmo é que temos de dar a volta antes que esta 'crise' resolva morar em nós, parafraseando o grande Mia Couto.

      Muito obrigada pelas suas palavras.~

      Beijinho

      Olinda

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  8. Minha amiga excelente post. A crise existe sim e há que ponderar os gastos, mas podemos ser felizes tantas vezes com tão pouco, basta apenas querer.
    Beijinhos
    Maria

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    1. Olá, Maria

      É importante uma gestão cuidada dos nossos recursos, não há dúvida. Só assim poderemos dormir tranquilamente e aproveitar o que podemos usufruir sem gastos. E, feitas as contas, ainda sobram muitas opções interessantes.

      Beijinhos

      Olinda



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  9. Não podemos salvar o mundo, Olinda, mas podemos começar por cuidar da nossa saúde mental e assim contribuirmos para que os outros também façam o mesmo. É que se ficarmos presos à ideia da tal da crise ficamos doentes da cabeça e afundamos levando o mundo para o abismo também. Tentemos ser optimistas, pois o mundo ainda tem muita coisa boa e está na hora de começarmos a olhar para esse lado bom. Aos poucos estou voltando, amiga, embora ainda tenha as minhas visitas cá até ao dia 11. Obrigada por teres aparecido sempre ao começar de Novo e também por este momento tão interessante. Beijinhos e até breve
    Emília
    Emília

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    1. Querida Emília

      A nossa saúde é realmente fundamental. Sem ela nada feito, porque mesmo tendo tudo ao nível material, acabamos por não poder apreciar nada.Com a nossa cabeça a funcionar em pleno, há um mundo imenso a descobrir, há esse lado bom de que falas e que está ao alcance da nossa mão, se nos dispusermos a isso.

      Então, essas férias têm sido boas, não é? Boas e cansativas, deduzo.Desejo a sua continuação, na companhia dos pais e amigos brasileiros.

      Beijinhos.

      Olinda

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  10. Dediquei uns dias a passear por varios locais do norte do país, com maior incidência na zona do Parque Natural do Alvão. Visitei diversas aldeias serranas, almocei e jantei em restaurantes nessas aldeias, dormi em hoteis regionais e verifiquei que a alegria de receber, a hospitalidade genuína dquelas gentes, se mantém viva, apesar das crises.
    Confirmei com imensa satisfação que por ali, a vida das pessoas não sofreu grandes alterações. Caonversei com variadíssimas pessoas e verifiquei que, aqueles que trabalhavam em fábricas, armazéns, ou outras empresas que faliram e por consequência os deixaram sem emprego, voltaram ao trabalho no campo, à agricultura, à pastorícia, garantindo assim, a subsistência.
    Regresso hoje, sentindo algum conforto na alma e a certeza da suspeita que levava antes de sair; a solução para a crise que vivemos, passa pelo regresso às origens e pela retoma do prazer dos trabalhos genuinos, directamente ligados com a natureza.
    Na maioria das casas porque passei, cortava-se, rachava-se e arrumava-se a lenha que será a fonte de calor que ajudará a enfrentar com mais conforto, o frio inverno que se aproxima.
    Depois, pode ser que os longos dias passados ao lume, durante o Inverno, sirvam para que se reflicta sobre a necessidade de congregar esforços, vontades e saberes, dando lugar a que a Primavera, traga a todos o renascimento, a explusão de vida nova e com ela a esperança de dias menos instáveis.

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    1. Olá, Bartolomeu

      Excelente mensagem e eu comungo desse optimismo na medida em que com o abandono do campo e dos trabalhos agrícolas a vida perdeu qualidade, para muita gente. E todos nós perdemos por tabela.

      É certo que a vinda para a cidade,ou para locais onde se encontrem fábricas, um quase êxodo, prefigura uma vida em que as pessoas poderão ou poderiam beneficiar das facilidades do progresso. Mas sabemos que nem sempre é assim.As pessoas vivem cheias de saudade da sua terra e, mesmo que ganhem um pouco mais, nem sempre é o suficiente para poderem residir numa boa casa e levarem uma vida folgada.

      Creio que já falámos uma vez, salvo erro, no teu blogue, sobre se a agricultura seria uma das soluções a ponderar. Focámos o facto de, na altura das facilidades, a União Europeia chegar a definir quotas de produção e, nesta linha, conceder subsídios para que não se produzisse.

      O regresso à agricultura teria de ser planeado e visto com olhos de ver, para que desse resultado, e para que não continuássemosmos a ter que importar tantos bens alimentares, inclusivamente, pequenas coisas como salsa(?). Ouvi dizer isto, mas nem dei crédito. Mas, quem sabe?

      Uma outra saída seria o mar. Acho que também focámos isso na altura. Uma outra área prejudicada por más políticas, em nome de quotas e não sei que mais. Com uma costa atlântica tão extensa como a que temos e as muitas milhas de mar territorial a que temos direito (12 ou 24?), era caso para irmos, em massa, pescar nem que fosse à linha.

      Penso que estes dois aspectos deveriam ser repensados. Poderíamos não ver logo os nossos problemas económicos resolvidos, mas seria já um bom começo.

      Abraço.

      Olinda

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  11. Minha querida

    E quando é que não estivemos em crise...ela existe e quem sai sempre benificiado são os poderosos, não podemos perder a esperança de tempos melhores...Um post muito verdadeiro.

    Um beijinho com carinho
    Sonhadora

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    1. Olá, Sonhadora

      Já isso me tem passado pela ideia. Lembro-me por exemplo da crise de 1383-85 que povoa o nosso imaginário e tantas outras crises. Assim de repente lembro-me das invasões napoleónicas, da ida (ou fuga?) da família real para o Brasil, das lutas liberais, da implantação da República.Que tempos aqueles! Ninguém se entendia, caíam governos atrás de governos. Depois o estado novo, o 25 de Abril...

      Tempos de crise, de mudança. O certo é que as circunstâncias foram ultrapassadas e ainda cá estamos à beira-mar plantados. E isto quererá dizer que estamos a atravessar um tempo de transição e que depois da tempestade virá a bonança.

      :)

      Beijinhos

      Olinda

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  12. Uma das grandes bênções da vida
    é a experiência que os anos vividos nos concebem.
    Aniversariar é uma amostra das oportunidades que temos de aprender a contar os nossos dias.
    mais uma janela e abre diante dos meus olhos,
    mais um espinho foi retirado da flor,
    restando somente a beleza de tão bela data.
    Com fé, na esperança e no empenho por ser melhor a cada dia.
    Seguindo pelos caminhos da verdade e do amor.
    Um dia encontrarei o mais belo jardim, o jardim que representará a realização
    dos meus maiores sonhos.
    Com saudades .
    desejo um feliz final de semana
    venha curtir meu aniversário.
    Beijos na sua Alma,Evanir.


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    1. Querida Evanir

      Muitos parabéns pelo seu aniversário. É gratificante ver como encara a vida com amor, de coração aberto, cultivando amizades e procurando conservá-las. E tenho a certeza de que encontrará esse jardim cheio de sonhos, que tanto almeja.

      Não pude ir aí aquando do seu convite, mas irei fazer-lhe uma visita com todo o prazer.

      Beijos

      Olinda

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  13. O Mia Couto, como sempre é de uma sensibilidade ímpar, não à toa, figura entre os meus autores preferidos (e eu tive o privilégio de ter uns 15min de prosa com ele, no Porto, em um dos seus lançamentos). Essa conformidade, e resignação é perigosa em qualquer situação.

    E é impossível não rir, ante a sua lista das boas coisas da vida, porque é de uma simplicidade e de uma fartura, e nós algumas vezes nos pegamos desejando o impossível.

    Beijos, querida!

    ;)

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    1. Minha querida

      Então, podes falar com conhecimento de causa da sua personalidade e dessa sensibilidade que o faz encarar a vida desta forma tão sábia.

      Conformarmo-nos não é o caminho mais indicado, nem o mais seguro se quisermos realmente ultrapassar as dificuldades.

      Diz a autora da lista que 'as coisas boas da vida são simples' e, não há dúvida, por vezes pomo-nos à procura do impossível, como bem dizes, relegando para segundo plano tantas oportunidades que estão ao alcance da nossa mão.

      :)

      Beijos, Cantinho.

      Olinda

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