Não somos todos, os envergonhados, os verdadeiros culpados?
Não somos nós, os indignados, os verdadeiros carrascos?
O que antes e agora julgamos, não foi apenas uma pequena evidência? O que nós prendemos não foi a mão obscura de uma consciência? E mesmo o que matamos, não foi tão somente uma ínfima parte da verdade?
O que antes e agora julgamos, não foi apenas uma pequena evidência? O que nós prendemos não foi a mão obscura de uma consciência? E mesmo o que matamos, não foi tão somente uma ínfima parte da verdade?
E procuramos grades? E procuramos muros altos e seguros? E procuramos homens obtusos para que os possamos vigiar? E procuramos armas para os tornarmos intransponíveis? De nada nos valerá, de nada nos adiantará. Não há ferro, nem betão, nem servilismo nenhum que nos possam salvar da luz da verdade.
Uma mentira não tem sempre sede de liberdade? Uma mentira não é a cela da verdade? E quantas vezes a pretendemos prender? E com quantas grades a desejamos ocultar? E com quantas mãos a ameaçamos estrangular?
Não vale a pena. Desistamos. Em nenhum maciço de betão podemos esconder o que a nossa consciência sabe. Em nenhuma anedota, em nenhum boato, em nenhuma suposição, em nenhuma imparcialidade e em nenhum juiz e em nenhum desmentido nos jornais e em nenhum país. Nem de nós, nem dos outros.
Não vale a pena. Desistamos. Em nenhum maciço de betão podemos esconder o que a nossa consciência sabe. Em nenhuma anedota, em nenhum boato, em nenhuma suposição, em nenhuma imparcialidade e em nenhum juiz e em nenhum desmentido nos jornais e em nenhum país. Nem de nós, nem dos outros.
Somos todos nós os verdadeiros culpados, são nossos os muros e as grades onde escondemos a verdade. E deles ninguém se evadiu, somos todos nós os verdadeiros evadidos.
EDUARDO WHITE
EDUARDO WHITE
Eduardo White sempre se impôs como um poeta impar desde os primórdios da sua infância literária. Poeta notável e respeitado pela sua invulgar criatividade no seio dos amantes da literatura moçambicana, dos PALOP e da CPLP, onde foi agraciado com vários prémios.
O meu lugar
Continuação de boa semana.
Abraços
Olinda
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Poema de - aqui
Eduardo White - aqui, no Xaile de Seda
São tantas as perguntas e para tantas, nem respostas poderemos um dia dar! Lindo! beijos, chica
ResponderEliminarBoa tarde Olinda,
ResponderEliminarUm poema de perguntação com tantas verdades questionadas.
Sobre a mentira li ontem um artigo de que destaco: "quem mente afasta de si os amigos e fica como cacto isolado num deserto árido"! Tão verdadeiro, infelizmente.
Que a verdade seja sempre um dos nossos lemas.
Gostei de conhecer este Poeta.
Beijinhos e continuação de boa semana.
Emília
(O artigo que li é do nosso amigo Flávio, no seu Blogue O Árabe). Não sei se conhece).
O poema faz parte da vertente crucial da literatura moçambicana, e Eduardo White é um dos nomes mais influentes da revista literária Charrua e um dos seus fundadores, e da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), como você acentuou na sua postagem
ResponderEliminarNo poema aludido, a culpa coletiva e a tentativa de esconder a verdade através de barreiras físicas e morais é o mote para revelar o período de asfixia social vivido pelo povo moçambicano.
Baseado na retórica aristotélica, o poeta desestabiliza as certezas do leitor e o leva a autorreflexão sobre a opressão que experimenta o povo moçambicano. Palavras como "grades", "muros", "betão" e "armas" simbolizam o esforço humano material e violento para conter o abstrato enquanto a mentira é revelada como um elemento vivo que "tem sede de liberdade", invertendo a lógica de que apenas os inocentes buscam a libertação.
O texto denuncia os mecanismos de censura e o silenciamento institucionalizado ("desmentido nos jornais", "homens obtusos para vigiar") e, diferente dos poetas de combate das décadas anteriores focados na libertação nacional, White volta-se para as fraturas éticas internas da nova sociedade moçambicana, tornando-se a voz de uma geração. Mas eu gostaria de mostrar outra faceta da poética de White em que ele faz uma reflexão sobre a metalinguagem e o poder transformador da poesia.
Ele desconstrói e reconstrói o conceito da "palavra", mostrando que ela não é apenas um código, mas um organismo vivo. Vejamos:
A Palavra
A palavra renova-se no poema.
Ganha cor,
ganha corpo,
ganha mensagem.
A palavra no poema não é estática,
pois, inteira e nua se assume
no perfeito,
no perpétuo movimento
da incógnita que a adoça.
A palavra madura é espetáculo.
Canta.
Vive.
E respira. Para tudo isso
basta
uma mão inteligente que a trabalhe,
lhe dê a dimensão do necessário
e do sentido
e lhe amaine sobre o dorso
o animal que nela dorme destemido.
A palavra é ave
migratória,
é cabo de enxada,
é fuzil, é torno de operário,
a palavra é ferida que sangra,
é navalha que mata,
é sonho que se dissipa,
visão de vidente.
A palavra é assim tantas vezes
dia claro
sinal de paisagem
e por isso é que à palavra se dá,
inteiramente,
um bom poeta
com os seus sonhos,
com os seus fantasmas,
com os seus medos
e as suas coragens,
porque é na palavra que muitas vezes está,
perdido ou escondido,
o outro homem que no poeta reside.
Eduardo White
(1963-2014)
Me estendi um pouco, serei conciso no próximo comentário. Eu prometo.
Beijinhos, cara amiga!
Carlos
Bonjour Olinda,
ResponderEliminarJe te remercie de tes visites, si fines et si constantes, qui déposent toujours une présence douce dans mon univers, je t’envoie à mon tour une part de délicatesse, semblable à une lumière discrète qui se pose sans bruit et embellit ce qu’elle touche, que cette clarté t’accompagne, qu’elle adoucisse ton jour, et qu’elle t’offre la paix tranquille que méritent les âmes attentives, je te souhaite une bonne fin de semaine, bisou, Régis.
La Plume de l'Âme Silencieuse🪶
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Oi Olinda,
ResponderEliminar'não somos todos'? é uma culpa coletiva , todos temos responsabilidade quando algo acontece ,pode ser simplesmente pela omissão e o silêncio diante da perguntação. rs . Um tema para ponderar. E o poema acima diz bem o que a palavra não é estática ,é como a paisagem a cada dia ganha outra cor. Sempre te agradeço pelas suas boas escolhas, E, se de longe não posso abraçá-la , deixo aqui na 'palavra' minha admiração.
O texto que publicou hoje desperta o desejo de conhecer mais sobre Eduardo White. Vou pesquisar. Mais uma feliz publicação sua, a de hoje.
ResponderEliminarUm abraço.
Um verdadeiro poema de perguntação " onde as perguntas surgem para que possamos reflectir na influência que temos na sociedade em que estamos inseridos. Nao creio que tenha culpa pelas guerras insanas deste nosso mundo...não gosto delas, não as desculpo, não as entendo e dou graças à vida por ser pequenina demais para alguma vez me tentar a começar alguma. Só quero ter importância para os que me cercam, sejam eles familiares ou Amigos; guerras e pequenas quezílias, tento afastar-me delas. Mas, concordo que sejamos culpados por muito do que acontece na sociedade em que vivemos..lmentimos, calamos, omitimos, fazemos de conta que não vemos; é muito mais fácil seguir em frente, sem sairmos " da nossa zona de conforto"., mas, como fica a nossa consciência? Será que saberemos responder-lhe quando ela nos questionar sobre os nossos actos?
ResponderEliminarCostuma-se dizer que os " loucos " do nosso mundo não " têm consciência " e não a tendo, não precisam de se preocupar com os seus actos" . A verdade que conhecem é só a deles e as mentiras pertecem aos outos, pertecem àqueles a quem maltratam, roubam, destroem e matam; mantirosos, pessoas sem consciência são todos os miseráveis que vivem à mercê da ambição desmesurada dos poderosos do mundo perigoso em que vivemos. A nossa consciência tem que ser o nosso guia e temos que a deixar livre das grades em que a querem colocar e assim, seguirmos de cabeça erguida, sempre a tentar respeitar o outro que também tem a sua verdade, a sua palavra e a sua consciência. Tenhamos sempre em conta o valor da palavra e saibamos usá-la com a consciência de pessoas de bem
Querida Olinda, obrigada por me dares a conhecer este autor Moçambicano e a sua " Perguntação ". Fiquei mais rica de saberes, como sempre acontece aqui. Se me permites, quero dizer que o comentário do Amigo Eros de passagem também me ensinou um pouco mais. Estão os dois de parabéns
Beijinhos e fica bem, com saúde e com serenidade depois de tanta perguntação Há sempre muito a perguntar, sempre muito a responder, não é verdade?
Emília 🌻🌻🌻
Olá, amiga Olinda.
ResponderEliminarTexto extraordinário, que nos interroga a todos pelas nossas próprias responsabilidades.
Sem dúvida genial este trabalho de Eduardo White, que desconhecia.
Excelente partilha.
Deixo os votos de um feliz fim de semana com tudo de bom.
Beijinhos, com carinho e amizade.
Mário Margaride
http://poesiaaquiesta.blogspot.com
https://soltaastuaspalavras.blogspot.com
Olá.
ResponderEliminarO texto requer muitas reflexões.
Não conheço o autor nem o contexto ao qual fala o poema, mas me parece ser quase universal as perguntas feitas.
Interroga-nos, mas não nos pode incutir a ideia da desistência.
ResponderEliminarNão podemos nunca virar a cara à luta.
Abraço de amizade.
Juvenal Nunes
Um belo texto que cabe em cada um, uma forma de nos questionar sobre as dualidades da vida. Estamos todos nesta continua perguntação e as respostas nos fogem e ou estamos em continua fuga da verdade, fazendo o contrário.
ResponderEliminarUma linda partilha como sempre Olinda e apresentação de um autor.
Abraços e feliz fim de semana amiga.
Amiga Olinda, bom sábado de Paz!
ResponderEliminarUltimamente temos muitas indagações ...
O importante é näo desistir da luta de viver o melhor que pudermos.
Tenha dias abençoados!
Beijinhos fraternos
Olá, amiga Olinda.
ResponderEliminarPassando por aqui, para desejar um feliz fim de semana, com tudo de bom.
Beijinhos, com carinho e amizade.
Mário Margaride
http://poesiaaquiesta.blogspot.com
https://soltaastuaspalavras.blogspot.com