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sempre defendi que a primeira obrigação da polícia consiste em tornar-se desejada como fomos desejados quando em janeiro de mil novecentos e sessenta e um os bundi-bângalas se recusaram às colheitas, assaltaram cantinas, destruíram senzalas, vagueavam nos trilhos, presentes mesmo se não estavam, ausentes se estavam e nunca tendo estado logo que recolhemos à cidade, a aviação se foi embora e deslocámos para a Baixa do Cassanje, a fim de recuperar o algodão, jingas e tchoués com garantia de trabalho, alojamento e paga que cumprimos mesmo que os padres sustentassem maldosamente que não cumpríamos pelo simples facto de os indígenas gastarem sem prudência demasiado peixe seco, demasiada mandioca, demasiado tabaco na venda, peixe seco, mandioca e tabaco que os padres, sem noção do preço das coisas, acusavam de ser demasiado caros do mesmo modo que nos acusavam injustamente de praticarmos uma espécie capciosa de escravatura, peixe seco, mandioca e tabaco que se comprometiam a pagar na safra seguinte e na seguinte e na seguinte aumentando a dívida em lugar de a amortizarem e enredando-se numa teia de compromissos comerciais (...)
António Lobo Antunes, O Esplendor de Portugal, pgs 307 e 308
No jeito peculiar da escrita deste autor, falecido recentemente, temos uma pequena mostra da situação que levaria à revolta dos camponeses da Companhia Geral dos Algodões de Angola (COTONANG), a empresa angolana produtora de algodão, com participação belga, vigente no tempo colonial.
Essa rebelião, a 4 de Janeiro de 1961, seria o primeiro passo (segundo alguns) para aquela que marcaria o início da guerra de libertação, a 4 de Fevereiro do mesmo ano.
Hoje comemoramos o 52º aniversário da Revolução dos Cravos levada a cabo, a 25 de Abril de 1974, por militares que serviram na Guerra do Ultramar português. Antes desse dia, o Marechal Spínola publicaria a 22 Fevereiro de 1974 o livro "Portugal e o Futuro" em que propunha uma federação entre Portugal e as antigas colónias por ter chegado à conclusão de que a guerra não resolveria nada. Apenas uma solução politica chegaria a bom porto.
Mas o que pretendiam os colonizados era uma Liberdade Plena, sem amarras, tornando-se donos das suas terras e dos seus destinos.
E é isso que temos a dita de comemorar nesta data para além da libertação do povo português, das suas ideias, liberto da polícia política que entravava tudo não só por cá como em todo o espaço dito português.
Pelo sonho é que vamos, como diria Sebastião da Gama.
O sonho e a realidade a acordar-nos do torpor destes dias de chumbo que vivemos. Cada tempo tem o seu louco.
Abraços, meus amigos.
Olinda
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Nota:
a "voz" do excerto refere-se a alguém que chefiava a polícia na Baixa de Cassange,
Angola: Revolta da Baixa de Cassange - aqui
Pelo sonho, pela liberdade é que vamois! Lindo! Ótimo fim de semana! beijos, chica
ResponderEliminarQue a liberdade nunca se perca. Há muitos saudosos do 24 de Abril que tudo fazem para voltarmos atrás no tempo.
ResponderEliminarSaibamos defenderam a democracia e a liberdade que muito custou a conquistar.
Viva o 25 de Abril!
Viva a liberdade!!
Beijinhos, amiga Olinda, com carinho e amizade.
Feliz fim de semana, com tudo de bom.
Mário Margaride
http://poesiaaquiesta.blogspot.com
https://soltaastuaspalavras.blogspot.com
É muito bom quando os nossos escritores nos tiram as palavras da boca para dizerem o que gostaríamos de dizer na hora certa. Gostei muito do seu post, minha Amiga Olinda. Viva a Liberdade!
ResponderEliminarUm beijo.
António Lobo Antunes foi genial na sua obra.
ResponderEliminarEstamos todos no 25 de Abril... somos muitos mil.
Um abraço.
Boa tarde Olinda,
ResponderEliminarMagnífico post sobre 25 de Abril e factos que antecederam o que viria a acontecer!
A Guerra terminou com a queda da ditadura.
Conquistámos a Liberdade, a Democracia e temos orgulho em ser portugueses!
Beijinhos e Viva o 25 de Abril e a Liberdade!
Emília
Um luxo de postagem, querida Olinda!
ResponderEliminarE Viva o 25 de Abril! Vida sem Liberdade, não é vida!
Maravilha essas comemorações do 25 de Abril, emociona!
Um feliz domingo, querida Olinda, muita paz sempre!
Beijinhos.
O fim da guerra colonial e a descolonização com todas as sua falhas por ser demasiado tardia foram pilares fundamentais da conquista da Liberdade!
ResponderEliminarAbraço
Com rigor metodológico, cara amiga Olinda, você nos traz em pleno 25 de abril duas menções significativas para falar de liberdade; a primeira, por meio de excerto do livro O Esplendor de Portugal, de António Lobo Antunes e, a segunda, para assinalar a rebelião do povo angolano começada em 4 de janeiro de 1961.
ResponderEliminarNão conheço a obra aqui referida de Lobo Antunes, como pouco conheço da história de libertação de Angola, mas se depreende como a retórica do "civilizador" é usada para mascarar a exploração e a violência, dando-nos um retrato amargo da realidade vivida pelo povo angolano.
Quase corro para a livraria atrás do Esplendor de Portugal, antes vou ler os Cus do Judas que me aguarda pacientemente na prateleira. Afinal, pelo que eu sei, é o primeiro grande livro sobre o conflito e a independência de angolanos e uma referência histórica obrigatória para conhecermos a obra de Lobo Antunes e, por extensão, a de Angola.
Tenha um domingo de lazer proveitoso, cara amiga Olinda!
Beijinhos,
José Carlos
Minha amiga Olinda,
ResponderEliminar"Quem se apega, conhece a força do seu apego!"
Este é um dos meus aforismos mais antigos. Somos seres criativos e precisamos manter nossos desejos e sonhos vivos.
Tenha uma excelente semana.
Beijos!!!
Sobre o 25 de Abril existem várias obras com análises históricas e me faz lembrar de um certo abril ,passando por Portugal e curiosa pelo assunto adquiri 'Mitos de uma revolução' de uma autora portuguesa para entender um assunto que era distante pra mim. Já li bastante Lobo Antunes na internet e esse texto que trazes do 'Esplendor de Portugal' é uma boa pedida para uma próxima leitura ,Olinda. A conquista da Liberdade deve ser mantida na memória de todos .Muito boa sua postagem e deixo um abraço desejando uma semana leve e produtiva.
ResponderEliminarQue a democarcia e liberdade nos acompanhe sempre.
ResponderEliminarIsabel Sá
Brilhos da Moda
Por incrível que pareça, a revolta começou nas colónias, porque no continente também estávamos subjugados a um poder político contra o qual não se podia falar e quase ninguém reclamava.
ResponderEliminarE ainda hoje há quem defenda o antes do 25 de Abril. Basta ouvir o André Ventura...
Boa semana minha amiga Olinda.
Um abraço.
Bela e incrível reflexão.
ResponderEliminarBoa semana!
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Até mais, Emerson Garcia
Olá, amiga Olinda.
ResponderEliminarPassando por aqui, para desejar uma boa semana, com tudo de bom.
Beijinhos, com carinho e amizade.
Mário Margaride
http://poesiaaquiesta.blogspot.com
https://soltaastuaspalavras.blogspot.com
Sempre metódica e rigorosa! Uma postagem que muito apreciei, querida Olinda.
ResponderEliminarUm beijinho
Uma evocação oportuna e atempada.
ResponderEliminarAbraço de amizade.
Juvenal Nunes
Los sueños y la libertad van unidos de la mano. Gracias Olinda por compartirlo. Un abrazo
ResponderEliminarExcelente partilha e reflexão. Memória que se mantém. Bjsss Norma
ResponderEliminarhttps://pensandoemfamilia.com.br/cronica/musica-e-poesia/
Como sabes, querida Olinda, gosto muito de ler e os livros são a minha companhia, nos meus tempos livres. Gostei muito deste teu post sobre o 25 de Abril que o vivi de perto, pois estudava no Porto nessa altura. Tinha o meu irmão e o , agora meu marido, na Guiné e contam eles que, ao saberem do acontecimento, a festa foi grande e todos se abraçavam, os nossos combatentes e os do outro lado, antes, considerados inimigos.
ResponderEliminarComo bem dizes, " cada tempo tem o seu louco " e nós estamos, agora, a viver tremendas loucuras que não nos pertencem, mas que nos perturbam e assustam.
Obrigada, querida Amiga, pela lições de história que sempre nos dás, aqui neste teu sedoso xaile
Beijinhos e fica bem, com saúde sempre.
Emília 🌻🌻
Estive hoje de manhã lá no teu blog.
EliminarComentei e quase a acabar o comentário desapareceu-me.
Vou voltar à tarde.
Beijinhos
Olinda
🌻🌻
EliminarBenditos sejam os escritores que nos iluminam as memórias e benditas sejam as suas reflexões que nos refrescam momentos como este , Olinda
ResponderEliminarParabéns
Um beijinho
Que tempo de tristeza, amiga, também passamos
ResponderEliminarnosso pedaço aqui, é inconcebível o ser humano vivenciar tais horrores.
Mas o poder tem isso em mente, será sempre sórdido com o povo.
Show de postagem, para não deixarmos acontecer novamente. Vigilância!
"Cada tempo tem o seu louco." Nada tão verdadeiro como esta frase.
Dias felizes, beijinho, querida.