Falareis de nós como de um sonho.
Crepúsculo dourado. Frases calmas.
Gestos vagarosos. Música suave.
Pensamento arguto. Subtis sorrisos.
Paisagens deslizando na distância.
Éramos livres. Falávamos, sabíamos,
e amávamos serena e docemente.
Uma angústia delida, melancólica,
sobre ela sonhareis.
E as tempestades, as desordens, gritos,
violência, escárnio, confusão odienta,
primaveras morrendo ignoradas
nas encostas vizinhas, as prisões,
as mortes, o amor vendido,
as lágrimas e as lutas,
o desespero da vida que nos roubam
- apenas uma angústia melancólica,
sobre a qual sonhareis a idade de oiro.
E, em segredo, saudosos, enlevados,
falareis de nós - de nós! - como de um sonho.
Jorge de Sena,
Gestos vagarosos. Música suave.
Pensamento arguto. Subtis sorrisos.
Paisagens deslizando na distância.
Éramos livres. Falávamos, sabíamos,
e amávamos serena e docemente.
Uma angústia delida, melancólica,
sobre ela sonhareis.
E as tempestades, as desordens, gritos,
violência, escárnio, confusão odienta,
primaveras morrendo ignoradas
nas encostas vizinhas, as prisões,
as mortes, o amor vendido,
as lágrimas e as lutas,
o desespero da vida que nos roubam
- apenas uma angústia melancólica,
sobre a qual sonhareis a idade de oiro.
E, em segredo, saudosos, enlevados,
falareis de nós - de nós! - como de um sonho.
Jorge de Sena,
in 'Pedra Filosofal'
Jorge Cândido de Sena (1919-1978) foi poeta, crítico, ensaísta, ficcionista, dramaturgo, tradutor e professor universitário português, naturalizado brasileiro em 1963.
Foi um dos mais influentes intelectuais portugueses do século XX, com vasta obra de ficção, drama, ensaio e poesia, além de importante epistolografia com figuras tutelares da literatura portuguesa e brasileira. A sua obra de ficção mais famosa é o romance autobiográfico Sinais de Fogo, adaptado ao cinema em 1995 por Luís Filipe Rocha. Grande parte da sua obra foi publicada postumamente pelos cuidados da viúva, Mécia de Sena.
Ver aqui
Boa semana, amigos.
Olinda
====
Imagem: pixabay
Poema: daqui
E o nosso sonho maior é a paz, mas as guerras continuam; há desordens, gritos, violência de todo o tipo, uma confusão odienta que nos impede de apreciar a Primavera, de viver a liberdade que julgamos ter; onde está essa liberdade? Morte, prisões, fome e tantas outras misérias que ofuscam as paisagens que a natureza continua a oferecer numa tentativa de atenuar o sofrimento de tanta gente. Será isto liberdade? Lembramos o passado e de certeza se lembrarão também de nós, as novas gerações, mas com que sentimento? Com o mesmo que, hoje, temos nós...que o ser humano não muda, que continua a ser o único bicho que mata por nada, que suja a água que bebe, que abandona e mata as suas próprias crias. E é triste chegar a essa conclusão, assim como é triste, termos vergonha, em certas oocasiões. de pertencemos a esta raça dita humana. Obrigada, querida Olinda, pela partilha de tão pertinentes palavras. Desculpa a ausência, querida Amiga, mas, todos os dias passo por aqui; saio sem dizer nada, mas, sempre leio. Beijinhos, saúde e serenidade
ResponderEliminarEmília 🌻 🌻
Amiga Olinda, bom dia de Paz!
ResponderEliminarComo um sonho muito bom...
Podemos falar do que sentimos, de nós... do amor.
E é tão bonito!
Tenha dias abençoados!
Beijinhos fraternos
Linda poesia e ode aqui! Poeta muito inspirado!
ResponderEliminarbeijos, linda semana,chica
Um belíssimo poema desse grande intelectual que foi/é Jorge de Sena!
ResponderEliminarAbraço
Eis aqui na sua postagem, amiga Olinda, a reflexão do poeta Jorge de Sena sobre o sentimento de intelectuais portugueses que viviam sob o regime da ditadura do Estado Novo.
ResponderEliminarMalgré tout, o poeta põe o leitor a par de duas realidades: o sonho e a realidade.
Uma leitura mais abrangente do poema mostra como a realidade da época é aprendida se comparamos a primeira parte do poema à segunda. Como há uma mudança de tom de uma à outra. No verso inicial, o poeta antevê como o vós olhará para o nós; como as frases nominais “Crepúsculo dourado. Frases calmas. Gestos vagarosos. Música suave. Pensamento arguto. Subtis sorrisos insinuam uma paz inexistente no passado. Enquanto na segunda parte, o poeta resgata o passado com termos fortes para resgatar a dureza do que foi realmente vivido. Neste sentido, o uso do polissíndeto mostra a asfixia em que se vivia: “E as tempestades, as desordens, gritos, / violência, escárnio, confusão odienta,/ primaveras morrendo ignoradas nas encostas vizinhas, as prisões, /as mortes, o amor vendido, as lágrimas e as lutas, o desespero da vida que nos roubam...” Não se deve perder de vista que a conjunção E está subentendida na enumeração da asfixia. E se torna palpável a mudança de tom, além de mostrar como o poeta captura o olhar atento do leitor com as duas realidades.
Poema para ser lido e relido e não esquecermos que “Ditadura nunca mais”.
Beijinhos, amiga Olinda,
José Carlos
Belas e incríveis palavras. Gostei de ver.
ResponderEliminarBoa semana!
O JOVEM JORNALISTA está no ar com muitos posts e novidades! Não deixe de conferir!
Jovem Jornalista
Instagram
Até mais, Emerson Garcia
Boa semana. amiga virtual
ResponderEliminarBeijinhos
Poema sublime de Jorge de Sena. Bem atual, apesar de ser escrito noutros tempos. Tudo que é dito neste belo poema, é bem necessário para um melhor e mais risonho futuro coletivo.
ResponderEliminarExcelente partilha, amiga Olinda.
Beijinhos, e continuação de boa semana.
Mário Margaride
No horizonte do nosso futuro o sonho nunca deixa de estar presente.
ResponderEliminarAbraço de amizade.
Juvenal Nunes
Mostra, o poeta, nesse contundente poema, as aspirações que lhe vão n`alma dividida entre a razão e o sonho.
ResponderEliminarForte versejar!
Grata pela partilha, Olinda!
Tenha dias bem primaveris!
Bjsssss
Um poema melancólico ,Olinda e algum segredo _ de nós e nosso_ quem não os tem ? rs Gosto dos poetas portugueses, e Jorge Sena tem alma brasileira e viveu entre nós durante o exilio. Teve uma vida tumultuada e deixou um importante legado. Beijinho e bons dias, amiga.
ResponderEliminar