terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Triste, por te deixar, de manhãzinha

 




PARTINDO

Triste, por te deixar, de manhãzinha

Desci ao porto. E logo, asas ao vento,

Fomos singrando, sob um céu cinzento,

Como, num ar de chuva, uma andorinha.


Olhos na Ilha eu vi, amiga minha,

A pouco e pouco, num decrescimento,

Fugir o Lar, perder-se num momento

A montanha em que o nosso amor se aninha.


Nada pergunto; nem quero saber

Aonde vou: se voltarei sequer;

Quanto, em ventura ou lágrimas, me espera


Apenas sei, ó minha Primavera,

Que tu me ficas lagrimosa e triste.

E que sem ti a Luz já não existe.




Eugénio de Paula Tavares nasceu na Ilha Brava, Cabo Verde, a 18 de Outubro de 1867, filho de Eugénia Roiz Nozolini Tavares e de Francisco de Paula Tavares.
Escreve o Poeta sobre a sua Ilha:
"Descoberta num dia 24 de Junho, chamaram-na a Ilha de São João. Depois, a natureza selvática da sua orografia, o bravio dos seus vales emaranhados de vegetação hostil, e o abandono que foi relegada durante muitos anos e ainda depois de habitada, deram-lhe o nome de BRAVA. 




A.Travadinha - Flor Formosa
execução
Ensemble Conductus


Bom dia de Reis, meus amigos.
Abraços
Olinda

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imagem - pixabay

6 comentários:

  1. Linda poesia e triste sempre partir do lugar que tanto gostamos!
    Feliz dia dos Reis,Olinda!
    beijos, chica

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  2. Obrigado pela revelação de um autora que eu desconhecia. Valeu a pena.
    Um abraço.

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  3. Caríssima Olinda,
    Pouco sei sobre a poesia de Eugénio Tavares. Li cuidadosamente as informações que nos trouxe e saí em busca de outras.
    Amar e defender as ilhas foi uma das suas grandes virtudes, além de tornar-se um poeta reconhecido.
    Partindo, lembra Camões e a alcunha de o Camões da Ilha.
    Também internalizei que Eugénio Tavares foi quem melhor expressou e cantou, em suas composições, o registro da dor, da saudade, da partida e também do regresso daqueles que, por um motivo ou outro, tiveram que deixar o seu país.
    Andorinhas de volta
    Andorinhas do mar aberto,
    Que vento de lealdade
    Coloca-nos nesse passo amargo,
    Nessa nossa terra de saudades?
    Por que nos deu vontade
    De voltar nesse caminho?
    Ai, de voltar para matar as saudades!
    Da nossa terra, do nosso ninho?
    Eu tenho uma preocupação,
    Já estou com os cabelos brancos:
    Sou velho e aleijado,
    Sou um candeeiro apagado...
    Quem é novo, tem esperanças,
    Tem sua graça, tem sua fé...
    Mocidade é o mar em bonança;
    É luz que o Nosso Senhor acendeu...
    Andorinhas de mar aberto,
    Regressam para casa?
    Triste sou eu, com falta
    De penas vivas nas asas...
    Meu agradecimento pela partilha, pela possibilidade de encontrar a poesia de Eugénio Tavares.
    Beijinhos, amiga Olinda!
    José Carlos

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  4. Muito bonita e generosa partilha deste melancolico soneto com muita arte da literatura. A dor da saudade de sua terra amada. O voltar que nem sempre se faz possivel e ou nem interessa pelo que se perdeu de ligação.Lembrou-me Drummond com um retrato na parede. A ilha amada que se perdeu no tempo todas as lembranças boas e fica esta saudade do que se viveu e perdeu.
    Grato Olinda por trazer uma bela obra.
    Abraços e que 2026 seja de muita paz e alegria neste mundo tão complexo, que vivemos.
    Que possamos fazer esta viagem pelas dozes plataformas e as quatro estações.

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  5. Olá, amiga Olinda.
    Não conhecia este poeta. Nem o seu trabalho poético.
    Li este belíssimo poema que aqui nos traz, e gostei bastante.
    Uma suave e carinhosa ternura, que o autor transmite neste lindo e amoroso poema.
    Excelente partilha!

    Deixo os meus votos de uma boa semana, com tudo de bom.
    Beijinhos, com carinho e amizade.

    Mário Margaride

    http://poesiaaquiesta.blogspot.com
    https://soltaastuaspalavras.blogspot.com

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  6. Gostei de conhecer um pouco do autor do poema.
    Aqui tem sempre belas partilhas.
    Feliz 2026!

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