Setembro 1871.
Um só livro seu, um romance, fez palpitar fortemente as curiosidades simpáticas -
As Pupilas do Sr. Reitor. Esse livro fresco, quase idílico, aberto sobre largos fundos de verdura, habitado por criações delicadas e vivas - surpreendeu. Era um livro real, aparecendo no meio de uma literatura artificial, com uma simplicidade verdadeira, como uma paisagem de Cláudio Loreno entre grossas telas mitológicas. Era um livro onde se ia respirar.
Júlio Dinis amava a realidade: é a feição viril e valiosa do seu espírito.
Nunca porém se desprendeu do seu idealismo e sentimentalismo nativo. A realidade tinha para ele uma crueza exterior que o assustava: de modo que a copiava de longe, com receio, adoçando os contornos exactos que a ele lhe pareciam rudes, espalhando uma aguada de sensibilidade sobre as cores verdadeiras que a ele lhe pareciam berrantes. As suas aldeias são verdadeiras, mas são poetizadas: parece que só as vê e as desenha quando a névoa outonal esfuma, azula, idealiza as perspectivas.
Nunca um sol sincero e largo bate a sua obra. Tudo nela é velado de névoa poética. Não é que não ame, não persiga a verdade: somente quando a fixa na página traz já a pena toda molhada no ideal que o afoga.
Dizem que os seus livros são memórias, e que ele faz a aguarela suave das paisagens em que viveu, e que personaliza, em criações finamente tocadas, os sentimentos com que palpitou; daí decerto a realidade que os seus livros deixam entrever, fugitivamente. Mas parece que não fora feliz, e que só ao compassar dos soluços o coração lhe aprendera a bater: daí pois aquelas meias-tintas azuladas e melancólicas em que se move, num rumor brando, o povo romântico dos seus livros, e com que ele procura esbater e adoçar a crueza das realidades humanas que o fizeram sofrer.
Era sobretudo um paisagista. As suas figuras só servem para dar expressão e vida à paisagem.
Os campos, as searas, os montes, as claras águas, os céus profundos, não são nos seus livros a decoração que cerca uma humanidade fortemente sentida: as suas camponesas romanescas, os seus galãs violentos e ternos, as meigas figuras de velhos, até as suas caricaturas - é que foram por ele colocadas assim para poder, em torno delas, erguer com cuidado, árvore por árvore e casal por casal, as aldeias que tanto amava. Há nos seus romances tal descampado, tal eira branca batida do sol, tal parreira onde os gatos se espreguiçam, que tem mais ideia, mais acção, mais vida, que as figuras vivas que em torno se movem.
Depois das Pupilas do Sr. Reitor as obras de Júlio Dinis passaram de leve, entre as atenções transviadas. Terá o seu dia de justiça e de amor. À maneira daqueles povoados que ele mesmo desenha, escondidos no fundo dos vales sob o ramalhar dos castanheiros, os seus livros serão procurados como lugares repousados, de largos ares, onde os nervos se vão equilibrar e se vai pacificar a paixão e o seu tormento.
Tréguas por um instante nesta áspera fuzilaria! Numa página à parte, tranquila e meiga, pomos a lembrança de Júlio Dinis. Que as pessoas delicadas se recolham um momento, pensem nele, na sua obra gentil e fácil, que deu tanto encanto, e que merece algum amor. Tal é o nosso mal, que este espírito excelente não ficou popular: a nossa memória, fugitiva como a água, só retém aqueles que vivem ruidosamente, com um relevo forte: Júlio Dinis viveu de leve, escreveu de leve, morreu de leve.
Foi simples, foi inteligente, foi puro. Trabalhou, criou, morreu. Mais feliz que nós, tem o seu destino afirmado, e para ele resolveu-se a questão.
Passemos pois... Já do outro lado, para além desta página serena, ouvimos, inumeráveis como abelhas vingadoras, as ironias aladas que, com um rumor impaciente, zumbem no ar!
Eça de Queirós - In: Uma Campanha Alegre/I/XXXII - aqui
Júlio Dinis viveu de leve,
escreveu de leve,
morreu de leve.
Diz Eça de Queirós. ´
Tenho lido esta asserção nos mais variados sítios mas sempre quis identificar onde o tinha lido pela primeira vez. Foi em "Uma Campanha alegre", mas já não me lembrava.
No texto acima, Eça justifica o seu juízo.
Demasiado simplista?
Júlio Dinis,(1839-1871) pseudónimo de Joaquim Guilherme Gomes Coelho, também Diana de Aveleda em pequenas narrativas. Faleceu com apenas 31 anos, vítima de tuberculose pulmonar. mais
Dois grandes vultos da Literatura Portuguesa e
tão diferentes na sua interpretação da sociedade e da realidade..
Bom domingo, meus amigos.
E muita Saúde!
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Posts sobre Júlio Dinis, aqui, no Xaile de Seda.
E sobre Eça de Queirós, aqui, e onde aparecem referências a ele ou à sua obra, também no Xaile de Seda.
Ver, se interessar:
Admiro imensamente ambos os escritores, mas realmente estão em extremos opostos.
ResponderEliminarBom domingo e grato abraço por me dar a conhecer a opinião de Eça sobre Júlio Dinis.
Bom dia de domingo, querida amiga Olinda!
ResponderEliminarJamais poderei me esquecer das Pupilas do Senhor Reitor. Livro que li em preparação ao vestibular e que me encantou por tudo tão bem descrito por você acima.
Adoro o bucólico...
Sua seleta postagem me encanta, amiga.
Tenha uma nova semana abençoada!
Bjm carinhoso e fraterno de paz e bem
Ótima leitura,bem interessante, como todas as que aqui leio! beijos, lindo domingo! chica
ResponderEliminarOlinda Melo, Grata por nos trazeres estes dois grandes vultos da literatura portuguesa! Ainda há pouco tempo, li uma vez mais "As pupilas do Sr. Reitor".
ResponderEliminarVotos de um bom domingo para ti.
Um abraço!
A.S.
Bom de ler. Obrigada pela partilha!!
ResponderEliminar*
Caminhar seguro...
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Beijo e um Domingo
Ambos fizeram parte de meus trabalhos escolares. Quando a eles fui apresentada não imaginava que, posteriormente, perceberia a riqueza da escrita de ambos. Digo, posteriormente, porque na adolescência meu entendimento sobre literatura era precário, mas se desenvolveu, rapidamente, e passei a amar os livros. Gostei muito de sua postagem. Dois ícones! Bjs.
ResponderEliminarGosto do Júlio Dinis, de quem li toda a obra, inclusive os poemas. Também gosto muito do Eça de Queirós mas dele li apenas seis livros.
ResponderEliminarAbraço, saúde e uma boa semana
Querida Olinda
ResponderEliminarRegressei da primeira parte das minhas férias. Ficarei aqui uns dia e seguirei depois para a segunda ( e última) parte - este ano “férias passadas cá dentro”…
Aproveitarei este intervalo para vos visitar 😊.
E, já agora… penso que a Nanda se apresentará no próximo dia 1 de Setembro…
São, de facto, dois grandes vultos da literatura portuguesa, ainda que em posições antagónicas.
Pessoalmente considero Eça de Queiroz um dos maiores escritores portugueses de todos os tempos. Tenho na minha biblioteca - e li, obviamente - toda a sua obra, e gosto tanto dele que, de vez em quando, releio (uma vez mais!!!) um dos seus livros (vou entremeando...😀)
E, claro, "As pupilas do senhor reitor" não poderiam ficar de fora. Também está na minha estante... embora não possua toda a obra de Júlio Diniz.
Desejo que esteja tudo bem contigo, minha querida, e que assim continuem todos.
Uma semana feliz
Beijinhos
MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS
Querida Mariazita
EliminarMuito obrigada pela visita e comentário, depois da primeira parte das tuas férias. Espero que a segunda parte decorra bem e com saúde.
Então, marcamos encontro com a Nanda para 1 de Setembro.
Beijinhos
Olinda
Vou tomar nota!
ResponderEliminarIsabel Sá
Brilhos da Moda
Acho muito interessante que Eça de Queirós tenha escrito sobre Júlio Dinis, sobre as Pupilas do Senhor Reitor, o que mostra como os tempos mudaram... "Campanha Alegre" é um livro para ler com certeza. Eu confesso que nunca li.
ResponderEliminarUma boa semana com muita saúde, minha Amiga Olinda.
Um beijo.
Não conhecia o olhar de Eça de Queirós sobre Júlio Dinis. Agradeço. Guardo de Júlio Dinis uma ideia muito semelhante. Apetece-me voltar ÀS Pupilas do Senhor Reitor.
ResponderEliminarQuis ver um filme brasileiro sobre "Os Maias" de Eça de Queirós. Já li o livro há tantos anos, mas ficou-me a ideia de voltar. E mantenho. O filme prendeu-me do princípio ao fim. São 4 partes com pelo menos 3h cada. Dá para ir vendo. A tragédia é um pouco dissipada por nos embrenharmos no retrato social da época. Interessa-me toda o olhar deste autor.
Um beijo, querida Olinda. Saúde!
"Júlio Dinis viveu de leve,
ResponderEliminarescreveu de leve,
morreu de leve... "
leve, leve, como uma perfeita metáfora ... - digo eu que não tenho a "souplesse" de um Eça. mas não deixo, por isso, de lhe invejar os bigodes!
que seriam a felicidade da minha "prima Luísa", não é verdade, priminha?
já do senhor Júlio Dantas, perdão, Pim! - do Senhor Júlio Dinis não invejo nada! nem as barbas... lembram-me as do hortelão (da Margarida)!...
Boa Partilha!
Bjs
Que delícia o texto,Olinda
ResponderEliminarVou aprofundar mais sobre Júlio Diniz.De Eça e Queiroz ja li Os Maias,Primo Basílio e é bem mais conhecido por aqui.
Obrigada pela visita , vou ficar mais um pouquinho vendo suas publicações.
É tudo que gosto, Literatura .
Abraços
E porque não ler O Crime do Padre Amaro?
EliminarAcho que é a melhor introdução ao Eça. Quem não leu só pode gostar.
Li as Pupilas, mas foi à tanto tempo que já não me lembro da história!
ResponderEliminarIsabel Sá
Brilhos da Moda
A great post! I love your blog. Your content is very interesting < 3
ResponderEliminarI am following you and invite you to me
https://milentry-blog.blogspot.com
Olá!
ResponderEliminarLi esses dois livros... há muito tempo!
Mas achei-os muito bons.
Saudaçoes poéticas!
Olá, Olinda, gostei muito dessa tua postagem por duas razões: conhecer Julio Dinis e poder falar um pouco sobre Eça de Queirós. Vou procurar aqui pelo livro de Dinis e aproveitar o ensejo para ler mais algumas cartas de Eça, (tenho dois belos livros da correspondência do grande escritor). Sobre a literatura de Eça tenho lido e relido os seus romances desde o tempo em que frequentava o curso clássico, antes de frequentar a Universidade. Para mim, Eça de Queirós e Machado de Assis (contemporâneos) são os dois maiores nomes da literatura em língua portuguesa, de todos os tempos.
ResponderEliminarAgradeço pela partilha, minha amiga.
bjo, bom fim de semana.
Não sabia que Eça tinha escrito este texto sobre Júlio Dinis.
ResponderEliminarLi os seus livros na juventude e, na altura, gostei muito. Mas não faço ideia se hoje a minha opinião se manteria. Em qualquer caso, vou tentar ler de novo as Pupilas...
Bom fim de semana, querida amiga Olinda.
Abraço.
Júlio Dinis tinha um estilo de escrita muito suave, doce, colorido, gostei muito das suas obras que li bem jovem.
ResponderEliminarTambém não conhecia este texto crítico de Eça de Queirós.
Abraço
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Um «post» que é uma lição!
ResponderEliminarSempre cuidada e fundamentada cada uma das edições que aqui são publicadas!
Um blogue de grande qualidade, minha querida Olinda.
Beijo
texto simplesmente perfeito e explicativo, eis perfeita. E ai minha amada estamos na semifinal do Pena de Ouro e estou vindo aqui para te convidar na brincadeira como votante, basta ir no link abaixo, lê as poesias e votar na que mais tocar seu coração. Beijos cor de rosa!
ResponderEliminarhttps://ostra-da-poesia2-as-perolas.blogspot.com/2020/08/semifinal-11-pena-de-ouro.html#comment-form
Querida Lindalva
EliminarLá me terá a votar na semifinal do Pena de Ouro.
Muito obrigada.
Beijinhos
Olinda
Delicioso Post perfeitamente actual sobre quem foi quem. A verdade é que tantos anos depois ninguém pode negar a regência do tempo sobre Personalidades que que se manterão vivas, pelo menos nas Memórias de quem já os leu.
ResponderEliminarObrigado, Olinda por mais esta notação brilhante.
Beijo
SOL
Minha querida Olinda antes de tudo tenhas um lindo dia. Tua presença no salão pérolas fez ele ficar mais iluminado. Teu voto foi validado. Beijos no coração.
ResponderEliminarhttps://ostra-da-poesia2-as-perolas.blogspot.com/2020/08/semifinal-11-pena-de-ouro.html#comment-form
Interesante artículo, instructivo, pero sobre todo inmensamente bello.
ResponderEliminarEnhorabuena.
Eu cresci, infância e adolescência, dizendo seu nome algumas vezes ao dia, morava na rua Eça de Queirós. E como não gostar de vê-lo aqui na amiga Olinda e ler sobre ele cada vez mais?
ResponderEliminarE quanto a Júlio Dinis...que vou ler mais sobre, 'viveu de leve, escreveu de leve, morreu de leve'. Então viveu muito bem!
Beijo, Olinda, um bom domingo!