quinta-feira, 28 de abril de 2022

É isto o amor



Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que 
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.


Nuno Júdice 


Uma definição do Amor. E continuamos nesse afã de encontrar palavras para falar deste sentimento. Nuno Júdice fá-lo de forma admirável. É um dos autores que mais admiro. E há tanto tempo que não trazia os seus textos poéticos!




Tejo que levas as águas

Também tempo para recordar Adriano Correia de Oliveira. O nosso Adriano, que sob o título "Memórias de Adriano" está a ser homenageado, ele que a 9 de Abril teria completado oitenta anos.
Veja aqui.

Boa quinta-feira, meus amigos.

Abraços
Olinda


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Poema:
in 'Pedro, Lembrando Inês'
Imagem-pixabay

segunda-feira, 25 de abril de 2022

O que aquela noite me quis dar




Eu não estava em casa nessa noite, filho,
nem podia estar. Estava nas ruas com os soldados 
que rumavam às rádios e aos quarteis, engalanados 
de sombra e de júbilo, a ver o que aquela noite ia dar, 
o que a nossa liberdade prometia ser. 

E tu, filho, tinhas a idade rumorejante 
desse Abril embalado por uma canção do Zeca. 
Como posso eu explicar-te tudo aquilo 
que tu nasceste para aprender, para viver? 
Eu estava aquartelado no meu silêncio 
de pétalas, sílabas e marés, no dédalo 
de vozes embriagadas pelo vento, 
na coragem errante das pelejas da infância 
e pouco ou nada sabia do mistério desse mês 
capaz de transformar em assombro as nossas vidas. 

Sim, sou eu neste retrato antigo, 
a receber em festa os exilados, os que chegavam 
com grinaldas de cantigas e a flor de uma ilusão 
bordada a sangue e espuma no capote das nocturnas caminhadas. 

Sim, sou eu a escrever a primeira reportagem 
do primeiro de muitos dias em que o tempo 
deixou de contar, em que os relógios 
se tornaram corolas de paixão e riso 
na lapela larga da alegria desta pátria.
 
Eu não estava em casa nessa noite, filho, 
estava a afinar o coração pelo tom das mais belas melodias
que alguém pode aprender 
para dar a quem ama a paz de um sono 
sem tormento. 

JOSÉ JORGE LETRIA, in “Abril 30 Anos Trinta Poemas”, de José Fanha e José Jorge Letria. Lisboa, Campo das Letras, 2004





Hoje, Dia da Liberdade!

Que a Ucrânia possa encontrar a Paz e viver em Liberdade, dispondo do seu destino como país independente e soberano. Que aqueles que partiram possam voltar para os lares que tiveram de abandonar e os que ficaram se salvem do poder das balas e da insanidade do invasor.

Que todos os povos em guerras fratricidas, em vários locais do mundo, sofrendo de fome e sede, em miséria extrema, depositados em campos de refugiados e trilhando os caminhos da imigração pelo Mediterrâneo e tentando ultrapassar fronteiras terrestres pela Europa, encontrem a vida que almejam.

Que os meninos do mundo inteiro possam dormir o seu sono sem medos e em segurança.

Viva o 25 de Abril, sempre!

Abraços
Olinda



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Poema constante da:
Colectânea Poemas de Abril - aqui

Nota:
De Zeca Afonso, "Grândola Vila Morena", uma das senhas da Revolução
de Abril de 1974, canção a que o autor se refere no texto, segundo creio.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

"Mãos de África, minha bela adormecida...!"






MÃOS

Mãos que moldaram em terracota a beleza e a serenidade do Ifé.
Mãos que na cera polida encontram o orgulho perdido do Benin.
Mãos que do negro madeiro extraíram a chama das estatuetas olhos de vidro
e pintaram na porta das palhotas ritmos sinuosos de vida plena:
plena de sol incendiando em espasmos as estepes do sem-fim
e nas savanas acaricia e dá flores às gramíneas da fome.
Mãos cheias e dadas às labaredas da posse total da Terra,
mãos que a queimam e a rasgam na sede de chuva
para que dela nasça o inhame alargando os quadris das mulheres
adoçando os queixumes dos ventres dilatados das crianças
o inhame e a matabala, a matabala e o inhame.

Mãos negras e musicais (carinhos de mulher parida) tirando da pauta da Terra
o oiro da bananeira e o vermelho sensual do andim.
Mãos estrelas olhos nocturnos e caminhantes no quente deserto.
Mãos correndo com o harmatan nuvens de gafanhotos livres
criando nos rios da Guiné veredas verdes de ansiedades.
Mãos que à beira-do-mar-deserto abriram Kano à atracção dos camelos da ventura
e também Tombuctu e Sokoto, Sokoto e Zária
e outras cidades ainda pasmadas de solenes emires de mil e mais noites!

Mãos, mãos negras que em vós estou pensando.
Mãos Zimbabwe ao largo do Indico das pandas velas
Mãos Mali do sono dos historiadores da civilização
Mãos Songhai episódio bolorento dos Tombos
Mãos Ghana de escravos e oiro só agora falados
Mãos Congo tingindo de sangue as mãos limpas das virgens
Mãos Abissínias levantadas a Deus nos altos planaltos:
Mãos de África, minha bela adormecida, agora acordada pelo relógio das balas!

Mãos, mãos negras que em vós estou sentindo!

Mãos pretas e sábias que nem inventaram a escrita nem a rosa-dos-ventos
mas que da terra, da árvore, da água e da música das nuvens
beberam as palavras dos corás, dos quissanges e das timbilas que o mesmo é
dizer palavras telegrafadas e recebidas de coração em coração.
Mãos que da terra, da árvore, da água e do coração tantã
criastes religião e arte, religião e amor.

Mãos, mãos pretas que em vós estou chorando!

          (1921-1963)


Geógrafo, poeta, docente, nascido em São Tomé, Francisco Tenreiro assume neste poema um lado pan-africanista e nesta visão abrangente de África evoca os grandes impérios e estados africanos, Iorubá, Songhai, Ghana, Benin, Abissínia, assim como a tradição feita de palavras mágicas e interpretadas em quissanges e timbilas, que o mesmo é dizer palavras telegrafadas e recebidas de coração em coração.

Talvez, por ter vivido desde os dois anos de idade em Portugal Continental, estivesse nele bem vincada a cultura portuguesa, nomeadamente, a do Estado Novo, tendo escrito que não havia escravatura em São Tomé, uma negação polémica depois sublimada pela sua dedicação a África e a São Tomé, sua terra natal. Terra que vê pela primeira vez aos 35 anos altura em que também conhece a mãe. Vida curta. Ele morre aos 42.

Assume o conceito da negritude de que poderemos citar como ideólogos, Aimé Césaire, poeta, e Léopold Sédar Senghor escritor e, posteriormente, presidente do Senegal, conceito esse que ele passa a defender e que introduz na literatura de língua portuguesa.

Gerhard Seibert, num artigo interessantíssimo diz que Francisco Tenreiro é um autor injustamente expatriado, isto é, que perante os dados da sua vida pessoal e profissional ele deveria ser considerado português. Segundo Seibert: "A sua biografia revela claramente que a verdadeira pátria do poeta, geógrafo e político Francisco José Tenreiro é Portugal, enquanto São Tomé e Príncipe é a sua pátria literária". 

Seja qual for o ângulo por que se analise a sua vida e obra, Francisco José Tenreiro num primeiro momento preocupado com o seu problema pessoal, sentindo-se dividido por ser mestiço e, quiçá, entre duas culturas, o facto é que soube aderir a uma evolução de pensamento e mudança de mentalidade que já fervilhavam nos finais do século XIX e a seguir à segunda guerra mundial viriam alterar a ordem estabelecida na Conferência de Berlim de 1884/885 - Partilha de África.

Veríamos surgir, nesse contexto, a par de Aimé Césaire e Léopold Senghor nomes como Kwame Nkrumah, Patrice Lumumba ... Agostinho Neto, Mário Pinto de Andrade, Amílcar Cabral, Marcelino dos Santos, Noémia de Sousa e tantos outros.




-África Tabanka -

Eneida Marta, cantora guineense, de voz maravilhosa, 
que já trouxe ao Xaile, noutras ocasiões.



Bom fim de semana, meus amigos.

Abraços
Olinda


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Queira ver:
*Francisco José Tenreiro - Poeta, académico e político arbitrariamente expatriado, 
por Gerhard Seibert - daqui
*Francisco Tenreiro - A angústia de um poeta dividido - daqui

Poema: daqui