quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Dia Mundial da Música - Acordai

Uma manifestação original à porta do Ministério da Educação contra a falta de colocação de 48 professores na Escola de Música do Conservatório Nacional. Então, foi mesmo com as ferramentas, os utensílios - os instrumentos musicais e as vozes. Embora por motivos que não devem repetir-se, i.e., falhas na gestão deste ano lectivo, tivemos o ensejo de ouvir Acordai, de Fernando Lopes Graça, que já no ano passado tinha sido entoado pela cantora lírica, Ana Maria Pinto, frente à Assembleia da República, também em protesto. 

ACORDAI!



Do mesmo modo, o grupo interpretou o Hino Nacional, um dos símbolos da República, que anda muito esquecido. Lembremo-nos que o dia 5 de Outubro, Implantação da República, foi um dos feriados eliminados pelo governo, em 2012.

sábado, 27 de setembro de 2014

Para que um dia as nossas mãos se unissem...































Quanto caminho não haveria de ser percorrido, desde os primórdios, na lonjura dos tempos, nos incomensuráveis e insondáveis dias que nos precederam: Adão, a palavra, o hexâmetro, os espelhos. O infinito linho de Penélope. O tempo dos estóicos. O mar aberto. O ávido ouro. Cada remorso e cada lágrima. As causas, elas aqui estão:

As Causas


Todas as gerações e os poentes. 
Os dias e nenhum foi o primeiro.
A frescura da água na garganta
De Adão. O ordenado Paraíso.
O olho decifrando a maior treva.
O amor dos lobos ao raiar da alba.
A palavra. O hexâmetro. Os espelhos.
A Torre de Babel e a soberba.
A lua que os Caldeus observaram.
As areias inúmeras do Ganges.
Chuang Tzu e a borboleta que o sonhou.
As maçãs feitas de ouro que há nas ilhas.
Os passos do errante labirinto.
O infinito linho de Penélope.
O tempo circular, o dos estóicos.
A moeda na boca de quem morre.
O peso de uma espada na balança.
Cada vã gota de água na clepsidra.
As águias e os fastos, as legiões.
Na manhã de Farsália Júlio César.
A penumbra das cruzes sobre a terra.
O xadrez e a álgebra dos Persas.
Os vestígios das longas migrações.
A conquista de reinos pela espada.
A bússola incessante. O mar aberto.
O eco do relógio na memória.
O rei que pelo gume é justiçado.
O incalculável pó que foi exércitos.
A voz do rouxinol da Dinamarca.
A escrupulosa linha do calígrafo.
O rosto do suicida visto ao espelho.
O ás do batoteiro. O ávido ouro.
As formas de uma nuvem no deserto.
Cada arabesco do caleidoscópio.
Cada remorso e também cada lágrima.
Foram precisas todas essas coisas
Para que um dia as nossas mãos se unissem. 

Jorge Luis Borges
    1899-1986 

Tempo para recordar Jorge Francisco Isidoro Luís Borges de Acevedo, nascido em Buenos Aires, em 1899, poeta, crítico literário, ensaísta. Li, há alguns dias, que a Câmara de Torre de Moncorvo, em parceria com a Universidade Nacional de San Martín, na Argentina, vai fazer um estudo genealógico sobre o escritor argentino, percorrendo 200 anos até às suas raízes. Consta que em 1850, o seu bisavô, Francisco Borges, saiu de Torre de Moncorvo, integrado numa expedição militar para o rio de la Plata e nunca mais regressou a Portugal. Aguardemos... 


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Poema: in "História da Noite" .Tradução de Fernando Pinto do Amaral.Citador
Ler também o Advento-aqui 
Imagem: 
La insondable pampa argentina-daqui

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Ideias que fundamentam a nossa filosofia de vida. São ideias que funcionam na realidade?

Por estes dias tenho lido um pouco sobre o Iluminismo, movimento intelectual posicionado em termos temporais no Sec. XVIII, mas parece que não, começa a partir de 1680 segundo alguns e segundo outros enraíza-se mesmo no Sec. XVI. Afinal que sabemos nós disto, quando é que o nosso pensamento inicia um processo capaz de espoletar uma onda de ideias que irá condicionar ou influenciar gerações futuras? Diz-se que este movimento terá terminado aquando das guerras napoleónicas, mas sabemos que não é assim. A prová-lo temos as suas reverberações veículadas pela Revolução Francesa (1789) e que ainda hoje inspiram países e pessoas, desejosos de uma vida de liberdade, que redigem as suas leis fundamentais nessa base, não se esquecendo dos dois outros itens: fraternidade e igualdade. 

São fascinantes estes pensadores. Procuram fundamentar as suas ideias no sentido de condicionar o governante num mundo criado por ele em que se considera detentor de um poder divino. De entre eles, destaco o nosso tão conhecido, Monsieur le Baron de Montesquieu. Ele é o homem que nos diz no seu L'Esprit des lois que para haver equilíbrio de poderes, uma limitação do poder, o mesmo tem de ser tripartido: poder legislativo, poder executivo, poder judicial. Independentes entre si mas que interagem no sentido de levar a bom porto o sentido de Estado. Nós sabemos que esta cláusula consta das Constituições dos países que se dizem livres e democráticos, assim como na nossa Constituição, a nossa Lei Fundamental, o nosso contrato social, se levarmos em linha de conta o pensamento de Jean-Jacques Rousseau (1762) e de outros antes dele como Thomas Hobbes e John Locke, que lançaram as suas sementes a germinar neste sentido. 

Mas paira no ar uma onda céptica: será que é mesmo assim? São ideias que funcionam mesmo? Na vida real existe uma teia de relações que enche o nosso íntimo de descrença. E não precisamos ir muito longe à procura de exemplos para fundamentar isso. É corrente pensar-se ou dizer-se que esta ou aquela decisão é uma decisão política, logo, dissociando-a da vida real, sabendo nós que é a própria política que condiciona a nossa vida. Todos os nossos passos como cidadãos são passos políticos. Se hoje estamos dominados pela hegemonia financeira, vendo a banca presente, praticamente, em todos os aspectos da economia, arruinando-nos em alguns casos, é nas decisões políticas que deveremos procurar a solução.  

Bom seria, realmente, que a Filosofia retornasse às nossas vidas, que a arte de pensar nos envolvesse, devolvendo às emoções o seu devido lugar. É o que falta antes de mais a esta Europa sem rumo...

Desejo um bom dia aos que por aqui passarem.