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quarta-feira, 26 de junho de 2024

Mudam-se os tempos...




Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo sobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto:
que não se muda já como soía...




Camões exprime neste soneto de modo inexcedível a 
amargura do homem que se sente envelhecer e 
sente a transformação da sua própria personalidade, 
em face das coisas que mudam sem cessar.

In Líricas, Selecção, prefácio e notas de Rodrigues Lapa.
Pg. 49


José Mário Branco


Mudam-se os tempos...



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Canção: versão do poema, de José Mário branco.

Comemoração, neste ano, dos 500 anos do nascimento de Luís de Camões.

quarta-feira, 19 de junho de 2024

Alma minha gentil...

 



Alma minha gentil, que te partiste

tão cedo desta vida, descontente,

repousa lá no Céu eternamente

e viva eu cá na terra sempre triste.


Se lá no assento etéreo, onde subiste,

memória desta vida se consente,

não te esqueça daquele amor ardente

que já nos olhos meus tão puro viste.


E se vires que pode merecer-te

alguma* cousa a dor que me ficou

da mágoa sem remédio de perder-te,


Roga a Deus, que teus anos encurtou,

que tão cedo de cá me leve a ver-te

quão cedo de meus olhos te levou.


Luís de Camões


O soneto mais famoso de Camões. Parece ter sido também dedicado à morte de Dinamene. Dizia Machado de Assis que "tem a simplicidade sublime de um recado mandado ao Céu".

Inspirando-se em modelos italianos (Petrarca, Sannazzaro), o nosso Poeta excedeu-os a todos e soube, neste soneto, exprimir com a maior perfeição "o sentimento predominante da raça, a saudade" (Joaquim Nabuco).

In Líricas - Selecção, prefácio e notas de Rodrigues Lapa.

Pg 53


MUNDO ESCURO


SAUDADE


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No livro, a grafia: algua, com til sobre o u (impossibilidade de mantê-la com este teclado)

.Música do presente...

.Comemoração, neste ano, dos 500 anos do nascimento de Luís de Camões

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Dina...mene




Quando de minhas mágoas a comprida
maginação os olhos me adormece,
em sonhos aquela alma me aparece
que para mim foi sonho nesta vida.

Lá numa* soïdade, onde estendida
a vista pelo campo desfalece,
corro para ela; e ela então parece
que mais de mim se alonga, compelida.

Brado:- Não me fujais, sombra benina!
Ela, os olhos em mim c'um brando pejo,
como quem diz já não pode ser,

Torna a fugir-me. E eu gritando:- Dina...,
antes que diga mene, acordo, e vejo
que nem um breve engano posso ter.




O belíssimo soneto dirige-se a uma das amadas de Camões, talvez aquela rapariga chinesa que morreu no mar, num naufrágio na costa da Cochinchina, de que por dita escapou o poeta. Camões deu-lhe o nome poético de Dinamene e dedicou-lhe alguns dos seus mais perfeitos sonetos.

Neste, vê em sonhos essa sombra benigna, que foi das coisas mais suaves da sua vida, uma nota de amorosa mansidão na sua existência turbulenta.

In Líricas - Selecção, prefácio e notas de Rodrigues Lapa.
pg 52


MARO


Saudade, Saudade




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* "nua" (numa) com til sobre o u, no livro (neste teclado o til sobre o u não existe)

Nota: Imagens e música do presente, está tudo ligado...

. Comemoração, neste ano, dos 500 anos do nascimento de Luís de Camões

quarta-feira, 5 de junho de 2024

Raquel e Jacob




Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assi negada a sua pastora,
como se não a tivera merecida,

Começa de servir outros sete anos,
dizendo: - Mais servira, se não fora
pera tão longo amor tão curta a vida!




Um dos mais apreciados e imitados sonetos do poeta. Quis ele tratar poeticamente o tema da fidelidade e constância do amor. Achou no Velho Testamento a velha história de Jacob, e, enchendo-a de graça e poesia, produziu uma pequena obra-prima. Não há nela rapto lírico; corre tudo num descritivo suave, rematando só no fim pela exclamação do fiel pastor.

In Líricas - Selecção, prefácio e notas de Rodrigues Lapa
pgs 53/54



TONICHA


MENINA



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.Imagem:net

.Comemoração, neste ano, dos 500 anos do nascimento de Luís de Camões

quinta-feira, 30 de maio de 2024

Busque amor novas artes...



Busque amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças:
que não temo contastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
amor um mal, que mata e não se vê;

Que dias há que na alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói e não sei porquê.




Dizia com razão Faria e Sousa que os 11 primeiros versos deste soneto eram dignos do seu mestre, Camões, mas que o último terceto era digníssimo de Apolo, o deus que presidia à inspiração poética.
 
Efectivamente, o soneto versa de modo engenhoso e subtil as vicissitudes do amor e o papel da esperança nesse jogo arriscado, que o poeta compara ao naufrágio dum mar temprestuoso. Às esquivanças do amor o namorado opunha, ou fingia opor, um certo desprendimento, vizinho da indiferença. 

Pura ilusão: era uma "perigosa segurança", que o amor, avesso à indiferença, se encarregava de desfazer, instilando-lhe na alma os germes do sofrimento.

In Líricas, Selecção prefácio e notas de Rodrigues Lapa
Pg.46




- Miragem -



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Lembro-me desta canção numa telenovela brasileira...Gosto muito dela.

. Comemoração, neste ano, dos 500 anos do nascimento de Luís de Camões