Concentro-me então
deste lado. Agora vejo pontos negros além e mais encorpados à medida que os
meus olhos se ajustam tentando fitá-los de mais perto. Noto que o rio se afastou das
margens. Para onde terá ido? À vista dos bancos de areia penso, talvez
erradamente, que poderia atravessá-lo a pé. Mas, afinal, aquilo que eu vejo são pessoas num labor
incessante, enterradas quase meio corpo no lodo. Dali retiram algo, manejam uma coisa qualquer, não o sei o quê. Descubro uma
figura de mulher, dobrada pela cintura. Noto-lhe um casaco
vermelho e um avental. Mais ao longe há dois ou três barquinhos. Vislumbro junto a
eles figuras com água pela cintura.
Compreendo
que não há tempo a perder. Assim, a labuta. Não tarda nada o rio volta para o seu leito. Num
acto de cumplicidade e solidariedade ele concede às frágeis e difusas criaturas tempo para retirar do seu lodo enriquecido aquilo de que precisam. Nem sempre
esse tempo é suficiente. Embebidas naquele trabalho que se me afigura sofredor
mas fundamental para a sua subsistência, esquecem-se muitas vezes que a água
tem de seguir o seu curso. E por lá se deixam ficar, correndo sérios riscos.
Quando à tarde volto, o rio já é de novo rei e senhor do seu espaço. A
maré-cheia está implantada. O sítio escuro e lodoso transforma-se numa bela extensão
de água e na sua superfície espelha-se o céu. As pernaltas e as outras estão
pousadas nas salinas. Tudo tão calmo. Tranquilo. Uma coisa linda.
Dias virão em que essa ordem será alterada, quando as máquinas esventrarem o solo, umas, e outras torpedearem os ares, espantando a vida que se renova todos os dias no estuário. Ou não?
Dias virão em que essa ordem será alterada, quando as máquinas esventrarem o solo, umas, e outras torpedearem os ares, espantando a vida que se renova todos os dias no estuário. Ou não?
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1ª imagem: daqui
2ª imagem: daqui
3ª imagem: daqui

