Na verdade, quase todos os observadores da época estão de acordo em como a população que vivia à roda do cais tinha uma vida nhanida, se não mesmo miserável, o que qualquer pessoa poderia observar à simples entrada de um barco no porto: Quando chegavam, cita Duncan, eram rapidamente rodeados por pequenos botes conduzidos por um magote de remadores que tentavam escapar a vida vendendo frutas, doces, e curiosidades da terra. ...
Mas essa vida miserável estava longe de ser exclusiva da ponta de cais. Em boa verdade não diferia muito da vida na cidade que por sinal nunca viria a gozar de boa fama, nem nas demais ilhas do arquipélago, que a consideravam uma terra de perdição, nem junto dos estrangeiros que a visitavam: "O passageiro ou tripulante que aventura desembarcar (em Mindelo) é logo rodeado por um pequeno exército de pedintes, alcoviteiros, prostitutas e vagabundos, sem mencionar os cicerones, os rapazes de recado e os chulos que se aglomeram junto ao infeliz visitante com uma persistência única", disse um viajante. (...)
Para se conhecer bem a vida da cidade nesse "tempo, aparentemente longínquo, arcaico e morto", mas que "apresenta-se afinal portador de inúmeros paralelismos com os vivos e prementes problemas da nossa época, isso mesmo salvaguardando a individualidade específica de cada período histórico", nada melhor que ler o autor destas palavras, o sociólogo-historiador caboverdiano António Carreira e Silva no seu expressivo livro "Nos tempos do Porto Grande do Mindelo".
De todo o modo, durante cerca de 50 anos Mindelo vive uma aparência de bem estar, para o qual no entanto a população trabalhadora paga um preço exagerado (...)
GERMANO ALMEIDA - Viagem pela História de S.Vicente - pgs 29, 30, 31
Os antigos contam sobre esses dias de cicerone, dos barcos,
do Porto Grande, e também de miséria.
Abraços, amigos.
Olinda
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imagem: Net
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