Colhes uma braçada de alecrim e entras em casa.
O coração bate em todas as paredes. Acolhes a intimidade, da penumbra, o cheiro da lavanda em cada canto, a pulsação do passado. Quase tocas as faces familiares presas ao inquietamento das janelas fechadas. O desvio arbitrário dos dedos contorna a trama tecida na memória, sobre os nomes sem voz, afeiçoados à morte.
Insinuada na linguagem do sangue, a casa permanece. Esta, onde entras para te reencontrares. Olhas os móveis. Fitas os olhos no chão e o soalho range com o aperto do olhar, como um eco dos teus passos. Demoras-te. Entregas-te à irrealidade de pretéritos rumores, ao alarme de uma distância que não alcanças.
E recuperas o deslumbramento de seres criança e de saberes que de qualquer janela se pode ver o mar.
Graça Pires - Poemas Escolhidos (2012-2025) - pg 202
Gosto muito dos poemas de Graça Pires, uma das melhores poetisas que tenho lido. Agora, neste ano, saiu um livro com poemas escolhidos dos anos de 2012-2025, livro precioso cuja leitura nos leva a momentos de puro enlevo.
Este poema, escrito em forma de prosa, foi retirado do livro "Antígona passou por aqui", que conta a vida de Antígona no jeito pessoalíssimo de Graça Pires.
Muito obrigada, amiga, por nos trazer esta bela forma de escrita.
Blog: Ortografia do Olhar
Abraços, amigos.
Olinda
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imagem: pixabay
imagem: "Antígona" Wiki
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