segunda-feira, 8 de setembro de 2014

No princípio era o Verbo...


Havia somente as aves de rapina de garras afiadas as aves marítimas de vôo largo as aves canoras assobiando inéditas melodias...





Prelúdio

Quando o descobridor chegou à primeira ilha
nem homens nus
nem mulheres nuas
espreitando
inocentes e medrosos
detrás da vegetação.

Nem setas venenosas vindas do ar
nem gritos de alarme e de guerra
ecoando pelos montes.

Havia somente
as aves de rapina
      de garras afiadas
as aves marítimas
       de vôo largo
as aves canoras
       assobiando inéditas melodias.

E a vegetação
cujas sementes vieram presas
nas asas dos pássaros
ao serem arrastados para cá
pelas fúrias dos temporais.

Quando o descobridor chegou
e saltou da proa do escaler varado na praia
enterrando
o pé direito na areia molhada

e se persignou
receoso ainda e surpreso
pensa n´El-Rei
nessa hora então
nessa hora inicial
começou a cumprir-se
este destino ainda de todos nós.

Jorge Barbosa





HORA GRANDE

1

O mar sairá
Das nossas ilhas
Das nossas ruas
Das nossas casas
Das nossas almas...

0 mar irá para o mar
E limpos finalmente do lodo das algas
E libertos do sal do nosso sorriso de enteados
Seremos frutos de nós mesmos
Nascendo da barriga negra da terra...

2

Os náufragos
Do lago da nossa quietação
Erguerão os seus braços de todas as cores
E as suas mãos se fartarão
Da luz de um poente maduro!

0 negreiro estará perdido na légua do tempo
Porque a alma das nossas vozes
Não morrerá no fundo dos porões...

A fome não se alimentará da fome
E voaremos nas asas do Sol
Com o destino na palma da mão!

3

Nas feridas do seu parto
As raízes do nosso umbigo beberão a seiva
E no ventre da "mamã-terra"

Germinarão as sementes das nossas certezas
E nos embriagaremos da carne dos seus frutos...

As crianças nascerão sem metas nos olhos
E as suas mãos sujar-se-ão
Do mel do nosso olhar...

As crianças serão crianças!
Negras e loiras e brancas
Serão pétalas da mesma flor...

Onésimo Silveira.




























Contradições do ilhéu. Há o mar que o circunscreve a um espaço em que só a linha do horizonte lhe permite sonhar, (o que haveria para além dessa linha?) e o mar que o levará a descobrir outros mundos. Nessa luta entre prisão e liberdade decorrem os seus dias entre incertezas e vontade de levantar voo.

Da janela do seu quarto, Dufinha contempla o mar calmo e a estrada de luz que lhe promete maravilhas.  À noite, as luzes da ilha vizinha, pontinhos brilhantes ao longe, trazem-lhe notícias, embora veladas, do fim do lago da nossa quietação. Levaria tempo...  


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Poemas : Jorge Barbosa, "Prelúdio"; Onésimo Silveira, "Hora Grande", do site

de António Miranda - aqui

1ª imagem - Ilha da Brava - Cabo Verde - Tema Biodiversidade - aqui

2ª imagem - Vulcão do Fogo Cabo Verde - erupção em 1995 - aqui
3ª imagem - Pormenor da Cidade da Praia em Santiago, Cabo Verde, a 1ª ilha a que os descobridores aportaram- aqui


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Ciclo Macaronésia

28 comentários:

  1. ƸӜƷ Hello chère Olinda

    MERCI pour ce partage ! C'est très BEAU !

    BISOUS D'ASIE !!! 。♡♡彡

    Bonne semaine ツ !!!! ≧^◡^≦

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  2. E assim se construiu o verdadeiro imaginário do povo Português...cada vez mais longínquo!

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  3. Tudo é muito difícil de ser entendível...
    O planeta Terra é ainda nalguns aspectos enigmático...mas simultaneamente
    maravilhoso...e o Homem nem sempre o trata bem, e daí muitas vezes
    a revolta...
    Gostei muito deste seu post.
    Bj.
    Irene Alves

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  4. Olinda, fizeste um excelente post.
    Gostei de tudo, poemas e fotos.
    Boa semana, querida amiga.
    Beijo.

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  5. Bonitos poemas. Pela paixão que nós portugueses sentimos pelo mar podemos avaliar os sentimentos dos ilhéus.
    Um abraço e uma boa semana

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  6. Muito boas escolhas, amiga, tanto de fotos como de poemas....

    Abraço grande

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  7. E de novo o mar sempre tão ligado ao nosso país, à nossa história, o mar que encanta, que amedronta que aprisiona; o mar que nos levou longe em viagens fabulosas , doloridas, tortuosas e para muitos, mesmo muitos, viagens sem volta. E mais uma vez, Olinda. me dás a conhecer dois escritores que desconhecia e que cantam o mar, elemento inseparável da nossa história de conquistadores. Obrigada, amiga, pela partilha e mais uma vez, desculpas pela minha ausência. Aos poucos as coisas vão ficando em ordem. Um beijinho e desejo-te uma boa semana, sempre com muita saúde

    Emília

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  8. A Olinda encontra sempre tesouros da Língua Portuguesa, totalmente desconhecidos por mim!
    Beijinhos, bom dia!

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  9. ❀ ❀ ❀
    Bonjour Olinda !

    MERCI pour tes mots et ton passage sur mon petit blog ce matin. Tu es ADORABLE !

    je te souhaite un agréable mardi !!!

    BISES D'ASIE jusqu'au Portugal
    ❀ ❀ ❀

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  10. "Aqueles que passam por nós, não vão sós,
    não nos deixam sós.
    Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós." (Antoine de Saint-Exupéry)
    Uma linda e abençoada semana.
    Beijos Marie

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  11. ~ ~ Uma inteligente e maravilhosa homenagem ao jovem país insular...
    ~ ~ Às suas gentes...
    ~ ~ E à sua cultura...

    ~ ~ ~ Tenho raízes na Macaronésia...

    ~ ~ ~ Parabéns pela qualidade e sensibilidade.

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  12. gosto das inspiradoras ilhas

    um abraço

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  13. A reflexão e introspecção que o início nos deixa, é sempre um bom momento para sabermos onde estamos a cada momento...

    :)

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  14. Bem vinda......Apreciei imenso mais este maravilhoso Post...
    É mais um.....outros virão..
    Boa semana
    Abraço

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  15. Maravilha de versos. Só encantamento. Quando leio poemas assim ricos, perco-me no mundo dos escritores e em suas colocações maravilhosas. É o sentimento que nos chega que faz crescer o amor pela leitura. A última estrofe da poesia de Onésimo Silveira contém um sonho de todos nós. Bjs.

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  16. É grande a Natureza, bem expressa nas suas imagens!
    Bjsss

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  17. Reflectivo e inspirador. As fotos são fabulosas.
    Adorei ler. :)
    Bj. D

    http://acontarvindodoceu.blogspot.pt

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  18. OI OLINDA!
    OS POEMAS SÃO LINDOS E AS IMAGENS NÃO MENOS.
    ABRÇS
    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

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  19. Querida amiga

    Às vezes as palavras
    se escondem em nossas vidas.
    Então,
    saímos em busca de inspiração
    nos lugares onde a amizade
    se faz preciosa,
    (lugares como este)
    pois são os amigos
    que guardam as melhores
    palavras de nossa vida,
    para nos devolver e inspirar
    quando estivermos distantes
    de nós mesmos...

    Obrigado por sua generosa amizade...

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  20. A Natureza é (tão) mais magnífica que a Humanidade sobretudo quando a Humanidade falha á Natureza.
    Belíssimos Poemas e imagens soberbamente adequadas.


    Beijos


    SOL

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  21. Querida Olinda,
    que bom encontrar aqui a beleza da lusofonia! E como sempre, minuciosa na apresentação e na análise.
    «É preciso partir, é preciso ficar.»

    Beijo

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  22. (•ิ‿•ิ)✿
    Un petit bonjour amical chez toi !

    GROS BISOUS D'ASIE et bon début de semaine ! :)

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  23. Trazer o princípio da vida insulana, de forma tão precisa e bela,é bem da Olinda!
    Poesia nas palavras e imagens, mais que encantadoras... Daqui, vou passear, por
    outras partes desse agradável espaço.
    Um beijo, querida amiga, de saudade e amizade.
    Lúcia

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  24. Olá, como está?
    Vim ver as novidades...
    Deixo
    Saudações Poéticas!

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  25. Dois magníficos poemas e umas fotos maravilhosas.
    Fizeste mais um grande post.
    Boa semana, querida amiga Olinda.
    Beijo.

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  26. Que belas imagens traçadas com letras!
    Beijinhos, boa tarde, ainda que chuvosa!

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