Calaram-se, com um golpe de olhos uma à outra. Não encontrando mais cadeiras vagas, Rosa Maria vinha precisamente sentar-se perto delas. Tão freneticamente a haviam aplaudido os rapazes - que a assembleia feminina, de princípio também benévola, imediatamente se mostrara reservada.
O triunfo da mestra de piano e lavores ia tomando proporções quase escandalosas. Já se vê! o caso não teria importância, em se tratando, isto é um exemplo..., de Lá-Lá: qualquer menina de meios, com pai e mãe vivos. Conquanto, porém, D. Alice Caldeira dissesse sempre "a minha sobrinha" (faça-se-lhe essa justiça), toda a gente mais ou menos pensava na sobrinha pobre de D. Alice como na mestrazita de piano e lavores...
Toda a gente conseguira já saber como vivera no Norte, em companhia da mãe, que até deixara de usar chapéu depois da morte do marido. e não era porque ser pobre fosse vergonha, isso não!(" a pobreza Deus a amou" repetia D. Piedade Passos, que se mostrava muito religiosa e tinha fama de avarenta), não era porque a pobreza fosse vergonhosa, quando honrada (e, a tal respeito, parece que nada havia a dizer sobre a vida que ambas tinham levado, pelo menos nada constara...), mas o certo é que os homens podiam pensar em se aproveitar! "Fugir sempre desses mafarricos!" proclamava a religiosa D. Piedade Passos.
Ao que a rude e implacável D. Rosinda Noronha contrapunha entre dentes: "Bem n-o prega Frei Tomás..." Aludia a que, tendo sempre andado muito metida pelas igrejas, D. Piedade chegara em tempos a andar falada com o padre Silveira
Pois é verdade!: os homens podiam querer aproveitar-se, tentar abusar, tanto mais que a rapariga se mostrava afinal um pouco leveira da cabeça; ou, então, andava estonteada naquele meio em que ainda propriamente não entrara, tendo prolongado para além do uso o luto da mãe..., essa verdade diga-se.
JOSÉ RÉGIO - Davam grandes passeios aos domingos (1941) - pgs 53, 54
A novela Davam Grandes Passeios aos Domingos centra-se na personagem Rosa Maria, destacando sua introspecção e sua alienação em relação ao mundo após mudar-se para viver com sua tia, depois da morte de sua mãe. Assim, José Régio explora a dinâmica social de como diferentes gerações da burguesia falam e interagem[4], enquanto também revela como o comportamento e as expressões das mulheres dessa época são moldados pelas fronteiras sociais estritas da sociedade burguesa. Comparada à história de Cinderela, a narrativa de Rosa Maria explora a psicologia de uma mulher pobre, órfã e complexa dentro da trama de Davam Grandes Passeios aos Domingos.
Poeta, ficcionista, dramaturgo, crítico e ensaísta, José Régio foi também o fundador e a alma da revista Presença órgão do Segundo Modernismo português, publicação que marcou de forma indelével toda a vida cultural portuguesa entre 1927 e 1940. (No Livro)
José Régio, o homem do Cântico Negro, nesta pequena história mergulha na alma da sociedade portuguesa, trazendo com maestria os defeitos e as virtudes que dela sobressaem.
Davam grandes passeios aos domingos será uma realidade ou apenas o desejo intrínseco que pairava nos sonhos de Rosa Maria?
====
Imagens - pixabay


Li-o há muito tempo e gostei muito da forma como o autor aborda a condição feminina decorrente de uma sociedade machista!
ResponderEliminarAbraço
Olá, querida Olinda, vir ao Xaile de Seda é a certeza de que encontramos sempre um bom texto literário, como este que você nos apresenta, nessa excelente postagem.
ResponderEliminarO livro, que você aborda deve ser de ótima qualidade,
principalmente para os que gostam de romances ou contos.
Obrigada, Olinda, pela ótima partilha.
Um bom final de semana, com muita paz, no seu querido Portugal.
Beijos.
Bom dia:- Acredito que o livro que aborda seja de uma leitura fácil e construtiva.
ResponderEliminar.
Saudações poéticas – Um dia feliz
.
“” Pensamentos e devaneios poéticos ““
.
Olinda o livro tem uma história suave, pode se dizer romântica, obrigada por compartilhar desejo uma ótima quinta-feira bjs.
ResponderEliminarAmiga Olinda, boa tardimha de paz!
ResponderEliminarQue história emocionante!
A religiosidade faz bem a tanta gente. É um bálsamo na solidão da alma par muitos.
Tenha dias abençoados!
Beijinhos fraternos
Olá, tudo bem?
ResponderEliminarEu não conheço o autor nem a obra, mas pelo pequeno trecho, parece-me uma ótima leitura.
abraços.
Olá, Olinda, muito interessante....bjs
ResponderEliminarInstigante história que lança luz sobre uma época, revelando como o comportamento e as expressões das mulheres eram moldados pelas fronteiras sociais estritas da sociedade burguesa.
ResponderEliminarGrata pela partilha. Bjss
Bom final de semana.
as as mulheres fronteiras sociais estritas da sociedade burguesa.
As tias, sobretudo as que nunca conheceram homem, ou se conheceram, tropeçaram num qualquer obstáculo que as reduziu à condição de amargas, foram a pior tragédia que podia suceder a uma moça frágil e desamparada, ataviada a fortes preconceitos sociais, religiosos e da própria inabilidade para viver e buscar a realização pessoal. Tem um excelente fim de semana, Olinda!
ResponderEliminarSempre a ganhar conhecimento, beijinho
ResponderEliminarEugénia
Excelente escolha.
ResponderEliminarÉ sempre um prazer ler José Régio.
Beijinhos e bom fim de semana
Nunca li o livro, mas fiquei curiosa.
ResponderEliminarIsabel Sá
Brilhos da Moda
Gracias amiga, por esta información. Me resultó muy interesante tu repaso sobre este libro, está muy bien comentado, es para tenerlo en cuenta.
ResponderEliminarNo conocía este autor.
Abrazos.