MAMÃE
Mamãe-Terra,
venho rezar uma oração ao pé de ti.
Teu filho vem dirigir suas súplicas a Deus Nossenhor
por ele
por ti
pelos outros teus filhos - espalhados
na superfície cinzenta do teu ventre mártir,
Mamãe-Terra
Mamãezinha,
dorme, dorme,
mas, pela Virgem Nossa Senhora,
quando te acordares
não te zangues comigo
e com os teus meninos
que se alimentam da ternura das tuas entranhas.
Mamãezinha,
eu queria dizer minha oração
mas não posso;
minha oração adormece
nos meus olhos, que choram a tua dor
de nos quereres alimentar
e não poderes.
Mamãe-Terra,
Disseram-me que tu morreste
e foste sepultada numa mortalha de chuva.
O que eu chorei!
Sinto sempre tão presente no meu coração
o teu gesto de te levantares
buscando o pão para as nossas bocas de criança
e nos dirigires a consolança das tuas palavras
sempre animadoras..
Eu procurei o teu túmulo
e não o encontrei.
E depois,
na minha dor de filho angustiado,
numa migalha de terra
no meio do mar.
Embarquei num veleiro
e fui navegando, navegando...
Não morreste, não Mamãezinha?
Estás apenas adormecida
para amanhã te levantares.
Amanhã, quando saíres,
eu pegarei o balaio
e irei atrás de ti,
e tu sorrirás para todo o povo
que vier pedir-te a bênção.
Tu não deitarás a bênção.
E eu me alimentarei do teu imenso carinho...
Mamãezinha, afasta-te um bocadinho
e deixa o teu filho adormecer ao pé de ti...
(In Claridade, n.2,1936)
Baltasar Lopes da Silva (1907-1989) foi um escritor, poeta e linguista de Cabo Verde que escreveu em português e em crioulo. Com Jorge Barbosa foi um dos fundadores da revista Claridade. Em alguns dos seus poemas usou o pseudónimo Osvaldo Alcântara. Encontra-se colaboração da sua autoria na revista luso-brasileira Atlântico.
Ver mais aqui
Humbertona -
Rapsódia de Mornas
Continuação de boa semana.
Abraços
Olinda
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Imagem: pxabay
Liberdade, Palavra e Futuro - Manuel Ribeiro Semedo - aqui
Homenagem a Humbertona - aqui
Lindo canto de clamor à Mamãe Terra. Bela escolha mais uma vez, Olinda! beijos,tudo de bom,chica
ResponderEliminarOlá, Chica
EliminarMuito obrigada pelo comentário.
A Mãe Terra que pela falta de chuva não consegue dar aos
seus filhos o pão nosso de cada dia.
Beijinhos
Olinda
Uma oração pedindo à " Mãe Terra " que não morra, que não abandone os seus filhos, que não se zangue com eles . Mas, a Mãe terra não morrerá, por mais que muitos dos seus filhos tentem matá-la, com tremendos desmandos; ela sabe que dela dependem tantos menininhos, que esperam dela o pão para a boca, a água para lhes matar a sede, a chuva para regar as sementeiras. Ela espera, parecendo adormecida, que tenham também piedade pelo seu sofrimento, mas, não desiste; acordará sempre para cumprir a sua obrigação de mãe carinhosa, dando de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede e que fazemos nós, querida Olinda?
ResponderEliminarPouco ou nada! Os desmandos continuam, as guerras não terminam e a miséria humana " é mais que muita "
Uma tristeza, Amiga. Vamos ter eleições no próximo domingo e as opções que temos são examinadoras; votarei naquele que me parece o " menos ruim". Políticos como antigamente, não existem , essa é a triste realidade,
Obrigada pela bela oração é parabéns pela mudança no blogue; ficou muito bonito. Deixo-te um beijinho e votos de boa saúde para todos vós
Emília 🌻 🌻
Obrigada, querida Emília.
EliminarA mudança de roupagem do blogue é obra da IA. :)
Beijinhos
Olinda
Desculpa...desanimadoras
ResponderEliminarO tablet tem a mania de escrever por mim...
Beijinho 🌻
Querida Emília
EliminarÉ sempre assim. Estes aparelhos já têm as palavras
prontinhas e é só dar-lhes o pretexto...
Realmente, nós os filhos, não temos normalmente em
atenção os esforços que a terra empreende para que
tenhamos o pão para a boca, a água e tudo o que é
necessário para a nossa subsistência. E se tiver a ajudar
pessoas que só têm em mente a cobiça, a coisa fica mais
feia.
Este poema, escrito em 1936, atravessa os tempos e, sejam
quais forem os motivos, aplica-se perfeitamente à nossa fome
de paz e de solidariedade.
No domingo temos o acto eleitoral e, sendo hoje o último dia,
ainda estou às cegas sem saber em quem votar.
Dias felizes, amiga.
Beijinhos
Olinda
Um texto profundo e necessário, que nos lembra que a Terra não é apenas chão — é mãe, é casa, é origem 🌍🤍
ResponderEliminarHá nas tuas palavras um apelo silencioso à consciência e ao respeito, sem moralismos, só verdade. Gostei especialmente do tom poético com que denuncias e, ao mesmo tempo, acolhes. Faz pensar. E isso hoje é ouro.
Com carinho,
Daniela Silva
alma-leveblog.blogspot.com
Olá, Daniela
EliminarMuito lindas as palavras com que comentas este poema de Baltasar Lopes da Silva.
E tendrazão a terra é mãe, é casa...
Beijinhos
Olinda
...tens razão...
EliminarAmiga Olinda, boa noite de paz!
ResponderEliminarUm vídeo que gosteu e estou ouvindo ainda.
Estive lendo e estudando um livro que fala da questão mãe... que feliz coincidência!
Aqui, sobre a Mãe Gaia, lá sobre algumas maternidade...
Nosso planeta precisa de que sejamos mães dele doravante... para que ele possa sobreviver.
Tenha dias abençoados!
Beijinhos fraternos
Olá, querida amiga Rosélia
EliminarSim, o nosso planeta precisa que o preservemos, não só para nós como para os vindouros.
A poluição é uma das maiores pragas para a natureza.
Amar as plantas, as flores, defendê-las, significa que teremos mais hipóteses de sobrevivência.
Beijinhos
Olinda
Lindo poema. Te mando un beso.
ResponderEliminarMuito obrigada, J. P. Alexander.
EliminarBeijinhos
Olinda
Há claridade, há esperança. Desde tempos idos que há preocupação com o que os homens têm feito com a Terra. Se o poeta ainda estivesse vivo imaginaria que deveria ficar em penitência, pois, a essa altura, saberia que uma oração não bastaria para sensibilizar seus pares. É preciso muito mais. Afinal, a oração é um apelo aos homens para que percebam os rumos ou o quanto a maltratam, e os sinais são visíveis: frio extremo de um lado; calor extremo do outro. Se nos demoramos a agir, as coisas se degringolam em definitivo. Sutil, ou metafórica, é a oração do poeta. A conversa é com os homens e a terra, silenciosa, na dor, é a sua interveniente.
ResponderEliminarLouve-se mais uma vez, Olinda, sua preocupação de Olinda em nos possibilitar a conhecer por meio de fragmentos, excertos, a história de Cabo Verde, para tanto nos tem inculcado um pouco da história da Claridade, revista que revolucionou os meios culturais da ilha. Numa semana, um poeta; na outra, outro; as mornas, a musicalidade da sua gente, e muito mais como se andássemos por suas terras. O vídeo, escolha cuidadosa que permite conhecer as belezas naturais de Cabo Verde, por extensão e, por extensão ainda, o que se perderia ou se perderá se os cuidados não forem começados “antes que seja tarde”.
Bravo, bravíssimo pelas partilhas.
A revista Claridade merece um estudo para que conheçamos com mais profundidade outras nuances da história de Cabo Verde.
Beijinhos, amiga Olinda. Sempre agradecido pelas partilhas!
José Carlos Sant Anna
Caro amigo José Carlos
EliminarHá claridade, há esperança...
Talvez este três homens, Manuel Lopes, Baltasar Lopes da Silva e Jorge Barbosa, acreditassem nisso ao fundar a Revista. Ou apenas tenha sido uma tentativa de despertar as pessoas para o que se passava. Anos de seca, desde o sec, XIX, a chuva que não vinha, a fome...
Em certa medida, o poema não é metafórico. Nas fomes de '40 e '50, muitas vidas foram ceifadas, principalmente em São Nicolau e Fogo. Por causa dessas fomes houve emigrações para a ilha de São Tomé, em forma de contrato, promovidos pela Administração colonial. Muita dessa gente foi para as roças, e não mais voltou para a terra.
Essa oração à Terra é uma forma de denunciar o que acontecia. Baltasar Lopes da Silva, escreveu o romance "Chiquinho", considerado o romance que marca a reviravolta literária em Cabo Verde.
Meu amigo, muito obrigada pelas suas palavras e por analisar com interesse esse passado das ilhas de Cabo Verde.
A música dolente e triste vem marcar os dias infortúnio.
Contudo, as pessoas são afáveis e amoráveis.
Bom fim de semana e saúde junto aos seus.
Beijinhos
Olinda
...estes três...
EliminarQue lindo, querida Olinda, não conhecia o poeta, parece uma oração, uma súplica á Mae Terra!
ResponderEliminarMas o que a coitadinha poderá fazer com tanta gente louca? Gente que na verdade, nunca cuidou dela, nenhum abraço de carinho e preocupação!!
Maravilhoso poema, querida.
Obrigada por trazê-lo para nós, Baltasar Lopes da Silva!
Um feliz fim de semana,
beijinhos.
Querida Taís
EliminarRealmente parece uma oração, uma súplica e a terra não poderia
fazer muito porque lhe faltava a chuva para a sementeira e para as
colheitas.
Também há esse outro aspecto da Terra que não é preservada e cuidada, caminhando cada vez mais para o desastre.
Bom fim de semana, amiga.
Beijinhos
Olinda
Querida Olinda,
ResponderEliminarHá tempos nos esquecemos da Mamãe Terra e não nos importamos com as mudanças climáticas e o quanto temos castigado esse planeta. Esse poema reforça a importância do cuidado e da preservação da Terra, pois dependemos dela para viver! Belo poema de Baltasar Lopes da Silva, um grande poeta e escritor.
Um abraço!
Olá, Alécio
EliminarSim, é verdade.
Esquecemo-nos frequentemente de que as mudanças climáticas
também se deve ao descaso com que tratamos o Planeta.
Muito obrigada pelo comentário, amigo.
Bom fim de semana.
Um abraço
Olinda
...também se devem...
EliminarOlá Olinda.
ResponderEliminarUm poema que é mais uma oração à nossa mãe Terra.
E ela escuta essa oração porque apesar de todas as maldades que lhe fazem ela ainda continua a acarinhar os seus filhos.
Um abraço e bom fim de semana.
https://rabiscosdestorias.blogspot.com
Olá, R.Correia
EliminarA Mãe-Natureza encontra sempre forma de se revigorar
para nos oferecer alimentos quando mais nada funciona.
Bom fim de semana, amigo.
Um abraço
Olinda
"Mamãe-terra", tão pleno de sentido e daquela africanidade maravilhosa que Baltasar Lopes da Silva tão bem nos traz.
ResponderEliminarAdorei lê-lo aqui.
E uma mudança tão suave, aqui no Xaile!
Beijo
Olá, querida Ana
EliminarSei que te interessas por este tema e que tiveste uma disciplina afim
com o Manuel Ferreira.
De forma que os "Claridosos" são conhecidos teus.
No próximo post trago Jorge Barbosa o último dos três.
Encontrei um texto que, penso, deve ter sido do tempo em
leccionavas.
Beijinhos
Olinda
Obrigada por teres reparado nas cores do "Xaile de Seda" :)
EliminarBj
Boa noite Olinda,
ResponderEliminarUm poema/ oração de Batasar Lopes da Silva, que também não conhecia, muito belo e comovente, dirigido com muita ternura à Mãe Terra, que cada vez mais é mal tratada e que, no caso de Cabo Verde, onde a água escasseia,
os seus filhos sofrem em silêncio, derramando lágrimas de dor por não poderem matar a sede e a fome dos seus.
África sempre me atraiu e sou muito sensível a todo o seu povo, a sua beleza, mas também ao sofrimento, que ainda hoje persiste.
Um beijinho e um bom fim de semana.
Emília
Olá, Cara Emília
EliminarPalavras que se adaptam optimamente a este poema de
Baltasar Lopes da Silva. Na actualidade, embora não se nade em
abundância, há outras formas de enganar as dificuldades. A pobreza é muita, mas os cabo-verdianos têm uma visão da vida muito peculiar. Embora o sofrimento ainda persista em África, espera-se
sempre pelo dia de amanhã.
Bom fim de semana.
Beijinhos
Olinda
Olá, amiga Olinda, agradeço-lhe a partilha desse extraordinário poema
ResponderEliminarde Baltasar Lopes da Silva, poeta natural de Cabo Verde, que tão bem representa sua África.
Votos de um bom fim de semana, amiga.
Abraços.
Olá, amigo Pedro
EliminarMuito obrigada pelas suas palavras.
Baltasar Lopes da Silva fez parte de um grupo de pessoas
que soube ler as tristezas do seu tempo.
Na Revista Claridade reconhece-se a conjuntura literário-cultural assinalada "pelo neo-realismo do romance brasileiro do Nordeste e certa poesia, marcada por um grande vigor telúrico, de poetas como Jorge de Lima, Manuel Bandeira e Ascêncio Ferreira” , diz Maria do Carmo Cardoso Mendes - UMinho.
Bom fim de semana, amigo.
Abraço
Olinda
Boa noite, amiga Olinda.
ResponderEliminarMais um autor que desconhecia, que aqui nos traz em boa hora, com mais um belíssimo poema!
É sempre importante conhecer autores que desconhecíamos. Como é o caso de Baltazar Lopes da Silva.
Uma bela homenagem à sua terra natal deste excelente poeta!
Gostei bastante.
Deixo os votos de um bom fim de semana, com tudo de bom.
Beijinhos, com carinho e amizade.
Mário Margaride
http://poesiaaquiesta.blogspot.com
https://soltaastuaspalavras.blogspot.com
Olá, Caro Mário
EliminarBonitas as suas palavras sobre este poema e Baltasar Lopes da
Silva.
Desejo-lhe um bom fim de semana, amigo.
Abraço
Olinda
Não conhecia o poeta. O poema é de uma sensibilidade bonita em relação à nossa "Mãe Terra", tão mal tratada pelos seus filhos ao longo da história.
ResponderEliminarA música é linda!! Bem, eu adoro solos de cordas. Simplesmente coloquei o fone no ouvido e me deixei levar pela música.
Olá, Eduardo
EliminarÉ mesmo.
Por mais anos que passem nunca aprendemos que tratar
bem a "Mãe-Terra" é para nosso próprio benefício.
Humbertona (Humberto Bettencourt Santos) foi um dos melhores intérpretes da música cabo-verdiana.
Abraço
Olinda
"[...]Mamãezinha,
ResponderEliminareu queria dizer minha oração
mas não posso;
minha oração adormece
nos meus olhos, que choram a tua dor
de nos quereres alimentar
e não poderes.[...]"
Um grito de nobreza Poética que Baltasar Lopes da Silva clama com fervor e dor.
Escolha de excelência Poética como a Olinda nos vem habituando.
Obrigado, Amiga.
Beijo,
SOL da Esteva
Caro Sol da Esteva
EliminarUm recorte excelente deste poema de Baltasar Lopes da Silva.
Leva-nos ao sentimento que nutria o poeta no tempo
em que procurava um outro sentido para a literatura cabo-verdiana.
Boa semana, amigo.
Beijo
Olinda
Se temos uma pátria (de pai), nada é mais certo do que ter uma mamãe-terra também.
ResponderEliminarNova tirinha publicada. 😺
Abraços 🐾 Garfield Tirinhas Oficial.
No dizer de Natália Correia, então é "Mátria".
EliminarMuito obrigada.
Irei ver a nossa tirinha.
Abraço
Olinda
...nova tirinha...
Eliminar