sexta-feira, 10 de junho de 2022

Sete anos de pastor Jacob servia

Poema para Luis de Camões
Meu amigo, meu espanto, meu convívio,
Quem pudera dizer-te estas grandezas,
Que eu não falo do mar, e o céu é nada
Se nos olhos me cabe.
... *





Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assi negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida;

começa de servir outros sete anos,
dizendo:-Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.

in Líricas-53/54



O Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas celebra a data de 10 de Junho de 1580, data da morte de Camões, sendo também este o dia dedicado ao Anjo Custódio de Portugal. Este é também o dia da Língua Portuguesa, dos cidadãos e das Forças Armadas. aqui


Muito temos a celebrar neste dia. Tenho escrito em outros anos várias considerações sobre o assunto, inclusivamente, sobre o Anjo Custódio de Portugal. Hoje trago um soneto que conta uma história de amor, e aproveito para deixar a indicação de um poema de José Saramago, homenageando Luís de Camões.


*Ei-lo aqui, na íntegra
Com análise de Saulo Gomes Thimóteo.




AMÁLIA


Meus amigos, tenham muito bom dia.

Abraços

Olinda



====

Imagem auspiciosa, com o título "O encontro de Jacob e Raquel"- daqui

Ler, se interessar:
"O Anjo Custódio do Reino" - no Xaile


domingo, 5 de junho de 2022

Loucura no feminino

Isabel Raflaia, como lhe chamavam, achava que a minha mãe lhe tinha roubado o marido e os filhos. Tudo era dela. A casa, todos os haveres. E dizia-o em grande espavento e alarido. Andava pelas ruas andrajosa, vivendo do que lhe davam, mas não esquecia o caminho da nossa casa. Minha mãe vivia horrores quando ela aparecia, um misto de receio e compaixão. Abrigava-a, punha-a confortável. Marcou de tal maneira a nossa infância, minha e dos meus irmãos, que penso nela muitas vezes. Com uma nota de ternura. 

Procuro adivinhar as suas vivências e desaires. Que voragem de loucura era aquela em que o cérebro lhe ditava tais fantasias? Procuro adivinhar se teria ou não momentos de lucidez. Se nesses momentos nos via como éramos, filhos de um casal conhecido. Ou se a sua solidão era maior do que a realidade.

E pergunto-me: O que se passaria naquela cabeça? Que confusões e que perdas não terá sofrido na vida que a levavam àquela obsessão?


Almada Negreiros


Por motivos semi-profissionais tenho de ler "A Louca de Serrano", de Dina Salústio, daí, talvez, esta revisitação de Isabel Raflaia. Contudo, vejo que não me é possível ler esse livro pois está esgotado. Procurei-o por cá, pedi a amigos que mo procurassem na terra da escritora e nada. Pessoa amiga falou com o filho dela no sentido de obter alguma informação sobre editoras ou livrarias. E nada. Contento-me, para já, com o que se diz dele. Ou com alguma crítica e apreciação que encontre por aí.

Mas é uma dificuldade. Não há um resumo sequer, disponível. Há informações de download grátis mas depois vêm as exigências de liberalização de dados pessoais. Quer dizer que não há almoços grátis, como se costuma dizer. Leio que o romance foi o primeiro escrito, em Cabo Verde, por uma mulher. Vertido para a língua inglesa por Jethro Soutar, ganhou o Prémio PEN Reino Unido de Tradução, o que encheu de orgulho o país, conforme comunicado do ministério da cultura e das indústrias criativas:
 

A distinção (…) é um orgulho para Cabo Verde e um reconhecimento à mais expressiva e original voz literária feminina do actual panorama literário cabo-verdiano. É também um estímulo às escritoras cabo-verdianas e à internacionalização da literatura, dos contos, e da prosa no feminino. aqui


Nas minhas deambulações virtuais encontro títulos aliciantes de recensões críticas como "Memória e loucura: o movimento da insularidade em A louca de serrano, de Dina Salústio", que diz uma ou duas palavras sobre o assunto e depois não dá acesso. 

Em "Vozes femininas na obra A Louca de Serrano de Dina Salústio" há uma maior abertura. Consta de quatro páginas e revela o seu propósito, que é analisar as construções de gênero que permeiam a obra de Dina Salústio, levando em conta tanto o conteúdo da obra quanto a figura autoral feminina. E, mais adiante,


Ao tomar a figura mítica da Louca como veículo para revelar as verdades que os serranenses insistem em tentar esconder, a autora constrói uma narrativa do feminino cuja potência reside justamente nessa retomada de poder e na superação de um lugar discursivo relegado à subalternidade. Essa estratégia de representação dialoga muito bem com o próprio trajeto das mulheres na literatura, que muitas vezes enfrentam o mesmo silenciamento ao adentrar o universo literário. Da mesma forma, ao representar os homens de Serrano como figuras que, por prepotência ou ignorância, se recusam a ver as ditas verdades, a autora se utiliza do artifício da ironia e de um humor sutil para desestabilizar e contestar o lugar de poder que eles ocupam. aqui


Almada Negreiros


Fiquei deveras empolgada quando encontrei isto: "Entre dois mundos: a loucura feminina nos romances A Louca de Serrano, de Dina Salústio, e O alegre canto da perdiz, de Paulina Chiziane". Também Paulina Chiziane foi a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique, "Balada de amor ao vento", com o qual foi galardoada com o Prémio Camões, neste ano de 2022. Em relação ao tema que hoje aqui me traz, diz o que se segue, (claro que gostaria de uma maior explanação):

A literatura de autoria feminina nas sociedades pós-coloniais é considerada por Gayatri C. Spivak um processo metonímico da saga das mulheres usado como ferramenta de denúncia, que possibilita a quebra de mitos e preconceitos há muito reforçados pelo discurso patriarcal. (...) O objetivo desta tese é investigar nos romances A Louca de Serrano e O alegre canto da perdiz, de Dina Salústio e Paulina Chiziane, respectivamente, como se constrói a temática da loucura, representada pelas mulheres africanas (e personagens) Louca de Serrano e Maria das Dores (louca do rio), que pode ser compreendida como uma voz carregada de solidão, dor, negação, rebeldia e inconformismo e como marca de resistência à marginalização feminina nas e pelas práticas sociais hegemônicas. aqui


E pronto, fico por aqui. Resta-me pedir à autora que tenha a fineza de mandar fazer uma nova edição do referido livro, que parece ter sido muito limitada. Portanto, um apelo:

Dina Salústio, há quem queira ler "A Louca de Serrano"!


Meus amigos, tenham muito bom dia.

Abraços

Olinda


===

Nota:
Veja aqui, no Xaile de Seda, dois belos poemas de Almada Negreiros, ilustrados com trabalhos seus:

Reconhecimento à Loucura
Rio-me sim rio-me do que fazem

 

sexta-feira, 3 de junho de 2022

ENCONTRO





Que vens contar-me
se não sei ouvir senão o silêncio?
Estou parado no mundo.

Só sei escutar de longe
antigamente ou lá para o futuro.
É bem certo que existo:
chegou-me a vez de escutar.

Que queres que te diga
se não sei nada e desaprendo?
A minha paz é ignorar.

Aprendo a não saber:
que a ciência aprenda comigo
já que não soube ensinar.

O meu alimento é o silêncio do mundo
que fica no alto das montanhas
e não desce à cidade
e sobe às nuvens que andam à procura de forma
antes de desaparecer.

Para que queres que te apareça
se me agrada não ter horas a toda a hora?
A preguiça do céu entrou comigo
e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.

Para que me lastimas
se este é o meu auge?!
Eu tive a dita de me terem roubado tudo
menos a minha torre de marfim.

Jamais os invasores levaram consigo as nossas
torres de marfim.

Levaram-me o orgulho todo
deixaram-me a memória envenenada
e intacta a torre de marfim.

Só não sei que faça da porta da torre
que dá para donde vim.

(1893-1970)



José Sobral de Almada Negreiros foi um artista multidisciplinar português que se dedicou fundamentalmente às artes plásticas (desenho, pintura, etc.) e à escrita (romance, poesia, ensaio, dramaturgia), ocupando uma posição central na primeira geração de modernistas portugueses. aqui


Neste mês de Junho de 2022, assinala-se o 52º aniversário do falecimento de Almada Negreiros: 


O Homem-Espectáculo


Entrevista - 1968


====
Imagem: Duplo retrato, de Almada Negreiros, 1934-1936
Poema: aqui