sábado, 14 de agosto de 2021

A Real Barraca. O Palácio Nacional da Ajuda. A Calçada...

Real Barraca ou Paço de Madeira. Perturbado com a violência do terramoto (1755) que destruira o sumptuoso Paço da Ribeira, D. José I não quis arriscar. Preferiu mandar construir um Palácio em que não entrasse pedra e cal, o qual viria a  servir de residência da Corte por três décadas, até à data da sua completa destruição por via de incêndio, já no reinado de D. Maria I. O interessante é que no rescaldo descobriu-se que afinal havia alvenaria a suportar o segundo andar. 

Pormenor da Real Barraca

O Palácio Nacional da Ajuda ou de Nossa Senhora da Ajuda seria construído em substituição da referida Real Barraca, com início em 1795. O projecto inicial de estética barroca tivera profunda alteração em 1802, de inspiração neo-clássica, da autoria dos arquitectos Francisco Xavier Fabri e José da Costa e Silva. Funcionou como Paço Real com o rei D. Luis I (1838-1889), que aí se instalou definitivamente a partir de 1861. No vestíbulo, merecem destaque as 47 estátuas assinadas por artistas portugueses.

É hoje, em grande parte, um museu, estando instalados no restante edifício a Biblioteca Nacional da Ajuda, o Ministério da Cultura, a Galeria de Pintura do rei D. Luís I e a Direção Geral do Património Cultural. O Palácio e o Museu são geridos pela Direção Geral do Património Cultural e pela Presidência da República.


Lembro-me de, em 2008/09, ter lugar na Galeria do Rei D. Luís a exposição "Arte e Cultura do Império Russo nas Colecções do Hermitage, de Pedro o Grande a Nicolau II", exposição essa que tive o prazer visitar e  apreciar.

O Palácio foi sujeito a obras de requalificação, contando com nova Ala, inaugurada a 7 de Junho deste ano, pronta a acolher o futuro Museu do Tesouro Real que abrirá ao público em Novembro próximo futuro. Uma requalificação que incluiu a Calçada da Ajuda, totalizando 31 milhões de euros, a maior parte viabilizada pelo Fundo de Desenvolvimento Turístico de Lisboa. Previstos ainda a recuperação do pátio, das fachadas e dos espaços exteriores.

Diz-se que foi posto um ponto final na maldição relacionada com várias interrupções, redução das suas dimensões originais, várias tentativas de remate ao longo de 200 anos:


Citado pela Lusa, aquando da cerimónia de inauguração da nova Ala do Palácio Nacional da Ajuda, o arquiteto João Carlos Santos comentou, desta forma, a conclusão da obra: “Após mais de dois séculos do lançamento da primeira pedra, em novembro de 1795, pelo príncipe regente, D. João, e depois de várias vicissitudes na história trágica da construção do palácio, finalmente deu-se a coincidência de um grupo de personalidades ter tido a coragem de acabar com a maldição que sobre ele se abatia”. aqui

E como não há bela sem senão na semana passada veio a público, como sabemos, uma notícia insólita. Contrastando com a pompa e circunstância da inauguração da referida Ala do Palácio, temos na Calçada da Ajuda portas a metro e meio do chão, para gaúdio de nacionais e turistas... aqui e aqui

Mas diga-se, em abono da verdade: Consta que as casas estão desabitadas e que a GNR que as utiliza pontualmente entra pelas traseiras e que as respectivas portas vão ter a devida atenção até Novembro, de modo a poderem ser galgadas devidamente...para não se transformarem, permanentemente, numa real barraca, ou seja, numa grande anedota arquitectónica.

Há quem diga em relação ao Palácio e, já agora, à area envolvente: O que torto nasce, tarde ou nunca se endireita.

Penso que não será o caso.  


Bom fim de semana, meus amigos.

Abraços

terça-feira, 10 de agosto de 2021

O Ar Da Minha Dama



Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia, quand’ella altrui saluta,
ch’ogne lingua devèn, tremando, muta,
e li occhi no l’ardiscon di guardare.

Ella si va, sentendosi laudare,
benignamente d’umiltà vestuta,
e par che sia una cosa venuta
da cielo in terra a miracol mostrare.

Mostrasisì piacente a chi la mira
chedà per li occhi una dolcezza al core,
che ‘ntender no la può chi no la prova;

e par che de la sua labbia si mova
un spirito soave pien d’amore,
che va dicendo a l’anima: Sospira.



(A seguir, tradução de Jorge de Sena)

Tanto gentil e tão honesto é o ar
da minha dama, quando aos mais saúda,
que toda a língua de tremor é muda,
e os olhos não se atrevem de a fitar.

E ela perpassa, ouvindo-se louvar,
vestida de humildade e tão sisuda,
que se diria que, do céu transmuda,
à terra veio milagres comprovar.

E é graciosa tanto a quem na mira
que dá dos olhos tal ternura ao seio,
que entendê-la não pode o que a não sente.

E é como se em seus lábios fora ardente
um espírito suave e de amor cheio
que, sem dizê-lo, às almas diz: — Suspira.

(Encontrará aqui várias outras traduções do soneto, contando-se entre elas uma de Vasco Graça Moura. 
Veja de qual gosta mais.)


Dante Alighieri, 1265-1321, foi um escritor, poeta e político florentino. É considerado o primeiro e maior poeta da língua italiana, definido como il sommo poeta. Disse o escritor e poeta francês Victor Hugo (1802-1885) que o pensamento humano atinge em certos homens a sua completa intensidade, e cita Dante como um dos que "marcam os cem graus de gênio". E tal é a sua grandeza que a literatura ocidental está impregnada de sua poderosa influência, sendo extraordinário o verdadeiro culto que lhe dedica a consciência literária ocidental. Leia mais aqui

Consta que Beatriz de Folco Portinari teria sido a grande musa de Dante na construção de La Divina Commedia, a sua epopeia teológica.






Boa semana, meus amigos.

Abraço


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Poema: in 'Poesia de 26 Séculos, Jorge de Sena'
Imagem:
"Dante e Beatrice no jardim", 1903, obra de estilo pré-rafaelita
do pintor italiano Cesare Saccaggi.

domingo, 1 de agosto de 2021

O que é suposto fazer?

A loja está apinhada de gente, acotovelando-se quase. E eu ali com o bebé de um ano ao colo, aliás, enfiado num suporte no meu lado direito. De repente, tenho um baque, sinto-me estranha e desconfortavelmente leve desse lado. Já em pânico, verifico o que temia. Tinham-me tirado o menino. Olho à volta meio perdida e vejo que muitos dos rostos são conhecidos. O que estariam ali a fazer? Pergunto se viram quem me tinha levado o bebé e noto desinteresse e indiferença. Sinto que aquilo não tinha acontecido por acaso. E dá-me a impressão de alguém estar a dizer baixinho: eles vão tratá-lo bem. Saio a correr desorientada pela rua do Conde Redondo acima. E agora o que é que eu faço? O que é suposto fazer-se num caso destes? Ah, já sei, vou à Polícia. Começo por perguntar a um homem que vinha a descer a rua onde era a esquadra, pôs-se a esbracejar, afastando-se rapidamente. Encontro um rapaz e uma rapariga a quem faço a mesma pergunta, mas debalde. Encolhem os ombros pura e simplesmente. Seriam estrangeiros? Devo estar com ar tresloucado. Atravesso a rua e vou de roldão por ela abaixo. Não quero ligar para casa, não quero causar alarido nem preocupações, mas que remédio? Paro por instantes, abro a mala, está vazia, telemóvel e documentos, carteira, nada. Entro numa lojinha, vejo outra cara conhecida. E peço: por favor, deixe-me ligar do seu telemóvel, estou numa aflição. Num gesto moroso que dura uma eternidade, estende-me o aparelho. Ligo o número, nem um som sequer. Volto a ligar. O mesmo resultado. E digo-lhe: o telemóvel não dá, veja se pode ligar para este número. Com os mesmos vagares, ela pega num cabo, liga-o ao telemóvel e diz-me: é que convém não ficar registado...e pisca-me um olho cúmplice. Dos confins da terra oiço a voz da minha filha: Mãe, o pequeno-almoço é às nove. Abro os olhos, cansada, extenuada, esbaforida e ... vejo-a com o bebé ao colo. Uff!!!


Boa semana, meus amigos,

Abraços

Olinda


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Imagem - daqui