quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Fomos deixando de escutar

O que fazer deste dia lindo, cheio de sol e calor? Agora que se acabaram as férias, que as aulas começaram e que tudo parece ter recomeçado, a opção é ficar fechada no escritório ou encafuada na lida da casa? Talvez não. O caminho talvez seja reaprender a escutar os sons que nos envolvem dos quais nem sempre fazemos caso. Leiamos, a propósito, este lamento de Mia Couto, que, provavelmente, não nos deixará indiferentes:

Me entristece o quanto fomos deixando de escutar. Deixámos de escutar as vozes que são diferentes, os silêncios que são diversos. E deixámos de escutar não porque nos rodeasse o silêncio. Ficámos surdos pelo excesso de palavras, ficámos autistas pelo excesso de informação. A natureza converteu-se em retórica, num emblema, num anúncio de televisão. Falamos dela, não a vivemos. A natureza, ela própria, tem que voltar a nascer. E quando voltar a nascer teremos que aceitar que a nossa natureza humana é não ter natureza nenhuma. Ou que, se calhar, fomos feitos para ter todas as naturezas.*

E se nessa tarefa de ouvir as vozes e os silêncios, numa viagem interior, reecontrarmos a nossa própria natureza em consonância com todas as naturezas de que somos capazes, então teremos renascido para uma leitura atenta do que nos rodeia, esquecendo os ruídos irrelevantes que se produzem por aí. Ruídos, palavras, que não nos tiram da bordeira, que não nos trazem nada de novo e não nos enriquecem. Excesso de informação e desinformação. Não há tempo para separar o trigo do joio.

Entretanto, um ruído diferente se me mpõe. Oiço um tic-tic, tic-tic-tic. Vou à janela. Vejo um homem jovem, de joelhos, não é bem de joelhos, sentado em cima das pernas, de costas  para o sítio donde o vejo, a pegar em paralelepípedos, um a um, pacientemente, e enterrá-los com dois toques e afagá-los, a esse e a outros já enterrados, com mais três toques. Depois de fazer isso durante um bom bocado ao fim do qual a obra vai crescendo, vem outro homem, mais velho, e atira terra por cima para preencher os intervalos. É a arte de calcetar. A arte de preparar o passeio por onde caminharemos sem nos lembrarmos do trabalho e sacrifício envolvido. Pego no telemóvel e registo esses momentos.

Desejo a todos, os que passarem por aqui, uma bela quinta-feira. E tratem bem do coração! :)

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*Em itálico, excerto de texto de Mia Couto, in: Pensatempos (Citador)

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Crianças em viagens trágico-marítimas*

Li ontem, algures, a efeméride da primeira viagem de circum-navegação, preparada e levada a cabo por Fernão de Magalhães, a 20 de Setembro de 1519, ao serviço do rei de Espanha. Magalhães perderia a vida em 1521, em Cebu, nas Filipinas, sendo a viagem completada por Juan Sebastián Elcano (1522). 

Lembro-me, a propósito, da obra de Laurence Bergreen, que li em tempos, "Fernão de Magalhães - Para Além do Fim do Mundo". Na página 120 e seguintes, lê-se sobre a estrutura social a bordo. Dos apontamentos que tirei na altura, respigo o seguinte:

"Reinava acima de tudo uma rigorosa divisão do trabalho. No fundo da escala estavam os pajens imputados aos serviços aos pares. Muitos pajens eram meras crianças, com apenas oito anos de idade; nenhum tinha mais de quinze anos. Eram vulgarmente órfãos. Nem todos os pajens eram iguais. Alguns tinham sido quase raptados dos cais de Sevilha e pressionados para irem servir;(...). Eram tratados com aspereza, explorados sem piedade, privados de um salário adequado e por vezes transformados em vítimas de predadores sexuais entre os membros mais velhos da tripulação. As suas tarefas incluíam esfregar os tombadilhos com água salgada e limpar depois das refeições e executar qualquer trabalho inferior que lhes fosse atribuído. (...)"



Infelizmente, essa situação não é única. Nos descobrimentos portugueses existem relatos de crianças levadas nessas viagens, cujo infausto destino quase se perderia nas brumas da memória. Exemplo disso: as crianças judias, cerca de 2000, arrancadas aos pais e enviadas para São Tomé e Príncipe, conforme nos refere Isabel Castro Henriques, em "São Tomé e Príncipe-A invenção de uma sociedade". Poucas resistiriam aos rigores da viagem, ao clima e aos maus- tratos.

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Leia mais: aqui, aqui e aqui
*Confesso o aproveitamento, da minha parte, da expressão "trágico-marítimas" lembrando-me da obra "História Trágico-Marítima", muito minha conhecida, colecção de relações e notícias de naufrágios, e sucessos infelizes, acontecidos aos navegadores portugueses, compilada por Bernardo Gomes de Brito e publicada em dois tomos, em 1735 e 1736 ,

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Um rosto de mulher




Um rosto de mulher 
é o meio que o coração encontra 
para manter a sua sede. 




Um chá, uma flor, uma paisagem, 
 uma romã aberta, 
 desaparecem na sombra 
se não houver um rosto de permeio. 




Não te queixes 
do que supões ausência. Por agora 
és tu que manténs o movimento. 





Sem isso 
nem o coração mais pulsaria.  

Assim falava Egito Gonçalves


José Egito de Oliveira Gonçalves, 1920-2001, poeta, editor, tradutor. Português.
Em 1995 obteve o Prémio de Poesia do P.E.N. Clube Português, o Prémio Eça de Queirós e o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com o livro E No Entanto Move-se. A sua obra encontra-se traduzida em francês, polaco, búlgaro, inglês, turco, romeno, catalão e castelhano.

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Poema - In: E no entanto move-se - Quetzal Editores, 1966
Imagens:Pixabay

sábado, 17 de setembro de 2016

Fim da Culsete?



É com esta interrogação que a Livraria nos comunica o seu encerramento, dizendo:

Uma das mais antigas livrarias independentes cessará a sua actividade durante o próximo mês de Outubro. 

Veja aqui os motivos.

Triste, não é?

Também nos informa que de 23 de Setembro a 2 de Outubro procederá a uma liquidação total.

E assim vai o mundo.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Cabo Espichel - Santuário de Nossa Senhora

Aqui tão perto e nunca me tinha disponibilizado a ir visitar o Cabo Espichel. Confesso que só contava com rochas escarpadas convidando a um mergulho incauto no mar imenso. Por isso, foi grande a minha surpresa quando vejo um conjunto imponente formado por uma bela Igreja ladeada por duas filas de vetustas construções, onde se nota o cuidado pela sua conservação. Na minha alegre e despreocupada ignorância, e com a imaginação no auge, considerei aquilo como sendo celas destinadas a monges que ali tivessem vivido em tempos idos.


Já os via ali a ler o breviário debaixo das arcadas, em contacto directo com aquele céu e batidos pelo vento, que naquele sítio não faz cerimónia nenhuma. Um de nós, dos mais jovens, exclamou: Ena pá, tantas chaminés! a que outro respondeu com esta dubitativa pergunta: Será que dormiam e faziam a comida ali mesmo? Ná, não ficámos convencidos. Felizmente, lembrámo-nos que tínhamos aprendido a ler, uns melhor que outros, e, com algum laivo de clarividência, alguém do grupinho familiar pôs-se a ler as letras gravadas nos sítios e outro a fazer uso do telemóvel, firmando o momento para a posteridade.



Ficámos a saber que se tratava do Santuário de Nossa Senhora do Cabo Espichel ou da Pedra Mua e que aquelas construções eram as habitações destinadas aos peregrinos, a Casa dos Círios ou simplesmente Hospedarias, um registo arquitectónico com base nas casas saloias. Fomos avançando por um carreiro, feito ultimamente, que leva à Ermida da Memória. Fica ali mesmo à beirinha para quem quiser aventurar-se no vazio, salvo seja, no lugar onde foi encontrada a imagem de Nossa Senhora, segundo a tradição. 


De referir que há protecções tipo corrimão, que se vêem um pouco ali ao fundo, mas nem isso impede algumas pessoas de serem demasiado afoitas, até irresponsáveis perante o perigo.

E a vista espraia-se à vontade. Ao fundo a linha do horizonte, mas dum lado e do outro as escarpas e o mar em recorte lá em baixo. Distingue-se um carro no meio das pedras. O que terá acontecido? Como é que foi lá parar? Mais um motivo para especulações. 




Mais para a esquerda, não muito distante, avista-se o Farol na sua forma hexagonal e os anexos. Também fazem parte desse complexo a Casa de Água e o Aqueduto. Ficarão para a próxima visita.




De regresso a casa descemos por Sesimbra para lanchar. Já lá tínhamos estado de manhã. Almoçámos no "Lobo do Mar". Bom peixe.

Desejo a todos uma boa semana.


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As fotos foram tiradas por nós. Impossível incluí-las todas aqui.
A última imagem foi retirada da Wiki.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Será isto o inferno de Dante?

O País continua a arder. Ainda não terminou um fogo e começa logo outro num ritmo alucinante, sem descanso para este povo que vê os seus pertences desaparecerem nessa voragem. Fogo que parece ter pernas, que salta de uma estrada para a outra e avança na vegetação como se fosse uma inundação, inundação mas de chamas. No outro dia fiquei boquiaberta a olhar para aquilo, não querendo acreditar nos meus olhos. E então o meu coração confrange-se perante a aflição das pessoas, desamparadas, com labaredas a aproximarem-se, de balde na mão, atirando a pouca água às paredes das casas, ao chão circundante. E o vento que não dá tréguas, numa dança brincalhona. E os bombeiros, vejo-os translúcidos mesmo no meio das chamas, confundindo-se com elas, também eles ajeitando as mangueiras, gritando mais mangueira, numa luta desigual e inglória. No fim, só cinzas e paisagem negra. Custa-me a acreditar que no meio disto haja o fito do lucro, como se ouve por aí. Seria muito cruel.