O País continua a arder. Ainda não terminou um fogo e começa logo outro num ritmo alucinante, sem descanso para este povo que vê os seus pertences desaparecerem nessa voragem. Fogo que parece ter pernas, que salta de uma estrada para a outra e avança na vegetação como se fosse uma inundação, inundação mas de chamas. No outro dia fiquei boquiaberta a olhar para aquilo, não querendo acreditar nos meus olhos. E então o meu coração confrange-se perante a aflição das pessoas, desamparadas, com labaredas a aproximarem-se, de balde na mão, atirando a pouca água às paredes das casas, ao chão circundante. E o vento que não dá tréguas, numa dança brincalhona. E os bombeiros, vejo-os translúcidos mesmo no meio das chamas, confundindo-se com elas, também eles ajeitando as mangueiras, gritando mais mangueira, numa luta desigual e inglória. No fim, só cinzas e paisagem negra. Custa-me a acreditar que no meio disto haja o fito do lucro, como se ouve por aí. Seria muito cruel.
sexta-feira, 9 de setembro de 2016
terça-feira, 6 de setembro de 2016
sol, praia, mar e...iodo
Este ano ainda não falei de praia, sol e mar. E o Verão já está quase no fim. Ainda temos dias bem quentes (como hoje) e mais hão-de vir. Pelo menos, assim o desejo. Contudo, ou muito me engano ou já se sente no ar fresco da manhã um cheirinho diferente, prenúncio do Outono.
Como vêem associei, no título, sol, praia e mar ao iodo. E porquê? Porque sempre que oiço falar em iodo penso logo em sol, praia e mar e que é em contacto com eles que poderei suprir as minhas necessidades em termos deste oligo-elemento. Não é bem assim. Hoje proponho-me deslindar o imbróglio.
Sabemos que o iodo é essencial ao bom funcionamento do nosso organismo. Mas conhecemos verdadeiramente a sua origem e importância? Para vós, poderá não ser novidade nenhuma mas, para mim, impõe-se-me organizar as minhas ideias, razão de ser do texto que abaixo produzo. Este não será exaustivo, mas apenas a adaptação de um artigo que li sobre o assunto e leituras complementares, bem como em função de alguma experiência pessoal.
Então, temos que:
Como vêem associei, no título, sol, praia e mar ao iodo. E porquê? Porque sempre que oiço falar em iodo penso logo em sol, praia e mar e que é em contacto com eles que poderei suprir as minhas necessidades em termos deste oligo-elemento. Não é bem assim. Hoje proponho-me deslindar o imbróglio.
Sabemos que o iodo é essencial ao bom funcionamento do nosso organismo. Mas conhecemos verdadeiramente a sua origem e importância? Para vós, poderá não ser novidade nenhuma mas, para mim, impõe-se-me organizar as minhas ideias, razão de ser do texto que abaixo produzo. Este não será exaustivo, mas apenas a adaptação de um artigo que li sobre o assunto e leituras complementares, bem como em função de alguma experiência pessoal.
Então, temos que:
Tendo sido descoberto no Séc. XIX, 1811, fortuitamente, em cinzas de algas marinhas pelo químico e fabricante de nitrato de potássio, Bernard Courtois, seria outro químico célebre, Louis Joseph Gay-Lussac que, três anos mais tarde, falaria pela primeira vez do iodo.
Esta palavra é formada a partir do grego iodes, que significa "com reflexos violetas", por alusão à cor do vapor que dele emana quando é aquecido. O iodo faz parte dos oligo-elementos* tal como o ferro, o zinco, o cobre e o selénio, que estão presentes nas células.
Esta palavra é formada a partir do grego iodes, que significa "com reflexos violetas", por alusão à cor do vapor que dele emana quando é aquecido. O iodo faz parte dos oligo-elementos* tal como o ferro, o zinco, o cobre e o selénio, que estão presentes nas células.
Metade do iodo que absorvemos fixa-se na tiróide, glândula endócrina situada na base do pescoço, que gera hormonas essenciais ao crescimento do nosso corpo e ao bom funcionamento do cérebro, e que permite também regular a nossa temperatura corporal. O iodo é absorvido ao nível do estômago e do duodeno.
Poder-se-ia pensar que as necessidades de iodo diminuem com a idade mas não, os contributos nutricionais aconselhados vão evoluindo, exigindo assim a percentagem* devida ao longo da vida. Verifica-se que na mulher grávida os níveis de iodo exigidos são maiores porquanto o corpo deve igualmente fabricar hormonas para o feto. Com efeito, uma carência em iodo pode conduzir a atraso mental em crianças, mas igualmente a problemas de crescimento.
Um défice de iodo, pode também originar bócio, irritabilidade, perda de peso, entre outros sintomas e o seu excesso gerar fadiga física e psíquica de forma persistente. O mau funcionamento da tiróide pode ser a causa de dificuldades de concentração, de faltas de memória, de perturbações do ciclo menstrual, de sensação de frio e de decréscimo da libido.
Por outro lado, poderá dar-se o caso de se pensar que somente os alimentos saídos do mar contêm iodo. É certo que o encontramos em peixes, frutos do mar e algas, mas existe também na carne, nos ovos, leite e queijo porque muitos animais alimentam-se de forragens enriquecidas com iodo. Encontramo-lo igualmente em certos legumes como a couve-flor, alcachofra ou espinafres;
Ou então que a flor de sal contém mais iodo que o sal de mesa ou que o sal grosso. O iodo é volátil, por isso tanto num tipo de sal como nos outros deixa apenas vestígios. Para que seja um sal bem provido de iodo é preciso que seja artificialmente enriquecido. Na embalagem poderemos ler esta menção: "sal iodado".
Mas, acima de tudo, é importantíssimo saber-se que:
A manutenção do nível correcto de hormonas tiroideias no sangue resulta de interacções entre a hipófise, o hipotálamo e a tiróide: Glândulas endócrinas de respeito, que trabalham noite e dia para o nosso bem-estar e excelência da nossa saúde.
A todos os que por aqui passarem, desejo uma bela terça-feira. Com o calor que vai estar é importante bebermos muita água. Diz-se que para uma boa hidratação deve-se beber uns dois litros de água, todos os dias.
=====
O texto: Uma adaptação minha do artigo L'iode, in Maxi, du 22 au 28 août 2016,
bem como outros contributos:Iodo e tiróide- Veja aqui, aqui e aqui
*Tabela 1 - Recomendações para ingestão de iodo. Idade ou Grupo Populacional OMS/DDR (μg/dia) Crianças 0 – 5 anos 90; Crianças 6-12 anos 120; Adultos > 12 anos 150; Gravidez 250; Lactação 250
OMS - Organização Mundial de Saúde; DDR - Dose Diária Recomendada
Imagens: Pixabay
Um défice de iodo, pode também originar bócio, irritabilidade, perda de peso, entre outros sintomas e o seu excesso gerar fadiga física e psíquica de forma persistente. O mau funcionamento da tiróide pode ser a causa de dificuldades de concentração, de faltas de memória, de perturbações do ciclo menstrual, de sensação de frio e de decréscimo da libido.
Por outro lado, poderá dar-se o caso de se pensar que somente os alimentos saídos do mar contêm iodo. É certo que o encontramos em peixes, frutos do mar e algas, mas existe também na carne, nos ovos, leite e queijo porque muitos animais alimentam-se de forragens enriquecidas com iodo. Encontramo-lo igualmente em certos legumes como a couve-flor, alcachofra ou espinafres;
Ou então que a flor de sal contém mais iodo que o sal de mesa ou que o sal grosso. O iodo é volátil, por isso tanto num tipo de sal como nos outros deixa apenas vestígios. Para que seja um sal bem provido de iodo é preciso que seja artificialmente enriquecido. Na embalagem poderemos ler esta menção: "sal iodado".
Mas, acima de tudo, é importantíssimo saber-se que:
A manutenção do nível correcto de hormonas tiroideias no sangue resulta de interacções entre a hipófise, o hipotálamo e a tiróide: Glândulas endócrinas de respeito, que trabalham noite e dia para o nosso bem-estar e excelência da nossa saúde.
A todos os que por aqui passarem, desejo uma bela terça-feira. Com o calor que vai estar é importante bebermos muita água. Diz-se que para uma boa hidratação deve-se beber uns dois litros de água, todos os dias.
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O texto: Uma adaptação minha do artigo L'iode, in Maxi, du 22 au 28 août 2016,
bem como outros contributos:Iodo e tiróide- Veja aqui, aqui e aqui
*Tabela 1 - Recomendações para ingestão de iodo. Idade ou Grupo Populacional OMS/DDR (μg/dia) Crianças 0 – 5 anos 90; Crianças 6-12 anos 120; Adultos > 12 anos 150; Gravidez 250; Lactação 250
OMS - Organização Mundial de Saúde; DDR - Dose Diária Recomendada
Imagens: Pixabay
sexta-feira, 2 de setembro de 2016
A mais linda declaração de amor
Em 2011, inseri aqui no Xaile de Seda uma carta intitulada "Meu amor querido*", a que chamei a mais linda declaração de amor. Retirei-a de "Cartas da guerra" que tinha acabado de ler, livro esse que me fascinou. De leitura envolvente, digo mesmo que tive muita pena quando cheguei ao fim.
"D'este viver aqui neste papel descripto - Cartas da guerra" não é um livro de António Lobo Antunes mas sim a publicação, pelas suas filhas, das cartas que escrevera à mulher durante o seu destacamento em Angola. Foi agora vertido em filme por Ivo Ferreira, estreado hoje.
O meu dilema é: vou vê-lo ou não? Receio perder a magia que a leitura das cartas me trouxe. Mas, darei notícias caso resolva este meu problema. Entretanto, ouçamos "Meu amor querido", numa bela interpretação de Margarida Vila-Nova, aqui.
*Intitulei o post de: "Meu querido amor" em vez de "Meu amor querido", mas já não me lembro porquê.
sábado, 20 de agosto de 2016
Sento-me então a olhar o rio
Sento-me
então a olhar o rio,
os meus
pensamentos formam cardumes
que
contra a corrente se insurgem
mas as
águas são inexoráveis;
olhando-as,
a superfície cintila,
propaga-se
como se fossem notas
de um
piano na garupa de um cavalo
que se
dirige para o mar.
O rio
bebe as cores da cidade,
sobre
elas eu abro o coração
em que
te encontras, as colinas
emolduram
as raízes que à terra
nos
ligam. Para os meus olhos
é um
momento de pausa: as coisas
que
interrogo não resistem à maré,
não dão
respostas; perdem-se no mar
Mas este
rio
já foi
longamente folheado, nele
escrevemos
o romance de amor
que nos
deu uma casa,
nos
cortou o cabelo, nos afastou
das
rugas, nos entregou o azul
(tecido,
nuvem, divã, janela...)
o voo
das artérias, lugar do corpo,
portas
que nos amanhecem, espelho
onde
fazemos fluir a vida. Acordes
da
guitarra que forja o horizonte,
que guia
o sinuoso voo das gaivotas
e
acaricia a pele que rasga atalhos
no
interior dos sonhos. Estarei
vivo
enquanto me guardar
teu
coração. E no seu lucilar,
esta
água imita o fogo
que
devora sombras e escombros,
libertando
a asa que no sangue
respira.
A foz está próxima,
mas o
horizonte é o teu olhar.
No
leitor do carro, a guitarra flexível
sublinha
o que divago; os acordes
disparam,
encontram-me na trajectória
do seu alvo. Egito Gonçalves
1920-2001
Mais uma vez, sento-me a olhar o rio nas asas de palavras que voam por sobre a cidade, qualquer cidade, e desaguam na foz, qualquer que seja. Ao fim e ao cabo a foz está próxima mas o horizonte é o teu olhar. Tudo perto e tudo tão longe. Somente o pensamento atravessa fronteiras e desfaz amarras.
Mas, o corpo que é terreno não se dissocia completamente do que o rodeia. Durante a noite oiço a tosse que não pára. Já a oiço também durante o dia. Afino os ouvidos e pergunto-me: Donde virá? Há alguém que sofre aqui perto. Mas em que prédio? Qual a porta? Cá por casa indago. Talvez seja alguém que mora sozinho e precise de ajuda. Como resposta invade-me a preocupação. E resolvo. Vou bater em porta em porta.
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Poema: In: A Ferida Amável
Imagem: Pixabay
sábado, 13 de agosto de 2016
Soneto da chuva
Quantas vezes chorou no teu regaço
a minha infância, terra que eu pisei:
aqueles versos de agua onde os direi,
cansado como vou do teu cansaço?
Virá abril de novo, até a tua
memória se fartar das mesmas flores
numa última órbita em que fores
carregada de cinza como a lua.
Porque bebes as dores que me são dadas,
desfeito é já no vosso próprio frio
meu coração, visões abandonadas.
Deixem chover as lágrimas que eu crio:
menos que chuva e lama nas estradas
és tu. poesia, meu amargo rio.
a minha infância, terra que eu pisei:
aqueles versos de agua onde os direi,
cansado como vou do teu cansaço?
Virá abril de novo, até a tua
memória se fartar das mesmas flores
numa última órbita em que fores
carregada de cinza como a lua.
Porque bebes as dores que me são dadas,
desfeito é já no vosso próprio frio
meu coração, visões abandonadas.
Deixem chover as lágrimas que eu crio:
menos que chuva e lama nas estradas
és tu. poesia, meu amargo rio.
Carlos de Oliveira
in: Terra de Harmonia, 1950
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Imagem: aqui
Poema: Trazido do Banco de Poesia -
Casa Fernando Pessoa
segunda-feira, 1 de agosto de 2016
Um momento tão perto
Traz um poema no coração: o labor agreste
de silvos amadurece nele as acres maçãs da água.
Esconde nas unhas um brilho solar.
O pó estival cruza-lhe os olhos brancos, molhados
por uma lágrima esquecida.
Os cabelos, ardidos pelo incêndio
dos pássaros, escondem o rumor dos pinheiros bravos.
Sobe ausente os degraus do verão, os ombros
tocados pelo azul grande do céu mediterrânico.
Nos seus gestos dançam margaridas, as mais antigas
palavras, a leveza distraída
de quem olha as pedras para reconhecer o rosto.
Tenho tanta sede,
diz, sentindo a doce melancolia
de quem se deita para amar a eternidade.
Agressor de ímpetos, deixa nela a perdida raiz
da terra, toda a solidão,
inacabada permanência.
A saudade é um amor impossível,
abstracta diz-lhe.
Eduardo Bettencourt Pinto
In: Um dia qualquer em Junho
pg.45
Poeta do seu ofício, Eduardo Bettencourt Pinto, sabe muito bem - como Mallarmé e muitos outros antes dele, como todos os verdadeiros poetas - que a poesia se faz com palavras, as palavras, diz ele, que "são a chuva nos olhos/do poeta,/a primeira sombra/da haste fascinada." Só com elas, por elas, deslocando-as, provocando-as, tentando-as, conseguirá convir-se todo o "fulgor solitário das chuvas".(...) Ser poeta é reinventar a frescura duas vezes: no modo como se vê o mundo e no modo como se entrega àquilo que se vê como se fosse a primeira vez. Eugénio Lisboa, in Prefácio do livro acima referido.
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Imagem: daqui
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