terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Trago os meus lábios salgados e algas no paladar. Mas também...Num desvão da alma ainda debruça uma varanda sobre um mar de auréolas.


Andam Palavras na Noite

Andam palavras na noite
Cansadas de me chamar.
Trago os meus lábios salgados
E algas no paladar.

Eu sou um grande oceano
Que só fala a voz do mar!
Mas já sinto o mar cansado
De pedir o luar ao céu
Que a Noite não lhe quer dar! 




Mãe Ilha

Foi isto outrora na ilha das fadas
Embrumada em hortênsias. Não sonhei.
Sobre as lagoas de águas encantadas
Dormiam os feios e não havia lei.

As vacas, nas colinas esfumadas
Ruminavam o eterno. Ali folguei
Na festa das crianças coroadas.
Reinava o Amor e não havia lei.

Dentro da música a casa repousava.
Minha mãe docemente penteava
Os meus cabelos e caíam pérolas.

Rumores longínquos da infância oclusa,
Que num desvão da alma ainda debruça
Uma varanda sobre um mar de auréolas

Natália Correia

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Hoje acordei com estes versos no pensamento. Também com uma ponta de nostalgia a envolver-me a alma. Mas olho lá para fora e vejo que o dia está convidativo, a chamar-me para um passeio refrescante.


A quem por aqui passar desejo qualquer coisa como a paz que estas palavras transmitem:


Dentro da música a casa repousava. 
Minha mãe docemente penteava
Os meus cabelos e caíam pérolas.


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Imagem: pixabay

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

O meu presépio vivo

Uma criança que é salva no Mediterrâneo entre quatrocentos e tal refugiados, que também são salvos, por marinheiros nossos. Um edil que premeia o nascimento de crianças para nos salvar do envelhecimento populacional e da desertificação do interior, apresentando-nos na sua festa vinte e seis infantes nascidos durante este ano. Uma criança de poucos meses violentada e morta em consequência por quem lhe devia protecção e cuidados. Um jovem homem que morre num hospital porque aos fins-de-semana não há cirurgiões da especialidade. 

São estes os casos, desta semana, que escolho para documentar a nossa capacidade de fazer o bem e o mal, cabendo a nós próprios, com o nosso livre-arbítrio, escolhermos uma coisa e não outra. Recolho em mim as alegrias e tristezas dos meus semelhantes, e Deus me dê o discernimento necessário para pensar com clareza em todos os dias da minha vida. 

Meus amigos, desejo-vos um Santo Natal. 




Um presente da amiga Gracita.

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domingo, 20 de dezembro de 2015

Caros leitores, por onde andais? Alguns de vós...

Comunico-vos que ontem perdi 13 seguidores e hoje mais um, totalizando, portanto, 14 seguidores. Deduzo que seja uma partida do blogger, dada a rapidez com que a coisa se tem feito e, também, porque há um outro blogue que ontem também se queixou do mesmo. Penso que esta sangria não ficará por aqui. Poderá acontecer que, com estas eliminações, não me cheguem aqui ao Xaile as vossas actualizações. Mas, não há-de ser nada...




E porque estamos na época natalícia ofereço-vos estas palavras de dois grandes poetas, que temos a honra de conhecer:

Chove. É dia de Natal

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.


Fernando Pessoa





Último Poema

É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.


Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os dióspiros ardendo na sombra.


Quem assim tem o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia.


Eugénio de Andrade

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Pois, é verdade. Não neva nem é Natal, mas como disse outro grande poeta, Ary dos Santos, Natal é quando um homem quiser. Pode ser hoje, qualquer dia, todo o ano.


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Imagens:Internet

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Ode aos Natais esquecidos



Eu vinha, pé ante pé, em busca da pequena porta 
que dava acesso aos mistérios da noite, 
daquela noite em particular, por ser a mais terna 
de todas as noites que a minha memória 
era capaz de guardar, com letras e sons, 
no seu bojo de coisas imateriais e imperecíveis. 
Tinha comigo os cães e os retratos dos mortos, 
a lembrança de outras noites e de outros dias, 
os brinquedos cansados da solidão dos quartos, 
os cadernos invadidos pêlos saberes inúteis. 
E todos me diziam que era ainda muito cedo, 
porque a meia-noite morava já dentro do sono, 
no território dos anjos e dos outros seres alados, 
hora inatingível a clamar pela nossa paciência, 
meninos hirtos de olhos fixos na claridade 
enganadora de uma árvore sem nome. 


Depois, o meu pai morreu e as minhas ilusões também. 
Tudo se tornou gélido, esquivo e distante 
como a tristeza de um fantasma confrontado 
com a beleza da vida para sempre perdida. 
Deixaram de me dar presentes e de dizer 
que era o Menino Jesus que os trazia 
para premiar a minha grandeza de alma, 
o meu desejo de ser bom para os outros. 
Passei a escrever sobre tudo isso, sofregamente, 
só para não ter de escrever sobre a saudade 
que esse tempo fugidio deixou em mim.

 
A árvore mirrou de frio num canto da sala, 
os presentes apodreceram no sótão da casa, 
juntamente com os doces da Consoada 
que ninguém teve vontade de comer, 
nem mesmo os mais gulosos como eu. 
Um homem de muita idade bateu-me à porta 
e depositou-me nas mãos um pequeno embrulho: 
«Eis o teu presente de Natal» — disse-me. 
Abri-o e vi um livro onde se contava 
toda a minha vida desde o primeiro Natal 
de que conseguia lembrar-me, tudo o mais esquecendo. 
Ali estava eu de pé, muito quieto, junto da árvore, 
à espera que alguém me viesse dizer 
que o céu era pródigo em revelações e dádivas. 
Era para lá que eu sonhava ir quando morresse. 



Quando Dezembro se aproximar do fim, 
lançarei pétalas ao vento como se tentasse 
semear o perfume do que fui enquanto acreditei. 
Talvez o homem volte com outro embrulho secreto, 
só para me dizer que esse é o livro que ainda me falta escrever. 
Então, juntarei os amigos, os filhos e os netos 
numa roda de luz à minha volta e direi do Natal 
o que os antigos diziam dos heróis e dos deuses: 
foi à sombra deles que nos fizemos homens. 
Quando eu partir de vez, lembrem ao menos 
a ternura do meu sorriso de menino 
quando a meia-noite soava no relógio da sala 
e eu acreditava ainda que a felicidade era possível. 

José Jorge Letria
-1951-


Jornalista.Político.Escritor.Português.

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Imagens crianças - pixabay
Poema - Citador

 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Pequenina

                                                       És pequenina e ris ... A boca breve
É um pequeno idílio cor-de-rosa ...
Haste de lírio frágil e mimosa!
Cofre de beijos feito sonho e neve!

Doce quimera que a nossa alma deve 
Ao Céu que assim te faz tão graciosa! 
Que nesta vida amarga e tormentosa 
Te fez nascer como um perfume leve!

O ver o teu olhar faz bem à gente ... 
E cheira e sabe, a nossa boca, a flores 
Quando o teu nome diz, suavemente ...

Pequenina que a Mãe de Deus sonhou,
Que ela afaste de ti aquelas dores 
Que fizeram de mim isto que sou! 

Florbela Espanca



Para a pequenina Leonor, neta da Maria, que faz hoje um aninho.

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"Roubei" a imagem do bolo aqui. Os meus agradecimentos.


segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

O cheirinho a canela, o tempo das especiarias e...a teleculinária

Hoje em dia não nos detemos muito a pensar no tempo em que as especiarias eram uma raridade na Europa. Pois bem. A partir dos Séculos XIV e XV começou a ampliar-se a demanda das terras encantadas que produziam essas espécies, incrementando-se as viagens às terras da misteriosa e longínqua Ásia, ou às "ilhas das especiarias" cuja localização muito poucos conheciam. Os percursos para lá chegar remontam, vejam só, aos gregos e aos romanos. São as famosas Rotas das Especiarias


A pimenta-do-reino, o cravo-da-Índia, a canela e a noz-moscada, eram os produtos mais procurados. Por via disso, como sabemos, eram caríssimos. Conferiam um gosto exótico à comida e, por outro lado, disfarçavam algum mau sabor, fruto das falhas na conservação alimentar, próprias da época. Viria o tempo em que, nas nossas casas, passaríamos a dispor de várias ferramentas de refrigeração e chegaríamos à suma facilidade de apenas carregar num botão para tudo acontecer.

O meu objectivo agora não é contar a história do contributo dos nossos bravos navegantes, que deram novos mundos ao mundo, mas tão-só falar um pouco do cheirinho a canela e da canela e da grande satisfação que isso me traz. Múltiplas recordações de aconchego, em especial nesta quadra natalícia, apresentam-se em todo o seu fulgor. 

Folheando uma Teleculinária, especial, de Novembro, encontro várias receitas e referências a ingredientes que definem os "sabores tradicionais". Entre eles, encontra-se a canela e uma receita de arroz doce que reza assim, em termos de ingredientes: 150g de arroz carolino, 125g de açúcar, 3 gemas, 7dl de leite, 1 casca de limão, 1 pau de canela, 2dl de água, Canela em pó q.b. 


A seguir vem a preparação.1.Leve ao lume a água, deixe ferver, junte o arroz e deixe evaporar. Adicione o leite previamente fervido com a canela e a casca de limão e deixe cozer. 2.Quando o leite estiver quase absorvido, junte o açúcar e deixe acabar de cozinhar. 3.Bata as gemas com um pouco de leite e adicione o arroz, mexendo até engrossar. Retire para um prato, deixe arrefecer, decore com canela em pó e sirva.

E agora dizem-me assim: Oh! grande coisa, quem é que não sabe fazer um arroz doce? Pois, digo-lhes uma coisa: Nem sempre me sai bem.Também não sou nenhuma especialista nestas lides. Contudo, a minha conversa ainda tem um outro fim. Por isso, trouxe para aqui a teleculinária.



Lembram-se do Chefe Silva, o homem que dominou as nossas aspirações, nessa área, durante muito tempo? Quando ainda não havia a profusão de programas de culinária como há actualmente, António da Silva já fazia os seus cooking shows, na RTP, privilegiando a cozinha tradicional portuguesa. Fundou a referida revista e escreveu vários livros de receitas. Faleceu no último mês de Outubro, dia 14. 

E para rematar isto, convidei o incrível Fausto, o cantor e compositor que sabe como ninguém trazer-nos sons e cheiros que nos levam em viagem aos recônditos reinos do gengibre, da pimenta, da canela..."e, se mais mundo houvera, lá chegara". Afinal, quem o não conhece? 

E é por aqui que ele nos leva: "Por este rio acima":

 

 (...)
Por este rio acima
Deixando para trás
A côncava funda
Da casa do fumo
Cheguei perto do sonho
Flutuando nas águas
Dos rios dos céus
Escorre o gengibre e o mel
Sedas porcelanas
Pimenta e canela
Recebendo ofertas
De músicas suaves
Em nossas orelhas
leve como o ar
A terra a navegar
Meu bem como eu vou
Por este rio acima

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-Imagem: Especiarias num mercado de Goa, Índia.
-Todas as imagens foram retiradas da Net.
-A imagem do arroz doce, diz a fonte, é arroz doce de leite creme. 
-"E, se mais mundo houvera, lá chegara".Canto VII (Parte I,14)-Lusíadas-L.Camões-aqui