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quinta-feira, 16 de abril de 2015

Abril - Mês da Prevenção dos Maus-Tratos na Infância

Vede, meus amigos, este é o mês dedicado à prevenção dos maus-tratos contra as crianças. Por amarga ironia, verificaram-se, por cá, nos últimos dias, actos aterradores contra alguns destes seres frágeis e inocentes. 

Perante esta realidade e por tudo o que tem acontecido ao longo dos anos, temos de tomar consciência de que somos todos responsáveis. Onde quer que haja uma criança em risco é onde deveremos estar, deixando de ser um reduto dos procriadores e passando a ser, pura simplesmente, um espaço de intervenção pública. E não vale virar a cara ao problema, porque é um problema grave que precisa ser solucionado.

Há instituições afectadas a esta área? Há. Há legislação para punir os prevaricadores? Há. Há documentos internacionais que asseveram os direitos das crianças e ratificados por Portugal? Há. Então o que nos falta? Amor? É o desleixo, o deixa andar porque não é comigo, é com o colega ao lado ou com o vizinho mais ao lado? Ora, tenhamos vergonha e cumpramos o nosso dever. Sei que há instituições que levam a cabo, durante este mês, algumas actividades assinalando o tema, mas precisamos de mais, muito mais.

O tempo urge. O menino de seis meses e a menina de dois anos, as últimas vítimas mortais, conhecidas, assim o exigem.



Transcrevo parte de um texto, encontrado neste vasto mundo virtual, que traduzirá muitas das nossas preocupações e anseios:

Por nossas crianças

Rogo, não só a Deus,
mas a todos que possam ser responsáveis por elas.
Aos pais, para que as amem acima de tudo
e que lhes deem o carinho de que necessitam
para se tornarem pessoas de bem.
Aos professores,
para que assumam o papel de seus mestres
e os oriente no caminho certo,
a fim de que tomem a direção correta em suas vidas.
Aos políticos,
para que usem do seu poder
na defesa dos interesses coletivos
e se sirvam dele para aprovar projetos sociais
que visem acolher as que se encontram abandonadas,
e tirá-las das ruas dando-lhes condições
(a elas e a seus pais)
para viverem de forma digna
e tornarem-se cidadãos conscientes e participativos,
capazes de melhorar a sociedade na qual vivem.
Aos mais velhos,
sejam quais forem as suas profissões,
rogo que se esforcem para passar a todas as crianças
que cruzarem os seus caminhos,
as lições que adquiriram com o tempo.
Aos cristãos,
que pregam o evangelho onde o primeiro mandamento é:
“Ama a teu próximo como a ti mesmo”,
para que vivam essas palavras
e não apenas as pronunciem da boca para fora,
mas falem do coração.

(...)

Lívia Chamusca

===

Transcrevo, a seguir, estas palavras extraídas do comentário da Majo:


~ Quero alertar que aos professores também cabe o papel
de estarem atentos ao comportamento dos alunos, divulgar
o nº de contacto da linha de apoio nas turmas e incentivar a
participação da todas as crianças e jovens.

~Exorto todos a cumprirem o seu dever, que é mais do que
mera cidadania, neste caso, é uma questão de humanidade.
A referida linha é anónima e confidencial e o Instituto pode
ser contactado por ''e.mail''... Toda a informação no Google,
basta pesquisar: «SOS Criança».


Muito obrigada, cara amiga, por este importante contributo.

Olinda

====
Excerto: daqui - Os meus agradecimentos à autora.
Imagem: daqui

terça-feira, 7 de abril de 2020

A Invenção do Amor

Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas
janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de apa-
relhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da
nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia
quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e
fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio 
A descoberta 
A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura 
A polícia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo

É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique 
Antes que a invenção do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos
(...)
   (1925-1964)






Em 1925 nasceu Daniel Damásio Ascensão Filipe na ilha da Boavista, em Cabo Verde. Ainda criança, veio para Portugal onde fez os estudos liceais. Poeta, foi colaborador nas revistas Seara Nova e Távola Redonda, entre outras publicações literárias. Combateu a ditadura salazarista, sendo perseguido e torturado pela PIDE. Num curto espaço de tempo, a sua poesia evoluiu desde a temática africana aos valores neo-realistas e a um intimismo original que versa o indivíduo e a cidade, o amor e a solidão. Faleceu em 1964 em Cabo Verde. aqui


Boa terça-feira, meus amigos.

Abraços.

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Poema: In "A invenção do Amor e Outros Poemas" - Lisboa - Presença, 1972

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Vieira da Silva e Arpad Szenes - uma história de amor





Ele nascido na Hungria, descobre muito cedo a sua aptidão para o desenho. Estabelece-se em Paris depois de ter percorrido todas as capitais artísticas europeias. Ela nascida em Portugal, desde criança interessada pela magia das artes. Viajaria para Paris para estudar escultura e pintura.

Maria Helena saía todas as tardes, em longos passeios pela cidade, em busca dos pintores antigos, dos modernos, pelas galerias  e pelos museus, de Cézanne e de novas formas de configurar o mundo. Descobre que só naquele conjunto de luz e sombras encontraria a inspiração que procurava.




Arpad Szenes e Maria Helena Vieira da Silva encontram-se na bela Paris em 1928, quando ainda procuravam desvendar as linhas da pintura e da escultura da Academia Ranson. Ele em guaches e têmperas, exploração de ambientes e sensações de luz. Ela, urbana, explorando a profundidade do espaço e a angústia da guerra.

Casam-se em 1929. Arpad abdicaria das suas próprias ambições para se dedicar a Helena, à mulher vulnerável e melancólica, a precisar de apoio e de certezas para a confiança no seu génio, como ele chegaria a dizer. Ela retribuiria pintando retratos que encheriam as paredes de casa. Leva-a a viajar, para espaços inspiradores aos seus olhos de artista, revela-lhe os mistérios da Hungria e Pensilvânia. Ela, recordando Sintra na assimetria das suas duas colinas.

Em Paris trabalhavam, incansáveis e apaixonados, deixando que o espírito lhes guiasse as mãos e os pincéis. Em 1933 acontece a primeira exposição de pintura de Vieira da Silva. A vida continua a mesma, com os dois a abraçar-se e a pintar-se no silêncio da sua casa feita atelier, e a frequentar as reuniões no Café Raspail, do pequeno mundo intelectual "Amis du Monde".




O eclodir da guerra, 1939, veio alterar as suas vidas. Arpad era judeu húngaro e apátrida. Aceita de Maria Helena a ideia de um refúgio em Lisboa. Maria Helena tenta recuperar a nacionalidade portuguesa, perdida aquando do seu casamento. Chantageada pelo regime, só lha dariam se se divorciasse de Arpad tido como um perigoso comunista.

Les deux amoureux, artistas pintores sem nacionalidade, partem para o Brasil, onde estiveram exilados durante sete anos. Solidão, sentimento de orfandade e condições precárias. Arpad cedo apercebe-se de que não conseguiriam sobreviver somente com a venda dos quadros. E ele começa a aceitar pintura de retratos e a dar aulas. Ela dedica-se à pintura decorativa de objectos.

Em 1947, dois anos depois do fim da guerra regressam a Paris onde vivem até ao fim da vida: assim, o trabalho, os passeios, a luz, a calma, a casa, o atelier, as mãos e a tela, o ritmo dos respirares nem mais lento nem acelerado.

As obras de ambos começaram a ser exibidas regularmente nas prestigiosas galerias de Jeanne Bucher e Pierre Loeb. Até 1990, a consagração internacional se afirmou. Já não se preocupavam com as coisas do dia-a-dia - viviam apenas um para o outro e para a sua pintura, privando com um pequeno grupo de pintores, escritores e poetas.




Arpad tornar-se-ia um dos melhores representantes da Escola de Paris dos anos 40. A importância de Vieira da Silva no panorama da arte internacional seria reconhecida unanimemente.

Mas Arpad e Vieira da Silva permaneceriam, na mudez segredada por detrás dos seus quadros, uma história de amor irredutível a galardões e comentários críticos. Viveram lado a lado durante cinquenta e cinco anos.






Meus amigos:

Hoje, Dia dos Namorados, trago a história de amor de Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes. Sempre quis falar de Vieira da Silva aqui no Xaile. O texto que produzi, a partir do livro abaixo indicado, é apenas um pequeníssimo resumo sobre estes dois artistas. Muito há ainda a dizer sobre a sua vida, o seu desempenho na arte da pintura e inúmeras peripécias por que passaram. Mas com o Amor, sentimento sublime, a acompanhá-los.

Excelente dia de São Valentim vos desejo.



==== 

Texto a partir de "10 histórias de amor em Portugal", de Alexandre Borges
Pags. 76 a 88
Ver: Fundação Arpad-Szenes-Vieira da Silva
Imagem 1 - daqui
Imagem 2 - pintura de Arpad Szenes
Imagem 3 - pintura de Vieira da Silva

Quinzena do amor

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

"Tout est bien" ?

Está demonstrado, dizia ele, que as coisas não podem ser de outra maneira: pois, como tudo foi feito para um fim, tudo está necessariamente destinado ao melhor fim. Queiram notar que os narizes foram feitos para usar óculos, e por isso nós temos óculos. As pernas foram visivelmente instituídas para as calças, e por isso temos calças. As pedras foram feitas para serem talhadas e edificar castelos, e por isso Monsenhor tem um lindo castelo; o mais considerável barão da província deve ser o mais bem alojado; e, como os porcos foram feitos para serem comidos, nós comemos porco o ano inteiro: por conseguinte, aqueles que asseveravam que tudo está bem disseram uma tolice; deviam era dizer que tudo está o melhor possível.

Assim falava Mestre Pangloss, o maior filósofo da província, e por conseguinte de toda a terra, na sua demonstração de que não há causa sem efeito e que tudo está encadeado e que há uma razão suficiente para todos os acontecimentos.

Mas polémicas filosóficas à parte, hoje o Xaile de Seda quer rosas, meus amigos. Rosas e lírios, mais exactamente, ou mesmo quaisquer flores. E verão o porquê deste desejo, mais abaixo.



Para já, apresento-vos o outro Poema, versando o tema Rosas e Lírios, também atribuído a Álvaro de Campos, de que vos falei num post de há dias:
Dai-
Dai-me Rosas e Lírios

Dai-me flores, muitas flores
Quaisquer flores, logo que sejam muitas...
Não, nem sequer muitas flores, falai-me apenas

Em me dardes muitas flores,
Nem isso... Escutai-me apenas pacientemente quando vos peço
Que me deis flores...
Sejam essas as flores que me deis...

Ah, a minha tristeza dos barcos que passam no rio,
Sob o céu cheio de sol!
A minha agonia da realidade lúcida!
Desejo de chorar absolutamente como uma criança

Com a cabeça encostada aos braços cruzados em cima da mesa,
E a vida sentida como uma brisa que me roçasse o pescoço,
Estando eu a chorar naquela posição.

O homem que apara o lápis à janela do escritório
Chama pela minha atenção com as mãos do seu gesto banal.
Haver lápis e aparar lápis e gente que os apara à janela, é tão estranho!
É tão fantástico que estas coisas sejam reais!
Olho para ele até esquecer o sol e o céu.
E a realidade do mundo faz-me dor de cabeça.

A flor caída no chão.
A flor murcha (rosa branca amarelecendo)
Caída no chão...
Qual é o sentido da vida?





E tudo isto porque o dito Xaile completa nove aninhos. Não é razão para festejos mas, pronto, gosto de assinalar a data. Quanto mais não seja para eu própria proceder a uma reflexão sobre a utilidade ou não da sua existência.




Grande abraço a todos os que me visitam.

Boa quarta-feira.


=====

-O título do post retirado de: aqui
  Texto de Rousseau
-Excerto - Candide ou l'optimisme
                   Voltaire
====

Poema - daqui
s. d.
Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993).
  - 150.Álvaro de Campos?

Imagem: pixabay

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

O último adeus dum combatente

Naquela tarde em que eu parti e tu ficaste
sentimos, fundo, os dois a mágoa da saudade.
Por ver-te as lágrimas sangrarem de verdade
sofri na alma um amargor quando choraste.

Ao despedir-me eu trouxe a dor que tu levaste!
Nem só o teu amor me traz a felicidade.
Quando parti foi por amar a Humanidade
Sim! foi por isso que eu parti e tu ficaste!

Mas se pensares que eu não parti e a mim te deste
será a dor e a tristeza de perder-me
unicamente um pesadelo que tiveste.

Mas se jamais do teu amor posso esquecer-me
e se fui eu aquele a quem tu mais quiseste
que eu conserve em ti a esperança de rever-me!


 (1926-2005)


Numa preciosa resenha sobre a Literatura Guineense, Filomena Embaló, de quem já falámos aqui no Xaile através da sua obra, "Tiara", coloca Vasco Cabral, António Baticã Ferreira e Amílcar Cabral no período compreendido entre 1945 e 1970 - período esse de produção poética a que deu a designação de "Poesia de Combate".

Sobre este autor, F. Embaló diz-nos:

Vasco Cabral é certamente o escritor desta geração com a maior produção poética e o poeta guineense que maior número de temas abordou. A sua pluma passa do oprimido à luta, da miséria à esperança, do amor à paz e à criança.... Inicialmente com uma abordagem universalista, a sua obra se orienta, a partir dos anos 1960 para a realidade guineense. Em 1981, publicou o seu primeiro livro de poemas intitulado “A luta é a minha primavera”, obra que reúne 23 anos de criação poética entre 1951 e 1974. Esta obra foi ulteriormente publicada pela União Latina numa versão trilingue português, francês e romeno.

Também deixo alguns dados biográficos referentes a poeta guineense:

Estudou em Portugal onde se formou em Ciências Económicas e Financeiras pela Universidade Técnica de Lisboa e foi militante do MUD juvenil, movimento unitário de oposição à ditadura fascista, fortemente influenciado pelo PCP. Foi preso político no Aljube e em Caxias. Na guerra contra o império colonial, Vasco Cabral tornou-se um dos principais dirigentes do Partido Africano pela Independência de Guiné Bissau e Cabo Verde (PAIGC) (...)
Foi companheiro de armas de Amilcar Cabral, líder da luta pela independência da Guiné Bissau e de Cabo Verde (...) aqui




Da obra referida, "A luta é a minha Primavera", trarei, oportunamente, mais alguns poemas. Aliás, este Xaile de Seda vai ocupar-se um pouco da Literatura Guineense nos próximos dias, com uma ligeira interrupção no dia 22.

Bom fim de semana, meus amigos.


=====
Poema: daqui
A luta é a minha primavera, 1981
Em: Manuel Ferreira, 50 Poetas Africanos. Lisboa, Plátano Editora, 1989

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

23. ESPERANÇA

            I
Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade,
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também,
E terei os lírios —
Os melhores lírios —
E as melhores rosas
Sem receber nada.
A não ser a prenda
Da tua vontade
De me dares lírios
E rosas também.


II
Usas um vestido
Que é uma lembrança
Para o meu coração.
Usou-o outrora
Alguém que me ficou
Lembrada sem vista.
Tudo na vida
Se faz por recordações.
Ama-se por memória.
Certa mulher faz-nos ternura
Por um gesto que lembra a nossa mãe.
Certa rapariga faz-nos alegria
Por falar como a nossa irmã.
Certa criança arranca-nos da desatenção
Porque amámos uma mulher parecida com ela
Quando éramos jovens e não lhe falávamos.
Tudo é assim, mais ou menos,
O coração anda aos trambulhões.
Viver é desencontrar-se consigo mesmo.
No fim de tudo, se tiver sono, dormirei.
Mas gostava de te encontrar e que falássemos.
Estou certo que simpatizaríamos um com o outro.
Mas se não nos encontrarmos, guardarei o momento
Em que pensei que nos poderíamos encontrar.
Guardo tudo,
(Guardo as cartas que me escrevem,
Guardo até as cartas que não me escrevem —
Santo Deus, a gente guarda tudo mesmo que não queira,
E o teu vestido azulinho, meu Deus, se eu te pudesse atrair
Através dele até mim!
Enfim, tudo pode ser...
És tão nova — tão jovem, como diria o Ricardo Reis —
E a minha visão de ti explode literariamente,
E deito-me para trás na praia e rio como um elemental inferior,
Arre, sentir cansa, e a vida é quente quando o sol está alto.
Boa noite na Austrália!
17-6-1929

Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Esta
mpa, 1993. - 106

===

Este poema, lindíssimo, "Dá-me lírios, lírios/E rosas também", foi-me indicado por pessoa amiga. E fui à procura dele. Mas, surpresa das surpresas para mim, tem uma segunda parte, que também transcrevo, numa toada completamente diferente mas não menos belo. (Um dia hei-de folhear o livro onde se encontra inserido).

E assim, sem mais, termina com "Boa noite na Austrália!". Ou teria alguma razão de ser no momento em que o poeta escrevera o poema?

Na actualidade, na Austrália pessoas e animais atravessam momentos aflitivos, martirizados por incêndios sem fim à vista. E a terra privada do seu húmus, secada até às entranhas. 

Se a esperança é a ultima a morrer...parece que já não restará muito mais. 


Boa segunda-feira, meus amigos


Abraços.





Versão da bela canção de Roberto de Carlos, por
Raquel Tavares, fadista, que decidiu interromper ou pôr fim à sua carreira musical.
Desejo que ela encontre o caminho que deseja percorrer e por que tanto anseia


=====

O título do post - 23.Esperança - Tal como aparece na fonte
Subtítulo - POEMA DE CANÇÃO SOBRE A ESPERANÇA - daqui

O interessante é que há outro poema, provavelmente também de
Álvaro de Campos, com este título: DAI-ME ROSAS e LÍRIOS,
Noutra ocasião, trá-lo-ei aqui para o Xaile..
Imagem - pixabay

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

"Cada homem está dividido entre os homens que poderia ser" - Paul Nizan

Se minha mãe, comigo no ventre, fosse morar em Londres, Paris ou Roma, eu seria a mesma criança, o mesmo jovem, o mesmo homem, a mesma pessoa? Supondo que os dons, o estro, os atributos são tramas de algum signo ou destino, haveria outras saídas e entradas que não as que me levaram a este comboio rolando em círculo, partindo e chegando aos mesmos sítios?
Esta cidade, estes ruídos, estas ruas, este café donde te escrevo, que têm a ver com os versos que as vozes me ditam, com os ais de que nenhum bardo me deu as rimas?
O Cruzeiro e a Ursa, o mar e a selva, o leão e a lontra, que tem isso a ver com os meus flatos de alma?
O Inglês, o Francês, o Italiano, o Português são idiomas, não são lágrimas ou suspiros. Quiçá venha uma língua universal. Provavelmente, continuaremos a soletrar as mesmas letras, a conjugar os mesmos verbos. Fatais viajantes entre o ser e o ter, entre o to be or not to be.

in Derivações do Brumário
Pg. 136


Já falei aqui de Germano Almeida, prémio Camões 2018. Hoje trago Arménio Vieira, prémio Camões de 2009, em Derivações do Brumário, onde revela um conhecimento aprofundado da cultura dita clássica e com isso o autor joga em textos curtos e mordazes com diversas personagens, fazendo-os desfilar em situações do nosso tempo.

Com efeito, na contra-capa lê-se:
"A fértil imaginação do autor, a par de uma notável erudição e ainda a capacidade de usar um grande número de passes originários dos magos do surreal, fazem deste poeta uma figura extraordinária no universo da moderna literatura em português.

Segundo Manuel Veiga, linguista, Arménio Vieira é um autor dissidente em relação à temática do terra-longismo, da mamãe-terra, da chuva-madrasta e braba, do mar prisão-liberdade, da seca-malfadada, da fome-ingrata e da ´lei´ que manda fincar os pés no chão, porquanto os tempos são outros. Falando do "Eleito do Sol", livro do mesmo autor, refere que muito mais do que as dez ilhas ou parte de um Continente, Cabo Verde, hoje, está e faz parte do Universo. Daí que O Eleito … pretenda ser o ´sol´ que ilumina o Mundo; e fazendo Cabo Verde parte do Universo, necessariamente também será bafejado pelos raios deste mesmo "sol". aqui

Mas o desconcerto desse mesmo mundo é evidente, neste Quiproquo:

Há uma torneira sempre a dar horas
há um relógio a pingar no lavabos

há um candelabro que morde na isca
há um descalabro de peixe no tecto

Há um boticário pronto para a guerra
há um soldado vendendo remédios
há um veneno (tão mau) que não mata
há um antídoto para o suicídio de um poeta

Senhor, Senhor, que digo eu (?)
que ando vestido pelo avesso
e furto chapéu e roubo sapatos
e sigo descalço e vou descoberto.


E de si, Arménio Vieira diz isto:

SOU UM POETA. Apenas ISSO.*


"Aqui, Arménio Vieira - Conde da Sátira crioula . Video RTP
Nota: A citação no título do post é o título do texto ora transcrito.

===

Meus amigos

Desejo-vos uma bela semana. Peço desculpas pela ausência.
Visito-vos em breve.

Abraço

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Poema: aqui
*Divagações do Brumário

sábado, 30 de novembro de 2019

Vive, dizes, no presente

Vive, dizes, no presente;
Vive só no presente.

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as coisas que existem, não o tempo que as mede.

O que é o presente?

É uma coisa relativa ao passado e ao futuro.
É uma coisa que existe em virtude de outras coisas existirem.
Eu quero só a realidade, as coisas sem presente.

Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas coisas como presentes; quero pensar nelas como coisas.
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.

Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.

Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.


Alberto Caeiro
   (1889-1915)





Alberto Caeiro, heterónimo criado por Fernando Pessoa, sendo considerado o Mestre Ingénuo dos heterónimos Álvaro de Campos e Ricardo Reis e também de seu próprio autor, Fernando Pessoa.
É um poeta de completa simplicidade, e considera que a sensação é a única realidade. Suas principais obras são O Guardador de Rebanhos, O Pastor Amoroso e Poemas Inconjuntos. aqui

Descrito pelo heterónimo Álvaro de Campos assim:

"Vejo-o diante de mim, vê-lo-ei talvez eternamente como primeiro o vi. Primeiro, os olhos azuis de criança que não têm medo; depois, os malares já um pouco salientes, a cor um pouco pálida, e o estranho ar grego, que vinha de dentro e era uma calma, e não de fora, porque não era expressão nem feições. O cabelo, quase abundante, era louro, mas, se faltava luz, acastanhava-se. A estatura era média, tendendo para mais alta, mas curvada, sem ombros altos. O gesto era branco, o sorriso era como era, a voz era igual, lançada num tom de quem não procura senão dizer o que está dizendo-nem alta, nem baixa, clara, livre de intenções, de hesitações, de timidezas. O olhar azul não sabia deixar de fitar. Se a nossa observação estranhava qualquer coisa, encontrava-a: a testa, sem ser alta, era poderosamente branca. Repito: era pela sua brancura, que parecia maior que a da cara pálida, que tinha majestade. As mãos um pouco delgadas, mas não muito; a palma era larga. A expressão da boca, a última coisa em que se reparava — como se falar fosse, para este homem, menos que existir — era a de um sorriso como o que se atribui em verso às coisas inanimadas belas, só porque nos agradam — flores, campos largos, águas com sol — um sorriso de existir, e não de nos falar." aqui


Fernando Pessoa faleceu em 30/11/1935.

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Poema daqui
Imagem daqui

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Eis-me aqui

Estou aqui
a contar-te dos caminhos que percorro
velhos estreitos esventrados
caminhos de sulcos e de cabras onde
nossos avós colheram pão de côdea dura
estou aqui
a contar-te dos cheiros doces e acres
dos frutos tropicais
cheiros que se foram confundindo no sangue
que se afundou em docas e mares mas emergiu
mais vermelho que o chão da nossa terra
estou aqui inteira viva irrequieta como pássaro
que acasala no equilíbrio de um ramo
e como tu quero ferir meus pés
no lençol de pedras que atapeta o ôbô
inundar de algas azuis o corpo reflectido
no espelho das calemas
estou aqui para escutar o vento no zinco dos casebres
e exorcisar os medos que vagueiam na linguagem do povo

estou aqui como tu
borboleta tricolor que pousa no eco das muralhas
e morre a ouvir histórias de um país calcinado.


Olinda Beja

Nasceu em Guadalupe – S. Tomé e Príncipe. Criança ainda deixou as ilhas e passou a viver do outro lado do mar, em terras frias da Beira Alta. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas – Estudos de Português-Francês, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e possui o Diploma Superior de Hautes Études da Alliance Française. Para além de escritora, Olinda Beja é professora do ensino secundário, bolseira do Centro Nacional de Cultura, Comendadora dos Países Irmãos Brasil-S.Tomé e Príncipe; contadora de estórias, dinamizadora cultural. Ler mais aqui


Começar o dia com "Semba no Pé"!
 Magnífica proposta de Matias Damásio. 
Música, ritmo e promessas...

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Poema: daqui
Pesquise no Xaile de Seda : Olinda Beja

terça-feira, 9 de julho de 2019

Guilherme de Almeida - o "Principe dos Poetas" - VII

BRANCA DE NEVE





Eu te guardo no fundo da memória,
como guardo, num livro, aquela flor
que marca a tua delicada história,
Branca de Neve, meu primeiro amor.

Amei-te... E amei-te, figurinha aluada,
porque nunca exististe e porque sei
que o sonho é tudo — e tudo mais é nada...
E és o primeiro sonho que sonhei.

Hoje ainda beijo, comovido e tonto,
a velha mão que um dia me mostrou
aquela estampa do teu lindo conto,
princesinha encantada de Perrault!

Que fui eu afinal? — Um pobre louco
que andou, na vida, procurando em vão
sua Branca de Neve que era um pouco
do sonho e um pouco de recordação...

Procurei-a. Meus olhos esperaram
vê-la passar com flores e galões,
tal qual passaste quando te levaram,
no ataúde de vidro, os sete anões.

E encontrei a Saudade: ia alva e leve
na urna do passado que, afinal,
é como o teu caixão, Branca de Neve:
é um ataúde todo de cristal.

E parecia morta: mas vivia.
Corado do meu beijo que a roçou,
despertei-a do sono em que dormia,
como o Príncipe Azul te despertou.

Sinto-me agora mais criança ainda
do que naqueles tempos em que li
a tua história mentirosa e linda;
pois quase chego a acreditar em ti.

É que o meu caso (estranha extravagância!)
é a tua história sem tirar nem pôr...
E esta velhice é uma segunda infância,
Branca de Neve, meu primeiro amor.


        (1890-1969)

A sua entrada na Casa de Machado de Assis significou a abertura das portas 
aos modernistas. 
Formou, com Cassiano Ricardo, Manuel Bandeira, Menotti del Picchia e 
Alceu Amoroso Lima, o grupo dos que lideraram a renovação da Academia.
Era membro da Academia Paulista de Letras; do Instituto Histórico e Geográfico 
de São Paulo; do Seminário de Estudos Galegos, de Santiago de Compostela; 
e do Instituto de Coimbra.
Traduziu, entre outros, os poetas Paul Géraldy, Rabindranath Tagore, 
Charles Baudelaire, Paul Verlaine e, ainda, a peça a peça Huis clos 
(Entre quatro paredes) de Jean Paul Sartre. aqui





Veja: 
Post IIIIIIIVV, VI
=====
Poema daqui
Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série II - Alma.
Imagem: daqui