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quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Em "A Morte do Ouvidor" - o co-narrador Luís Henriques e o Poeta António Nunes

Encontrei, por estes dias, o poeta António Nunes (1917-1951) no livro de Germano Almeida que ando a ler, romance histórico intitulado "A Morte do Ouvidor". Tenho acompanhado o narrador e o seu amigo Luís Henriques pelas ruas da Cidade Velha, em busca dos edifícios originais, dos fortes, ou então dos seus vestígios que é o mais certo. Luís Henriques frui de todos os cheiros e ares com enlevo e é nestas suas palavras que se verifica o meu encontro com o referido poeta:

Lembras-te daquele poema de Jorge Barbosa, "quando a chuva passar hei-de ir ao cimo do cutelo para ver o cenário soberbo que a terra tem e sentir o cheiro húmido da terra encharcada"? E sem esperar que respondesse: Pois é assim que me sinto neste momento debaixo deste sol impiedoso e deste calor sufocante - encharcado pelo fedor da terra molhada, embriagado por este enjoativo cheiro de melaço que está no ar vindo de algures, estonteante e quente, como queria o António Nunes e põe aqui em frente de mim a memória de um remoto trapiche aonde o meu pai me levou ainda menino e que, por acaso, estou convencido não ser muito distante daqui onde nos encontramos...



Ribeira Grande (Cidade Velha)
O Pelourinho - símbolo da autoridade e da ministração da Justiça

Por isso, razão suficiente para querer saber mais dele. Detectei-o em alguns sítios, contudo, do que mais gostei foi da competentíssima publicação de Brito-Semedo, no blog Na Esquina do Tempo, onde encontrei o poema que, a seguir, transcrevo.

Assim, apresento-vos o Poeta do quotidiano mas também conhecido como o Poeta visionário:

Mamãi!
sonho que, um dia,
em vez dos campos sem nada,
do êxodo das gentes nos anos de estiagem
deixando terras, deixando enxadas, deixando tudo,
das casas de pedra solta fumegando do alto,
dos meninos espantalhos atirando fundas,
das lágrimas vertidas por aqueles que partem
e dos sonhos, aflorando, quando um barco passa,
dos gritos e maldições, dos ódios e vinganças,
dos braços musculados que se quedam inertes,
dos que estendem as mãos,
dos que olham sem esperança o dia que há-de vir

– Mamãi!
sonho que, um dia,
estas leiras de terra que se estendem,
quer sejam Mato Engenho, Dacabalaio ou Santana,
filhas do nosso esforço, frutos do nosso suor,
serão nossas.

E, então,
o barulho das máquinas cortando,
águas correndo por levadas enormes,
plantas a apontar,
trapiches pilando
cheiro de melaço estonteando, quente,
revigorando os sonhos e remoçando as ânsias
novas seivas brotarão da terra dura e seca,
vivificando os sonhos, vivificando as ânsias, vivificando a Vida!...

O poema estrutura-se em duas partes, segundo os momentos temporais. Do passado, que se prolonga até ao presente, e do futuro, por antecipação, com recurso a uma prolepse. Os dois momentos são introduzidos pelo vocativo “Mamãi”, assim mesmo, na língua materna, numa identificação com as suas origens. Mais aqui

Forte Real de São Filipe - Fortificação portentosa que não impediu 
o pirata francês Cassard 
de saquear Ribeira Grande (hoje Cidade Velha) a seu bel-prazer

De "A morte do Ouvidor" falarei um pouco mais adiante. Uma narrativa intrincada, com diálogos inseridos no corpo do texto -  sem indicação visível de que são diálogos - que aos poucos vão entranhando no leitor a vontade de caminhar ao lado do narrador e do co-narrador, percorrendo os caminhos da História de Cabo Verde, Sec. XVIII, num tema que se centra no Coronel Bezerra de Oliveira e sua época. Surpreendente, em alguns aspectos, quando nos deparamos, por exemplo, com a Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão, a menina dos olhos do Marquês de Pombal, com todos os direitos sobre o comércio e supervisão política e social no arquipélago e, mais ainda, no comércio da costa da Guiné.

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Germano de Almeida - A Morte do Ouvidor - Excerto pg 77
...a menina dos olhos do Marquês de Pombal... pg 89
Imagens: Net

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Memórias de um Espírito*

Um homem que morre de repente sem tempo para arrumar os seus assuntos. O seu espírito continua a pairar dentro de casa e vê com espanto todas as expressões dos preparativos para as suas próprias exéquias e o comportamento dos familiares, dos amigos, das antigas namoradas. Cada uma das pessoas que chega para apresentar condolências traz-lhe um mundo de recordações e, claro, o falecido na sua forma etérea, tece as suas considerações e confidencia ao leitor as variadas experiências que teve em vida. O leitor (ou seja, eu) sorri agradado perante a ironia, a crítica velada dos costumes e...a brejeirice.



Mas, "As Memórias de um Espírito" não foi o primeiro livro que li de Germano de Almeida. O primeiro contacto estabelecido com ele foi através de "Estórias de dentro de casa". Seguiram-se outros: "O Testamento do Sr Napumoceno da Silva Araújo", "Os dois irmãos", "O Mar na Lajinha". E o interessante é que são livros que me foram oferecidos por familiares e amigos, tendo tomado, desta forma, conhecimento da pujança da obra deste excelente e carismático escritor cabo-verdiano.

Isto, para assinalar, aqui, que o Prémio Camões deste ano lhe foi atribuído e devo dizer que o mesmo não poderia estar em melhores mãos, na minha óptica. Germano de Almeida não só prestigia a Língua Portuguesa como também lhe introduz palavras, termos, expressões de sabor crioulo que a enriquecem enormemente. Sei dar o devido valor a esse facto porquanto conheço como falante a dinâmica dessa língua, designada crioulo cabo-verdiano, especialmente na vertente das ilhas do Barlavento.

Insiro, a propósito, este pequeno apontamento sobre o assunto: 

Apesar da pequenez territorial, a situação de insularidade fez com que cada uma das nove ilhas desenvolvesse uma forma própria de falar crioulo. Cada uma dessas nove formas é justificadamente um dialecto diferente, mas os académicos em Cabo Verde costumam chamá-las de «variantes», que é o termo que passaremos a empregar neste artigo.
Essas variantes podem ser agrupadas em duas grandes variedades. A Sul temos a dos crioulos de Sotavento que engloba as variantes de Brava, Fogo, Crioulo de Santiago e Maio. A Norte temos a dos crioulos de Barlavento que engloba as variantes de Boa Vista, Sal, São Nicolau, São Vicente e Santo Antão. Aqui

Os linguistas têm muito trabalho pela frente, no sentido de conciliar todas as variantes e fazer nascer regras gramaticais para que o crioulo cabo-verdiano venha a ser representado uniformemente, tanto em termos fonéticos como ortográficos.

E PARABÉNS A GERMANO DE ALMEIDA. 

VENHAM MAIS LIVROS!

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Ouçamos a LURA, uma força da natureza, em NA Ri Na:




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* Escolhi esse título para o post devido à preferência que tenho pelo livro:"As Memórias de um Espírito".