Mostrar mensagens com a etiqueta Gabriel Mariano. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Gabriel Mariano. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Nhô Chic'Ana

Uma angústia profunda tomava conta de mim, Nhô Chic'Ana morreu de fome. Senti vontade de gritar, para que todos ouvissem. Nhô Chic'Ana morreu de fome. À direita, à esquerda, a vista era a mesma. As mesmas hortas, nuas no seu chão de barro e comidas pelos gafanhotos. (...)

Aproximei-me da cama. Nhanha Bonga recebeu-me com grande admiração de choro. Ah Chiquinho! Tinha morrido o meu grande amigo. Que iria Chiquinho fazer doravante na casinha do Campo? Nhô Chic'Ana não botaria mais aqueles exemplos que tanto me entretinham.

Nhô Chic'Ana estava todo mirrado, seu corpo magro a perfurar de ossos a manta que o cobria. O meu velho amigo morreu de fome. Encostei-me à cama, a cabeça tomada nas mãos angustiadas. Os meus dias de infância povoados da presença de nhô Chic'Ana. Ainda o vi, de corpo mais válido, na labuta da lavoura. Nas tardes, eu vinha à casinha do Campo. Nhô Chic'Ana fazia-me hominhos de barro, que ele baptizava com nomes da história de Carlos Magno. Outras vezes, talhava-me navios de purgueira. E o meu regalo era correr os navios no tanque de Jejê com os companheiros. Nhô Chic'Ana contava-me casos da sua vida de marinheiro, as terras que ele tinha conhecido. As suas palavras eram lentas, sentenciosas, pedia ao velho que me contasse histórias:

- Nhô Chc'Ana, você conte um caso...
- Não tem tempo...
- Conte, nhô Chic'Ana!
- Nhor não, contar histórias de dia faz pelar a capela dos olhos...
Mas eu conhecia-lhe o fraco. Tirava da algibeira um bocado de erva para fumar, e logo nhô Chic'Ana estendia a mão.

E começava. Antigamente tinha uma casa no fundo do mar (...)

Sérgio Godinho e Tito Paris


As chuvas de Cabo Verde


Meus amigos.

Sei que este post deveria ser dedicado à continuação do tema sobre Gungunhana e poderia fazê-lo, mas tive agora um apelo a que não pude resistir. Há muito tempo que queria reler Chiquinho, de Baltasar Lopes (da Silva). Surgiu-me, por estes dias, uma quase obrigação de o voltar a ler, a Teresa Baltasar que me perdoe a expressão porquanto ler e estudar esse Grande Senhor das letras cabo-verdianas é um privilégio para mim. Baltasar, um dos Claridosos, também poeta, já nos visitou aqui no "Xaile", com o poema Ressaca

Venham todas as vozes, todos os gritos e todos os ruídos;
Venham os silêncios compadecidos e também os silêncios satisfeitos;
Venham todas as coisas que eu não consigo ver na superfície da sociedade dos homens;

Venham todas as areias, lodos e todos os fragmentos de rocha que a sonda recolhe nos oceanos navegáveis;
Venham os sermões daqueles que não têm medo do destino das suas palavras;
Venha a resposta captada por aqueles que dispõem de aparelhos apropriados; (...)

O certo é que cheguei ao capítulo 15, quase no fim do livro, e deparo-me com aquela parte lancinante das grandes fomes que devastaram Cabo Verde nas décadas de 40 e 50*. Desfilou perante os meus olhos a procissão de um povo paciente, confiante no poder de Deus porque o dos homens não lhes valia. Encontrei referências à pequena caminhada de protesto de alguns populares à Administração do Concelho, com dois garotos levando ao alto blusas pretas espetadas em paus, rebeldia essa que morreu logo ali. Penso que esse episódio viria mais tarde a inspirar o saudoso Gabriel Mariano no seu poema interventivo, "Capitão Ambrósio", do qual transcrevo uma pequena passagem:

1
Bandeira
Negra bandeira
Bandeira negra da fome.
Em mãos famintas erguidas
Guiando os passos guiando
Nos olhos livres voando
Voando livre e luzindo
Inquieta e livre luzindo
Luzindo a negra bandeira
Clara bandeira da fome.

Mãos erguidas 
duras erguidas 
pés marcando a revolta
o povo marcha na rua.
(...)


As secas, o período das as-águas rareando ou não assegurando as colheitas, a miséria crescente, o descaso da Administração Central que viria a optar pela solução das grandes LEVAS de cabo-verdianos para São Tomé e Principe, sob a expressão eufemística de Contrato, marca a Literatura Cabo-Verdiana de forma indelével. As levas para essa ex-colónia ter-se-iam iniciado já em 1903.


Desejo-vos uma boa semana.


====

Chiquinho - Baltasar Lopes da Silva
Excerto - pags - 256 a 258

Excerto "Capitão Ambrósio" - Gabriel Mariano

in No Reino de Caliban de Manuel Ferreira
P.176 a 179

REPRESENTAÇÕES SOCIAIS E ARBÍTRIO NAS ROÇAS as primeiras levas de caboverdianos em S. Tomé e Príncipe nos primórdios de novecentos por Augusto Nascimento* aqui

*E em anos precedentes. A acção do romance decorre nos anos trinta.