Traz um poema no coração: o labor agreste
de silvos amadurece nele as acres maçãs da água.
Esconde nas unhas um brilho solar.
O pó estival cruza-lhe os olhos brancos, molhados
por uma lágrima esquecida.
Os cabelos, ardidos pelo incêndio
dos pássaros, escondem o rumor dos pinheiros bravos.
Sobe ausente os degraus do verão, os ombros
tocados pelo azul grande do céu mediterrânico.
Nos seus gestos dançam margaridas, as mais antigas
palavras, a leveza distraída
de quem olha as pedras para reconhecer o rosto.
Tenho tanta sede,
diz, sentindo a doce melancolia
de quem se deita para amar a eternidade.
Agressor de ímpetos, deixa nela a perdida raiz
da terra, toda a solidão,
inacabada permanência.
A saudade é um amor impossível,
abstracta diz-lhe.
Eduardo Bettencourt Pinto
In: Um dia qualquer em Junho
pg.45
Poeta do seu ofício, Eduardo Bettencourt Pinto, sabe muito bem - como Mallarmé e muitos outros antes dele, como todos os verdadeiros poetas - que a poesia se faz com palavras, as palavras, diz ele, que "são a chuva nos olhos/do poeta,/a primeira sombra/da haste fascinada." Só com elas, por elas, deslocando-as, provocando-as, tentando-as, conseguirá convir-se todo o "fulgor solitário das chuvas".(...) Ser poeta é reinventar a frescura duas vezes: no modo como se vê o mundo e no modo como se entrega àquilo que se vê como se fosse a primeira vez. Eugénio Lisboa, in Prefácio do livro acima referido.
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Imagem: daqui
