Colhes uma braçada de alecrim e entras em casa.
O coração bate em todas as paredes. Acolhes a intimidade, da penumbra, o cheiro da lavanda em cada canto, a pulsação do passado. Quase tocas as faces familiares presas ao inquietamento das janelas fechadas. O desvio arbitrário dos dedos contorna a trama tecida na memória, sobre os nomes sem voz, afeiçoados à morte.
Insinuada na linguagem do sangue, a casa permanece. Esta, onde entras para te reencontrares. Olhas os móveis. Fitas os olhos no chão e o soalho range com o aperto do olhar, como um eco dos teus passos. Demoras-te. Entregas-te à irrealidade de pretéritos rumores, ao alarme de uma distância que não alcanças.
E recuperas o deslumbramento de seres criança e de saberes que de qualquer janela se pode ver o mar.
Graça Pires - Poemas Escolhidos (2012-2025) - pg 202
Gosto muito dos poemas de Graça Pires, uma das melhores poetisas que tenho lido. Agora, neste ano, saiu um livro com poemas escolhidos dos anos de 2012-2025, livro precioso cuja leitura nos leva a momentos de puro enlevo.
Este poema, escrito em forma de prosa, foi retirado do livro "Antígona passou por aqui", que conta a vida de Antígona no jeito pessoalíssimo de Graça Pires.
Muito obrigada, amiga, por nos trazer esta bela forma de escrita.
Blog: Ortografia do Olhar
Abraços, amigos.
Olinda
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imagem: pixabay
imagem: "Antígona" Wiki
É isso que é a amizade: sempre destacar o que há de bom na outra pessoa e relevar aquilo de que não gostamos. Sua amiga poeta faz você feliz com seus livros, e ela deve ficar feliz com o seu carinho.
ResponderEliminarSaúde a você — Drª. Jéssica Mayra
Excelente momento de boa Meditação ou da sua plenitude. A casa que somos permanece aberta ás boas (e más) recordações que nos edificam a Alma.
ResponderEliminarGrato pela partilha, Olinda.
Beijo,
SOL da Esteva
O texto é uma viagem ao passado.
ResponderEliminarUma verdadeira recordação de infância.
Abraço de amizade.
Juvenal Nunes
A Graça, seja qual for o estilo, agrada sempre com suas escritas1 Adorei tua escolha! beijos às duas, tudo de bom! chica
ResponderEliminarObrigada minha Amiga Olinda por divulgar este meu poema. Bem haja pelo carinho das suas palavras. É um privilégio tê-la como minha leitora.
ResponderEliminarUm bom fim de semana.
O meu mais caloroso abraço.
Muito obrigada, querida amiga Graça.
EliminarSou sua leitora e com muito prazer leio o que
escreve, porque noto o talento e a sensibilidade
que lhe saem do coração e da Alma.
Beijinhos
Olinda
Belíssima reflexão sobre um regresso à casa da infância!
ResponderEliminarNão conheço a poesia de Graça Pires, vou investigar.
Abraço
Ai a saudade...um sentimneto tão difícil de gerir.
ResponderEliminarIsabel Sá
Brilhos da Moda
Olá, amiga Olinda.
ResponderEliminarSem dúvida uma excelente poetisa, a nossa amiga Graça Pires. Como aliás, este belíssimo poema que aqui partilha o demonstra.
Excelente escolha.
Deixo os votos de um bom fim de semana, com tudo de bom.
Beijinhos, com carinho e amizade.
Mário Margaride
http://poesiaaquiesta.blogspot.com
https://soltaastuaspalavras.blogspot.com
Olá, Olinda. Que postagem maravilhosa! abraços.
ResponderEliminarLindo poema. Te mando un beso.
ResponderEliminarOlá, amiga Olinda, a nossa amiga e poeta Graças Pires,
ResponderEliminarmerece essa divulgação de seus livros, que esperamos
tenha grande êxito sempre.
Abraços e uma excelente semana para as duas amigas.
Obrigado por visitar e comentar no meu blog.
ResponderEliminarPara seguir o blog, conforme você solicitou, basta clicar no ícone [≡] — ☤ Bula de Amigos.
Saúde a você — Drª. Jéssica Mayra
Graça Pires é das vozes mais valiosas que animam esta nossa comunidade blogueira.
ResponderEliminarUm abraço.
A Graça Pires é um caso muito sério no panorama literário atual. Espero que ela tenha o merecido reconhecimento.
ResponderEliminarBoa semana minha amiga.
Um abraço.
Parece aquelas casas do filme: "Il Postino" ("O Carteiro e o Poeta").
ResponderEliminarA Graça Pires ainda não conheço, vou descobrir seu blog visitá-la.
Nova Tirinha Publicada. 😼
Abraços 🐾 Garfield Tirinhas Oficial.
Amigas Olinda e Graça, boa tarde de.paz!
ResponderEliminarRealmente a beleza dos poemas da nossa querida amiga e a sua humildade encantam.
Você sabe valorizar as amigas.
Tenha dias abençoados!
Beijinhos fraternos
Excelente escolha!
ResponderEliminarTambém gosto muito de ler os belos e sentidos poemas da nossa amiga Graça.
Beijinhos e boa semana
Vim beber a poesia de Graça Pires, minha amiga Olinda e, ao mesmo tempo, matar saudades da sua casa. "Totalmente demais" o poema de Graça.
ResponderEliminarO poema começa com o corpo e a natureza ("alecrim", "lavanda"). Aqui, os cheiros funcionam como o verdadeiro portal para o passado. A casa não é apenas um edifício; ela está viva, o "coração bate em todas as paredes".
Depois, surge a presença dos que partiram. Há uma melancolia mansa e fantasmagórica na segunda estrofe: os "nomes sem voz, afeiçoados à morte" e as "faces familiares presas ao inquietamento das janelas fechadas" mostram que a casa guarda a memória dos que já se foram. Estar ali, ou revisitá-la, é também visitar a ausência deles.
Na terceira estrofe, a casa confunde-se com o corpo e a hereditariedade ("insinuada na linguagem do sangue"). Entrar ali torna-se um ato de arqueologia emocional: "esta, onde entras para te reencontrares". Até o ranger do soalho responde ao aperto do olhar — tudo ali ecoa quem o eu lírico foi e é.
O desfecho é de uma delicadeza cortante. Depois de caminhar pela penumbra, pelo luto e pela distância, há uma redenção na luz e na imaginação da infância. Dizer que "de qualquer janela se pode ver o mar" é recuperar a inocência e a liberdade de um tempo em que a realidade não tinha limites ou trancas. Mesmo que o mar não esteja lá fisicamente, a infância permite-o ver.
A poesia de Graça é sedutora sempre.
Uma boa semana, amiga Olinda!
Beijinhos,
Como um abraço, um aperto de mão uma palavra de ânimo a Graça entra na nossa casa trazendo sempre uma 'braçada de flores ' . perfumando de alecrim os nossos dias . Como é bom ler a poesia da nossa amiga .Obrigada por nos dá o prazer estar perto dela aqui na sua casa. Beijinhos, Olinda .
EliminarOlinda,
ResponderEliminarque intensidade terna acomete as palavras da Graça Pires e com que tamanho detalhamento ela nos dá a ver cada acontecimento repousado em sua prosa poética reveladora.
Aplausos!!!
Esta leitura me trouxe lembrança de uma criação poética de minha autoria ( março 25). Peço sua licença para trazê-la aqui.
A casa ficará onde está,
olhando para o nascente,
despertador do ontem
nas pálpebras sonolentas.
A casa filtrará o sol,
clareador dos cômodos
preguiçosos, das coisas
guardadas no tempo.
A janela do anda de cima
ainda permitirá um filete
tépido; luz branca e fria
nos tijolos empalidecidos.
Bjssss