Oiço-o. Trauteia algo. É o canto do corvo. Nunca canta. Assobia. Das poucas vezes que resolve cantar vem-me aos lábios um sorriso divertido. Nunca vi ninguém tão musical, ouvido muito apurado, arrancando sons divinos da sua viola de doze cordas, com voz desafinada de tal calibre. E digo-lhe, eu não sei afinar o meu violão (seis cordas) e ele responde é fácil, basta seguires o canto do corvo, começa na quarta corda (ou quinta?) e vai descendo até ao mi, depois sintoniza o mi agudo com o mi grave e afina a corda de baixo pelo seu som. Simples. E mais, ainda podes fazer mais e melhor: esticando a prima e passando daqui para ali podes afiná-lo ficando com os sons de uma guitarra. Assim fazia ele. Os acordes doces e afinadíssimos começam a soar, fazendo gala dos bemóis e sustenidos misturados com notas simples que, no seu conjunto, fazem a vida mais bela. E dedilhador como só ele, aparecem logo as mazurkas de sempre que, quase automaticamente, me fazem marcar o ritmo. Aproveitando a última nota da mazurka surge a valsa que me faz rodopiar a saia curta e pondo-me na ponta dos pés finjo apoiar-me no meu par. E assim por diante, uma rapsódia cada vez mais inspiradora faz nascer a dançarina em mim, de pés alados. Sinto e ouço, os sons vão baixando... Ali está ele. Adormece com os dedos na primeira posição do dó maior. É sempre assim. Deixa-se embalar pela própria música.
Dezembro é o nosso mês. Meu, dele e do António. E mesmo não estando por cá todos tenho a certeza de que faremos uma festa. O João e o Elísio com pretensões a Paganinis. A Inês com a sua voz maviosa e a Maria alcançando tons de soprano. E o António, Ah, o António! Belo, com os seus ares de cientista louco comandará os passos da contra-dança, en avant! en avant quatre! deixem a dama brincar agora!
Da Bela, belíssima, recordaremos as canções que ouvimos tantas vezes, tantas que as sabemos de cor, as suas leituras, o dizerdas palavras, os livros que adorava ler, e que depois li. Dela ficou-me também isto deLamartine, em Regina e Graziela: Para quê recordar os dias do passado? Pranteiam o vento e o mar a triste sorte não chores coração amargurado, medita nesta morte.
Mas é de vida que se trata aqui. Dos sons da vida. E debaixo da Figueira mansa faremos a nossa festa.
e qual a diferença entre a valsa e a mazurka? Aqui ficamos a saber... ====
Mas o negro sacudiu a cabeça e recuou um passo. Vendo-o retrair-se o português, para voltar a estabelecer a confiança, começou a cantar e a dançar. O outro, com grandes saltos, cantos e risos, seguiu o seu exemplo. Em frente um do outro bailaram algum tempo. Mas no ardor do baile e da mímica Pero Dias, ergueu no ar a sua espada, que faiscou ao sol. O brilho assustou o nativo, que deu um pulo para trás e estremeceu. Pero fez um gesto para o sossegar. Mas o outro começou a fugir, e o navegador precipitou-se no seu encalce e agarrou-o por um braço. Vendo-se preso, o negro principiou a debater-se, primeiro com susto, depois com fúria. Com gritos roucos e sílabas guturais respondia às palavras e aos gestos que o tentavam apaziguar. Ao longe, no mar, os companheiros de Pero Dias avistaram a luta e principiaram a remar para a praia.
O negro viu-os aproximarem-se, julgou-se cercado e perdido e apontou a sua lança. Pero Dias com a espada tentou aparar o golpe mas ambos caíram trespassados. Os portugueses saltaram do batel e correram para os corpos estendidos. Do peito do negro e do branco corriam dois fios de sangue.
Olhem - disse um moço -, o sangue deles é exactamente da mesma cor.
De bordo veio o capitão com mais gente e todos durante uma hora choraram o triste combate. *
SOPHIA, também contista, autora de livros infantis...
Mãe, de que cor é o sangue deles? - perguntou-me a pequenina, curiosa nos seus quatro aninhos, apontando para dois jovens negros, entregues à conversa, no seu idioma natal. Estávamos completamente comprimidas na parte da frente do autocarro, de tão cheio, e, para a proteger dos apertos das pessoas que iam entrando tinha-a colocado na parte destinada aos volumes, que estava livre (não sei se os autocarros, actualmente, ainda têm essa parte). Procurando não elevar a voz respondi-lhe: É como o de toda a gente. Ela, para ter a certeza: Vermelho?
Dela herdei "O Cavaleiro da Dinamarca", cuja leitura lhe fora indicada na escola. Hoje** peguei nele e abri-o precisamente na página que acabo de transcrever, donde sobressai a importância dos usos e costumes para cada um de nós, do nosso espaço vital, da realidade nossa e a do outro, independentemente do nosso aspecto exterior. Também relevante o facto de que nem tudo poderá ser percebido correctamente se não dominarmos a mesma língua ou linguagem e, mesmo tendo essa raiz, o que dizemos poderá não chegar ao nosso interlocutor com a clareza desejada.
Daí que, seja em que contexto flor, a palavra bem falada, bem escrita, bem explicada, bem transmitida, é fundamental. Há que distinguir dessa abordagem clean a linguagem poética, a qual convoca universos diferentes dos do nosso quotidiano. E ainda que nos transmita realidades com as quais nos identificamos, ela encontra-se num nível em que são permitidas figuras de estilo e estas poderão conduzir-nos a uma interpretação mais de conformidade com as nossas próprias vivências. E os gestos? Temos um ditado que diz: O gesto é tudo! Mas nem sempre. Vimos a sua trágica insuficiência bem representada no texto acima...
Por outro lado, há o gesto em sentido figurado, estilizado, o de boa vontade, o de boa-fé, que poderá desimpedir um mundo imenso de desconfianças e mal-entendidos, tanto socialmente como no complicado mundo da política, sem esquecer a diplomacia. Um bom diplomata pode evitar uma guerra. Importância nem sempre conhecida ou reconhecida.
Voltaremos aos gestos e a outras línguas e linguagens, numa dinâmica surpreendente, mas que são do conhecimento de todos nós.
Brevemente.
Eugénio Tavares, Sãozinha Fonseca,
a Ilha da Brava
Boa quinta-feira, meus amigos.
Abraço
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** Há três dias.
*Excerto:
Sophia de Mello Breyner Andresen
in: O Cavaleiro da Dinamarca - páginas 55/56
Obra incluída no Plano Nacional de Leitura
Sinopse
No regresso de uma longa peregrinação à Palestina, o Cavaleiro tem apenas um desejo: voltar a casa a tempo de celebrar o Natal com a sua família. Nessa viagem, maravilha-se com as cidades de Veneza e Florença, e ouve histórias espantosas sobre pintores, poetas e navegadores. São muitas as dificuldades com que se depara, mas uma força inabalável parece ajudá-lo a passar essa noite tão especial com aqueles que mais ama…
Estou aqui a contar-te dos caminhos que percorro velhos estreitos esventrados caminhos de sulcos e de cabras onde nossos avós colheram pão de côdea dura estou aqui a contar-te dos cheiros doces e acres dos frutos tropicais cheiros que se foram confundindo no sangue que se afundou em docas e mares mas emergiu mais vermelho que o chão da nossa terra estou aqui inteira viva irrequieta como pássaro que acasala no equilíbrio de um ramo e como tu quero ferir meus pés no lençol de pedras que atapeta o ôbô inundar de algas azuis o corpo reflectido no espelho das calemas estou aqui para escutar o vento no zinco dos casebres e exorcisar os medos que vagueiam na linguagem do povo
estou aqui como tu borboleta tricolor que pousa no eco das muralhas e morre a ouvir histórias de um país calcinado.
Nasceu em Guadalupe – S. Tomé e Príncipe. Criança ainda deixou as ilhas e passou a viver do outro lado do mar, em terras frias da Beira Alta. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas – Estudos de Português-Francês, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e possui o Diploma Superior de Hautes Études da Alliance Française. Para além de escritora, Olinda Beja é professora do ensino secundário, bolseira do Centro Nacional de Cultura, Comendadora dos Países Irmãos Brasil-S.Tomé e Príncipe; contadora de estórias, dinamizadora cultural. Ler mais aqui
Começar o dia com "Semba no Pé"!
Magnífica proposta de Matias Damásio.
Música, ritmo e promessas...
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Poema: daqui Pesquise no Xaile de Seda : Olinda Beja
Nunca a vida foi tão actual como hoje: por um triz é o futuro. Tempo para mim significa a desagregação da matéria. O apodrecimento do que é orgânico como se o tempo tivesse como um verme dentro de um fruto e fosse roubando a este fruto toda a sua polpa. O tempo não existe. O que chamamos de tempo é o movimento de evolução das coisas, mas o tempo em si não existe. Ou existe imutável e nele nos transladamos.
O tempo passa depressa demais e a vida é tão curta. Então — para que eu não seja engolido pela voracidade das horas e pelas novidades que fazem o tempo passar depressa — eu cultivo um certo tédio. Degusto assim cada detestável minuto. E cultivo também o vazio silêncio da eternidade da espécie. Quero viver muitos minutos num só minuto. Quero me multiplicar para poder abranger até áreas desérticas que dão a idéia de imobilidade eterna.
Na eternidade não existe o tempo. Noite e dia são contrários porque são o tempo e o tempo não se divide. De agora em diante o tempo vai ser sempre atual. Hoje é hoje. Espanto-me ao mesmo tempo desconfiado por tanto me ser dado. E amanhã eu vou ter de novo um hoje. Há algo de dor e pungência em viver o hoje. O paroxismo da mais fina e extrema nota de violino insistente. Mas há o hábito e o hábito anestesia.
Clarice Lispector,in Sopro de Vida, uma das minhas autoras preferidas. Diria mesmo a primeira de todas. Temo-la seguido neste Xaile, não tantas vezes como seria desejável, ou seja, de conformidade com o meu interesse pela sua obra.