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sábado, 20 de junho de 2020

O Eco do Pranto




Não me digas
Que essa é a voz de uma criança
Não...
A voz da criança
É suave e mansa
É uma voz que dança...
Não me digas
Que essa é a voz de uma criança
Parece mais
Um grito sem esperança
Um eco
Partindo de fundo de um beco
Não me digas
Que essa é a voz de uma criança,
Essa é doce e mansa
É uma voz que dança...
Esta parece mais
Um grito sufocado sob um manto
- O Eco do Pranto.

Agnelo Regalla, 
Antologia Poética da Guiné-Bissau,
 Editorial Inquérito, 1990





Agnelo Augusto Regalla com o pseudónimo Sakala (Campeane (Tombali), 9 de julho de 1952) é um poeta, jornalista e político guineense. Estudou jornalismo em França no Centro de Formação de Jornalistas. Fundou e dirigiu a Radiodifusão Nacional na Guiné-Bissau de 1974 a 1977 e em 1996, fundou a rádio privada Bombolom FM. Na política - Foi Diretor-Geral no Ministério dos Negócios Estrangeiros de 1987 a 1990 e secretário de estado da informação do Ministério da Informação de 1984 a 1985 e de 1990 a 1991. Foi presidente do partido União para a Mudança e foi eleito deputado pela UM no primeiro parlamento multipartidário de 1994 a 1998. Entre setembro de 2009 e janeiro de 2012, foi conselheiro de comunicação e de porta-voz do presidente da Guiné-Bissau Malam Bacai Sanhá.Em 2018 foi nomeado por Aristides Gomes para a Presidência de Conselho de Ministros e Assuntos Parlamentares. Na literatura - Não editou nenhuma obra individualmente mas os seus textos foram publicados em diversas antologias como, por exemplo, "Mantenhas para quem Luta". Agnelo foi um dos fundadores da Associação de Escritores da Guiné-Bissau em 10 de outubro de 2013. daqui

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Poema: daqui

"Se um dia..." - Poema do mesmo Poeta aqui no Xaile

Imagem: daqui

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Depus a máscara e vi-me ao espelho

Interessantes os tempos que correm e a forma como aceitamos coisas que dantes nos incomodavam. Quem usasse uma máscara antes da pandemia era objecto de discriminação, de olhares desconfiados, de medo de aproximação. Interpunha-se entre nós e o portador da máscara uma distância nunca considerada suficiente. 

Agora o que nos diferencia é a consistência da máscara, a qualidade da máscara, o pendant que faz com a roupa que trazemos, a cor lisa ou estampada, o corte e o porte. E o olhar reprovador que lançamos a quem não se apresente com qualquer tira de pano, de preferência vistoso, que tape a boca e o nariz. 

A moda já aí está. O espelho devolve-nos um ar composto e confiante. Álvaro de Campos antecipou-se:

Depus a máscara e vi-me ao espelho. —
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sou a máscara.
E volto à personalidade como a um terminus de linha.


Também o mito aí está.
Sem máscara ficamos nus. Mostramos fraquezas e fragilidades.
Resultado: transformamo-nos na máscara, somos a máscara, como diz o poeta.

Já não será preciso esconder o sorriso amarelo perante situações embaraçosas, nem mandar pôr o dente da frente que nos falta. Até numa entrevista de emprego poderemos negar-nos a tirar a máscara a bem da saúde própria e pública, escondendo assim as nossas misérias. E será considerada postura digna de grandes encómios.

Hoje, dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Sempre considerei este dia sobrecarregado em termos de comemorações e de mitos. 

Na verdade, vivemos de mitos que nos sustêm, algo construído em dado momento, tendo em vista necessidades políticas concretas e que se estende no tempo como 
esteio que nos dá segurança e sentido patriótico.
Criam o elo necessário entre 
os cidadãos e a História pátria... 
Assim,
 A cada tempo a sua máscara.



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18-8-1934
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 61.
aqui

segunda-feira, 1 de junho de 2020

E a vida se renova






A cada instante soa um vagido debaixo da mulemba e nas narinas o cheiro a terra a marcar o compasso do tempo... ou num berço de oiro com lençóis de cambraia e ambiente perfumado... ou num hospital onde mãos experientes fazem o milagre, ouvindo-se então um berreiro fenomenal como que protestando contra a sua entrada intempestiva neste mundo... 

Assim nascem as nossas crianças, quando de forma natural, seres em que nos revemos e sabemos que continuarão a espécie e, quiçá, os nossos sonhos. 

É a vida que se renova e floresce.

Mimá-las e fazê-las sentir-se amadas. Defendê-las de situações que possam magoá-las. Facultar-lhes o que estiver ao nosso alcance e mostrar-lhes o caminho que pensamos ser o melhor. Ensiná-las a ser independentes de modo a serem capazes de tomar as suas decisões. 

E também ensiná-las a amar. 

É a nossa missão.




Hoje, pretendo apenas assinalar este Dia dedicado à Criança, mas aproveitando para referir, abaixo, alguns dos muitos posts que tenho dedicado a este tema. 




E com Zeca Afonso fazemos, aqui no Xaile, a festa e falamos do outro lado que tantas vezes preferimos ignorar.

Abraços.



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Referências às duas primeiras frases: Yaka de Pepetela

Pequena pesquisa no Xaile 

Legislação:

Declaração Universal dos Direitos da Criança
Convenção sobre os Direitos da Criança

sábado, 16 de maio de 2020

A Flor





Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis.A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.
Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase que não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.
Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!
Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!


Almada Negreiros





José Sobral de Almada Negreiros TrindadeSão Tomé e Príncipe7 de Abril de 1893 — Lisboa, 15 de Junho de 1970) foi um artista multidisciplinar português que se dedicou fundamentalmente às artes plásticas (desenhopintura, etc.) e à escrita (romancepoesiaensaiodramaturgia), ocupando uma posição central na primeira geração de modernistas portugueses.
Almada Negreiros é uma figura ímpar no panorama artístico português do século XX. Essencialmente autodidata (não frequentou qualquer escola de ensino artístico), a sua precocidade levou-o a dedicar-se desde muito jovem ao desenho de humor. Mas a notoriedade que adquiriu no início de carreira prende-se acima de tudo com a escrita, interventiva ou literária. Almada teve um papel particularmente ativo na primeira vanguarda modernista, com importante contribuição para a dinâmica do grupo ligado à Revista Orpheu, sendo a sua ação determinante para que essa publicação não se restringisse à área das letras. Aguerrido, polémico, assumiu um papel central na dinâmica do futurismo em Portugal: "Se à introversão de Fernando Pessoa se deve o heroísmo da realização solitária da grande obra que hoje se reconhece, ao ativismo de Almada deve-se a vibração espetacular do «futurismo» português e doutras oportunas intervenções públicas, em que era preciso dar a cara". Mais



Bernardo Sassetti - 1970-2012 (Maio)


Bom fim de semana, meus amigos.

Abraços.



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Texto - daqui
1ª imagem - daqui
2ª imagem - daqui

terça-feira, 7 de abril de 2020

A Invenção do Amor

Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas
janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de apa-
relhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da
nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia
quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e
fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio 
A descoberta 
A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura 
A polícia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo

É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique 
Antes que a invenção do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos
(...)
   (1925-1964)






Em 1925 nasceu Daniel Damásio Ascensão Filipe na ilha da Boavista, em Cabo Verde. Ainda criança, veio para Portugal onde fez os estudos liceais. Poeta, foi colaborador nas revistas Seara Nova e Távola Redonda, entre outras publicações literárias. Combateu a ditadura salazarista, sendo perseguido e torturado pela PIDE. Num curto espaço de tempo, a sua poesia evoluiu desde a temática africana aos valores neo-realistas e a um intimismo original que versa o indivíduo e a cidade, o amor e a solidão. Faleceu em 1964 em Cabo Verde. aqui


Boa terça-feira, meus amigos.

Abraços.

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Poema: In "A invenção do Amor e Outros Poemas" - Lisboa - Presença, 1972

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Vieira da Silva e Arpad Szenes - uma história de amor





Ele nascido na Hungria, descobre muito cedo a sua aptidão para o desenho. Estabelece-se em Paris depois de ter percorrido todas as capitais artísticas europeias. Ela nascida em Portugal, desde criança interessada pela magia das artes. Viajaria para Paris para estudar escultura e pintura.

Maria Helena saía todas as tardes, em longos passeios pela cidade, em busca dos pintores antigos, dos modernos, pelas galerias  e pelos museus, de Cézanne e de novas formas de configurar o mundo. Descobre que só naquele conjunto de luz e sombras encontraria a inspiração que procurava.




Arpad Szenes e Maria Helena Vieira da Silva encontram-se na bela Paris em 1928, quando ainda procuravam desvendar as linhas da pintura e da escultura da Academia Ranson. Ele em guaches e têmperas, exploração de ambientes e sensações de luz. Ela, urbana, explorando a profundidade do espaço e a angústia da guerra.

Casam-se em 1929. Arpad abdicaria das suas próprias ambições para se dedicar a Helena, à mulher vulnerável e melancólica, a precisar de apoio e de certezas para a confiança no seu génio, como ele chegaria a dizer. Ela retribuiria pintando retratos que encheriam as paredes de casa. Leva-a a viajar, para espaços inspiradores aos seus olhos de artista, revela-lhe os mistérios da Hungria e Pensilvânia. Ela, recordando Sintra na assimetria das suas duas colinas.

Em Paris trabalhavam, incansáveis e apaixonados, deixando que o espírito lhes guiasse as mãos e os pincéis. Em 1933 acontece a primeira exposição de pintura de Vieira da Silva. A vida continua a mesma, com os dois a abraçar-se e a pintar-se no silêncio da sua casa feita atelier, e a frequentar as reuniões no Café Raspail, do pequeno mundo intelectual "Amis du Monde".




O eclodir da guerra, 1939, veio alterar as suas vidas. Arpad era judeu húngaro e apátrida. Aceita de Maria Helena a ideia de um refúgio em Lisboa. Maria Helena tenta recuperar a nacionalidade portuguesa, perdida aquando do seu casamento. Chantageada pelo regime, só lha dariam se se divorciasse de Arpad tido como um perigoso comunista.

Les deux amoureux, artistas pintores sem nacionalidade, partem para o Brasil, onde estiveram exilados durante sete anos. Solidão, sentimento de orfandade e condições precárias. Arpad cedo apercebe-se de que não conseguiriam sobreviver somente com a venda dos quadros. E ele começa a aceitar pintura de retratos e a dar aulas. Ela dedica-se à pintura decorativa de objectos.

Em 1947, dois anos depois do fim da guerra regressam a Paris onde vivem até ao fim da vida: assim, o trabalho, os passeios, a luz, a calma, a casa, o atelier, as mãos e a tela, o ritmo dos respirares nem mais lento nem acelerado.

As obras de ambos começaram a ser exibidas regularmente nas prestigiosas galerias de Jeanne Bucher e Pierre Loeb. Até 1990, a consagração internacional se afirmou. Já não se preocupavam com as coisas do dia-a-dia - viviam apenas um para o outro e para a sua pintura, privando com um pequeno grupo de pintores, escritores e poetas.




Arpad tornar-se-ia um dos melhores representantes da Escola de Paris dos anos 40. A importância de Vieira da Silva no panorama da arte internacional seria reconhecida unanimemente.

Mas Arpad e Vieira da Silva permaneceriam, na mudez segredada por detrás dos seus quadros, uma história de amor irredutível a galardões e comentários críticos. Viveram lado a lado durante cinquenta e cinco anos.






Meus amigos:

Hoje, Dia dos Namorados, trago a história de amor de Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes. Sempre quis falar de Vieira da Silva aqui no Xaile. O texto que produzi, a partir do livro abaixo indicado, é apenas um pequeníssimo resumo sobre estes dois artistas. Muito há ainda a dizer sobre a sua vida, o seu desempenho na arte da pintura e inúmeras peripécias por que passaram. Mas com o Amor, sentimento sublime, a acompanhá-los.

Excelente dia de São Valentim vos desejo.



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Texto a partir de "10 histórias de amor em Portugal", de Alexandre Borges
Pags. 76 a 88
Ver: Fundação Arpad-Szenes-Vieira da Silva
Imagem 1 - daqui
Imagem 2 - pintura de Arpad Szenes
Imagem 3 - pintura de Vieira da Silva

Quinzena do amor

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

"Tout est bien" ?

Está demonstrado, dizia ele, que as coisas não podem ser de outra maneira: pois, como tudo foi feito para um fim, tudo está necessariamente destinado ao melhor fim. Queiram notar que os narizes foram feitos para usar óculos, e por isso nós temos óculos. As pernas foram visivelmente instituídas para as calças, e por isso temos calças. As pedras foram feitas para serem talhadas e edificar castelos, e por isso Monsenhor tem um lindo castelo; o mais considerável barão da província deve ser o mais bem alojado; e, como os porcos foram feitos para serem comidos, nós comemos porco o ano inteiro: por conseguinte, aqueles que asseveravam que tudo está bem disseram uma tolice; deviam era dizer que tudo está o melhor possível.

Assim falava Mestre Pangloss, o maior filósofo da província, e por conseguinte de toda a terra, na sua demonstração de que não há causa sem efeito e que tudo está encadeado e que há uma razão suficiente para todos os acontecimentos.

Mas polémicas filosóficas à parte, hoje o Xaile de Seda quer rosas, meus amigos. Rosas e lírios, mais exactamente, ou mesmo quaisquer flores. E verão o porquê deste desejo, mais abaixo.



Para já, apresento-vos o outro Poema, versando o tema Rosas e Lírios, também atribuído a Álvaro de Campos, de que vos falei num post de há dias:
Dai-
Dai-me Rosas e Lírios

Dai-me flores, muitas flores
Quaisquer flores, logo que sejam muitas...
Não, nem sequer muitas flores, falai-me apenas

Em me dardes muitas flores,
Nem isso... Escutai-me apenas pacientemente quando vos peço
Que me deis flores...
Sejam essas as flores que me deis...

Ah, a minha tristeza dos barcos que passam no rio,
Sob o céu cheio de sol!
A minha agonia da realidade lúcida!
Desejo de chorar absolutamente como uma criança

Com a cabeça encostada aos braços cruzados em cima da mesa,
E a vida sentida como uma brisa que me roçasse o pescoço,
Estando eu a chorar naquela posição.

O homem que apara o lápis à janela do escritório
Chama pela minha atenção com as mãos do seu gesto banal.
Haver lápis e aparar lápis e gente que os apara à janela, é tão estranho!
É tão fantástico que estas coisas sejam reais!
Olho para ele até esquecer o sol e o céu.
E a realidade do mundo faz-me dor de cabeça.

A flor caída no chão.
A flor murcha (rosa branca amarelecendo)
Caída no chão...
Qual é o sentido da vida?





E tudo isto porque o dito Xaile completa nove aninhos. Não é razão para festejos mas, pronto, gosto de assinalar a data. Quanto mais não seja para eu própria proceder a uma reflexão sobre a utilidade ou não da sua existência.




Grande abraço a todos os que me visitam.

Boa quarta-feira.


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-O título do post retirado de: aqui
  Texto de Rousseau
-Excerto - Candide ou l'optimisme
                   Voltaire
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Poema - daqui
s. d.
Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993).
  - 150.Álvaro de Campos?

Imagem: pixabay

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

O último adeus dum combatente

Naquela tarde em que eu parti e tu ficaste
sentimos, fundo, os dois a mágoa da saudade.
Por ver-te as lágrimas sangrarem de verdade
sofri na alma um amargor quando choraste.

Ao despedir-me eu trouxe a dor que tu levaste!
Nem só o teu amor me traz a felicidade.
Quando parti foi por amar a Humanidade
Sim! foi por isso que eu parti e tu ficaste!

Mas se pensares que eu não parti e a mim te deste
será a dor e a tristeza de perder-me
unicamente um pesadelo que tiveste.

Mas se jamais do teu amor posso esquecer-me
e se fui eu aquele a quem tu mais quiseste
que eu conserve em ti a esperança de rever-me!


 (1926-2005)


Numa preciosa resenha sobre a Literatura Guineense, Filomena Embaló, de quem já falámos aqui no Xaile através da sua obra, "Tiara", coloca Vasco Cabral, António Baticã Ferreira e Amílcar Cabral no período compreendido entre 1945 e 1970 - período esse de produção poética a que deu a designação de "Poesia de Combate".

Sobre este autor, F. Embaló diz-nos:

Vasco Cabral é certamente o escritor desta geração com a maior produção poética e o poeta guineense que maior número de temas abordou. A sua pluma passa do oprimido à luta, da miséria à esperança, do amor à paz e à criança.... Inicialmente com uma abordagem universalista, a sua obra se orienta, a partir dos anos 1960 para a realidade guineense. Em 1981, publicou o seu primeiro livro de poemas intitulado “A luta é a minha primavera”, obra que reúne 23 anos de criação poética entre 1951 e 1974. Esta obra foi ulteriormente publicada pela União Latina numa versão trilingue português, francês e romeno.

Também deixo alguns dados biográficos referentes a poeta guineense:

Estudou em Portugal onde se formou em Ciências Económicas e Financeiras pela Universidade Técnica de Lisboa e foi militante do MUD juvenil, movimento unitário de oposição à ditadura fascista, fortemente influenciado pelo PCP. Foi preso político no Aljube e em Caxias. Na guerra contra o império colonial, Vasco Cabral tornou-se um dos principais dirigentes do Partido Africano pela Independência de Guiné Bissau e Cabo Verde (PAIGC) (...)
Foi companheiro de armas de Amilcar Cabral, líder da luta pela independência da Guiné Bissau e de Cabo Verde (...) aqui




Da obra referida, "A luta é a minha Primavera", trarei, oportunamente, mais alguns poemas. Aliás, este Xaile de Seda vai ocupar-se um pouco da Literatura Guineense nos próximos dias, com uma ligeira interrupção no dia 22.

Bom fim de semana, meus amigos.


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Poema: daqui
A luta é a minha primavera, 1981
Em: Manuel Ferreira, 50 Poetas Africanos. Lisboa, Plátano Editora, 1989

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

23. ESPERANÇA

            I
Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade,
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também,
E terei os lírios —
Os melhores lírios —
E as melhores rosas
Sem receber nada.
A não ser a prenda
Da tua vontade
De me dares lírios
E rosas também.


II
Usas um vestido
Que é uma lembrança
Para o meu coração.
Usou-o outrora
Alguém que me ficou
Lembrada sem vista.
Tudo na vida
Se faz por recordações.
Ama-se por memória.
Certa mulher faz-nos ternura
Por um gesto que lembra a nossa mãe.
Certa rapariga faz-nos alegria
Por falar como a nossa irmã.
Certa criança arranca-nos da desatenção
Porque amámos uma mulher parecida com ela
Quando éramos jovens e não lhe falávamos.
Tudo é assim, mais ou menos,
O coração anda aos trambulhões.
Viver é desencontrar-se consigo mesmo.
No fim de tudo, se tiver sono, dormirei.
Mas gostava de te encontrar e que falássemos.
Estou certo que simpatizaríamos um com o outro.
Mas se não nos encontrarmos, guardarei o momento
Em que pensei que nos poderíamos encontrar.
Guardo tudo,
(Guardo as cartas que me escrevem,
Guardo até as cartas que não me escrevem —
Santo Deus, a gente guarda tudo mesmo que não queira,
E o teu vestido azulinho, meu Deus, se eu te pudesse atrair
Através dele até mim!
Enfim, tudo pode ser...
És tão nova — tão jovem, como diria o Ricardo Reis —
E a minha visão de ti explode literariamente,
E deito-me para trás na praia e rio como um elemental inferior,
Arre, sentir cansa, e a vida é quente quando o sol está alto.
Boa noite na Austrália!
17-6-1929

Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Esta
mpa, 1993. - 106

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Este poema, lindíssimo, "Dá-me lírios, lírios/E rosas também", foi-me indicado por pessoa amiga. E fui à procura dele. Mas, surpresa das surpresas para mim, tem uma segunda parte, que também transcrevo, numa toada completamente diferente mas não menos belo. (Um dia hei-de folhear o livro onde se encontra inserido).

E assim, sem mais, termina com "Boa noite na Austrália!". Ou teria alguma razão de ser no momento em que o poeta escrevera o poema?

Na actualidade, na Austrália pessoas e animais atravessam momentos aflitivos, martirizados por incêndios sem fim à vista. E a terra privada do seu húmus, secada até às entranhas. 

Se a esperança é a ultima a morrer...parece que já não restará muito mais. 


Boa segunda-feira, meus amigos


Abraços.





Versão da bela canção de Roberto de Carlos, por
Raquel Tavares, fadista, que decidiu interromper ou pôr fim à sua carreira musical.
Desejo que ela encontre o caminho que deseja percorrer e por que tanto anseia


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O título do post - 23.Esperança - Tal como aparece na fonte
Subtítulo - POEMA DE CANÇÃO SOBRE A ESPERANÇA - daqui

O interessante é que há outro poema, provavelmente também de
Álvaro de Campos, com este título: DAI-ME ROSAS e LÍRIOS,
Noutra ocasião, trá-lo-ei aqui para o Xaile..
Imagem - pixabay

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

"Cada homem está dividido entre os homens que poderia ser" - Paul Nizan

Se minha mãe, comigo no ventre, fosse morar em Londres, Paris ou Roma, eu seria a mesma criança, o mesmo jovem, o mesmo homem, a mesma pessoa? Supondo que os dons, o estro, os atributos são tramas de algum signo ou destino, haveria outras saídas e entradas que não as que me levaram a este comboio rolando em círculo, partindo e chegando aos mesmos sítios?
Esta cidade, estes ruídos, estas ruas, este café donde te escrevo, que têm a ver com os versos que as vozes me ditam, com os ais de que nenhum bardo me deu as rimas?
O Cruzeiro e a Ursa, o mar e a selva, o leão e a lontra, que tem isso a ver com os meus flatos de alma?
O Inglês, o Francês, o Italiano, o Português são idiomas, não são lágrimas ou suspiros. Quiçá venha uma língua universal. Provavelmente, continuaremos a soletrar as mesmas letras, a conjugar os mesmos verbos. Fatais viajantes entre o ser e o ter, entre o to be or not to be.

in Derivações do Brumário
Pg. 136


Já falei aqui de Germano Almeida, prémio Camões 2018. Hoje trago Arménio Vieira, prémio Camões de 2009, em Derivações do Brumário, onde revela um conhecimento aprofundado da cultura dita clássica e com isso o autor joga em textos curtos e mordazes com diversas personagens, fazendo-os desfilar em situações do nosso tempo.

Com efeito, na contra-capa lê-se:
"A fértil imaginação do autor, a par de uma notável erudição e ainda a capacidade de usar um grande número de passes originários dos magos do surreal, fazem deste poeta uma figura extraordinária no universo da moderna literatura em português.

Segundo Manuel Veiga, linguista, Arménio Vieira é um autor dissidente em relação à temática do terra-longismo, da mamãe-terra, da chuva-madrasta e braba, do mar prisão-liberdade, da seca-malfadada, da fome-ingrata e da ´lei´ que manda fincar os pés no chão, porquanto os tempos são outros. Falando do "Eleito do Sol", livro do mesmo autor, refere que muito mais do que as dez ilhas ou parte de um Continente, Cabo Verde, hoje, está e faz parte do Universo. Daí que O Eleito … pretenda ser o ´sol´ que ilumina o Mundo; e fazendo Cabo Verde parte do Universo, necessariamente também será bafejado pelos raios deste mesmo "sol". aqui

Mas o desconcerto desse mesmo mundo é evidente, neste Quiproquo:

Há uma torneira sempre a dar horas
há um relógio a pingar no lavabos

há um candelabro que morde na isca
há um descalabro de peixe no tecto

Há um boticário pronto para a guerra
há um soldado vendendo remédios
há um veneno (tão mau) que não mata
há um antídoto para o suicídio de um poeta

Senhor, Senhor, que digo eu (?)
que ando vestido pelo avesso
e furto chapéu e roubo sapatos
e sigo descalço e vou descoberto.


E de si, Arménio Vieira diz isto:

SOU UM POETA. Apenas ISSO.*


"Aqui, Arménio Vieira - Conde da Sátira crioula . Video RTP
Nota: A citação no título do post é o título do texto ora transcrito.

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Meus amigos

Desejo-vos uma bela semana. Peço desculpas pela ausência.
Visito-vos em breve.

Abraço

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Poema: aqui
*Divagações do Brumário