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terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

A minha Poesia sou eu


           Toma os meus braços para abraçares o Mundo,
dá-me os teus braços para que abrace a Vida.
E assim se cumpre a Poesia!






… Não, Poesia:
Não te escondas nas grutas de meu ser,
não fujas à Vida.
Quebra as grades invisíveis da minha prisão,
abre de par em par as portas do meu ser
— sai…
Sai para a luta (a vida é luta)
os homens lá fora chamam por ti,
e tu, Poesia és também um Homem.
Ama as Poesias de todo o Mundo,
— ama os Homens
Solta teus poemas para todas as raças,
para todas as coisas.
Confunde-te comigo…
Vai, Poesia:
Toma os meus braços para abraçares o Mundo,
dá-me os teus braços para que abrace a Vida.
A minha Poesia sou eu.

in “Seara Nova”. 1946.


Amílcar Lopes Cabral (1924-1973) foi um político, agrónomo e teórico marxista da Guiné-Bissau e de Cabo Verde.




Amílcar Cabral, o homem que almejava o diálogo:
"Nós, em princípio, o nosso problema não é o de nos desligarmos do povo português. Se porventura em Portugal houvesse um regime que estivesse disposto a construir não só o futuro e o bem-estar do povo de Portugal mas também o nosso, mas em pé de absoluta igualdade, quer dizer que o Presidente da República pudesse ser de Cabo Verde, da Guiné, como de Portugal, etc., que todas as funções estatais, administrativas, etc. fossem igualmente possíveis para toda a gente, nós não veríamos nenhuma necessidade de estar a fazer a luta pela independência, porque todos já seriam independentes, num quadro humano muito mais largo e talvez muito mais eficaz do ponto de vista da História. aqui


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Poema: aqui
Imagem: pixabay

Quinzena do amor
Post 1 ; Post 2 ; Post 3

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

O tempo passa? Não passa


E o nosso amor que brotou do tempo, não tem idade.
    O tempo cúmplice do amor. E que melhor aliado poderia o autor encontrar?





O tempo passa? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.

Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.

São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer toda a hora.

E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama
escutou o apelo da eternidade.


Carlos Drummond de Andrade,

in 'Amar se Aprende Amando'

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Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) foi um poeta, contista e cronista brasileiro, considerado por muitos o mais influente poeta brasileiro do século XX. Foi um dos principais poetas da segunda geração do Modernismo brasileiro.





Através de sua poesia, Drummond foi eternizado, conquistando a atenção e a admiração dos leitores contemporâneos. Seus poemas se centram em questões que se mantêm atuais: a rotina das grandes cidades, a solidão, a memória, a vida em sociedade, as relações humanas. 
Entre suas composições mais famosas, se destacam também aquelas que expressam reflexões existenciais profundas, onde o sujeito expõe e questiona seu modo de viver, seu passado e seu propósito. Confira alguns dos poemas mais famosos de Carlos Drummond de Andrade, analisados e comentados. aqui

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Imagem aqui
Poema: de aqui

Quinzena do amor:
 Post 1 ; Post 2

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Amo-te muito, meu amor, e tanto

Pois bem. Declaro aberta a Época do Amor, entenda-se, a Quinzena em que vamos publicar poemas de amor, citações, textos, conforme vos comuniquei neste post de há dias. Nesta partilha fruiremos de belos momentos de leitura, assim o creio. 

Inicio esta série com Jorge de Sena, (1919-1978), poeta, crítico, ensaísta, ficcionista, dramaturgo, tradutor e professor universitário português, naturalizado brasileiro em 1963, um dos grandes poetas de língua portuguesa e figura central da cultura do século XX. 




Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.

Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz da guerra a que se vendem,
a pura liberdade do meu canto,

um cântico da terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,

tão quase é coisa ou sucessão que passa...
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da Graça.


Jorge de Sena

in “Poesia, Vol. I”

O encantamento de quem ama. Uma invenção da humanidade inteira. Jorge de Sena num dos seus melhores momentos poéticos.




Mas a sua obra é vasta e multifacetada, compreendendo mais de vinte colectâneas de poesia, uma tragédia em verso, uma dezena de peças em um ato, mais de trinta contos, uma novela e um romance, e cerca de quarenta volumes dedicados à crítica e ao ensaio (com destaque para os estudos sobre Camões e Pessoa, poetas com os quais a sua poesia estabelece um importante diálogo)... 

E há mais. Ver aqui  

Bom sábado, meus amigos. Abraços

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Poema: de aqui
Imagem: de aqui

Quinzena do amor:

Post 1

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Amo-te Por Todas as Razões e Mais Uma

Por todas as razões e mais uma. Esta é a resposta que costumo dar-te quando me perguntas por que razão te amo. Porque nunca existe apenas uma razão para amar alguém. Porque não pode haver nem há só uma razão para te amar. 

Amo-te porque me fascinas e porque me libertas e porque fazes sentir-me bem. E porque me surpreendes e porque me sufocas e porque enches a minha alma de mar e o meu espírito de sol e o meu corpo de fadiga. E porque me confundes e porque me enfureces e porque me iluminas e porque me deslumbras. 

Amo-te porque quero amar-te e porque tenho necessidade de te amar e porque amar-te é uma aventura. Amo-te porque sim mas também porque não e, quem sabe, porque talvez. E por todas as razões que sei e pelas que não sei e por aquelas que nunca virei a conhecer. E porque te conheço e porque me conheço. E porque te adivinho. Estas são todas as razões.

Mas há mais uma: porque não pode existir outra como tu.

in: Ano Comum






Não é a primeira vez que trago excertos deste "Ano Comum", de Joaquim Pessoa, obra e autor que muito aprecio e nem vos sei dizer se não terei já publicado o presente texto. 

Em todo o caso, pareceu-me sumamente indicado para assinalar que daqui a 04 dias, mais precisamente a 01 de Fevereiro, darei início à Quinzena do Amor que é já uma tradição neste Xaile, ainda que arrisque a vulgarizar ainda mais a palavra tradição que é utilizada por tudo e por nada. 

Por isso, para quem costuma aparecer por aqui não é novidade nenhuma, sabendo-se que aguardo no espaço reservado aos comentários, Poemas de Amor vossos ou de autores da vossa preferência,- abarcando amor amor, amor aos pais, aos filhos, ao nosso semelhante - os quais serão religiosamente publicados. 

No ano passado publiquei uma série de cartas de amor de personalidades conhecidas da Literatura portuguesa e internacional. Desta vez, a par dos poemas que me trouxerdes, veremos o que da minha parte poderei trazer de novo.

Boa semana.


Abraço


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Texto: Citador
imagem: daqui

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Carta à minha filha

Lembras-te de dizer que a vida era uma fila? 
Eras pequena e o cabelo mais claro, 
mas os olhos iguais. Na metáfora dada 
pela infância, perguntavas do espanto 
da morte e do nascer, e de quem se seguia 
e porque se seguia, ou da total ausência 
de razão nessa cadeia em sonho de novelo. 

Hoje, nesta noite tão quente rompendo-se 
de junho, o teu cabelo claro mais escuro, 
queria contar-te que a vida é também isso: 
uma fila no espaço, uma fila no tempo 
e que o teu tempo ao meu se seguirá. 

Num estilo que gostava, esse de um homem 
que um dia lembrou Goya numa carta a seus 
filhos, queria dizer-te que a vida é também 
isto: uma espingarda às vezes carregada 
(como dizia uma mulher sozinha, mas grande 
de jardim). Mostrar-te leite-creme, deixar-te 
testamentos, falar-te de tigelas - é sempre 
olhar-te amor. Mas é também desordenar-te à 
vida, entrincheirar-te, e a mim, em fila descontínua 
de mentiras, em carinho de verso. 



E o que queria dizer-te é dos nexos da vida, 
de quem a habita para além do ar. 
E que o respeito inteiro e infinito 
não precisa de vir depois do amor. 
Nem antes. Que as filas só são úteis 
como formas de olhar, maneiras de ordenar 
o nosso espanto, mas que é possível pontos 
paralelos, espelhos e não janelas. 

E que tudo está bem e é bom: fila ou 
novelo, duas cabeças tais num corpo só, 
ou um dragão sem fogo, ou unicórnio 
ameaçando chamas muito vivas. 
Como o cabelo claro que tinhas nessa altura 
se transformou castanho, ainda claro, 
e a metáfora feita pela infância 
se revelou tão boa no poema. Se revela 
tão útil para falar da vida, essa que, 
sem tigelas, intactas ou partidas, continua 
a ser boa, mesmo que em dissonância de novelo. 

Não sei que te dirão num futuro mais perto, 
se quem assim habita os espaços das vidas 
tem olhos de gigante ou chifres monstruosos. 
Porque te amo, queria-te um antídoto 
igual a elixir, que te fizesse grande 
de repente, voando, como fada, sobre a fila. 
Mas por te amar, não posso fazer isso, 
e nesta noite quente a rasgar junho, 
quero dizer-te da fila e do novelo 
e das formas de amar todas diversas, 
mas feitas de pequenos sons de espanto, 
se o justo e o humano aí se abraçam. 

A vida, minha filha, pode ser 
de metáfora outra: uma língua de fogo; 
uma camisa branca da cor do pesadelo. 
Mas também esse bolbo que me deste, 
e que agora floriu, passado um ano. 
Porque houve terra, alguma água leve, 
e uma varanda a libertar-lhe os passos. 

Ana Luísa Amaral

in 'Imagias
(Um pouco só de Goya: Carta a minha Filha)' 


Na senda das Cartas de Amor encontrei esta que atesta sobremaneira o amor de mãe. Pareceu-me a forma ideal de terminar esta série.

Agradeço a todos, visitantes e comentadores, a excelente companhia ao longo destes dias.

Um grande abraço.


E agora, nós e FAUSTO: Por este rio acima







Sobre a autora:

Ana Luísa Amaral (Lisboa, 1956-) é uma poetisa portuguesa, tradutora e professora de Literatura e Cultura Inglesa e Americana na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Aqui

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Poema - Citador
Imagem - daqui
Video - Youtube

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Lembra-te disto

É difícil afastar da mente a sucessão de infelicidades de partir o coração na sequência das frustrações que se têm abatido sobre nós durante os últimos 15 meses. É como se cada parte de mim tivesse sido mergulhada em azedume, a minha carne, o meu sangue, os meus ossos e a minha alma, tão desamparado me sinto pelo facto de não te poder ajudar nas circunstâncias tão duras e adversas em que te encontras. Que grande diferença faria para a tua debilitada saúde e para o teu ânimo, e para a minha própria ansiedade e tensão, que não consigo deixar de sentir, se ao menos nos pudéssemos encontrar; se pudesse estar ao teu lado e apertar-te nos meus braços, ou se pudesse ao menos ver-te por breves instantes, através da espessa rede de arame que inevitavelmente nos haveria de separar.

O sofrimento físico não é nada em comparação com o ver espezinhados aqueles laços ternos do afecto que constituem a base da instituição do casamento e da família que unem marido e mulher. Este é um momento terrível na nossa vida. E um momento de desafio a crenças que acarinhamos, e que põe à prova muitas das nossas decisões. Mas enquanto eu tiver a prerrogativa de comunicar contigo, mesmo que ela possa ser meramente formal, e enquanto não me for expressamente retirada, os registos testemunharão o facto de que eu tentei honesta e seriamente comunicar contigo por escrito todos os meses. Devo-te isso, e nada me impedirá de o fazer. 



Talvez esta atitude um dia possa colher os seus frutos. Haverá sempre bons homens sobre a terra, em todos os países, e mesmo aqui no nosso. Um dia havemos de ter do nosso lado o apoio genuíno e firme de um homem recto e directo, com altas responsabilidades, que considerará impróprio fugir ao dever de proteger os direitos e prerrogativas mesmo dos seus mais aguerridos opositores na luta de ideias que está hoje a ser travada no nosso país; um representante que terá um sentido de justiça e equidade que nos garanta não apenas os direitos e prerrogativas que a lei hoje nos concede, mas que nos compensará por aqueles que nos foram retirados sub-repticiamente. 

Apesar de tudo o que tem acontecido nos vaivéns da sorte dos últimos 15 meses, tenho vivido na esperança e na expectativa. Por vezes creio mesmo que este sentimento faz parte integrante do meu ser. Parece estar fortemente arraigado dentro de mim. Sinto o meu coração pulsar constantemente com uma esperança que envia para todos os pontos do meu corpo, aquecendo o meu sangue, e animando-me.

Estou convencido de que vagas de desastres pessoais nunca conseguirão afogar um revolucionário determinado, nem as nuvens de infortúnio que acompanham a tragédia o poderão sufocar. Para um combatente pela liberdade, a esperança é como uma bóia de salvação para um nadador - uma garantia de que não irá ao fundo e estará a salvo de se afogar. Eu sei, minha querida, que se os ricos pudessem ser avaliados em termos das toneladas de esperança e coragem inquebrantável que albergas no teu peito (esta ideia foi a ti que a fui buscar) tu serias seguramente milionária. Lembra-te sempre disto.



Nelson Mandela, 
in 'Carta a Winnie Mandela,
 1 de Agosto de 1970' 


Carta de Amor que transcende espaços, credos, raças, de um Homem que mudou a face do mundo, trazendo-nos mais esperança no ser humano. 



Wes um cantor que adoro.
Sigamos os seus ritmos com um pé ou mais de dança.




MANDELA
Apesar de não carecer de apresentação, deixo aqui algumas indicações sobre a sua vida. Faz bem recordar.

Nelson Rolihlahla Mandela (Mvezo18 de julho de 1918 — Joanesburgo5 de dezembro de 2013) foi um advogado, líder rebelde presidente da África do Sul de 1994 a 1999, considerado como o mais importante líder da África Negra, vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 1993, pai da moderna nação sul-africana, onde é normalmente referido como Madiba (nome do seu clã) ou "Tata" ("Pai"). Leia mais aqui.


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Texto classificado como "Carta de Amor" - Citador
Imagem: daqui
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Wes Madiko

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Não deixes nada por dizer / Nun deixes nada por dezir


Diz-me tudo

Diz-me dos silêncios inquietos que cantam no teu olhar
do rio de palavras selvagens preso em ti
das melodias vadias que escreves ao luar,

diz ao desassossego que ateias em mim
o poema que quero entender

e quando a minha pele começar a enrubescer
diz-me tudo.
Não deixes nada por dizer.





Diç-me todo

Diç-me ls siléncios zanquietos que cantán ne l tou mirar
de l riu de palabras salbaiges preso an ti
de las melodies bagamundas que scribes a la lhuna

diç al zassossego que chiçcas an mi
l poema que quiero antender

i quando la mie piel ampeçar a aburmelhar
diç-me todo.
Nun deixes nada por dezir.

TERESA ALMEIDA SUBTIL

In:
Rio de Infinitos
Riu d'Anfenitos
Pgs 58 e 59
Obra escrita em Português e em Mirandês

Querida Teresa, mais uma vez a invadir as páginas deste seu livro. A minha dificuldade esteve na escolha, e quem já teve a oportunidade de o folhear percebe logo o que quero dizer.
O tango chegou agora ao "Xaile", não numa interpretação dita clássica mas a convidar a uma boa milonga.


Apreciemos este Silêncio da Orquestra Negracha




Sobre a autora. 
Atentemos nestas suas palavras:
O meu voo nas palavras começou muito cedo através da leitura. A leitura foi, de facto, a grande motivação. Pela leitura rasguei caminhos, abri horizontes, viajei por espaços de enorme encantamento. O mundo abria-se para mim de maneira surpreendente e percebi que a vida é a ideia que dela fazemos. Penso que quem tem o prazer intenso de ler, acaba por sentir necessidade de comunicar as suas próprias emoções, acaba por descobrir o prazer de escrever. O que seria a vida sem emoção?
E mais...Aqui

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Título do post: o último verso do poema, em português e em mirandês.
Imagem: daqui
Excerto sobre a autora - Blog Memórias... e outras coisas... Bragança

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Ensinamento

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.




Mostrar que se ama, mas não o expressar em palavras. 
Será o bastante?


Você é assim um sonho pra mim



Adélia Prado (1935) é uma escritora e poetisa brasileira. Recebeu da Câmara Brasileira do Livro, o Prêmio Jabuti de Literatura, com o livro "Coração Disparado", escrito em 1978. Mineira de Divinópolis, sua obra recria numa linguagem despojada e direta, a vida e as preocupações dos personagens do interior mineiro. Ler mais...  Aqui

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Poema - daqui
Video - Youtube

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Escuta, amor

Quando damos as mãos, somos um barco feito de oceano, a agitar-se sobre as ondas, mas ancorado ao oceano pelo próprio oceano. Pode estar toda a espécie de tempo, o céu pode estar limpo, verão e vozes de crianças, o céu pode segurar nuvens e chumbo, nevoeiro ou madrugada, pode ser de noite, mas, sempre que damos as mãos, transformamo-nos na mesma matéria do mundo. Se preferires uma imagem da terra, somos árvores velhas, os ramos a crescerem muito lentamente, a madeira viva, a seiva. Para as árvores, a terra faz todo o sentido. De certeza que as árvores acreditam que são feitas de terra. 

Por isto e por mais do que isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí. Existimos no mesmo sítio sem esforço. Aquilo que somos mistura-se. Os nossos corpos só podem ser vistos pelos nossos olhos. Os outros olham para os nossos corpos com a mesma falta de verdade com que os espelhos nos reflectem. Tu és aquilo que sei sobre a ternura. Tu és tudo aquilo que sei. Mesmo quando não estavas lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontrámos.




Aquilo que existe dentro de mim e dentro de ti, existe também à nossa volta quando estamos juntos. E agora estamos sempre juntos. O meu rosto e o teu rosto, fotografados imperfeitamente, são moldados pelas noites metafóricas e pelas manhãs metafóricas. Talvez outras pessoas chamem entendimento a essa certeza, mas eu e tu não sabemos se existem outras pessoas no mundo. Eu e tu declarámos o fim de todas as fronteiras e inseparámo-nos. Agora, somos uma única rocha, uma única montanha, somos uma gota que cai eternamente do céu, somos um fruto, somos uma casa, um mundo completo. 


Existem guerras dentro do nosso corpo, existem séculos e dinastias, existe toda uma história que pode ser contada sob múltiplas perspectivas, analisada e narrada em volumes de bibliotecas infinitas. Existem expedições arqueológicas dentro do nosso corpo, procuram e encontram restos de civilizações antigas, pirâmides de faraós, cidades inteiras cobertas pela lava de vulcões extintos. Existem aviões que levantam voo e aterram nos aeroportos interiores do nosso corpo, populações que emigram, êxodos de multidões famintas. E existem momentos despercebidos, uma criança que nasce, um velho que morre. Dentro de nós, existe tudo aquilo que existe em simultâneo em todas as partes.

Questiono os gestos mais simples, escrever este texto, tentar dizer aquilo que foge às palavras e que, no entanto, precisa delas para existir com a forma de palavras. Mas eu questiono, pergunto-me, será que são necessárias as palavras? Eu sei que entendes o que não sei dizer. Repito: eu sei que entendes o que não sei dizer. Essa certeza é feita de vento. Eu e tu somos esse vento. Não apenas um pedaço do vento dentro do vento, somos o vento todo.
Escuta,
ouve.
Amor.
Amor.

José Luís Peixoto, 

in 'Abraço'


"Eu e tu declarámos o fim de todas as fronteiras e inseparámo-nos."
Inseparámo-nos surpreendeu-me um pouco mas estou pronta a derrubar todas as fronteiras.  



José Luís Peixoto (Galveias, Ponte de Sor, 4 de setembro de 1974) é um narrador, poeta e dramaturgo português, cuja primeira obra foi publicada em 2000. (...) foi o mais jovem vencedor de sempre do Prémio Literário José Saramago. Desde esse reconhecimento, a sua obra tem recebido amplo destaque nacional e internacional. Os seus livros estão traduzidos e publicados em 26 idiomas. O romance Galveias foi o primeiro livro de língua portuguesa a ser traduzido diretamente para o idioma georgiano, tendo acontecido o mesmo ao livro A Mãe que Chovia, que foi o primeiro a ser traduzido diretamente do português para o mongol. Aqui

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Texto - Citador
Imagem: daqui

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Amor

A jovem deusa passa
Com véus discretos sobre a virgindade;
Olha e não olha, como a mocidade;
E um jovem deus pressente aquela graça.

Depois, a vide do desejo enlaça
Numa só volta a dupla divindade;
E os jovens deuses abrem-se à verdade,
Sedentos de beber na mesma taça.

É um vinho amargo que lhes cresta a boca;
Um condão vago que os desperta e toca
De humana e dolorosa consciência.

E abraçam-se de novo, já sem asas.
Homens apenas. Vivos como brasas,
A queimar o que resta da inocência.


Miguel Torga

in 'Libertação'

Carta de amor não é, mas um belo poema que poderia tornar-se numa, também bela, história de amor.


Adolfo Correia da Rocha, conhecido pelo pseudónimo Miguel Torga (São Martinho de Anta, 12 de agosto de 1907 — Coimbra, 17 de janeiro de 1995), foi um dos mais influentes poetas e escritores portugueses do século XX.

Torga destacou-se como poeta, contista e memorialista, mas escreveu também romances, peças de teatro e ensaios. Foi laureado com o Prémio Camões de 1989, o mais importante da língua portuguesa. 
Aqui


                                                 ANDRÉ RIEU



 O homem que desmistifica a música clássica, transformando-a numa grande história de amor através da sua interpretação. 

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Poema - Citador
Video - youtube
André Rieu - Entrevista

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Cada dia que passa me aproxima mais de si

Bom! Recebo neste instante a sua carta escrita à luz de uma só vela - e tenho de retirar tudo, tudo, tudo o que escrevi! Pois acabou-se! Não retiro. A minha querida dizia no outro dia que devíamos mostrar um ao outro todos os estados de espírito em que tivéssemos estado. Mostro-lhe, assim, que estive hoje, ontem, antes de ontem num estado de impaciência por uma palavra sua, gemendo e queixando-me de «ne voir rien venir». E mostro-lhe assim o desejo de ter todos os dias, ou quase todos, um doce, adorado, apetecido e consolador «petit mot». (...) As pessoas que se estimam nunca deviam se apartar; a culpa tem-na a nossa complicada civilização; o encanto seria que os que se amam se juntassem em tribos, acampando aqui e além, com as suas afeições e a sua bilha de água, and «settling down to be happy, anywhere, under a tree».

Cada dia que passa, agora, me aproxima de si. (...) Eu também não realizo bem a situação. Ela não deixa de ser ligeiramente romântica. Separamo-nos amigos, reencontramo-nos noivos. Que profunda, grave, séria diferença! Enquanto a gente se escreve, num tom de alegre felicidade, gracejando por vezes, falando de sentimentos e dando «notícias do coração» - «a coisa» parece apenas uma «flirtation» (...) Mas quando se pensa bem! Há então nessa coisa como uma severidade quase religiosa, uma sacro-santidade que assusta e perturba. Duas almas que se unem para sempre e que, tendo individualidades diferentes, não podem jamais tornar a ter interesses diferentes! 

in 'Carta a Emília de Rezende (1885)'




Eça, poliglota, bon vivant, ainda um pouco incrédulo da sorte de ter encontrado  a mulher ideal. Ora, vejamos mais abaixo:


Emília de Castro Pamplona - a Esposa

O escritor chega a confidenciar ao amigo, e também escritor, Ramalho Ortigão:

«Eu precisava de uma mulher serena, inteligente, com uma certa fortuna (não muita), de carácter firme sob um carácter meigo, – que me adoptasse como se adopta uma criança; que me pagasse o grosso das minhas dívidas, me obrigasse a levantar a certas horas cristãs – e não quando os outros almoçam – que me alimentasse com simplicidade e higiene, que me impusesse um trabalho diurno e salutar, e que, quando eu começasse a chorar pela lua, ma prometesse – até eu a esquecer… Esta doce criatura salvaria um artista – e faria uma daquelas obras de caridade que outrora levava gente ao Calendário. Mas ai! Onde está esta criatura ideal?»
Numa viagem de férias encetada ao Norte de Portugal, o escritor terá a possibilidade de conviver mais estreitamente com a família dos Condes de Resende, cujas relações iniciais datavam dos tempos do Colégio da Lapa no Porto, e a partir daqui começará a surgir um interesse cada vez maior por D. Emília de Castro Pamplona. Ler mais aqui

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Video: Youtube
1º excerto classificado como "Carta de amor" - Citador

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Este é o verdadeiro Amor de que tanto se fala

Estranho e inexplicável sentimento este! Que quando sinto transbordar-me do coração toda esta imensa ventura, acomete-me então um terror grande - parece-me que é impossível ser tão feliz - que o Mundo não comporta esta ventura celeste, e que chegado ao ápice de todas as felicidades já será forçoso declinar. (...) Sucede-te isto também a ti, esposa querida do meu coração? Conheces tu também este tormento, anjo divino?

Ai, Rosa, minha doce Rosa, este que nós sentimos, este é o verdadeiro amor de que tanto se fala, e tão pouco se sabe o que é. São regiões pouco conhecidas em que a cada passo se encontram belezas nunca sonhadas, terrores inexplicáveis, felicidades sem par e tristezas que não têm nome.

(...) Oh! Como se riria de mim quem lesse esta carta, Rosa! - De mim que eles julgam um incrédulo, um céptico, e cujas palavras sarcásticas no Mundo não significam senão a mais perfeita indiferença por tudo! Há dois homens em mim, vida desta alma; um é o que vêem todos, o que fez a experiência, a sociedade e o conhecimento de suas misérias e nulidades - o outro é o que tu fizeste, é a criação do teu amor, a tua obra, e este vale muito decerto, porque é feito à tua imagem. 

Almeida Garrett, 
in 'Carta a Rosa Barreiras'




João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett, mais tarde 1.º Visconde de Almeida Garrett (Porto, 4 de fevereiro de 1799 — Lisboa, 9 de dezembro de 1854), foi um escritor e dramaturgo romântico, orador, par do reino, ministro e secretário de estado honorário português.
Grande impulsionador do teatro em Portugal, uma das maiores figuras do romantismo português, foi ele quem propôs a edificação do Teatro Nacional de D. Maria II e a criação do Conservatório de Arte Dramática. Aqui

Quem melhor do que Garrett escreveria tão bela e apaixonada carta de amor?
Consta que Rosa seria a Viscondessa da Luz, conforme nota que abaixo transcrevo, em parte:
Nota : A Viscondessa da Luz, D. Rosa Montufar Infante (? - ?), filha dos Marqueses de Silva Alegre, casou, em 30 de agosto de 1837, com o, então, tenente coronel Joaquim Velez Barreiros, 1º Barão da Luz, ou de Nossa Senhora da Luz, durante a residência deste em Espanha, em que exercia as funções de comissionado do governo portuguez junto do general em chefe do exercito da Rainha Izabel II.
Foi a inspiradora das Folhas Cahidas, de Garrett, dedicados Ignoto Deo, em que se encontram belas poesias de temas amorosos.
Socorrendo-nos das Memorias, de Gomes de Amorim, diremos alguma coisa destes amores.
Parece ter surgido em 1849, essa paixão funesta, como lhe chama o biografo (3.o, 255).
No Arco de Sant'Ana aparece o seu velado retrato: “E ella (Esther) era bella, de uma belleza toda judaica, toda arabe. A figura alta e esbelta, as fórmas severas, sem molleza nenhuma nos contornos, o rosto oval, a tez morena, os olhos negros, faiscantes, a testa breve, mas perfeitamente desenhada, os sobr'olhos um tanto juntos, o cabello longo, preto, fino fino de uma fartura e formosura surprehendente.” (...) daqui

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Cartas de amor a Rosa auxiliam estudo - aqui
GARRETT: ENTRE A CRUZ DO DESEJO E A LUZ DO AMOR
Cartas de amor à Viscondessa da Luz - livro

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Atravessámos e vencemos tudo



Olho para o passado com embriaguês, mas não é com menos deslumbramento que encaro o nosso futuro. Eis-nos, agora, um do outro para todo o sempre, sem ansiedades, sem inquietações, sem angústias. Atravessámos e vencemos tudo o que era mau e que poderia ser fatal. Estamos na plena posse dos nossos dois destinos fundidos num só. O nosso amor não terá a frescura dos primeiros tempos, mas é um amor posto à prova, um amor que conhece a sua força, e que mesmo para além do túmulo, espera ser infinito. O amor, quando nasce, só vê a vida, o amor que dura vê a eternidade. 
Victor Hugo, in 'Carta a Juliette Drouet' 



E quem é Juliette Drouet?

Nascida Julienne Joséphine Gauvain, passou à posteridade por ter sido amante de Victor Hugo. Este exige que ela abandone a carreira de actriz, impondo-lhe uma vida monacal e outros sacrifícios. Apesar da sua dedicação, Victor Hugo engana-a, tendo outras ligações.

Contudo em 1870, aquando do cerco de Paris e temendo o pior, deixa algumas instruções aos filhos relacionadas com Juliette:   
« J.D
Elle m’a sauvé la vie en décembre 1851. Elle a subi pour moi l’exil. jamais son âme n’a quitté la mienne. que ceux qui m’ont aimé l’aiment. que ceux qui m’ont aimé la respectent. Elle est ma veuve. V.H »
Ao longo da vida Juliette escreve-lhe vinte mil cartas ou simples palavras. Na sua última carta, datada de 01 de Janeiro de 1883, ela diz-lhe o seguinte:
« Je ne sais pas où je serai l'année prochaine à pareille époque, mais je suis heureuse et fière de te signer mon certificat de vie pour celle-ci par ce seul mot : Je t'aime . »


Cartas de Amor, histórias de amor. Amores incompreensíveis. 
Frágeis e complexos nós somos.

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1ª imagem - daqui
2ª imagem - Wiki
Juliette Drouet - aqui


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen

Iremos juntos sozinhos pela areia
Embalados no dia
Colhendo as algas roxas e os corais
Que na praia deixou a maré cheia.

As palavras que disseres e que eu disser
Serão somente as palavras que há nas coisas
Virás comigo desumanamente
Como vêm as ondas com o vento.

O belo dia liso como um linho
Interminável será sem um defeito
Cheio de imagens e conhecimento.


in No Tempo Dividido, 1954






Façamos de conta que este poema é uma carta de amor, obedecendo ao tema proposto. Penso reconhecer-lhe juras e propósitos afins. 

Não resisto e transcrevo mais este poema:

Assim o amor
Espantando meu olhar com teus cabelos
Espantando meu olhar com teus cavalos
E grandes praias fluidas avenidas
Tardes que oscilavam demoradas
E um confuso rumor de obscuras vidas
E o tempo sentado no limiar dos campos
Com seu fuso sua faca e seus novelos

Em vão busquei eterna luz precisa


in Geografia, 1967





Sobre a autora, Sophia de Mello Breyner Andresen, li hoje a notícia de que está a circular por aí um poema apócrifo, de nome O Mar dos meus olhos. Não o transcrevo para não aumentar a proliferação, se for o caso. Consta que a filha tem procurado desfazer o equivoco, mas é uma luta desigual.


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Poema transcritos - daqui (BN)
Imagem daqui
Video youtube
Notícia aqui

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Deixa-me falar-te de amor

Nesta era em que tudo é fabricado, em que nada é natural, em que nada é puro; em que os primeiros beijos se trocam por telemóvel, se fala por sms e os ditos «encontros românticos» acontecem no cinema, entre um balde de pipocas e um copo de coca-cola, nesta era, que já não é minha, já não é tua, já nem é nossa; deixa-me falar-te de amor. Não quero falar deste «amor» novo, feito de «roda-bota-fora», que nasce podre e é vazio. Não te quero falar do amor para passar tempo, que se joga na Internet; nem daquele que se conhece num bar ou numa discoteca. 

Não: deixa-me falar-te de amor como o conheço, da mesma forma lamechas e (hoje) tão fora de moda; a mesma que te ensinaram os teus pais ou os teus avós; como era antigamente, quando passeavam junto ao rio, por vezes de mãos dadas, e coravam ainda, se encontravam alguma cara conhecida. Deixa-me falar-te do amor que me ensinaste. O amor que me ensinaste começou por um acaso, porque, por acaso, eu estava sozinha e tu também. O amor que me ensinaste não foi cozinhado nem confeccionado a propósito. 



No nosso amor, tu dás-me a mão e eu coro; convidas-me para sair e eu hesito; brincas com os meus caracóis e eu gosto; bebemos chá e ficamos ébrios; passeamos à beira-rio e pode ser que nos beijemos. No nosso amor, não somos só amantes, mas somos cúmplices. E companheiros. Olhas para mim e lês-me nas entrelinhas. Olho para ti e sei-te de cor. Sorrio e mergulhas nesse sorriso. Abraças-me e absorves-me inteira. Dizes-me «amo-te» e eu acredito. 
O amor que me ensinaste é puro, é natural, é biológico, sem corantes nem conservantes. Mas deixa-me contar-te um segredo: nesta era, que já não é minha, já não é tua, já nem é nossa; o nosso amor, ainda encanta! 

Ana Rita da Silva Freitas Rocha,

 in 'Textos de Amor – Museu Nacional da Imprensa' *


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Texto classificado como Carta de amor - Citador

*Concurso Textos de Amor:

Imagem: daqui