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terça-feira, 1 de maio de 2018

É preciso avisar...

É preciso avisar toda a gente
dar notícia informar prevenir
que por cada flor estrangulada
há milhões de sementes a florir

É preciso avisar toda a gente
segredar a palavra e a senha
engrossando a verdade corrente
duma força que nada detenha

É preciso avisar toda a gente
que há fogo no meio da floresta
e que os mortos apontam em frente
o caminho da esperança que resta

É preciso avisar toda a gente
transmitindo este morse de dores
É preciso imperioso e urgente
mais flores mais flores mais flores


João Apolinário
  (1924-1988)

Poeta e jornalista.
Combateu o fascismo tanto em sua terra natal, quanto em seus anos de exílio no Brasil. Colaborou em inúmeras publicações importantes nos dois países. É, no entanto, mais conhecido por seus poemas, musicados pelo filho João Ricardo e apresentados pelo conjunto Secos e Molhados. aqui




Desejo a todos um bom 1º de Maio.

Abraço.

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Poema: daqui

Video: Youtube

quarta-feira, 21 de março de 2018

Tabacaria

Não sou nada.



Nunca serei nada. 
Não posso querer ser nada. 
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. 


Janelas do meu quarto, 
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é 
(E se soubessem quem é, o que saberiam?), 
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, 
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, 
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, 
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, 
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, 
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. 


Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. 
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, 
E não tivesse mais irmandade com as coisas 
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua 
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada 
De dentro da minha cabeça, 
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida. 


Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu. 
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo 
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, 
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro. 


Falhei em tudo. 
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. 
A aprendizagem que me deram, 
Desci dela pela janela das traseiras da casa, 
Fui até ao campo com grandes propósitos. 
Mas lá encontrei só ervas e árvores, 
E quando havia gente era igual à outra. 
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?



 Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? 
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa! 
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! 
Génio? Neste momento 
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu, 
E a história não marcará, quem sabe?, nem um, 
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras. 
Não, não creio em mim. 
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas! 
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo? 
Não, nem em mim... 
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo 
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando? 
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas - 
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -, 
E quem sabe se realizáveis, 
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente? 
O mundo é para quem nasce para o conquistar 
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão. 
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez. 
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo, 
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu. 
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda, 
Ainda que não more nela; 
Serei sempre o que não nasceu para isso; 
Serei sempre só o que tinha qualidades; 
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta 
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira, 
E ouviu a voz de Deus num poço tapado. 
Crer em mim? Não, nem em nada. 
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente 
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo, 
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha. 
Escravos cardíacos das estrelas, 
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama; 
Mas acordámos e ele é opaco, 
Levantámo-nos e ele é alheio, 
Saímos de casa e ele é a terra inteira, 
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido. 





(Come chocolates, pequena; 
Come chocolates! 
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. 
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. 
Come, pequena suja, come! 
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! 
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho, 
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.) 


Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei 
A caligrafia rápida destes versos, 
Pórtico partido para o Impossível. 
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas, 
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro 
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas, 
E fico em casa sem camisa. 


(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas, 
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva, 
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta, 
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida, 
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua, 
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais, 
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -, 
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire! 
Meu coração é um balde despejado. 
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco 
A mim mesmo e não encontro nada. 
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta. 
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam, 
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam, 
Vejo os cães que também existem, 
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo, 
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.) 


Vivi, estudei, amei, e até cri, 
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu. 
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira, 
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses 
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso); 
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo 
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente. 


Fiz de mim o que não soube, 
E o que podia fazer de mim não o fiz. 
O dominó que vesti era errado. 
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. 
Quando quis tirar a máscara, 
Estava pegada à cara. 
Quando a tirei e me vi ao espelho, 
Já tinha envelhecido. 
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. 
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário 
Como um cão tolerado pela gerência 
Por ser inofensivo 
E vou escrever esta história para provar que sou sublime. 


Essência musical dos meus versos inúteis, 
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse, 
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte, 
Calcando aos pés a consciência de estar existindo, 
Como um tapete em que um bêbado tropeça 
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada. 




Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta. 
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada 
E com o desconforto da alma mal-entendendo. 
Ele morrerá e eu morrerei. 
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos. 
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também. 
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta, 
E a língua em que foram escritos os versos. 
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu. 
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente 
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas, 
Sempre uma coisa defronte da outra, 
Sempre uma coisa tão inútil como a outra, 
Sempre o impossível tão estúpido como o real, 
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície, 
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra. 


Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?), 
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim. 
Semiergo-me enérgico, convencido, humano, 
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário. 

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los 
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos. 
Sigo o fumo como uma rota própria, 
E gozo, num momento sensitivo e competente, 
A libertação de todas as especulações 
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto. 


Depois deito-me para trás na cadeira 
E continuo fumando. 
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando. 


(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira 
Talvez fosse feliz.) 
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela. 



O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?). 
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica. 
(O dono da Tabacaria chegou à porta.) 
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. 
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo 
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu. 





Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa


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Poema: Citador
Imagens: Pixabay 

quinta-feira, 15 de março de 2018

No fundo aberto

Escrevo-te enquanto algo resvala, acaricia, foge
e eu procuro tocar-te com as sílabas do repouso
como se tocasse o vento ou só um pássaro ou uma folha.
Chegaste comigo ao fundo aberto sob um céu marinho, 
sobre o qual se desenham as nuvens e as árvores.
Estamos na aurícula do coração do mundo.
O que perdemos ganhamo-lo na ondulação da terra.
Tudo o que queremos dizer sai dos lábios do ar
e é a felicidade da língua vegetal
ou a cabeça leve que se inclina para o oriente.
Ali tocamos um nó, uma sílaba verde, uma pedra de sangue
e um harmonioso astro se eleva como uma espádua fulgurante
enquanto um sopro fresco passa sobre as luzes e os lábios.

António Ramos Rosa
   (1924-2013)

in: Facilidade do Ar
pg
. 53





(...)


Tudo isso desencadeia um efeito de evidência muito próprio desta poesia que, na minha opinião, tem vindo a evoluir na direcção de uma transparência que a tem feito ultrapassar o que seria uma dimensão meramente descritiva, para mergulhar numa dimensão de conhecimento do mundo.
(...)

Fernando Pinto do Amaral


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Imagem: Desenho de António Ramos Rosa - aqui

sexta-feira, 9 de março de 2018

Momento

Em repouso, em ensimesmada indolência
cai a folha. A mão nupcial
desliza no ócio azul em ágeis graças
ou lentas cortesias. Um desenlace de matizes
no fundo da água e no fundo da retina.
Tantos tesouros líquidos, tanta minúcia imensa!
Tudo aqui nega o caos desde as raízes à cúpula
em transparência de clara primavera.
O ar é a ligeireza de um animal
que refresca os mais íntimos bosques
com a diafaneidade alegre das suas veias.

António Ramos Rosa
   (1924-2013)

in: Facilidade do Ar
pg
.42




(...)

Estamos, portanto, em presença de um autor que persegue palavras sempre ditas pela primeira vez, palavras inaugurais, que nos são oferecidas como uma espécie de promessa que permanece suspensa no limiar de si mesma e no horizonte de sentido que nos comunica. (...)

Fernando Pinto do Amaral


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Imagem: Desenho de António Ramos - aqui 

terça-feira, 6 de março de 2018

A fusão libertadora

Que doce e profunda é a água
quando
a luz e a sombra se reúnem.
Uma serena alegria
levanta o corpo em redonda doação.
Chegámos a este oiro incandescente,
deus e demónio em interna unidade,
que já não lutam e se abraçam
no círculo da vida libertada.
Todos os astros numa só constelação
tanta melodia e ritmo e graça
nas palavras, nos corpos e nas ondas
e todas as flores em fruto
e todo o corpo no seu livre dinamismo.

António Ramos Rosa
   (1924-2013)

in: Facilidade do Ar
pg.14







(...)


Esse o permanente enigma desta escrita, essa a permanente interrogação que se ergue na soberania tão luminosa dos seus "acordes". Ao tentar responder-lhe, poderíamos falar no amor, no desejo ou simplesmente nessa divindade  obscura e imediata que se confunde com a matéria e com a energia que a sustenta. Mas o essencial será mantermo-nos atentos ao sábio ardor da sua voz, a essa verdade tão sua mas tão ao nosso alcance, sempre condensada em cada uma das suas muitas "lições materiais".

Fernando Pinto do Amaral

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Imagem: Desenho de António Ramos Rosa : aqui

segunda-feira, 5 de março de 2018

Passagem

Será uma breve passagem entre a cinza e o vento.
Uma suave tentativa, um ligeiro sopro
às portas do silêncio. Uma perda
de tudo, do próprio sentido e do desejo.
Ser nada mas habitar o instante e os seus murmúrios
na infinita dispersão. Entre ruínas,
nos confins de uma terra acinzentada
em que as nuvens e as árvores se confundem,
tudo tem sabor a destino e a princípio,
a plenitude ou nada. E a palavra vibra
silenciosa, unânime, quase ébria
de um deus vegetal entre cigarras.
O mar cintila já. O exílio quase cessa.
O que é breve perdura em grávida leveza.

António Ramos Rosa
   (1924-2013)

in: Facilidade do Ar
pg.8





(...)
O que mais nos toca nesta belíssima poesia não ocorre, assim, ao nível de qualquer pendor confessional, mas sim graças à sua ideia de atingir um conhecimento ignorante: condenado à imanência (e à iminência) de uma fala que detém o poder de nomear, mas que se sabe efêmera, o poeta procura ligar o "deserto" ao "oásis", difundindo  a sua subjectividade por cada ínfima partilha do real, já que o sentido do mundo se encontra em todos os lugares e em lugar nenhum. (...)

Fernando Pinto do Amaral

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Imagem: Desenho de António Ramos Rosa - aqui

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

O Poema Original




Original é o poeta 
que se origina a si mesmo 
que numa sílaba é seta 
noutra pasmo ou cataclismo 
o que se atira ao poema 
como se fosse ao abismo 
e faz um filho às palavras 
na cama do romantismo.
Original é o poeta 
capaz de escrever em sismo. 

Original é o poeta 
de origem clara e comum 
que sendo de toda a parte 
não é de lugar algum. 
O que gera a própria arte 
na força de ser só um 
por todos a quem a sorte 
faz devorar em jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um. 

Original é o poeta 
expulso do paraíso 
por saber compreender 
o que é o choro e o riso; 
aquele que desce à rua 
bebe copos quebra nozes 
e ferra em quem tem juízo 
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta 
que é gato de sete vozes. 

Original é o poeta 
que chega ao despudor 
de escrever todos os dias 
como se fizesse amor. 

Esse que despe a poesia 
como se fosse mulher 
e nela emprenha a alegria 
de ser um homem qualquer.

In:Resumo
(1937/1984) 

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Poema com o título: "O poema original" 
no Citador em alguns outros sítios;
noutros : "Original é o poeta".
Imagem: Pixabay

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

A Árvore, a Estrela e a Pequena Mão




A pequena mão desenha a árvore 
onde uma estrela se aninha para dormir. 
Que dia será o de amanhã 
no meio dos escombros onde o eco da súplica 
enlouquece os cães famintos? 
Quadro trágico para uma noite assim. 
A pequena mão pega na borracha 
e tenta apagar toda a dor do mundo 
e acender com um novo traço 
a claridade que resgata a alma. 
A estrela acorda numa copa alta 
e segue o caminho do que sabe 
até encontrar a pequena mão 
que tudo reinventa à medida do que somos. 
Quando o encontro acontece 
já não é noite nem dia, tempo infinito, 
mas apenas um lugar onde o choro das crianças 
de súbito se transforma em cântico. 

A pequena mão desenha tudo 
o que falta desenhar para o sonho fazer sentido. 
É uma mão frágil mas firme, apenas sábia, 
e quando abre o livro azul das manhãs 
é sempre para escrever as palavras 
que o estrondo abafou nas cidades feridas. 
A pequena mão desenha uma árvore, 
uma estrela e uma mãe aflita. 
Depois desenha uma linha de horizonte, 
uma constelação e uma pequena arca. 
Um traço basta para criar a luz. 
Depois tudo é mistério e júbilo. 
Que ao menos esta noite ninguém se esqueça 
da árvore, da estrela, da lenda 
e da magia da pequena mão afagando a vida


In: Antologia Poética

José Jorge Letria

Jornalista, poeta, dramaturgo, ficcionista e autor de uma vasta obra para crianças e jovens, José Jorge Letria nasceu em Cascais, em 1951.

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Poema: daqui
Imagem: daqui 

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Fui quase todas as mulheres de Modigliani

Em tempos, ilustrei dois poemas sobre a mulher* com uma pintura de Modigliani. Por isso, o  título do livro de poemas de Graça Pires chamou-me logo a atenção. Isso e os belos poemas que a autora nos tem oferecido no seu blogue, retirados do mesmo. Daí a minha vontade de o adquirir e tê-lo aproveitado como uma parte da primeira experiência que apresentei à minha filha.

Resolvi publicar um dos seus poemas e quem já tiver lido o livro ou lido os poemas de que falei acima concordará que a dificuldade está na escolha. Mas até nisso tive sorte, porque no livro está contido um poema, adivinhem lá o tema. Nem será preciso grande esforço porque vou apresentá-lo a seguir:




Mulher com xaile vermelho

Uma brisa fria vem roçar-me a cara
nesta primavera desabrigada,
onde os pássaros rodopiam
uma valsa estremecida,
como se temessem o vento.

Falo pouco nestes dias,
em que me cobre
uma luz lívida e muda.

Cubro os pulsos com os folhos da blusa
para jurar silêncio, quando a mancha
do luar atingir o peitoril da janela.

Na borda da cadeira em que me sento
poiso, ao de leve, as minhas mãos
frias, quase de pedra.

Tenho a cingir-me o peito
um xaile de merino para abafar
as batidas desoladas do coração. 

in: Fui quase todas as mulheres de Modigliani
pg 43


No início, página 6, encontramos estas palavras de Maria Teresa Horta:



  
Voamos a lua,
menstruadas
Os homens gritam:
     - são as bruxas
As mulheres pensam:
     - são os anjos
  As crianças dizem:
     - são as fadas

Maria Teresa Horta
              Os Anjos





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Obra referenciada:
Fui quase todas as mulheres de Modigliani
Poesia - Graça Pires, Ed. Poética Edições
Maio 2017

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segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

O Portugal futuro



0 portugal  futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro


In:Boca Bilingue

   Ruy Belo
(1933-1978)

Poeta e ensaísta português, natural de São João da Ribeira, Rio Maior.

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Poema retirado de: Banco de Poesia Fernando Pessoa
Imagem: daqui

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Escrevo meu livro à beira-mágoa





Terceiro

Escrevo meu livro à beira-mágoa.
Meu coração não tem que ter.
Tenho meus olhos quentes de água.
Só tu, Senhor, me dás viver.
Só te sentir e te pensar
Meus dias vácuos enche e doura.
Mas quando quererás voltar?
Quando é o Rei? Quando é a Hora?
Quando virás a ser o Cristo
De a quem morreu o falso Deus,
E a despertar do mal que existo
A Nova Terra e os Novos Céus?
Quando virás, ó Encoberto,
Sonho das eras português,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anseio que Deus fez?
Ah, quando quererás, voltando,
Fazer minha esperança amor?
Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?

In: Mensagem

    (1888-1935)

Este poema é o terceiro passo da II Parte (Os Avisos), de Mensagem, livro 
composto por 44 poemas, editada um ano antes da sua morte. 
É uma obra que exalta os feitos dos portugueses, seguindo a linha camoniana,
e cultiva a esperança na recuperação do seu antigo prestígio.

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Poema retirado: daqui
Imagem: Pixabay

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Oh mundo, oh sombra, oh zombaria, oh nada!




À variedade do mundo

Este nasce, outro morre, acolá soa
Um ribeiro que corre, aqui suave,
Um rouxinol se queixa brando e grave,
Um leão c'o rugido o monte atroa.

Aqui corre uma fera, acolá voa
C'o grãozinho na boca ao ninho üa ave,
Um demba o edifício, outro ergue a trave,
Um caça, outro pesca, outro enferoa.

Um nas armas se alista, outro as pendura
An soberbo Ministro aquele adora,
Outro segue do Paço a sombra amada,

Este muda de amor, aquele atura.
Do bem, de que um se alegra, o outro chora...
Oh mundo, oh sombra, oh zombaria, oh nada!

      (1610-1663)

Poeta, magistrado. Alguns dos seus poemas foram reunidos na Fénix Renascida.
A maior parte da sua obra, em verso e em prosa, nunca veio a lume.

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Poema: in Projecto Vercial
Imagem: Pixabay

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Acordar da cidade de Lisboa

Acordar da cidade de Lisboa, mais tarde do que as outras,
Acordar da Rua do Ouro,
Acordar do Rossio, às portas dos cafés,
Acordar
E no meio de tudo a gare, que nunca dorme,
Como um coração que tem que pulsar através da vigília e do sono.  

Toda a manhã que raia, raia sempre no mesmo lugar,
Não há manhãs sobre cidades, ou manhãs sobre o campo.
À hora em que o dia raia, em que a luz estremece a erguer-se
Todos os lugares são o mesmo lugar, todas as terras são a mesma,
E é eterna e de todos os lugares a frescura que sobe por tudo.

Uma espiritualidade feita com a nossa própria carne,
Um alívio de viver de que o nosso corpo partilha,
Um entusiasmo por o dia que vai vir, uma alegria por o que pode acontecer de bom,
São os sentimentos que nascem de estar olhando para a madrugada,
Seja ela a leve senhora dos cumes dos montes,
Seja ela a invasora lenta das ruas das cidades que vão leste-oeste,
Seja […]

A mulher que chora baixinho
Entre o ruído da multidão em vivas...
O vendedor de ruas, que tem um pregão esquisito,
Cheio de individualidade para quem repara...
O arcanjo isolado, escultura numa catedral,
Siringe fugindo aos braços estendidos de Pã,
Tudo isto tende para o mesmo centro,
Busca encontrar-se e fundir-se
Na minha alma.

Eu adoro todas as coisas
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.
Tenho pela vida um interesse ávido
Que busca compreendê-la sentindo-a muito.
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,
Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas,
Para aumentar com isso a minha personalidade.
Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija. 
Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras —
Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo
Do que as que vi ou verei.
Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações.
A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.
Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca.

Dá-me lírios, lírios

E rosas também. 

Álvaro de Campos*





Álvaro de Campos está aqui possuído pelas sensações do Mestre Alberto Caeiro:"Nada para mim é tão belo como o movimento e sensações". Por estes dias estamos bem equipados com sensações, emoções e também movimento. Este, mais ainda.

A movimentação de 60000 pessoas e mais as pessoas da terra não é brincadeira. Cada uma dessas pessoas traz dentro de si os seus sonhos, as suas ideias, as suas ambições. Um fervilhar imenso. Uma energia que, se fosse quantificada, daria para iluminar meio mundo. E quem sabe se não ilumina mesmo. Nada viaja tão bem e através dos tempos como as ideias. O sal da terra.

Por estes dias o centro gravitacional de Lisboa não é a Rua do Ouro, o Rossio ou a Gare (subentende-se - Restauradores). Há sim uma gare a do Oriente e associando-se a ele o Parque das Nações. O mundo das tecnologias em efervescência. Uma espécie de contactos imediatos do 3º grau, reportando-me ao filme de há alguns anos (1977).

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Poema: Banco de Poesia Fernando Pessoa
*Heterónimo de Fernando Pessoa
Imagem Net

domingo, 29 de outubro de 2017

Deixai que a vida sobre vós repouse






Deixai que a vida sobre vós repouse
qual como só de vós é consentida
enquanto em vós o que não sois não ouse

erguê-la ao nada a que regressa a vida.
Que única seja, e uma vez mais aquela
que nunca veio e nunca foi perdida.

Deixai-a ser a que se não revela
senão no ardor de não supor iguais
seus olhos de pensá-la outra mais bela.

Deixai-a ser a que não volta mais,
a ansiosa, inadiável, insegura,
a que se esquece dos sinais fatais,

a que é do tempo a ideada formosura,
a que se encontra se se não procura.

in: As Evidências

     (1919-1978)


Jorge de Sena é considerado um dos grandes poetas de língua portuguesa e uma das figuras centrais da cultura do nosso século XX.

A sua obra, vasta e multifacetada, compreende mais de vinte coletâneas de poesia, uma tragédia em verso, uma dezena de peças em um ato, mais de trinta contos, uma novela e um romance, e cerca de quarenta volumes dedicados à crítica e ao ensaio (com destaque para os estudos sobre Camões e Pessoa, poetas com os quais a sua poesia estabelece um importante diálogo), à história e à teoria literária e cultural (os seus trabalhos sobre o Maneirismo foram pioneiros, tal como a sua história da literatura inglesa, e a sua visão comparatista e interdisciplinar das literaturas e das culturas foi extremamente fecunda), ao teatro, ao cinema e às artes plásticas, de Portugal, do Brasil, da Espanha, da Itália, da França, da Alemanha, da Inglaterra ou dos Estados Unidos, sem esquecer as traduções de poesia (duas antologias gerais, da Antiguidade Clássica aos Modernismos do século XX, num total de 225 poetas e 985 poemas, e antologias de Kavafis e Emily Dickinson, dois poetas que deu a conhecer em Portugal), as traduções de ficção (Faulkner, Hemingway, Graham Greene, entre 18 autores), de teatro (com destaque para Eugene O’Neill) e ensaio (Chestov). Ler mais...

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Poema: Citador
Imagem: Pixabay

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Estar aqui e ser agora

O poder político é, conforme a clássica definição de Max Weber, uma estrutura complexa de práticas materiais e simbólicas destinadas à produção do consenso. Isto é, o poder político, ao contrário das restantes formas de poder social, implica que haja uma relação entre governantes e governados, onde o governante exerce um poder-dever e o que obedece, obedece porque reconhece o governante pela legitimidade deste.

Assim, o espaço normal do processo político é o da persuasão. O da utilização da palavra para a comunicação da mensagem e a consequente obtenção da adesão, enquanto consenso e não unanimidade, onde há obediência pelo consentimento, onde o poder equivale à negociação.

Só quando falha este processo normal de adesão comunicativa é que o governante trata de utilizar a persuasão com autoridade, com o falar como autor para auditores, onde o autor está situado num nível superior e o auditor no nível inferior da audiência. Com efeito, o emissor da palavra não está no mesmo plano do receptor, está num lugar mais alto, aquele onde se acumula o poder.

Num terceiro passo vem a astúcia, o ser raposa para conhecer os fios da trama, esse olhar de coruja, que nos tenta convencer, actuando na face invisível do poder, nomeadamente para enganar o outro quanto à identificação dos seus próprios interesses, ou criando, para esse outro, interesses artificiais. Isto é, quando falha a comunicação pela palavra, mesmo que reforçada pela autoridade, vem o engodo, a utilização da ideologia, da propaganda ou do controlo da informação. O que pode passar pelo controlo do programa de debates, com limitação da discussão ou evitando o completo esclarecimento dos interesses das partes em confronto.

Excerto de um texto em que José Adelino Maltez, o nosso poeta do post anterior, (também investigador de ciência política, também professor universitário) analisa os princípios teóricos do sistema político na óptica de alguns autores que ele identifica no mesmo. Poderá lê-lo na íntegra aqui. Interessante o que se encontra escrito no topo: José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009.

De referir que no excerto que ora publico o itálico é do original.




Aproveitemos o ensejo e mergulhemos em mais um dos seus poemas:

Estar aqui

Estar aqui e procurar descobrir
a minha própria procura.
Estar aqui e ficar à espera
do que o tempo me trouxer.
Não desesperar com a demora.
Seja o que Deus quiser!

Cansa estar aqui por estar apenas aqui,
nos meandros da procura,
procurando o meu porquê.

Dar porquês a cada momento, farta
Apetecia ser um outro qualquer,
este lugar não ter de ser
e poder mudar meu tempo.

Porquê ter de haver um sítio e um momento?
Para que servem coordenadas no espaço do pensamento?
Vivo, logo tenho que sonhar.

No próprio tempo que tenho
procurar eternidade.
Ousar chegar mais além, na teia das palavras que procuro, aqui e agora.

Utopia não há, nem vale a pena.
Sobretudo, para quem do poema faz
o seu próprio mais além.
O além de quem tem de estar aqui e agora e viver, o dia a dia.
Hora a hora, sagrar
o deus instante que Deus me deu.

Viver tem de ser
viver aqui e agora,
sem temer o que vai acontecer
depois de meu próprio morrer.
Porque apetece o perfume dos dias
e não cansar-me de procura.
A longo prazo só morrem
os que temem a própria morte.
Estar aqui e ser agora,
procurando descobrir os meandros da procura.
Ficar assim, hora a hora, à espera do tempo que vier.
Seja o que Deus, sem mais disser,
seja o que Deus quiser.

In: No princípio era o mar - p.9

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Imagem: aqui
Poema : daqui