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terça-feira, 9 de julho de 2019

Guilherme de Almeida - o "Principe dos Poetas" - VII

BRANCA DE NEVE





Eu te guardo no fundo da memória,
como guardo, num livro, aquela flor
que marca a tua delicada história,
Branca de Neve, meu primeiro amor.

Amei-te... E amei-te, figurinha aluada,
porque nunca exististe e porque sei
que o sonho é tudo — e tudo mais é nada...
E és o primeiro sonho que sonhei.

Hoje ainda beijo, comovido e tonto,
a velha mão que um dia me mostrou
aquela estampa do teu lindo conto,
princesinha encantada de Perrault!

Que fui eu afinal? — Um pobre louco
que andou, na vida, procurando em vão
sua Branca de Neve que era um pouco
do sonho e um pouco de recordação...

Procurei-a. Meus olhos esperaram
vê-la passar com flores e galões,
tal qual passaste quando te levaram,
no ataúde de vidro, os sete anões.

E encontrei a Saudade: ia alva e leve
na urna do passado que, afinal,
é como o teu caixão, Branca de Neve:
é um ataúde todo de cristal.

E parecia morta: mas vivia.
Corado do meu beijo que a roçou,
despertei-a do sono em que dormia,
como o Príncipe Azul te despertou.

Sinto-me agora mais criança ainda
do que naqueles tempos em que li
a tua história mentirosa e linda;
pois quase chego a acreditar em ti.

É que o meu caso (estranha extravagância!)
é a tua história sem tirar nem pôr...
E esta velhice é uma segunda infância,
Branca de Neve, meu primeiro amor.


        (1890-1969)

A sua entrada na Casa de Machado de Assis significou a abertura das portas 
aos modernistas. 
Formou, com Cassiano Ricardo, Manuel Bandeira, Menotti del Picchia e 
Alceu Amoroso Lima, o grupo dos que lideraram a renovação da Academia.
Era membro da Academia Paulista de Letras; do Instituto Histórico e Geográfico 
de São Paulo; do Seminário de Estudos Galegos, de Santiago de Compostela; 
e do Instituto de Coimbra.
Traduziu, entre outros, os poetas Paul Géraldy, Rabindranath Tagore, 
Charles Baudelaire, Paul Verlaine e, ainda, a peça a peça Huis clos 
(Entre quatro paredes) de Jean Paul Sartre. aqui





Veja: 
Post IIIIIIIVV, VI
=====
Poema daqui
Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série II - Alma.
Imagem: daqui

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Guilherme de Almeida - o "Príncipe dos Poetas" - VI

CINEMA





Na grande sala escura,
só teus olhos existem para os meus:
olhos cor de romance e de aventura,
longos como um adeus.

Só teus olhos: nenhuma
atitude, nenhum traço, nenhum
gesto persiste sob o vácuo de uma
grande sombra comum.

E os teus olhos de opala,
exagerados na penumbra, são
para os meus olhos soltos pela sala,
uma dupla obsessão.

Um cordão de silhuetas
escapa desses olhos que, afinal,
são dois carvões pondo figuras pretas
sobre um muro de cal.

E uma gente esquisita,
em torno deles, como de dois sóis,
é um sistema de estrelas que gravita:
— são bandidos e heróis;

são lágrimas e risos;
são mulheres, com lábios de bombons;
bobos gordos, alegres como guizos;
homens maus e homens bons...

É a vida, a grande vida
que um deus artificial gera e conduz
num mundo branco e preto, e que trepida
nos seus dedos de luz...


Guilherme de Almeida
          (1890-1969)


"A mais moça das artes"
Guilherme de Almeida via o cinema como uma marca do recém-iniciado Século XX, uma nova e vibrante marca de uma sociedade que parecia desejosa de superar antigos paradigmas, dentre os quais estavam os artísticos, com a predominância do teatro e da literatura.(...) Chegou mesmo a "comemorar" o fato de muitos teatros estarem, na década de 1920, dando lugar a salas de cinema, como sendo uma prova inequívoca da superioridade desta, que era em suas palavras, "a mais capaz e moderna das artes"
"Cinematographos: Antologia crítica cinematográfica", reúne textos de Guilherme de Almeida publicados de 1926 a 1942 no jornal O Estado de São Paulo. A coletânea traz à vida a história do cinema no país, mostrando os costumes e paixões. aqui



Pioneiro na crítica do cinema no Brasil

Veja: 
Post IIIIIIIVV

====

Poema: daqui
Imagem: daqui

domingo, 7 de julho de 2019

Guilherme de Almeida - o "Príncipe dos Poetas" - V

INDIFERENÇA





Hoje, voltas-me o rosto, se ao teu lado
passo. E eu, baixo os meus olhos se te avisto.
E assim fazemos, como se com isto,
pudéssemos varrer nosso passado.

Passo esquecido de te olhar, coitado!
Vais, coitada, esquecida de que existo.
Como se nunca me tivesses visto,
como se eu sempre não te houvesse amado

Mas, se às vezes, sem querer nos entrevemos,
se quando passo, teu olhar me alcança
se meus olhos te alcançam quando vais.

Ah! Só Deus sabe! Só nós dois sabemos.
Volta-nos sempre a pálida lembrança.
Daqueles tempos que não voltam mais!


Guilherme de Almeida
      (1890-1969)



É de sua autoria a letra da Canção do Expedicionário com música de Spartaco Rossi, referente à participação dos pracinhas brasileiros na Segunda Guerra Mundial.

Autor da letra do Hino da Televisão Brasileira, executado quando da primeira transmissão da Rede Tupi de Televisão, realizada por mérito de seu concunhado, o jornalista Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo. 
Dedicou-se ainda a outras artes e atividades, além da literatura e da poesia: desenhista amador, cultivou também a heráldica, tendo criado o brasão das cidades de São Paulo, Petrópolis (RJ), Volta Redonda (RJ), Londrina (PR), Brasília (DF), Guaxupé (MG), Caconde, Iacanga e Embu (SP).aqui








Veja:
Post I, II, III, IV

====
Poema: daqui
Imagem: Araçoiaba
Campinas
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sábado, 6 de julho de 2019

Guilherme de Almeida - o "Príncipe dos Poetas" - IV

ESTA VIDA




Um sábio me dizia: esta existência,
não vale a angústia de viver. A ciência,
se fôssemos eternos, num transporte
de desespero inventaria a morte.
Uma célula orgânica aparece
no infinito do tempo. E vibra e cresce
e se desdobra e estala num segundo.
Homem, eis o que somos neste mundo.

Assim falou-me o sábio e eu comecei a ver
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Um monge me dizia: ó mocidade,
és relâmpago ao pé da eternidade!
Pensa: o tempo anda sempre e não repousa;
esta vida não vale grande coisa.
Uma mulher que chora, um berço a um canto;
o riso, às vezes, quase sempre, um pranto.
Depois o mundo, a luta que intimida,
quadro círios acesos : eis a vida

Isto me disse o monge e eu continuei a ver
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Um pobre me dizia: para o pobre
a vida, é o pão e o andrajo vil que o cobre.
Deus, eu não creio nesta fantasia.
Deus me deu fome e sede a cada dia
mas nunca me deu pão, nem me deu água.
Deu-me a vergonha, a infâmia, a mágoa
de andar de porta em porta, esfarrapado.
Deu-me esta vida: um pão envenenado.

Assim falou-me o pobre e eu continuei a ver,
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Uma mulher me disse: vem comigo!
Fecha os olhos e sonha, meu amigo.
Sonha um lar, uma doce companheira
que queiras muito e que também te queira.
No telhado, um penacho de fumaça.
Cortinas muito brancas na vidraça
Um canário que canta na gaiola.
Que linda a vida lá por dentro rola!

Pela primeira vez eu comecei a ver,
dentro da própria vida, o encanto de viver.


     (1890-1969)



Embora tenha aderido ao movimento da Semana de Arte Moderna, não encontrou nela os reais valores para a criação artística. Algumas obras revelam elementos do passado, principalmente da escola parnasiana, amenizados por um toque de neossimbolismo em “Nós” e “A Dança das Horas”. Depois da atuação na semana, deixa-se contaminar pelos valores do movimento e algumas obras espelham seu ideário nacionalista em “Meu” e “Raça”. 

Em seguida, o poeta retorna ao ponto de origem. Cultua valores parnasiano-decadentes em “Encantamento”, “Acaso” e “Você”. Faz reviver o estilo dos trovadores no “Pequeno Cancioneiro”. Assume também caracteres da lírica renascentista em “Camoniana”. aqui





====

Poema: daqui
Imagem: Flamboyant Campinas

Guilherme de Almeida - o "Principe dos Poetas" III

Harmonia vermelha*





O teu beijo resume
Todas as sensações dos meus sentidos
A cor, o gosto, o tacto, a música, o perfume
Dos teus lábios acesos e estendidos
Fazem a escala ardente com que acordas o fauno encantador
Que, na lira sensual de cinco cordas,
Tange a canção do amor!

E o tacto mais vibrante,
O sabor mais subtil, a cor mais louca,
O perfume mais doido, o som mais provocante
Moram na flor triunfal da tua boca!
Flor que se olha, e ouve, e toca, e prova, e aspira;
Flor de alma, que é também
Um acorde em minha lira,
Que é meu mal e é meu bem...

Se uma emoção estranha
- o gosto de uma fruta, a luz de um poente -
chega a mim, não sei de onde, e bruscamente ganha
qualquer sentido meu, é a ti somente
que ouço, ou aspiro, ou provo, ou toco, ou vejo...
E acabo de pensar
Que qualquer emoção vem de teu beijo
Que anda disperso no ar...


     (1890-1969)

Sua estreia na poesia se deu com a obra “Nós”, em 1917. Sonetista exímio, hábil manejador de versos, recebeu fortes influências de Olavo Bilac e do português Antônio Nobre. Fez conferências divulgando os ideais do Movimento Modernista. Difundiu a Poesia Moderna proferindo a conferência "Revelação do Brasil pela Poesia Moderna", nas cidades de Fortaleza, Porto Alegre e Recife. Participou da Semana de Arte Moderna, fundando em seguida, a revista "Klaxon". aqui

Nos poemas de "Simplicidade", publicado em 1929, retornou às suas matrizes iniciais, à perfeição formal desprezada pelos outros, mas não recaiu no Parnasianismo, porque continuou privilegiando a renovação de temas e linguagem. 

Sobressaiu sempre o artista do verso, que o poeta Manuel Bandeira considerou o maior em língua portuguesa. aqui





====

Poema daqui
Agradecimentos ao "Nothingandall..."

*Dúvida:
Encontrei o mesmo soneto com o título de "Harmonia Velha": aqui

Imagem - Holambra - Janete Oliveira - aqui

Descubra "Holambra" aqui no "Xaile" - uma curiosidade

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Guilherme de Almeida - o "Príncipe dos Poetas" - II

IDÍLIO SUAVE






Chegas. Vens tão ligeira
e és tão ansiosamente esperada, que enfim,
nem te sentindo o passo e já te tendo inteira,
completamente em mim,
quando, toda Watteau, silenciosa, apareces,
é como se não viesses.

Vens... E ficas tão perto
de mim, e tão diluída em minha solidão,
que eu me sinto sozinho e acho imenso e deserto
e vazio o salão...
E, sem te ouvir nem ver, arde-me em febre a face,
como se eu te esperasse!

Partes. Mas é tão pouco
o que de ti se vai que ainda te vejo o arfar
do seio, e o teu cabelo, e o teu vestido louco,
e a carícia do olhar,
e a tua boca em flor a dizer-me doidices,
como se não partisses!


      (1890-1969)


Foi o primeiro modernista a entrar para a Academia Brasileira de Letras (1930). Em 1958, foi coroado o quarto "Príncipe dos Poetas Brasileiros" (depois de BilacAlberto de Oliveira e Olegário Mariano). 
A essência de sua poesia é o ritmo “no sentir, no pensar, no dizer”. Dominou amplamente os processos rímicos, rítmicos e verbais, bem como o verso livre, explorando os recursos da língua, a onomatopeia, as assonâncias e aliterações. aqui

Ver:
Post I



Antoine Watteau


====
Poema - daqui
Agradecimentos ao "Nothingandall..."
Imagem:Campinas: Paisagem Urbana 
daqui




Video: Morna "Saudades", de B.Léza (Francisco Xavier da Cruz)
 Intérprete: Maria da Luz Souza

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Guilherme de Almeida - o "Principe dos Poetas" - I




CAMPINAS inicia hoje uma semana de homenagem a Guilherme de Andrade de Almeida (1890-1969),  advogado, jornalista, heraldista, crítico de cinema, poeta, ensaísta e tradutor brasileiro, agora que passam 50 anos sobre a sua morte. Daqui do Xaile adiro a essa iniciatiava, de modo que nos próximos dias publicarei poemas seus, recorrendo a fontes que indicarei mais abaixo.

Para já, o poema A Carta que eu sei de Cor que foi declamado na Faculdade de Letras de Coimbra, em 1930, na importante conferência "Poesia Moderníssima Brasileira":

A Carta que eu sei de cor

E tu me escreves: - "Meu amor, minha saudade!

Há tanto tempo não te vejo: há quasi um dia;
estou tão longe: do outro lado da cidade...
Tive sonhos tão bons esta noite! Vem vê-los:
ainda estão nos meus olhos loucos de alegria.
Sabes? esta manhã cortei os meus cabelos.
Denunciavam-me tanto! E a ti também, meu poeta...
Que alívio! Tenho a sensação de haver cortado
relações com alguma amiguinha indiscreta.
Agora estamos mais a nosso gosto. Agora
o meu gosto será bem menos complicado
Para pôr o chapéu, quando me for embora...
Sinto-me tão feliz! Tive um riso sincero
ao meu espelho: e esse sorriso revelou-me
que o meu único mal é este bem que eu te quero..."
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
E quando chego ao fim da carta, sinto, vejo
que a minha boca toma a forma do teu nome:
a forma que ela tem quando vai dar um beijo...




Combatente na Revolução Constitucionalista de 1932 e exilado em Portugal, após o final da luta, foi homenageado com a Medalha da Constituição, instituída pela Assembleia Legislativa de São Paulo. Sua obra maior de amor a São Paulo foi seu poema Nossa Bandeira além do Hino dos Bandeirantes - oficializado como letra do Hino do Estado de São Paulo - e da letra do hino da Força Pública (atual Polícia Militar do Estado de São Paulo). É proclamado "O poeta da Revolução de 32". aqui

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Poema: daqui
Campinas: Programação

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Ouvir estrelas




"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."
(1865-1918)


Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac. jornalistacontistacronista e poeta brasileiro, 


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MEUS AMIGOS:

ESTAREI AUSENTE DURANTE ALGUNS DIAS.

ABRAÇO

OLINDA
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Poema - daqui
Imagem - daqui

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Meu Pai, o que é a Liberdade?

- Meu pai, o que é a liberdade? 

- É o seu rosto, meu filho, 
o seu jeito de indagar 
o mundo a pedir guarida 
no brilho do seu olhar. 
A liberdade, meu filho, 
é o próprio rosto da vida 
que a vida quis desvendar. 
É sua irmã numa escada 
iniciada há milênios 
em direção ao amor, 
seu corpo feito de nuvens 
carne, sal, desejo, cálcio 
e fundamentos de dor. 
A liberdade, meu filho, 
é o próprio rosto do amor. 

- Meu pai, o que é a liberdade? 

A mão limpa, o copo d’água 
na mesa qual num altar 
aberto ao homem que passa 
com o vento verde do mar. 
É o ato simples de amar 
o amigo, o vinho, o silêncio 
da mulher olhando a tarde 
- laranja cortada ao meio, 
tremor de barco que parte, 
esto de crina sem freio. 

- Meu pai, o que é a liberdade? 

É um homem morto na cruz 
por ele próprio plantada, 
é a luz que sua morte expande 
pontuda como uma espada. 
É Cuauhtemoc a criar 
sobre o brasileiro que o mata 
uma rosa de ouro e prata 
para altivez mexicana. 
São quatro cavalos brancos 
quatro bússolas de sangue 
na praça de Vila Rica 
e mais Felipe dos Santos 
de pé a cuspir nos mantos 
do medo que a morte indica. 
É a blusa aberta do povo 
bandeira branca atirada 
jardim de estrelas de sangue 
do céu de maio tombadas 
dentro da noite goyesca. 
É a guilhotina madura 
cortando o espanto e o terror 
sem cortar a luz e o canto 
de uma lágrima de amor. 
É a branca barba de Karl 
a se misturar com a neve 
de Londres fria e sem lã, 
seu coração sobre as fábricas 
qual gigantesca maçã. 
É Van Gogh e sua tortura 
de viver num quarto em Arles 
com o sol preso em sua pintura. 
É o longo verso de Whitman 
fornalha descomunal 
cozendo o barro da Terra 
para o tempo industrial. 
É Federico em Granada. 
É o homem morto na cruz 
por ele próprio plantada 
e a luz que sua morte expande 
pontuda como uma espada. 

- Meu pai, o que é a liberdade? 

A liberdade, meu filho, 
é coisa que assusta: 
visão terrível (que luta!) 
da vida contra o destino 
traçado de ponta a ponta 
como já contada conta 
pelo som dos altos sinos. 
É o homem amigo da morte 
Por querer demais a vida 
- a vida nunca podrida. 
É sonho findo em desgraça 
desta alma que, combalida, 
deixou suas penas de graça 
na grade em que foi ferida... 
a liberdade, meu filho, 
é a realidade do fogo 
do meu rosto quando eu ardo 
na imensa noite a buscar 
a luz que pede guarida 
nas trevas do meu olhar. 

Moacyr Félix 

1926-2005


====
in 'Canto para As Transformações do Homem' (Citador)
Dos nomes referidos no poema os que eu desconhecia:
-Cuauhtémoc (1502 - 1525),  Wiki
-A Revolta de Filipe dos Santos — episódio também conhecido como Revolta de Vila Rica. Considerado um dos precursores da chamada Inconfidência Mineira. Wiki

domingo, 26 de março de 2017

A Peregrina



Calma, sim, acostumada
ao teu convívio constante,
és pessoa encontrada
sendo eterna itinerante.

Passas na comum estrada
e só tu passas durante
a multidão variada
de rostos para o levante.

Às vezes paras na estância
sem nenhum morno cansaço
de quem caminha com ânsia.

Entendes de todo engano
e fazes virar o passo
com teu pífaro indiano.

Maria Ângela Alvim
(1926-1959)
In: Superfície-Toda poesia


Maria Ângela Alvim nasceu no dia 1 de janeiro de 1926 nas fazendas do Pouso Alegre, município de Volta Grande, no estado de Minas Gerais - Brasil.
Leitora assídua de Simone Weil e de Santa Teresa de Ávila pensa durante algum tempo seguir a vida religiosa. Em 1945, por influência de um dominicano francês, o Padre Lebret, fundador do movimento e da revista "Économie et Humanisme", inicia a carreira de assistente social, então nascente em todo o Brasil, que a confronta com uma realidade terrível. É dessa época que data a sua amizade e colaboração com o autor de "Geografia da Fome", Josué de Castro.
No dia 19 de outubro de 1959, Maria Ângela Alvim pôs fim aos seus dias.
aqui

Encontrará uma reflexão sobre esta autora, sob o título Maria Ângela Alvim: a célebre desconhecida, bem como considerações sobre pesquisas sobre a sua vida e obra. aqui.

O Poema é do Poemário Assírio & Alvim, 2012.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Uma louca chamada Esperança



Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
- Ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
- Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
- O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

Mario Quintana, (1906-1994). Poeta.Tradutor.Jornalista. Brasileiro.

"Olho em redor do bar em que escrevo estas linhas. 
Aquele homem ali no balcão, caninha após caninha,
nem desconfia que se acha conosco desde o início
das eras. Pensa que está somente afogando problemas
dele, João Silva... Ele está é bebendo a milenar
inquietação do mundo!"
  
=====

Do blog picosderoseirabrava trouxe a imagem e esta mensagem: 

A chama da amizade
Amizade em cadeia. Porque Dezembro é um mês muito especial.
Esta chama acesa vem do blog da Fê Blue Bird e espero que propague por outros e muitos mais.

(Ver post anterior) 


sábado, 7 de novembro de 2015

E agora, José?

Melhor poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade
JOSÉ

E agora, José?
          A festa acabou,
          a luz apagou,
          o povo sumiu,
          a noite esfriou,
          e agora, José?
          e agora, você?
          você que é sem nome,
          que zomba dos outros,
          você que faz versos,
          que ama, protesta?
          e agora, José?
          Está sem mulher,
          está sem discurso,
          está sem carinho,
          já não pode beber,
          já não pode fumar,
          cuspir já não pode,
          a noite esfriou,
          o dia não veio,
          o bonde não veio,
          o riso não veio
          não veio a utopia
          e tudo acabou
          e tudo fugiu
          e tudo mofou,
          e agora, José?

          E agora, José?
          Sua doce palavra,
          seu instante de febre,
          sua gula e jejum,
          sua biblioteca,
          sua lavra de ouro,
          seu terno de vidro,
          sua incoerência,
          seu ódio - e agora?
          Com a chave na mão
          quer abrir a porta,
          não existe porta;
          quer morrer no mar,
          mas o mar secou;
          quer ir para Minas,
          Minas não há mais.
          José, e agora?

          Se você gritasse,
          se você gemesse,
          se você tocasse
          a valsa vienense,
          se você dormisse,
          se você cansasse,
          se você morresse...
          Mas você não morre,
          você é duro, José!
          Sozinho no escuro
          qual bicho-do-mato,
          sem teogonia,
          sem parede nua
          para se encostar,
          sem cavalo preto
          que fuja a galope,
          você marcha, José!
          José, para onde?


Carlos Drummond de Andrade: Foi um poeta mineiro, nascido em Itabira em 31 de outubro de 1902. Faleceu aos 84 anos em 1987.  É considerado um dos maiores poetas da literatura brasileira e construiu extensa obra ao longo dos anos de vida. Ficou conhecido pela sua pacata vida de funcionário público, que se colocou em contraste com o poder de sua poesia. Drummond está ao lado dos modernistas, que reivindicaram na poesia os versos livres, sem metro fixo definido e com temática cotidiana. Sua poesia circula entre os temas sociais, existenciais e metafísicos, marcados por uma fina ironia. Quem nunca escutou o verso “E agora José?”.

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Daqui 

domingo, 9 de agosto de 2015

Dá-me a tua mão

Marco o meu regresso, da minha ausência* forçada, trazendo comigo Clarice Lispector. Melhor companhia não haverá. 
No toque das mãos sentimos o bater do coração e o encontro das emoções. É o que as suas palavras me transmitem, neste momento:



Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.

De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.


Melhores escritores brasileiros

Clarice Lispector: É certamente a escritora de literatura brasileira mais lida entre nós. Clarice nasceu na Ucrânia em 10 de dezembro de 1920 e veio ao Brasil logo em seguida, sendo naturalizada brasileira. Morreu aos 56 anos em 9 de dezembro de 1977. Sua obra se constitui de romances e contos, além de ter escrito artigos de jornal em colunas femininas e poucos livros infantis. Sua literatura é de caráter existencial, introspectivo e filosófico, mostrando com maestria o lado misterioso das coisas mais simples e do cotidiano. Suas principais obras são: Perto do Coração Selvagem (1944), A Paixão segundo G.H. (1964), Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres (1969), Água Viva (1973), A Hora da Estrela (1977), Laços de Família (1960).aqui

Desejo-vos um bom domingo.  

====
*Obrigações familiares
Poema de aqui
Imagem: aqui

sexta-feira, 10 de julho de 2015

A palavra mágica

Por vezes sinto que já está tudo dito, tudo escrito, tudo falado. Que nada que se diga irá desviar o mundo da sua rota. Que o ser humano preocupado consigo próprio não se ocupa da grande tarefa de tentar adivinhar os gostos e as preocupações do outro: Se está triste procurar saber o porquê e consolá-lo; se está alegre, congratular-se com isso. Mas, não poucas vezes encontro pessoas que me fazem crer o contrário e uma lufada de esperança me invade. Com efeito, no nosso quotidiano vislumbro as que conseguem renovar-se e renovar a língua e a linguagem, com um toque de génio, um sorriso, um olhar. E eu aí fico contente e admiro essas pessoas. Como quando passo por alguém que abranda o passo e me diz: "Como está? Hoje o dia vai estar bonzinho". Parece banal, não é? São as tais palavras que de tão repetidas parecem banais mas que são o motor do nosso relacionamento humano. Outras há que de tão escondidas no nosso íntimo parecem nem existir.



Atentemos nestes dizeres:

Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira 
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura 
ficará sendo 
minha palavra.  

É A Palavra Mágica, de Carlos Drummond de Andrade, aquela que nos fará sublimes se nos dedicarmos a encontrá-la. A tal que desbloqueará conversações, negociações, mal-entendidos. E, como diz o Poeta, "É a senha da vida, a senha do mundo".

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Diógenes de Sinope, pintado por Jean-Léon Gérôme