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domingo, 24 de agosto de 2014

Do desassossego

6.
Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um campo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o conhecer que existo, e não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim. Isto mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma, mas para não ter que desabotoar o casaco.
Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios. Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior. Sinto na minha pessoa uma força religiosa, uma espécie de oração, uma semelhança de clamor. Mas a reacção contra mim desce-me da inteligência... Vejo-me no quarto andar alto da Rua dos Douradores, assisto-me com sono; olho, sobre o papel meio escrito, a vida vã sem beleza e o cigarro barato que a expender estendo sobre o mata-borrão velho. Aqui eu, neste quarto andar, a interpelar a vida!, a dizer o que as almas sentem!, a fazer prosa como os génios e os célebres! Aqui,eu, assim!...

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Assim se expressa Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa, morador na rua dos Douradores, num quarto andar, reconhecido pelo criador como seu semi-heterónimo. Triste. Sozinho. Solitário. Talvez como milhares de pessoas, a vida vã, sem esperança. Fragmento de fragmentos. Passagem do Livro do Desassossego, que nos desassossega...

Continuarei esta leitura. Levará o seu tempo. Dela vos darei conta, a espaços. 


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Ver - Livro do Desassossego - Bernardo Soares (Fernando Pessoa).
Introdução de Richard Zenith, muito interessante.

Imagem: daqui

domingo, 9 de outubro de 2011

Contagiar almas

Inquietude é o que eu sinto quando a palavra desassossego me vem ao espírito. Também me atrai. Dá-me vontade de fazer coisas, saltar do sofá, ir à janela e espreitar o mundo, decidir coisas, isso, tomar decisões, fazer escolhas… O tempo é de decisões, qual delas a mais difícil. Por isso mesmo já decidi. Está na hora de ler “O Livro do Desassossego” e não confiar apenas em citações e passagens fora de contexto. Ver in loco o que Bernardo Soares teria querido dizer com:


 “Ah! Como eu desejaria lançar ao menos numa alma alguma coisa de veneno, de desassossego e de inquietação. Isso consolar-me-ia um pouco da nulidade de acção em que vivo. Perverter seria o fim da minha vida. Mas vibra alguma alma com as minhas palavras? Ouve-as alguém que não sou só eu?”


Foi com este post que eu iniciei este blog, em 22 de Janeiro. Hoje, o que tenho a dizer é que não li  ainda  o 'Livro do Desassossego', mas continuo com o mesmo desejo. Isto vem a propósito da notícia de que a peça Do Desassossego, inspirada na referida obra, estreada há 10 anos em Lisboa, só agora chegou ao Porto, onde será apresentada pela primeira vez. Estará em cena até domingo. Talvez vá vê-la. A seguir a leitura... Continuamos em época de grandes decisões.


Ver:
Notícia
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