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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Não deixes nada por dizer / Nun deixes nada por dezir


Diz-me tudo

Diz-me dos silêncios inquietos que cantam no teu olhar
do rio de palavras selvagens preso em ti
das melodias vadias que escreves ao luar,

diz ao desassossego que ateias em mim
o poema que quero entender

e quando a minha pele começar a enrubescer
diz-me tudo.
Não deixes nada por dizer.





Diç-me todo

Diç-me ls siléncios zanquietos que cantán ne l tou mirar
de l riu de palabras salbaiges preso an ti
de las melodies bagamundas que scribes a la lhuna

diç al zassossego que chiçcas an mi
l poema que quiero antender

i quando la mie piel ampeçar a aburmelhar
diç-me todo.
Nun deixes nada por dezir.

TERESA ALMEIDA SUBTIL

In:
Rio de Infinitos
Riu d'Anfenitos
Pgs 58 e 59
Obra escrita em Português e em Mirandês

Querida Teresa, mais uma vez a invadir as páginas deste seu livro. A minha dificuldade esteve na escolha, e quem já teve a oportunidade de o folhear percebe logo o que quero dizer.
O tango chegou agora ao "Xaile", não numa interpretação dita clássica mas a convidar a uma boa milonga.


Apreciemos este Silêncio da Orquestra Negracha




Sobre a autora. 
Atentemos nestas suas palavras:
O meu voo nas palavras começou muito cedo através da leitura. A leitura foi, de facto, a grande motivação. Pela leitura rasguei caminhos, abri horizontes, viajei por espaços de enorme encantamento. O mundo abria-se para mim de maneira surpreendente e percebi que a vida é a ideia que dela fazemos. Penso que quem tem o prazer intenso de ler, acaba por sentir necessidade de comunicar as suas próprias emoções, acaba por descobrir o prazer de escrever. O que seria a vida sem emoção?
E mais...Aqui

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Título do post: o último verso do poema, em português e em mirandês.
Imagem: daqui
Excerto sobre a autora - Blog Memórias... e outras coisas... Bragança

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen

Iremos juntos sozinhos pela areia
Embalados no dia
Colhendo as algas roxas e os corais
Que na praia deixou a maré cheia.

As palavras que disseres e que eu disser
Serão somente as palavras que há nas coisas
Virás comigo desumanamente
Como vêm as ondas com o vento.

O belo dia liso como um linho
Interminável será sem um defeito
Cheio de imagens e conhecimento.


in No Tempo Dividido, 1954






Façamos de conta que este poema é uma carta de amor, obedecendo ao tema proposto. Penso reconhecer-lhe juras e propósitos afins. 

Não resisto e transcrevo mais este poema:

Assim o amor
Espantando meu olhar com teus cabelos
Espantando meu olhar com teus cavalos
E grandes praias fluidas avenidas
Tardes que oscilavam demoradas
E um confuso rumor de obscuras vidas
E o tempo sentado no limiar dos campos
Com seu fuso sua faca e seus novelos

Em vão busquei eterna luz precisa


in Geografia, 1967





Sobre a autora, Sophia de Mello Breyner Andresen, li hoje a notícia de que está a circular por aí um poema apócrifo, de nome O Mar dos meus olhos. Não o transcrevo para não aumentar a proliferação, se for o caso. Consta que a filha tem procurado desfazer o equivoco, mas é uma luta desigual.


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Poema transcritos - daqui (BN)
Imagem daqui
Video youtube
Notícia aqui

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

São pessoas como tu




São as pessoas como tu que fazem com que o nada queira dizer-nos algo, as coisas vulgares se tornem coisas importantes e as preocupações maiores sejam de facto mais pequenas. São as pessoas como tu que dão outra dimensão aos dias, transformando a chuva em delirante orvalho e fazendo do inverno uma estação de rosas rubras.

As pessoas como tu possuem não uma, mas todas as vidas. Pessoas que amam e se entregam porque amar é também partilhar as mãos e o corpo. Pessoas que nos escutam e nos beijam e sabem transformar o cansaço numa esperança aliciante, tocando-nos o rosto com dedos de água pura, soltando-nos os cabelos com a leveza do pássaro ou a firmeza da flecha. 

São as pessoas como tu que nos respiram e nos fazem inspirar com elas o azul que há no dorso das manhãs, e nos estendem os braços e nos apertam até sentirmos o coração transformar o peito numa música infinita. São as pessoas como tu que não nos pedem nada mas têm sempre tudo para dar, e que fazem de nós nem ícaros nem prisioneiros, mas homens e mulheres com a estatura da vida, capazes da beleza e da justiça, do sofrimento e do amor. 

São as pessoas como tu que, interrogando-nos, se interrogam, e encontram a resposta para todas as perguntas nos nossos olhos e no nosso coração. As pessoas que por toda a parte deixam uma flor para que ela possa levar beleza e ternura a outras mãos. Essas pessoas que estão sempre ao nosso lado para nos ensinar em todos os momentos, ou em qualquer momento, a não sentir o medo, a reparar num gesto, a escutar um violino. 

São as pessoas como tu que ajudam a transformar o mundo. 


Joaquim Pessoa
in 'Ano Comum'


Meus amigos, penso que este texto abarca todo o amor do mundo e não será preciso acrescentar mais qualquer palavra. 


Dediquemos algum do nosso tempo a estes magníficos acordes - Beethoven Silence:





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Excerto classificado como "Carta de amor": Citador
Imagem: daqui
Música: Youtube

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

A menina dança?


Inventei a dança para me disfarçar.
Ébria de solidão eu quis viver.
E cobri de gestos a nudez da minha alma
Porque eu era semelhante às paisagens esperando
E ninguém me podia entender.

in Coral, 1950






MAP Desde quando este interesse pela dança e como?

Desde sempre. A dança é um elemento dionisíaco ligado ao ritmo e à despersonalizacão. No poema sobre Bakkhos também se fala de uma consciência múltipla...


MAP Chegou a dançar, a aprender bailado?

Eu vivia no Porto quando era pequena e não havia nenhuma escola de ballet. Inventava danças sozinha. Anos depois não perdia os bailados que apareciam. Mas era tarde para aprender. Dançava muito sozinha e, quando os meus filhos eram pequenos, dançava para eles.


MAP Às vezes ainda dança, Sophia?

…Muitas vezes imagino bailados e argumentos para bailados.

E quando eu era ainda muito pequena, quando estava em Lisboa, logo de manhã ia para o escritório do meu avô – que eram três grandes salas seguidas, cheias de livros, de quadros, de retratos, de mapas e de mil coisas misteriosas – um lugar onde eu entrava em bicos de pés – e o meu avô punha sempre a tocar um disco de Bach – talvez por isso a música de Bach foi sempre a que melhor entendi. E na Granja, à tarde, o José Ribeiro tocava violoncelo, nuns outonos de tardes oblíquas. E quando estava no Porto ia para Matosinhos para casa do Eduardo e do Ernesto Veiga de Oliveira e ouvíamos Das Lied von der Erde do Mahler, que nesse tempo ainda não estava na moda. E em casa do António Calém a música estava sempre no centro de cada encontro. Resposta a EPC






Não poucas vezes tenho-me valido do talento de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), para abrilhantar este pequeno espaço. Em 2014, logo no mês de Janeiro, publiquei, durante alguns dias, poesia e prosa da sua autoria, excertos de entrevistas, pormenores da sua vida e obra. Além disso, em anos e dias esparsos a autora tem sido, aqui, uma presença muito querida.

Hoje, o "Xaile de Seda" faz oito anos. Para assinalar este dia fui buscar um poema e passagem de uma entrevista que nos trazem fragmentos do seu interesse por mais duas áreas artísticas: a música e a dança.

Tenham uma boa terça-feira.

Abraço 



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Poema e excerto de entrevista daqui (BN)

Imagens: daqui

No blogue da Majo, "A vivenciar a vida", encontrareis referências às comemorações do Centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen. 

O título do post: Lembrei-me do romance de Rita Ferro: "A menina dança?"


sábado, 29 de dezembro de 2018

Estou aqui por pouco tempo, mas é sempre tempo de sermos gente...






Tempo de mim

Deslizam nuvens nos lenços do meu vestido,
folhos rubros em dia pardacento.
É um dia gigantesco este em que se desfolham folhas de vida
nos versos que pela noite se vão erguer
e renascer fervilhando em tertúlias de poesia,
cantando um Porto cinzento sim, mas poético e glamoroso.
E é nesta alegria que me encanto e desço
e troco cumplicidades com a vizinha que afinal mal conheço.
Os rostos agarram a frieza do betão e a pressa
não se compadece nem espera que a vida
se solte desinibida, confiante em desabafos
esparsos e breves sentires.
O sol começa a aquecer e a assomar-se no olhar
e como um cálice de vinho fino que partilhássemos juntas,
os olhos brindaram a alegria deste encontro,
o primeiro na escada derradeira,
e perdi a pressa, deixei-me estar.
Estou aqui por pouco tempo, mas é sempre tempo
de sermos gente, de nos olharmos e vermos
que afinal abrandar o passo pode ser um passo em frente.
E eu, que hoje tenho pressa, demoro mais um pouco
porque tenho sempre tempo para mim
e é quando me dou que eu me pertenço





Tiempo de mi

Zlízan nubres ne ls lhenços de l miu bestido,
fuolhos burmeilhos an die quelor de cinza.
Ye un die sien fin este an que se çfólhan fuolhas de bida
ne ls bersos que pula nuite s'alhebántan
i tórnan ferbendo an tertúlias de poesie,
cantando un Porto anque cinza, poético i galano.
I ye nesta alegrie que m'ancanto i abaixo
i troco segredos cula bezina q'afinal mal conheço.
Ls rostros agárran la frialdade de l cimento i la priessa
nun ten pena nien spera que la bida
se solte zabergonhada, cunfiante an zabafos
ralos i brebes sentires
l sol ampeça a calcer i a assomar-se ne l mirar
i cumo un cáleç de bino fino que buíssemos juntas,
ls uolhos brindórun l'alegrie deste ancuontro
l purmeiro na scaleira derradeira
i perdi la priessa, deixei-me star,
stou eiqui por pouco tiempo, mas ye siempre tiempo
de sermos gente, de mos mirarmos i bermos
q'afinal abrandar l passo puode ser un passo adelantre
i you hoije que tengo priessa tardo mais un chiç-niç
porque tengo siempre tiempo para mi
i ye quando me dou que you me pertenço

Pgs 72/73

Rio de Infinitos/Riu d'Anfenitos



Nota: Obra escrita em português e mirandês.
O título do post pertence a versos do poema
Os meus agradecimentos à Autora.

E, com um bino fino, brindemos à Vida e ao Ano que se avizinha.



BOAS FESTAS!!!

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2ª e 3ª imagens - pixabay

domingo, 2 de dezembro de 2018

Como um aviso*



Quando as espigas surgiram de repente 
nos sulcos das searas, sem que o braço e a foice
afagassem o trigo, houve homens
que se amarraram à terra aguardando que o corpo
se transformasse em campo lavrado.
Houve mulheres que cegaram, em plena
madrugada, perto dos pomares.
Houve meninos que se fecharam por dentro
dos segredos que as mães guardam no sangue.
Houve pássaros que suspenderam o voo
sobre as casas desertas. Como um aviso.

In: Uma Vara de medir o Sol
pg.52

GRAÇA PIRES



* Título do post retirado do último verso. 
   Peço à autora me releve a liberdade.

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Imagem: Pixabay

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Afinal, o futuro era isto. Não estamos mais sábios, não temos melhores razões.





MORANGOS

No começo do amor, quando as cidades 
nos eram desconhecidas, de que nos serviria 
a certeza da morte se podíamos correr 
de ponta a ponta a veia eléctrica da noite 
e acabar na praia a comer morangos 
ao amanhecer? Diziam-nos que tínham

a vida inteira pela frente. Mas, amigos, 
como pudemos pensar que seria assim 
para sempre? Ou que a música e o desejo 
nos conduziriam de estação em estação 
até ao pleno futuro que julgávamos 

merecer? Afinal, o futuro era isto. 
Não estamos mais sábios, não temos 
melhores razões. Na viagem necessária 
para o escuro, o amor é um passageiro 
ocasional e difícil. E a partir de certa altura 
todas as cidades se parecem. 

in 'Longe da Aldeia' 

Escritor português, Rui Pires Cabral nasceu a 1 de Outubro de 1967 em Chacim, uma pequena aldeia do concelho transmontano de Macedo de Cavaleiros. Cedo abandonou a terra natal para ir estudar num colégio interno em Macedo. Uma parte importante da sua infância foi constituída pelas visitas de veraneio, em férias do internato, a Chacim e a Alvites, um outra aldeia, em Mirandela, onde o seu pai nascera. O contacto que aí foi mantendo com a natureza veio determinar em absoluto o carácter da sua obra. LER MAIS AQUI

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Poema: Citador

Imagem:daqui

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Poema de Setembro





Sugeriram-me um poema sobre Setembro. Comecei
de imediato a pensar: tirar um Setembro das recordações? Criar
um Setembro que jamais existiu? E criar como? Só como entidade
fortuita, como vivência crepuscular? Num princípio de manhã?
Setembro como lugar e hora, como estância perdida? Porque
Setembro é algo de impalpável, estranhamente inexistente, um risco numa
parede entre duas portas cerradas. Ou então
algo tão intenso e cheio de presença como uma sombra enorme
num pátio abandonado. Setembro como memória perene? Setembro como fuga
como chegada à palavra e ao horizonte das formas?

Eis a voz. Eis o nome. Eis o lugar que se escolheu. Um vestígio
de matéria absurdamente concreta. Porque os demais momentos
são agora um ruído junto das casas que se habitaram
com todo o seu encanto e desencanto primordiais. Com a semelhança
de olhares e de ausências.

E assim Setembro me poisou num ombro
como réstea de sol  num dia inteiramente comum. Setembro
que é dito, que é escrito, que é rememorado
Setembro que se olh
a e nos define como seres ao anoitecer
ante este muro sobre o qual já se vêem os astros habituais
e que são tão nossos como o grito súbito de uma ave indistinta.

Setembro que não sei dizer
Setembro que nos foge quando o tentamos olhar
Setembro que lembro e que conheço como uma cor amada
mês que morre e revive em mim como um soluço um beijo um aceno

de mão sulcada por muitas linhas e pensamentos.

(Do livro em preparação Escrita e o seu contrário)


Pseudónimo de Francisco Ludovino Cleto Garção
Poeta, pintor, publicista, actor/declamador. Aqui

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Poema de Aqui - O Arquivo de Renato Suttana
Imagem: Pixabay

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Procuro-te

Procuro a ternura súbita, 
os olhos ou o sol por nascer 
do tamanho do mundo, 
o sangue que nenhuma espada viu, 
o ar onde a respiração é doce, 
um pássaro no bosque 
com a forma de um grito de alegria. 

Oh, a carícia da terra, 
a juventude suspensa, 
a fugidia voz da água entre o azul 
do prado e de um corpo estendido.


Procuro-te: fruto ou nuvem ou música. 
Chamo por ti, e o teu nome ilumina 
as coisas mais simples: 
o pão e a água, 
a cama e a mesa, 
os pequenos e dóceis animais, 
onde também quero que chegue 
o meu canto e a manhã de maio. 

Um pássaro e um navio são a mesma coisa 
quando te procuro de rosto cravado na luz. 
Eu sei que há diferenças, 
mas não quando se ama, 
não quando apertamos contra o peito 
uma flor ávida de orvalho. 

Ter só dedos e dentes é muito triste: 
dedos para amortalhar crianças, 
dentes para roer a solidão, 
enquanto o verão pinta de azul o céu 
e o mar é devassado pelas estrelas. 

Porém eu procuro-te. 
Antes que a morte se aproxime, procuro-te. 
Nas ruas, nos barcos, na cama, 
com amor, com ódio, ao sol, à chuva, 
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te. 

in "As Palavras Interditas"

Encontrei, há dias, Eugénio de Andrade no blog Raraavisinterris. Lembrei-me que há já algum tempo que ele não visita o meu Xaile de Seda. Fui à procura de poemas seus e, claro, a dificuldade esteve na escolha. Acabei por optar por este: "Procuro-te". 

Há sempre algo que procuramos na vida e penso que as palavras deste magnífico Poeta traduzem na perfeição o que nos faz avançar estrada fora, aos mais profundos recantos ou dentro de nós próprios: a procura do sentido da Vida.

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Poema:  Citador
Imagem: Pixabay  

sábado, 30 de junho de 2018

Oh, Vida, sê bela!


Alberto de Lacerda - o poeta expatriado

O exílio é isto e nada mais
Na sua forma mais perfeita: 
Hoje na terra de meus pais
Somente a luz não é suspeita.

aqui


NÓS

Falei 

Cantei 
Cantei demais 

Arrisquei quebrar 
O arco-íris 

Mas até em estilhaço 
Continuaria 
O encantamento


Alberto de Lacerda, in 'Átrio' 


Como é Belo Seu Rosto Matutino

Como é belo seu rosto matutino 

Sua plácida sombra quando anda 

Lembra florestas e lembra o mar 
O mar o sol a pique sobre o mar 

Não tive amigo assim na minha infância 
Não é isso que busco quando o vejo 
Alheio como a brisa 
Não busco nada 
Sei apenas que passa quando passa 
Seu rosto matutino 
Um som de queda de água 
Uma promessa inumana 
Uma ilha uma ilha 
Que só vento habita 
E os pássaros azuis 


Alberto de Lacerda, 

in 'Exílio' 




Alberto de Lacerda viveu quase sempre no estrangeiro e foi esquecido. Porém, nunca se esqueceu de Portugal. Pelo contrário, levou a nossa cultura para junto de gente que, de Portugal, nada sabia. Esse é um dos problemas que se apresenta no que respeita à tarefa de divulgar a vida e obra do poeta Alberto de Lacerda (1928-2007). É preciso ir encontrá-lo, situá-lo no seu tempo e dar-lhe o contexto de uma vida vivida e celebrada por outros.


Palavras iniciais da introdução à exposição, da Biblioteca Nacional, dedicada à obra de Alberto de Lacerda, em Outubro de 2017, com o título "Oh, Vida, sê bela!".

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ALBERTO DE LACERDA: toda a luz e solidão do mundo.

LABAREDA - publicado agora, em Junho 
Diz-se aqui que este livro quer resgatá-lo para as novas gerações e estimular a curiosidade para uma poética e uma vida invulgares.

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Imagens: net
Poemas: Citador


quinta-feira, 14 de junho de 2018

A Mulher mais bonita do Mundo

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram flores novas na terra do jardim, quero dizer que estás bonita. 



entro na casa, entro no quarto, abro o armário, 
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio 
de ouro. 


entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como 
se tocasse a pele do teu pescoço. 
há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim. 

estás tão bonita hoje. 

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios. 

estás dentro de algo que está dentro de todas as 
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever 
a beleza.

 
os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios. 

de encontro ao silêncio, dentro do mundo, 
estás tão bonita é aquilo que quero dizer. 

José Luís Peixoto
in "A Casa, a Escuridão"

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Meus amigos:

Vou ausentar-me por uns dias. Vou à terra da minha mãe que também é a minha. Dedico-lhe estas palavras de José Luís Peixoto, com a devida adaptação a esta minha intenção.

Fiquem bem.

Abraço. 


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Poema: Citador
Imagem: Pixabay 

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Mar ê morada di sodadi


Para um ilhéu o Mar tinha duas funções: por um lado ligava as terras e as pessoas, por outro separava-as. Então, entre o ir e voltar a saudade se instalava. Houve tempo em que o elo entre os povos residia no Mar. Através dele as gentes se descobriam e transportavam as riquezas e os sonhos. Presentemente, a tónica torna a colocar-se nessa poderosa área líquida do nosso planeta. Com a poluição atentamos contra a vida de outros seres vivos. O lixo que produzimos afecta o nosso bem-estar e, com o nosso descaso, também mata os habitantes marinhos. Adoptar outros comportamentos de consumo é preciso. Talvez não seja tarde, ainda.  



BANA - o bom gigante.

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Passei o dia ouvindo o que o mar dizia

Eu hontem passei o dia 
Ouvindo o que o mar dizia. 

Chorámos, rimos, cantámos. 

Fallou-me do seu destino, 
Do seu fado... 

Depois, para se alegrar, 
Ergueu-se, e bailando, e rindo, 
Poz-se a cantar 
Um canto molhádo e lindo. 

O seu halito perfuma, 
E o seu perfume faz mal! 

Deserto de aguas sem fim. 

Ó sepultura da minha raça 
Quando me guardas a mim?... 

Elle afastou-se calado; 
Eu afastei-me mais triste, 
Mais doente, mais cansado...

Ao longe o Sol na agonia 
De rôxo as aguas tingia. 

«Voz do mar, mysteriosa; 
Voz do amôr e da verdade! 
- Ó voz moribunda e dôce 
Da minha grande Saudade! 
Voz amarga de quem fica, 
Trémula voz de quem parte...» 
. . . . . . . . . . . . . . . . 

E os poetas a cantar 
São echos da voz do mar! 

 in 'Canções' 

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Video : Youtube
Poema: Citador

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Do direito ao amor e à compreensão*


Menino

No colo da mãe 
a criança vai e vem 
vem e vai 
balança. 
Nos olhos do pai 
nos olhos da mãe 
vem e vai 
vai e vem 
a esperança.



Ao sonhado 
futuro 
sorri a mãe 
sorri o pai. 
Maravilhado 
o rosto puro 
da criança 
vai e vem 
vem e vai 
balança.

De seio a seio 
a criança 
em seu vogar 
ao meio 
do colo-berço 
balança. 
Balança 
como o rimar 
de um verso 
de esperança. 

Depois quando 
com o tempo 
a criança 
vem crescendo 
vai a esperança 
minguando. 
E ao acabar-se de vez 
fica a exacta medida 
da vida 
de um português. 


Criança 
portuguesa 
da esperança 
na vida 
faz certeza 
conseguida. 
Só nossa vontade 
alcança 
da esperança 
humana realidade. 

in "Poemas para Adriano"

*Título de um post que fiz em tempos sobre a Criança e que apareceu hoje em pesquisa no blog: AQUI
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Poema : do Citador
Imagens: daqui