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segunda-feira, 3 de março de 2014

É preciso amar devagar

Que é isso? Perguntei-me. Amar devagar, amar sem pressas, com todo o tempo do mundo... talvez. E como fazê-lo? À boleia deste título, rolei nas suas ondas, viajei por esquinas e socalcos até à percepção de uma realidade que vive tão perto, tão ao nosso lado. 

Percorri as ruas e os corações do Bairro, mas antes segui o Ripas e o amigo, em visita ao irmão na prisão, o Palhas, 19 anos, e que à notícia: O Palhas, enforcou-se!, mostra todo o seu sentimento de desespero e impotência nesta expressão: Fosga-se man! O Palhas? 

Segui a sotôra Marília, nas suas reflexões, ela que tem uma turma de repetentes, que não só repetiam a escola, mas a vida dia após dia...Um desfile de jovens por amar: A Cecília, a Susana, a Rosa, o André, o Rui, o Cravo, a Luísa, a Carla, a Joana, o Alfredo, o Miguel...

Destas vidas já com marcas tão profundas, detenho-me um momento junto ao Cravo. Miúdo de 14 anos, que ajudava a mãe no seu sonho de um dia saírem do bairro. E conseguiram-no. Contudo, não estão felizes. Oiço a Cecília dizer ao ouvido do Rui, em coma, depois de uma intervenção cirúrgica que correu mal: -Não entendo por que é que as pessoas são assim. O Cravo e a mãe mereciam aplausos e vai a ver-se e afinal...Andam infelizes e algumas pessoas riem-se deles e acham que não deviam ter saído do bairro da Terra Salgada. 

Mas, a principal preocupação deste rapaz é a Luísa, ela que sofrera um inferno de 23 dias nas mãos de um desconhecido e que agora não sai de casa e leva uma vida apática. Contara à mãe o problema dela, ainda na velha barraca, e ali chorara lágrimas sentidas, sentindo as dores dela dentro do seu próprio peito.. Se isso não era amor era uma coisa muito parecida.

A mãe dissera-lhe com uma voz muito rara de sabedoria:

-É preciso amar devagar.

- Não entendo.


-O amor não quer pressas nem sobressaltos. Nem que aconteça antes de ter mesmo de acontecer.


- Não entendo.


-O amor é como a certeza da Lua no céu, mesmo que não se veja fica connosco se for verdadeiro e volta se tiver de voltar, porque nunca chegou a partir.






Tantas coisas para aprender. Tanta vida ainda para cumprir. Diz-nos o autor, isso e tantas outras coisas, pois a vida destes personagens continua nas páginas deste livro de 127 páginas, sem pressas. Um livro cheio. Incrível. É assim, Alexandre Honrado, escreve com o coração, com a alma, com a sageza de quem sabe observar o que se passa à nossa volta. 

E, pela sua mão, fiz-me parte desta história. Diria como Laurinda Palma, 16 anos: "Li o primeiro volume, 'lágrimas quebradas', e quando comecei a ler este julguei que ia saber tudo sobre os personagens. Acabei o 'é preciso amar devagar' e sinto-me amiga de todos eles. Não sei se quero saber como acabam as histórias. Só quero que a vida lhes corra bem."


Uma boa semana.

Abraço

Olinda

***

Referências:
Alexandre Honrado
É preciso amar devagar
2001-Colecção: Casos Reais

****

Querida amiga

É PRECISO AMAR DEVAGAR...

Amar exige cuidado.
Sentir o perfume para entendê-lo.
Aprender o gosto para entender o alimento.

Amar exige paciência.
Com o outro e com nós mesmos.
Paciência para entender o ritmo do outro
E também o nosso ritmo,
E como consequência entender o ritmo do amor.

Assim, é preciso amar sem pressa.
Amar é um milagre,
E aprender a senti-lo, também...


Que o amor nos vista a vida,
com as suas mais preciosas cores...



****

Obrigada, Caro Aluísio, por estas belas palavras.

Grande abraço.

Olinda

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Os meus amores

Trago comigo o endereço electrónico do livro de Trindade Coelho, Os Meus Amores, em pdf, que vos ofereço, do mesmo passo que agradeço ao Projecto Vercial que o disponibilizou na internet. É um livro de contos e tem três capítulos: Amores Velhos, Amores Novos, Amorinhos. De Amores Velhos extraí a passagem do conto 'Última Dádiva' que, a seguir, insiro aqui. Este conto é dedicado, pelo autor, a Júlio Monteiro Aillaud, aliás, todos os contos têm dedicatória.  

ÚLTIMA DÁDIVA

Distante do rio apenas um tiro de bala ficava o horto do José Cosme, belo horto ainda que pequeno, todo mimoso de frutas e hortaliças, fechado entre velhas paredes musgosas, atufadas em silvedo, comunicando com a estrada por um pequeno portelo mal seguro. E eis aí quanto ao pobre homem restava dos seus antigos haveres – o horto, a um canto a nora, e perto da nora, sob a umbela tufada e virente da antiga magnólia gigantesca, a mísera casinhola de alpendre, apenas com uma porta e duas janelitas laterais, mas toda pitoresca das heras que a revestiam, que lhe pendiam dos beirais enlaçadas com as trepadeiras. De modo que na Primavera, quando as parasitas abriam serenamente os seus melindrosos cálices sobre esse fundo de verdura reluzente, e a magnólia toda se toucava de flores fazendo dossel à vivenda, aquele pequeno canto de horto, com a sua nora e com a sua água espelhante e límpida, tomava a feição ingénua de uma delicadíssima tela de paisagista, aguarela deliciosa, alegre e idílica, cheia de encantos na poesia rústica da sua simplicidade. No Verão, às horas de calor, quando o sol caía a pino sobre a larga paisagem adormecida e turva, e as árvores da estrada não davam sombra que aliviasse, aquela tranquilidade com que o José Cosme ressonava sob o alpendre, braços nus e peito nu, o chapeirão de palha grossa resguardando-lhe a cara, fazia inveja aos que por ali passavam, cansados e cheios de poeira, flagelados por aquela estiagem inclemente.
– Ó Tio José! – gritavam-lhe do caminho. –
Tio José! Ó regalado!
(…)






Gosto deste género de escrita, a puxar pelo meu lado mais bucólico.

Boas leituras. 



Imagem: daqui
Esta imagem pode não representar a descrição da paisagem constante do texto mas... gostei dela... :)

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O amante da China do Norte





Anos depois da guerra, da fome, dos mortos, dos campos de concentração, dos casamentos, das separações, dos divórcios, dos livros, da política, do comunismo, ele telefonou. Sou eu. Ela reconheceu-o logo pela voz. Sou eu. Só queria ouvir a sua voz. Ela disse-lhe: Bom dia. Ele tinha medo como dantes, de tudo. A voz tinha estremecido, e foi nessa altura que ela reconheceu o sotaque da China do Norte.

Ele disse uma coisa sobre o irmão mais novo que ela não sabia: que o corpo dele nunca tinha sido encontrado, que ele tinha ficado sem sepultura. Ela não respondeu. Ele perguntou-lhe se ela ainda ali estava, ela disse que sim, que estava à espera que ele falasse. Ele disse que tinha deixado Sadec por causa dos estudos dos filhos, mas que ia para lá voltar mais tarde porque era o único sítio para onde lhe apetecia voltar.

Foi ela quem perguntou por Thanh, o que é que lhe aconteceu. Ele disse-lhe que nunca teve notícias de Thanh. Ela perguntou-lhe: nenhuma nunca? Ele disse, nunca. Ela perguntou-lhe qual era a opinião dele sobre isso. Ele disse-lhe que na sua opinião Thanh devia ter resolvido procurar a família na floresta do Sião e devia ter-se perdido e morrido aí, nessa floresta.

Ele disse que para ele era muito curioso que a história deles tivesse permanecido como era antes, que ainda a amava, que nunca poderia em toda a sua vida deixar de a amar. Que ia amá-la até à morte.

Ele ouviu-a a chorar ao telefone.

E depois continuou a ouvir chorar mais longe, do quarto dela sem dúvida, porque ela não desligou. E depois tentou continuar a ouvir. Ela já ali não estava. Tinha-se tornado invisível, inatingível. E ele chorou. Muito alto. Com todas as suas forças.





Extraí este texto das duas últimas páginas da obra de Marguerite Duras, 'O amante da China do Norte'. Nas palavras da autora, O livro poderia ter-se chamado "O Amor na Rua" ou "O Romance do Amante" ou "O Amante Recomeçado". No fim escolhemos entre estes dois títulos mais vastos, mais verdadeiros. "Escrevi este livro na felicidade louca de escrevê-lo".

Segundo o resumo, o livro conta a história da "criança": A criança, de 15 anos, tem uma mãe tentada a prostituir a filha e dois irmãos: o mais velho é violento e de mau carácter, o mais novo é medroso, um pouco atrasado mental. Não são ricos. Certo dia a criança, numa viagem pelo Mékong, encontra um jovem chinês de 27 anos, pertencente a uma família opulenta, e é amor à primeira vista. As origens separam-nos e a idade também, mas tal não os impede de viver uma intensa paixão que, embora contrária à sociedade que os rodeia e aos costumes familiares chineses, resistirá ao afastamento e à passagem dos anos. Esta história, que arrebata os sentidos e os corpos, tem, pois, a beleza, como diria a própria Marguerite Duras, da "soberana banalidade" do amor... 

Voltarei a este livro e a esta história.

Para já, descubramos as semelhanças e as diferenças, os pontos de contacto, do texto acima transcrito com o meu texto do post anterior.

:)

Abraço

Olinda