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quarta-feira, 10 de junho de 2015

Tecendo a Manhã



Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

João Cabral de Melo Neto
      1920-1999

Autor brasileiro. Grande Oficial da Ordem de Sant'Iago da Espada, Portugal-1987. Prémio Camões-1990. Vide Biografia.

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Imagem - daqui

quarta-feira, 5 de junho de 2013

A propósito de João Cabral de Melo Neto, de 'A Palavra Seda', de 'O cão sem plumas' e de 'Morte e Vida Severina'


Queridíssima Olinda, que prazer ler aqui em seu Xaile, o meu poeta maior! João Cabral é para mim o maior dentre todos (repare bem, para mim, questão de escolha e identificação). O poeta que conta o meu Nordeste brasileiro, o Recife, o mangue, os rios que atravessam a cidade ('como a fome atravessa um cão sem plumas' - parte de um outro poema dele, que gosto muito, O Cão sem Plumas), entranhado com influências andaluzas, e elementos catalãs, dado o tempo em que viveu nessas duas regiões de Espanha.

João Cabral é um poeta ácido, cerebral, meticuloso, artífice da palavra, como já pudemos ver nesse excecional A Palavra Seda. Para ele não havia poesia sem transpiração, sem estruturação; a poesia lapidada, burilada, um lirismo carregado de emoção, palavras que correspondem aos sentimentos, aos resultados mais profundos do que há de humano em cada um de nós, e que nem sempre demonstramos ou sabemos como dizê-los, João Cabral, diz. Cabral sabe nos conduzir em seus poemas, como se fôssemos viajantes de primeira viagem, como se o mundo só se descortinasse agora diante de nós.


Inclusive recria para o local, e para o visitante, o Recife tão conhecido de todos, entrecortado por seus quatro principais rios, a vida em suas margens, a morte em suas margens, a miséria de quem vive nas margens, dependurados em palafitas, como se fossem parte natural do cenário; como se nas veias desse homem recifense, nordestino corresse junto com o sangue, a lama e o rio. E sua pele ressecada como a lama que seca quando a estiagem castiga a região, e o leito do rio se torna esquálido, quase vazio...


Por algumas vezes, aventou-se, que um dia a Academia de Oslo iria lhe galardoar com um Nobel de Literatura, em função da importância da sua poesia, infelizmente não aconteceu. A sua poética configura-se entre as maiores do século XX, no Brasil, e também no mundo. Vale a pena dar uma lida em "Morte e Vida Severina", (mais) um grande livro dele, um auto de natal, narra a vida de um retirante, Severino, vindo da Serra da Costela, limites com o estado vizinho, Paraíba. Uma leitura que permite ao leitor, apropriar-se de um Brasil miserável, mas tão real e sofrido como quando da época do seu lançamento. Uma narrativa-denúncia, com um forte cunho social. E eu vou parar de "falar", porque senão eu vou ficar insuportável. É que publicaste um poema do meu nº 01 da poesia, desculpe a minha empolgação, amiga!!

Beijos!

Deixo aqui alguns linkes para a vossa apreciação e apropriação da nossa cultura, para entenderes mais o contexto e o sentido da poética cabralina.

A letra do Chico Buarque para a encenação do musical: http://letras.mus.br/chico-buarque/90799/


O musical completo você pode ver aqui: http://www.youtube.com/watch?v=u3R3s5XeB-w







E o auto aqui: http://www.culturabrasil.pro.br/zip/mortevidaseverina.pdf


Canto da Boca

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Pensam que este comentário foi produzido agora, na publicação de 'O cão sem plumas'? Não, não, isto vem de trás aquando da publicação de 'A Palavra Seda'. Mas já antes Canto da Boca nos tinha falado de João Cabral de Melo Neto e da sua escrita, quando publiquei 'O Advento', de Jorge Luís Borges, argentino, que, por sinal, ela própria nos indicara. Como vêem neste entrelaçamento a cumplicidade e o intercâmbio se tecem. Ou isto não seria o Xaile de Seda, um xaile que, a cada dia, se vai tecendo...

Obrigada, Canto.

Olinda

terça-feira, 4 de junho de 2013

O cão sem plumas

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.
O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.
Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.
Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.
Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos povos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.
Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.
Abre-se em flores
pobres e negras
como negros.
Abre-se numa flora
suja e mais mendiga
como são os mendigos negros.
Abre-se em mangues
de folhas duras e crespos
como um negro.
Liso como o ventre de uma cadela fecunda,
o rio cresce
sem nunca explodir.
Tem, o rio,
um parto fluente e invertebrado
como o de uma cadela.
E jamais o vi ferver
(como ferve
o pão que fermenta).
Em silêncio,
o rio carrega sua fecundidade pobre,
grávido de terra negra.
Em silêncio se dá:
em capas de terra negra, 
em botinas ou luvas de terra negra
para o pé ou a mão
que mergulha.
Como às vezes
passa com os cães,
parecia o rio estagnar-se.
Suas águas fluíam então
mais densas e mornas;
fluíam com as ondas
densas e mornas
de uma cobra.
Ele tinha algo, então,
da estagnação de um louco.
Algo da estagnação
do hospital, da penitenciária, dos asilos,
da vida suja e abafada
(de roupa suja e abafada)
por onde se veio arrastando.
Algo da estagnação
dos palácios cariados,
comidos
de mofo e erva-de-passarinho.
Algo da estagnação
das árvores obesas
pingando os mil açucares
das salas de jantar pernambucanas,
por onde se veio arrastando.
(É nelas,
mas de costas para o rio,
que “as grandes famílias espirituais” da cidade
chocam os ovos gordos
de sua prosa.
Na paz redonda das cozinhas,
ei-las a revolver viciosamente
seus caldeirões
de preguiça viscosa).
Seria a água daquele rio
fruta de alguma árvore?
Por que parecia aquela
uma água madura?
Por que sobre ela, sempre,
como que iam pousar moscas?
Aquele rio
saltou alegre em alguma parte?
Foi canção ou fonte
em alguma parte?
Por que então seus olhos
vinham pintados de azul
nos mapas?

João Cabral de Melo Neto


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Mais um poeta brasileiro que aqui nos chega pela mão de Canto da Boca.
Realmente, foi através de indicações suas, em livro postado no seu blogue e aqui em comentários, que cheguei a este poeta e a este poema.
Aliás, este é o segundo poema que aqui publico. O primeiro foi 'A Palavra Seda'.

Muito obrigada, amiga.

Olinda 



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O cão sem plumas, 1949-1950:Ver análise e poema na íntegra: aqui

quinta-feira, 21 de março de 2013

A Palavra Seda

A atmosfera que te envolve
atinge tais atmosferas
que transforma muitas coisas
que te concernem, ou cercam.
E como as coisas, palavras
impossíveis de poema:
exemplo, a palavra ouro,
e até este poema, seda.
É certo que tua pessoa
não faz dormir, mas desperta;
nem é sedante, palavra
derivada da de seda.
E é certo que a superfície
de tua pessoa externa,
de tua pele e de tudo
isso que em ti se tateia,
nada tem da superfície 
luxuosa, falsa, acadêmica,
de uma superfície quando
se diz que ela é “como seda”.
Mas em ti, em algum ponto,
talvez fora de ti mesma, 
talvez mesmo no ambiente
que retesas quando chegas,
há algo de muscular,
de animal, carnal, pantera,
de felino, da substância
felina, ou sua maneira,
De animal, de animalmente,
de cru, de cruel, de crueza,
que sob a palavra gasta
persiste na coisa seda.


De:

João Cabral de Melo Neto

Poeta brasileiro, João Cabral de Melo Neto nasceu em 1920, no Recife, e faleceu a 9 de outubro de 1999. Diplomata, exerceu funções consulares em Assunção, Barcelona e Dakar. Pertenceu à Academia Brasileira de Letras. É de 1942 o seu primeiro livro de versos - Pedra de Sono, em que se deteta a influência de Carlos Drummond de Andrade. Depois, integrou-se na "Geração de 45", seguindo, no entanto, o seu próprio caminho. Eliminando das suas imagens resíduos sentimentais ou pitorescos, instaura um novo critério estético - o rigor semântico, fulcro da sua radical modernidade, assim afirmando uma nova dimensão do discurso lírico através de uma poesia que parte do concreto para atingir a pureza da abstração, querendo utilizar a linguagem conscientemente em vez de ser usado por ela. O geometrismo de alguns dos seus poemas corporiza esse movimento de "regresso ao real" empreendido por este poeta da sensação aguda dos objetos que delimitam o homem e a mulher modernos. Entre outros prémios, foi-lhe atribuído o Prémio Camões em 1990.

João Cabral de Melo Neto. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011.

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Este poema foi-me indicado por Canto da Boca e retirei-o de: Aqui 

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Vide aqui uma análise da poesia de João Cabral de Melo Neto.