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domingo, 31 de dezembro de 2017

O Pinheirinho, o Pinheiro, o Pinhal



A minha filha quando era miúda vinha do colégio com uma cantiguinha que começava assim: "Pinheirinho, pinheirinho / de ramos verdinhos/ P'ra enfeitar, p'ra enfeitar/Bolas bonequinhos..." e insistindo para que se armasse a árvore ainda em pleno Novembro. Com o correr do tempo já é normalíssimo vermos montras e lojas em Outubro com sugestões natalícias. Ainda hoje sinto que começarmos a realizar esses enfeites muito cedo tira um pouco da magia daquilo que se quer transmitir.

Assim, a árvore era montada em princípios de Dezembro, a par com o presépio, e contava-lhe o seu significado para não nos perdermos completamente da história ou da ideia de Francisco de Assis: o presépio representando o menino Jesus, Maria e São José e os pastores, mais os animais e, já agora, os Reis Magos; a árvore de Natal uma representação que foge da nossa realidade levando-nos para as terras frias e trazendo de lá a ideia de um ser mágico que pode cumprir os nossos mais caros desejos.


Aqui para nós: As árvores, as bolas, as guirlandas, as luzes, os presentes, os laços, as fitas, a afobação, a angústia que toma conta de nós (ai que é que eu vou oferecer a A, B ou C), o tempo que se escoa até à data fatal que deveria ser de alegria e felicidade se realmente quiséssemos festejar momentos com a família, já são coisas que não conseguimos controlar porque abarcam a sociedade e envolvem um grande negócio. Promovemos essa ilusão, deixamo-nos levar por ela e, conscientemente, adoramos transmiti-la às crianças até que elas próprias descobrem que foram burladas. Essa descoberta causa-lhes quase sempre uma grande decepção e a primeira certeza de que os adultos não são de fiar.

Um aparte que se impõe: estou para aqui a falar, criticando, no entanto, adoro toda essa envolvência que o Natal produz. Uma contradição...

Mas, continuando. 

Ao fim e ao cabo tudo tem um princípio, embora as situações e a maneira de pensar evoluam. É o que acontece com isso da árvore de Natal. Diz-se que civilizações antiquíssimas, 3º milénio a.C, consideravam as árvores como um símbolo divino, ligando-as a entidades mitológicas. A sua verticalidade, das raízes à copa, marcava uma aliança entre o céu e a terra. Povos pagãos da região dos bálticos cortavam pinheiros que enfeitavam quase como se faz na actualidade.




No início do século VIII, o monge beneditino São Bonifácio tentou acabar com essa crença pagã que havia na Turíngia, para onde fora como missionário. Com um machado cortou um pinheiro sagrado, que os locais adoravam no alto de um monte, e como teve insucesso na erradicação da crença, decidiu associar o formato triangular do pinheiro à Santíssima Trindade e suas folhas resistentes e perenes à eternidade de Jesus. Nascia aí a Árvore de Natal. * Até Martinho Lutero, o homem da Reforma, gostava de enfeitar pinheiros na floresta, segundo consta.

Por isso, nós, pobres mortais desta era não fazemos nada por aí além na nossa adoração aos pinheiros, especialmente na quadra do Natal. Até porque temos ou tínhamos um motivo bastante válido nesse sentido que nos vem do tempo de D. Dinis que mandou plantar o Pinhal de Leiria, como é voz corrente. Contudo, li há pouco tempo que foi D. Afonso III quem tomou essa iniciativa. Será?


Tenho de reler o livro de Cristina Torrão, "Dom Dinis - a quem chamaram o Lavrador", para ver se diz alguma coisa sobre isso. Cristina Torrão é uma escritora que faz de temas da História de Portugal, Idade Média, excelentes romances sem esquecer o rigor histórico. 

Infelizmente, o Pinhal de Leiria que veio do Sec. XIII ou XIV foi praticamente devorado pelas chamas nos incêndios de 17 de Outubro de 2017. Faço votos para que mulheres e homens de boa vontade, todos nós, trabalhemos no sentido de recuperar esse património.

Um pinheirinho, um pinheiro, um Pinhal e um texto extemporâneo. Mas como diz o poeta, mais precisamente José Carlos Ary dos Santos, Natal... é quando um homem quiser, no caso, é quando uma mulher quiser.





DESEJO-VOS UM BOM ANO  


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1ªs 2 imagens - Pixabay
3ª imagem - daqui
4ª imagem - Pixabay
*Árvore de Natal

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Reencontro - terra e semente






A terra, virgem, linda e viçosa
Transbordante de puro húmus
Anelava pela semente fecunda
Veículo de vida e doce pujança

A semente, estuante de energia
Proliferava ao sabor do vento
Caía vadia em receptáculos vários
Desbaratando a ansiada essência

A terra, só, tragada pelos vermes
Esventrada, escavada, consumida
Perdia, exangue, o viço e a cor
Na espera inútil da sua semente

A semente, afoita, leve, contente
Distribuía doces, suculentos frutos
Férteis manjares de seiva e mel
Exangue mas satisfeita, repousou...


Terra e semente reencontram-se
Húmus e essência encanecidos
Jazendo, algures, o irrecuperável
Nem uma frágil haste germinarão

                                                     Dinola Melo


=====

Imagem: Pixabay

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

A assembleia dos ratos

cão ladrava qualquer que fosse o ruído. Como naquele momento, um dos miúdos tossiu e ouviu-se logo a reclamação do animal. Ouvidos apuradíssimos a fazer jus ao que se diz deles de que ouvem sons não acessíveis aos humanos. 



Contudo, escada abaixo escada acima ouvem-se os guizos que o dono ou a dona lhe penduram ao pescoço e, como sempre, o nosso espanto quotidiano e a toda a hora perante tal: tendo ouvidos tão afinados como aguentaria o ruído constante dos guizos. Era essa a conversa depois do jantar. 

E veio a propósito de nada, a descoberta por parte de um dos presentes de que o guizo é um instrumento musical, para além de massacrar os ouvidos do tal cão e dos gatos que, regra geral, são mimados com guizos ao pescoço.



Estávamos nessa animada assembleia quando se chegou à conclusão de que se devia dizer algo aos donos do cão, que ladra a toda a hora e sobre o tilintar dos guizos que ressoam pelo prédio todo, referindo também o mal-estar que poderiam estar a causar ao animal. Um dos presentes disse que não se deve ter cães nos prédios, outro que eles passam o dia presos sem poderem exteriorizar a sua natureza, outro ainda que se sentia um cheiro esquisito logo assim que se transpunha a porta da entrada. Outras opiniões se ouviam ainda que mais fracas.

Tudo de acordo, mas quem seria o mensageiro ideal para essa tarefa? Quem seria a pessoa com a diplomacia exigida para não causar melindres?  O da voz tonitruante, sempre pronto para uma briga, prontificou-se mas não foi aceite  pela maioria pois ainda deitaria o prédio abaixo, sendo pior a emenda que o soneto. Seguiram-se: o A. com um trabalho em mãos não tinha tempo para estar à espreita dos vizinhos; a B. com o trânsito e os transportes sempre atrasados não dava; o C. poderia fazê-lo num fim-de-semana mas qual quê, e os treinos que só poderia fazer nesses dias?; a D. com os miúdos, não lhe davam descanso, não tinha tempo para nada...



E assim ficámos a olhar uns para os outros num impasse até que o miúdo mais novo, o da tosse, disse: -isto parece uma assembleia de ratos! -De raaatos - admirou-se o outro, dois anos mais velho- estás-te a passar ou quê? - De ratos, pois. A minha professora leu-nos uma fábula que dizia que todos falam falam mas ninguém faz nada...e também ela disse que as fábulas têm uma moral.

A curiosidade foi mais forte e munidos das devidas ferramentas pusemo-nos à procura da tal fábula e encontrámo-la, realmente. Cá está ela, adaptada, creio eu:

Relata que uma vez os ratos, que viviam com medo de um gato, resolveram fazer uma reunião para encontrar um jeito de acabar com aquele transtorno. Muitos planos foram discutidos e abandonados. No fim, um rato jovem levantou-se e deu a ideia de pendurar uma sineta no pescoço do gato; assim, sempre que o gato chegasse perto eles ouviriam a sineta e poderiam fugir correndo. Todo mundo bateu palmas, o problema estava resolvido. Vendo aquilo, um rato velho que tinha ficado o tempo todo calado levantou-se do seu canto e falou que o plano era muito inteligente, que com toda certeza as preocupações deles tinham chegado ao fim. Só faltava uma coisa: quem iria pendurar a sineta no pescoço do gato? aqui

Moral da história: Falar é fácil, fazer é que é difícil.



Do tempo em que os animais* falavam ou do tempo de Esopo (620 a.C / 564 a.C.) chegam-nos estas considerações.

E esta grande questão prevalece: 
quem iria pendurar a sineta no pescoço do gato?

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Referências:
Esopo
La Fontaine
Video youtube
Free images: Pixabay
*Entenda-se:os chamados irracionais.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Mãe, o que é que queres pelos teus anos?

-Ah...não sei. Qualquer coisa...
-Não, assim não vale. Uma experiência que queiras.
-Está bem, há dois livros que tenho estado para adquirir. Pode ser isso...
-Livros? Mas isso é alguma experiência?
-E que experiência! Penso que através de um livro podemos viajar, atravessar fronteiras, conhecer mundos...
-Ahaha - riu-se divertida e já convencida- então pode ser isso e, entretanto, pensa também noutra coisa.



Pois é, o que poderá ser assim do pé para a mão? Há dois anos a experiência que ela me arranjou foi uma ida a um spa para ser submetida a massagens e etc. No ano passado, fomos todos a Cabo Verde comemorar o meu aniversário (festa de arromba) e lá, de conluio com o pai e as tias, fui presenteada ainda com uma viagem a Paris. Dessas duas viagens não vos dei conta como devia. Em relação a Cabo Verde fiz dois posts com a promessa de voltar, mas perdi as fotos e ando para aqui às aranhas à procura delas, na esperança de retornar ao assunto. De Paris, idem, idem, aspas...quase na mesma data.



Então, como ela é uma rapariga que não se esquece das coisas lá tenho que resolver. Lembrei-me que em Novembro li em duas revistas sobre um tema que depois viria a ser reforçado no dia do Yoga. Trata-se da Sofrologia. Diz quem sabe que a palavra Sofrologia tem a seguinte composição: vem das palavras: sos = serenidade, harmonia ; phren: mente, consciência e logos: estudo, conhecimento. Assim, etimologicamente "Sofrologia" significa: estudo da consciência em equilíbrio.

Interessante como as palavras podem induzir-nos em erro, porquanto essa à primeira vista parece levar-nos para um campo completamente diverso. Segundo consta, se levada a sério poderá ser a solução para muitos dos problemas do sistema nervoso. Pensa-se que poderia substituir perfeitamente a quantidade de comprimidos que as pessoas ingerem para as insónias e para as perturbações do dia-a-dia. Naquilo que li há também o aconselhamento para as crianças irrequietas proporcionando-lhes assim uma certa tranquilidade.




Portanto, está encontrada a segunda experiência, bem como a experiência primeira que eu escolhi e não dispenso: os dois livros. Logo que cheguem às minhas mãos e os tenha lido, falar-vos-ei deles. Alguns de vós conhecem os autores.

Suspense...

Até lá.

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.As revistas onde encontrei o tema da Sofrologia: 
Voici et France Dimanche

Ler, se interessar:

As outras duas imagens são: daqui
  

sábado, 9 de dezembro de 2017

Passeando pela Wonderland

Chuva, chuva, chuvinha...Foi assim, ontem, na amada Lisboa. Passeámos ontem pela Wonderland, no Parque Eduardo VII, toda molhadinha, demos a volta até à pista de patinagem, os pais a fazerem a vontade aos filhos, pois se foram lá para isso, tudo de capuz, a pisar as folhas outonais. Dum lado e doutro tendinhas com muitas coisas para degustar, muitas mesas com cadeiras para as pessoas se sentarem e passarem um bocado bebendo uma ginjinha e outras que tais. Mas, nada feito. À noite e sem chuva terá um outro aspecto. Mas, venha, venha a chuva, sim.

a)

Elas, as mesas, cheias de folhas e de água, a roda gigante ao fundo parada, sem préstimo, e fomos saindo de mansinho. Apanhámos um táxi para o largo do Carmo. O taxista palavroso, mas com tino, brindou-nos com a actualidade a que aderimos. Esta chuvinha é boa para a terra, e aproveita bem, para a cidade é só para causar acidentes e trânsito. Então, estão a ver o Trump com aquilo de Jerusalém...e o outro da Coreia não lhe fica atrás. Mas também o da Rússia, hein... Veio a lembrança do Chernobyl, por fim a dúvida se teria sido antes ou depois da queda do Muro de Berlim e a seguir, ainda, a bomba atómica na segunda guerra mundial, sobre Iroshima e Nagasaki. E...chegámos. A ideia era irmos almoçar a um restaurante mesmo ali junto ao elevador de Santa Justa.


Escolhi um risoto vegetariano, não que seja vegetariana. Mas, às vezes, quando vou comer fora, prefiro coisas assim. Estou a entrar numa fase em que a comida feita em casa é que é. Enfim, manias. Para a sobremesa um brownie com gelado. E, claro, nunca consigo comer uma sobremesa até ao fim.


Dali, a vista do Convento do Carmo a convidar-nos para uma visita. E fomos...


Numa outra perspectiva


E um olhar para baixo

Fomos ver as ruínas e o Museu Arqueológico. Chamou-me a atenção um busto cujo letreiro fazia esta afirmação, seguida de um ponto de uma interrogação: D. Afonso Henriques (?). Investigação, datação, incompleta? Pergunto eu.









Fotos que são apenas pormenores. Podia postar mais algumas, mas seria cansativo. Outras mais esclarecedoras poderão ser encontradas na Net.

A seguir, resolvemos que desceríamos para a Baixa utilizando o Elevador. Fomos ver - meu Deus, os preços são proibitivos. Ficámo-nos pelo imenso corredor  cinzento e frio como se vê na foto. Vamos de táxi?- perguntámo-nos. Um sacrilégio, sendo a zona que é.


Descemos pela rua do Sacramento, pezinho aqui, pezinho ali, porque escorregar  pela rua abaixo com a chuvinha e o óleo concentrado, não era nada difícil. Continuámos pela Calçada do Carmo e fomos dar ao Rossio. Ali uma Feira de Natal, à semelhança das que fazem noutros países. Tendinhas, barraquinhas mimosas com tudo de doce tradicional e não só, vi variedades de bombocas, foi o que me chamou logo a atenção. Não tenho fotos. A chuvinha não parava e o telemóvel não aguentaria tanta humidade. 

Como eu gosto de andar à chuva - não sendo torrrencial - ainda deu para espreitar montras, pastelarias e andar por ali sem destino.

Ai, o Metro é logo ali, rumo à Alameda e a seguir Gare do Oriente. Mesmo com chuva e envolta em neblina, Lisboa é a minha Wonderland por excelência.

Bom fim de semana, meus @migos.

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a) imagem Net
(impossível fotografar com o tlm na Wonderland por causa da chuva)

Fotos nossas.

Ler, se interessar:
Ruínas e Museu Arqueológico do Carmo

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segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Mãe-coragem

Se tivesse de escolher ou optar por uma figura emblemática dos últimos tempos escolheria uma Mulher que me tem impressionado sobremaneira, que tem engolido as lágrimas, fazendo das fraquezas força. Na sublimação da sua dor procura justiça e nessa busca engloba todos os que estão a sofrer uma dor como a sua.  


























Nela vejo todas as mães que perderam os seus filhos naquela fatídica noite de 17 Junho ou nos dias infernais começados a 15 de Outubro, ou em situações similares; aqueles que perderam os seus familiares, os seus amigos, os seus vizinhos; todas as pessoas cujas vozes não se ouvem e que no seu sofrimento vêem os seus dias e noites povoados de fantasmas.

Nádia Piazza é a figura materna que elejo. Ela não se isola, abraçando a sua desgraça. Carrega com ela, quais filhos desprotegidos, todos os que viveram aqueles momentos de horror e pede perdão às vítimas dos incêndios de Outubro, por achar que não cuidou delas como devia

Da mesma forma que fiquei sem palavras aquando dos incêndios de Pedrógão Grande, retirando-me por algum tempo do Xaile de Seda, também agora não me vejo capaz de dizer tudo o que sinto ao ouvir a voz embargada dessa mulher que deseja honrar a memória do seu filho de 5 anos, amando e dando a mão ao seu semelhante.

Bem-haja, Nádia Piazza!

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Imagem: daqui

sábado, 25 de novembro de 2017

Os dias da semana. Porquê sete?

Animada e nada altruísta ia a partilha do telemóvel:
- Dá cá isso.- Não, não, eu que vejo.
- Se calhar, tenho mais experiência nestas coisas.
- Sim? Olha quem fala...

Até que um deles disse: -Mãe, pai, assim não dá. Precisamos dos nossos telemóveis. 
- Está bem, está bem. Sendo para uma boa causa...
-Então, qual a palavra-chave que vamos escrever?
-Eu é que sei? Não disseste que tens mais experiência?
-Vá lá decidam-se!- disse uma voz de adulto.



E a Catarina decidiu: -Já sei: Os dias da semana. Bem. Não é uma palavra.É uma expressão.

-Será que sabes escrever isso? Tu que és toda virada para os números e para essas coisas das ciências exactas... - casquinou o das línguas.

-Pois, fica sabendo que para se perceber e interpretar um determinado problema temos de dominar muito bem a língua. Um senhor chamado Tales de Mileto, grego, era matemático, filósofo e outras coisas...

-Ai, ai, ai. Já cá faltava Tales de Mileto, Pitágoras e a sua hipotenusa e catetos, e mais o outro, aquele...o do "Eureka"...enfim...

-Por favor, poupem-me! - exclamou a Regininha que até então tinha estado calada- Por mais que falem disto e daquilo é a História que liga tudo. Tudo é História.

Saindo da timidez natural quando se trata de falar da sua disciplina preferida, tomou conta das operações e a coisa desemperrou.

-Vejam, aqui diz que os dias da semana, antigamente, eram designados com os nomes dos deuses romanos. Está aqui este quadro que nos mostra isso e também as transformações em função de cada idioma de origem latina, aliás, como já nos mostraste, Renato. Quanto ao latim escolástico e latim vulgar sabes alguma coisa sobre isso?

-Eu não! gosto é de línguas vivas.

-Eu não sei latim, nem coisa que o valha, mas deduzo que o latim escolástico tenha a ver com a Escolástica que define as normas da Igreja. acudiu a Catarina.

- Como podem ver no quadro, a língua portuguesa não está incluída na terminologia originada pela utilização dos nomes dos deuses pagãos. Isso tem a ver, certamente, com a acção dessa Instituição quando considerou a designação pagã dos dias da semana. Lembram-se daquilo que se disse sobre feria e feira? - continuou a Regininha com um ar algo doutoral, o que irritou um pouco o Rui. 












-Ah, pois, lembro-me perfeitamente e estou agora a ler qualquer coisa sobre o que tu disseste o Rui, o da teoria política e relações internacionais, desperta de repente e pela primeira vez - mas, não foi propriamente a Igreja mas um Bispo, São Martinho de Dume.

E a discussão continuou a volta disso e pelo que víamos não iria terminar tão cedo...

Mas, o benjamim da família não se fazia ouvir e começámos a procurar por ele. Reapareceu com uma enciclopédia infanto-juvenil**, concentradíssimo e pôs-se a ler em voz alta:

Porquê sete?
O início da Bíblia refere que Deus criou o Mundo em seis dias e que ao sétimo descansou. Os Babilónios começaram a usar a semana de sete dias há cerca de 3000 anos. As fases de sete dias da Lua eram, para eles, um mistério e uma magia. Cada uma dessas fases - da lua-nova ao quarto crescente e do quarto crescente à lua-cheia, da lua-cheia ao quarto minguante e do quarto minguante à lua-nova - em apenas sete dias.

-Mas, há 3000 anos? Então, não estamos em 2017? E depois há aqui umas letras a.C.- hehehe! Boss A.C. ?

-Ó meu menino não é nada disso - reagiu o avô a rir - qual Boss A.C. qual quê!... a.C. indica um espaço de tempo relacionado com acontecimentos ocorridos antes do nascimento de Cristo e d.C., por sua vez, depois do nascimento de Cristo. E é precisamente a partir do nascimento de Cristo que o nosso tempo começou a contar e, por isso, estamos em 2017. Mas há civilizações muito antigas que contam o seu tempo utilizando outras balizas. Ao fim e ao cabo tudo não passa de convenções...Afinal o que é o tempo?

E o avô lê, pensativamente, na página 6 do livro do neto, uma citação de Santo Agostinho:

O que é o tempo? 
Eu sei o que é mas, se alguém me perguntar, não sei explicar!

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A pedido de várias famílias, hahaha, esta é a continuação do post "I giorni della settimana", de 29 de Agosto. Portanto, há quase 3 meses. Queiram aceder a ele: AQUI

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Precioso contributo da Maria - Divagar sobre tudo um pouco- no 1º post:


Minha amiga como sempre um post muito interessante.
Fiquei intrigada com a origem dos nomes dos dias da semana e também fui procurar e eis o que encontrei e me fez sentido:

O feira, de segunda a sexta, vem de feria, que, em latim, significa “dia de descanso”. O termo passou a ser empregado no ano 563, após um concílio da Igreja Católica na cidade portuguesa de Braga em que S. Martinho propôs que durante a Semana Santa todos os dias fossem inteiramente consagrados ao descanso, ao culto católico e às orações. o "feira" acabou depois por ser aplicado a todos os dias do ano.

Nunca tinha pensado nisto, foi interessante pesquisar.

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O contributo da M., do blogue A Panificadora Ribeiro. Muito obrigada, Amiga:

M.26/11/2017

Muito interessante! Já agora, acrescento o alemão, Montag, Dienstag, Mittwoch, Donnerstag, Freitag, Samstag e Sonntag, também com os nomes dos deuses romanos :)

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(Peço desculpas por algumas gralhas que, de vez em quando, acontecem nas dobras deste Xaile. Por exemplo: ali acima "Afinal" apareceu... "A final". Imperdoável!)

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1ª imagem: daq
2ª imagem daqui
Ver - Escolástica
**O grande livro do tempo - pg 20
Texto- William Edmonds
Ilustrações - Helen Marsden
  

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Codex Amiatinus, o manuscrito mais antigo da Vulgata

Não fosse o desembargo de citações que pôs muita gente a interessar-se por essa colecção de textos que é a Bíblia, objecto de aturados estudos por parte de especialistas, e eu não teria o pretexto que há muito buscava para falar do Codex Amiatinus. Houve uma altura, não há muito tempo, em que tentei fazê-lo comparando o trabalho da Bíblia copiada à mão por um homem nas suas horas de ócio*- cá no nosso rectângulo-, com o texto antigo na óptica do novo e do velho, uma curiosidade. Perdi, entretanto, o jornal ou a revista onde o facto vinha relatado.



Contudo, reparo que é um fraco pretexto, diga-se em meu desabono. O caso vertente, o das citações, que deu brado, não é exemplo que se deva seguir ou referenciar sequer, a não ser para o abominar. É mister que detentores de lugares cimeiros na sociedade reservem para si ideias susceptíveis de influenciar comportamentos que não se coadunem com os cânones já estabelecidos na nossa civilização. Aliás, o sofrimento das pessoas e as estatísticas são do conhecimento de todos. Mulheres maltratadas e assassinadas empobrecem o nosso património mental, as nossas vidas, a nossa condição de seres humanos. O velho e o novo. Tenhamos bem presente isto: "Dou-vos um mandamento novo. Amai-vos uns aos outros". Isso dizia o homem de Nazaré há dois mil e tal anos e nunca mais aprendemos.


Então, o meu pretexto não será esse que disse acima, mas há um outro a que eu poderia apelar. Há 500 anos Martinho Lutero afixou as suas 95 teses numa clara rebeldia contra o status quo, o caso das bulas entre outros. Ele não teria, segundo parece, a intenção de causar a hecatombe que se seguiu, a Reforma* e Contra-Reforma, mas foi o que foi. Uma bola de neve. Vislumbro daqui o burburinho que não terá sido, o espanto, embora a situação de prepotência da igreja já se ter tornado um espinho que muitos gostariam de extrair.

Uma das coisas boas é que a Bíblia começou a ser traduzida para vernáculo e a imprensa de Gutenberg fez o resto. A novidade impôs-se. Os monges copistas com o seu belo trabalho, moroso e elaborado destinado a alguns tinham os dias contados. Era a mudança de ideias que abria um mundo imenso à divulgação cultural que se alargaria a toda a gente, no futuro. E vemo-lo no nosso século, de tal forma que já não há tempo para se ler tudo o que aparece editado.

Porém, vamos recuar no tempo. Diz-se que este manuscrito nem é dos mais belos. Não terá grandes iluminuras, aqueles enfeites eivados de sacralidade, que existem em tantos outros. Não interessa para o caso. Ele tem uma particularidade que os outros não têm. É o mais antigo da Vulgata. Ora, esta é a cópia considerada mais acurada da tradução da Bíblia para latim entre fins do século IV e inícios do século V, levada a cabo por Jerónimo de Estridão (santo).


E a novidade aqui é que este Senhor preferiu fazer a sua tradução a partir do hebraico, língua original, em vez do grego como era corrente, apesar das grandes críticas surgidas na altura. A Vulgata foi considerada a versão de melhor compreensão popular* e adoptada pela Igreja Católica. Numa revisão terminada em 1975, será promulgada em 1979 por João Paulo II, e toma o nome de Nova Vulgata, ficando assim estabelecida como a nova Bíblia oficial da Igreja.

Mais uma vez, o velho e o novo. O antigo com as suas prerrogativas, servindo-nos de ponto de partida para seguir em frente. O novo, ancorando-se nas raízes já existentes, lançando-se à descoberta do futuro. 

Todas as gerações sentem grande dificuldade em aceitar aquilo a que não estão habituadas. Não vou apontar aqui exemplos. Todos nós o sentimos no nosso íntimo. Salvo algumas excepções, todos nós temos um pouco de "Velho do Restelo", aquela figura ímpar de que se serviu Camões para mostrar os nossos receios, inseguranças e horror ao desconhecido.


95
— "Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C'uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!


97
— "A que novos desastres determinas
De levar estes reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos, e de minas
D'ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? que histórias?
Que triunfos, que palmas, que vitórias?   

Aqui chegados, será que o que foi dito atrás é pretexto bastante para ter trazido o Codex Amiatinus? Já não sei bem. Tenho a certeza de que houve uma altura em que sabia o motivo por que queria falar de tal documento. Mas, esfumou-se dado o tempo transcorrido em relação à data da selecção do tema. 

Resta-me o prazer de ter estado aqui a comunicar convosco, como se os meus amigos não tivessem coisas mais interessantes para fazer. E outras leituras à espera!

Que post palavroso este!- quase que oiço em surdina.

=====

Ver, se interessar:
-*Os cinco Solas da Reforma - aqui, no Xaile
-Ócio criativo - Blog Começar de novo
Os Lusíadas: Cântico IV - estrofes 95 e 97
*Ter em devida conta o significado do termo "popular", nessa altura.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

E a dessalinização da água do mar?









É meritório o que se tem visto: o transporte de água em camiões-cisternas para onde não há água nem para beber, como é o caso de Viseu. Contudo, a situação não é passível de se prolongar durante muito tempo. A água é um bem que pode acabar. 

Ouvi hoje o Ministro do Ambiente dizer a miúdos da escola que a água não se fabrica. Pois não. Mas é bom que comecemos a pensar em fabricá-la, aproveitando as técnicas que outros países carentes de água já estão a utilizar há muito tempo: dessalinizando a água* do mar. Falo do Médio-Oriente e aqui mais perto de nós de Cabo Verde, país com o qual temos muitas afinidades histórico-culturais. 

Pergunte-se aos cabo-verdianos como é que lidam com a seca, como fazem para que a água doce chegue às torneiras de forma sustentada e como fazem para que ali surjam verdadeiros oásis. É tempo de pormos todas as cabeças a trabalhar na resolução deste problema. Se não o atacarmos de frente, dele vão nascer muitos outros em catadupa, mas ao contrário. Aliás, não há que inventar. 

Bastará pôr em marcha o que já existe.

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Não querendo ser insistente nem aborrecida, mas sendo:
Li hoje, 22/11, uma notícia sobre as alterações climáticas, em que pessoas gradas ligadas ao Ambiente tecem considerações sobre o assunto numa mesa redonda, um Encontro Nacional de Entidades Gestoras de Agua e Saneamento, em Évora. Ora, leia-a também, aqui. 






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*Nota: Sei do que falo. :) 
É a água que eu bebo e utilizo, para tudo, quando vou a Cabo Verde.

Ver:
1ªImagem: Pixabay
2ª Imagem Notícias ao Minuto

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Voici: la doudoune, le velours, le satin



La doudoune voltou este ano em todo o seu esplendor. Curta, comprida, cintada, fluida; em formato blusão, poncho, casaco, quimono; em diversos materiais, polyester, polyuréthane, coton, nylon, mais... bien gonflée. Uma peça de vestuário bem urbana, para usar com calças de tweed, uma saia fluide ou um vestido tube. A ideia é que vai bem com tudo e em qualquer situação. Penso que será o nosso kispo*, mas permitam-me continuar a tratá-lo no feminino pois acho "la doudoune" simplesmente adorável. O importante é que é reconfortante e quente em tempo de frio.




Uma outra novidade é o regresso do velours. Há quanto tempo não via um vestido, um casaquinho, uma coisinha qualquer em veludo!Pois, parece que agora é um must, apesar de haver notícias do seu ressurgimento em 2013, talvez em menor escala. Confesso que não me sinto nada tentada. Porém, noblesse oblige, não se pode fechar os olhos ao que acontece ao nosso redor. D'où vient le velours, grande tendance de la saison - interrogam-se na Marie France.


Também um outro tecido que agora está na moda é o satin. Há muitos anos que ele não faz grandes aparições no nosso dia-a-dia. De cetim talvez só vestidos de noiva e vestidos de noite, tops, lingerie, pelo menos é o que me parece. Contudo, com tantos tipos de cetim que há não me admiro nada que sejam usados à luz do dia e informalmente. 

Na revista Voici, donde retirei o apontamento sobre "la doudoune", há um conjunto composto de blouson en satin, sac en cuir, chemise en coton, patalon en velours, com a legenda: Dans les rues de Milan le satin est d'or.  Visto assim parece-me bem. Aliás, a revista refere ainda, entre outras coisas: Quant au satin, loin des années 80, il nous revient moins scintillant mais tout aussi brillant.



Dada a minha proverbial inaptidão para estas coisas de informática não me é possível trazer para aqui a imagem daquilo que descrevo no parágrafo anterior. Poderia fotografar a imagem, visto ter a revista. Mas, enfim. Para o cetim fui buscar as calças azul-turquesa** do blog de Lady Zorro, embora se refira ao inverno de 2016/2017. Parece que essa tendência já vem daí. 

Afinal, eis a imagem. Uma alma caridosa, a minha filha, ajudou-me nesta tarefa.

Desejo-vos um bom fim-de-semana. Ah! Ainda é quinta-feira. Voltarei, amanhã.






17/11/2017

Vou passar para aqui as minhas dúvidas quanto à cor das calças a que chamei "azul-turquesa":

**Azul-turquesa é mais claro, não?
Bem, talvez seja azul petróleo. Ou verde petróleo?
Cada vez me enterro mais, se calhar...

Uma ajudinha?

Agora sim. Bom fim-de-semana.

(Nota: não consigo pôr as letras do mesmo tamanho. Isto assumiu que eu queria letras pequeninas e não há volta a dar-lhe.)

Até que enfim. Consegui mudar o tamanho da letra.
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-Magazine Voici nº 1565, du 3 au 9 novembre
As duas primeiras imagens da revista ELLE
*Ou parka
**Azul-turquesa é mais claro, não?
Bem, talvez seja azul petróleo. Ou verde petróleo?
Cada vez me enterro mais, se calhar...