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segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

DIZES-ME


Dizes-me: tu és mais alguma cousa

Que uma pedra ou uma planta.
Dizes-me: sentes, pensas e sabes
Que pensas e sentes.
Então as pedras escrevem versos?

Então as plantas têm ideias sobre o mundo?

Sim: há diferença.
Mas não é a diferença que encontras;

Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as cousas:
Só me obriga a ser consciente.

Se sou mais que uma pedra ou uma planta?   Não sei.
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.

Ter consciência é mais que ter cor?
Pode ser e pode não ser.
Sei que é diferente apenas.
Ninguém pode provar que é mais que só diferente.

Sei que a pedra é a real, e que a planta existe. 
Sei isto porque elas existem.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.
Sei que sou real também.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram,
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta.
Não sei mais nada.

Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos. 
Sim, faço ideias sobre o mundo, e a planta nenhumas.
Mas é que as pedras não são poetas, são pedras;
E as plantas são plantas só, e não pensadores.
Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto,
Como que sou inferior.
Mas não digo isso: digo da pedra, «é uma pedra»,
Digo da planta, «é uma planta»,
Digo de mim, «sou eu».
E não digo mais nada. Que mais há a dizer?

Alberto Caeiro

Poeta de completa simplicidade; considera que a sensação é a única realidade. O Mestre, segundo o seu criador, Fernando Pessoa.

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In: Banco de Poesia Fernando Pessoa
Imagem de - aqui


quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Então quem sou eu? Sou, corpo e alma, o exterior de um interior qualquer?

Só matéria ou também anima, o sopro quase divino que nos eleva acima das nossas misérias? O poeta das sensações traz-nos a velha questão sobre a nossa finitude ou imortalidade. Vejamos como ele a desenvolve:






Dizem que em cada coisa uma coisa oculta mora.
Sim, é ela própria, a coisa sem ser oculta,
Que mora nela.

Mas eu, com consciência e sensações e pensamentos,
Serei como uma coisa?
Que há a mais ou a menos em mim?
Seria bom e feliz se eu fosse só o meu corpo —
Mas sou também outra coisa, mais ou menos que só isso.
Que coisa a mais ou a menos é que eu sou?

O vento sopra sem saber.
A planta vive sem saber.
Eu também vivo sem saber, mas sei que vivo.
Mas saberei que vivo, ou só saberei que o sei?
Nasço, vivo, morro por um destino em que não mando,
Sinto, penso, movo-me por uma força exterior a mim.
Então quem sou eu?

Sou, corpo e alma, o exterior de um interior qualquer?
Ou a minha alma é a consciência que a força universal
Tem do meu corpo ser diferente dos outros corpos?
No meio de tudo onde estou eu?
Morto o meu corpo,
Desfeito o meu cérebro,
Em consciência abstracta, impessoal, sem forma,
Já não sente o eu que eu tenho,
Já não pensa com o meu cérebro os pensamentos que eu sinto meus,
Já não move pela minha vontade as minhas mãos que eu movo.

Cessarei assim? Não sei.
Se tiver de cessar assim, ter pena de assim cessar
Não me tornará imortal.


Desafio que este Guardador de Rebanhos nos lança, o Mestre, como o define o seu criador, Fernando Pessoa. Tido como um poeta de pensamentos simples, privilegiando as sensações, anti-metafísico, acreditando que as coisas não têm significação mas sim existência, e a sua existência é o seu próprio significado, até onde nos levarão as questões levantadas neste poema?


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Poema retirado do Banco de Poesia Fernando Pessoa.("Poemas inconjuntos")
Ver De Anima - Aristóteles
1ª imagem - Internet (perdi as referências)
2ª imagem - Internet - pintura de Silva Porto
Nota: ...que nos eleva acima...Um pleonasmo que assumo com gosto.:))