Interessantes os tempos que correm e a forma como aceitamos coisas que dantes nos incomodavam. Quem usasse uma máscara antes da pandemia era objecto de discriminação, de olhares desconfiados, de medo de aproximação. Interpunha-se entre nós e o portador da máscara uma distância nunca considerada suficiente.
Agora o que nos diferencia é a consistência da máscara, a qualidade da máscara, o pendant que faz com a roupa que trazemos, a cor lisa ou estampada, o corte e o porte. E o olhar reprovador que lançamos a quem não se apresente com qualquer tira de pano, de preferência vistoso, que tape a boca e o nariz.
A moda já aí está. O espelho devolve-nos um ar composto e confiante. Álvaro de Campos antecipou-se:
Agora o que nos diferencia é a consistência da máscara, a qualidade da máscara, o pendant que faz com a roupa que trazemos, a cor lisa ou estampada, o corte e o porte. E o olhar reprovador que lançamos a quem não se apresente com qualquer tira de pano, de preferência vistoso, que tape a boca e o nariz.
A moda já aí está. O espelho devolve-nos um ar composto e confiante. Álvaro de Campos antecipou-se:
Depus a máscara e vi-me ao espelho. —
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sou a máscara.
E volto à personalidade como a um terminus de linha.
Também o mito aí está.
Sem máscara ficamos nus. Mostramos fraquezas e fragilidades.
Já não será preciso esconder o sorriso amarelo perante situações embaraçosas, nem mandar pôr o dente da frente que nos falta. Até numa entrevista de emprego poderemos negar-nos a tirar a máscara a bem da saúde própria e pública, escondendo assim as nossas misérias. E será considerada postura digna de grandes encómios.
Hoje, dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Sempre considerei este dia sobrecarregado em termos de comemorações e de mitos.
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Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sou a máscara.
E volto à personalidade como a um terminus de linha.
Também o mito aí está.
Sem máscara ficamos nus. Mostramos fraquezas e fragilidades.
Resultado: transformamo-nos na máscara, somos a máscara, como diz o poeta.
Já não será preciso esconder o sorriso amarelo perante situações embaraçosas, nem mandar pôr o dente da frente que nos falta. Até numa entrevista de emprego poderemos negar-nos a tirar a máscara a bem da saúde própria e pública, escondendo assim as nossas misérias. E será considerada postura digna de grandes encómios.
Hoje, dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Sempre considerei este dia sobrecarregado em termos de comemorações e de mitos.
Na verdade, vivemos de mitos que nos sustêm, algo construído em dado momento, tendo em vista necessidades políticas concretas e que se estende no tempo como
esteio que nos dá segurança e sentido patriótico.
esteio que nos dá segurança e sentido patriótico.
Criam o elo necessário entre
os cidadãos e a História pátria...
Assim,
A cada tempo a sua máscara.
os cidadãos e a História pátria...
Assim,
A cada tempo a sua máscara.
18-8-1934
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 61.
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Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 61.
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