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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

O tempo passa? Não passa


E o nosso amor que brotou do tempo, não tem idade.
    O tempo cúmplice do amor. E que melhor aliado poderia o autor encontrar?





O tempo passa? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.

Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.

São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer toda a hora.

E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama
escutou o apelo da eternidade.


Carlos Drummond de Andrade,

in 'Amar se Aprende Amando'

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Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) foi um poeta, contista e cronista brasileiro, considerado por muitos o mais influente poeta brasileiro do século XX. Foi um dos principais poetas da segunda geração do Modernismo brasileiro.





Através de sua poesia, Drummond foi eternizado, conquistando a atenção e a admiração dos leitores contemporâneos. Seus poemas se centram em questões que se mantêm atuais: a rotina das grandes cidades, a solidão, a memória, a vida em sociedade, as relações humanas. 
Entre suas composições mais famosas, se destacam também aquelas que expressam reflexões existenciais profundas, onde o sujeito expõe e questiona seu modo de viver, seu passado e seu propósito. Confira alguns dos poemas mais famosos de Carlos Drummond de Andrade, analisados e comentados. aqui

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Imagem aqui
Poema: de aqui

Quinzena do amor:
 Post 1 ; Post 2

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Drummond de Andrade - Vamos! vamos conjugar o verbo ... Amar.

É no poema Além da Terra, Além do Céu* que Carlos Drummond de Andrade nos coloca perante o nosso destino maior que é Amar. E sempreamar e pluriamar, razão de ser e de viver. Estes seus versos são conhecidíssimos, mas temos sempre a tentação, a necessidade, a vontade de os dizer, de os ler, de os declamar. E, embora já constem de um post aqui no Xaile, apresento-vos este excerto, só porque sim:

vamos!
vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.





Mas não ficamos por aqui. Encontrei um outro poema sob o signo do Amor, que vou mesmo transcrever, onde encontramos a definição do nosso destino com todas as letras:

AMAR

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal,
senão rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e
uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.


E está dito. Não há alternativa para nós senão AMAR, AMAR E AMAR. E escusem os donos do mundo de dizer o contrário, declarando guerras e desestabilizando as criaturas deste nosso universo, porque se todos nós o quisermos amar-nos-emos apesar de todos os pesares. Bastará que o queiramos.

Utópico isto? Pois que o seja. Paremos com as malquerenças e os actos que nos levam a desastres humanitários de que somos todos vítimas, em especial os inocentes.

A propósito. Dizem-nos que hoje é dia da poupança. Bem bom. E é bom que poupemos em desperdícios, poupemos na água, bem escasso, releguemos o consumismo para um plano que nos seja inacessível. Mas esbanjemos em Amor, e com urgência.




Voltando a Drummond de Andrade, aqui encontrareis 25 dos seus melhores poemas, e a respectiva análise, aliás, uma análise das várias que têm havido sobre a sua obra. Contudo, apraz-me acrescentar o seguinte, retirado de aqui:

Quando se diz que Drummond foi o primeiro grande poeta a se afirmar depois das estreias modernistas, não se está querendo dizer que Drummond seja um modernista. De fato, herda a liberdade linguística, o verso livre, o metro livre, as temáticas cotidianas.

Mas vai além. "A obra de Drummond alcança — como Fernando Pessoa ou Jorge de Lima, Herberto Helder ou Murilo Mendes — um coeficiente de solidão, que o desprende do próprio solo da história, levando o leitor a uma atitude livre de referências, ou de marcas ideológicas, ou prospectivas", afirma Alfredo Bosi (1994).


Aproveito para indicar, a seguir, links de alguns dos poemas/contos de Drummond de Andrade, que na vossa companhia tive o prazer de ler e de trocar impressões:

E agora, José? - poema
Maneira de amar - conto que a Emília me trouxe
A Máquina do Mundo - post Centro do Mundo
Além da Terra, Além do Céu, post Do verbo amar
A Palavra mágica - poema

Tempo agora para relembrar um grande clássico: Beethoven. Fiquemos com a sua nona sinfonia dedicada "À Alegria", numa deliciosa encenação por parte do maestro, intérpretes, público, elementos imprescindíveis para que a obra de um compositor ganhe alma:




E, já agora, gostaria como o amigo Pedro Luso que o Dia da Poesia no Brasil tivesse continuado a homenagear a data do nascimento de Castro Alves.

Continuação de um bom dia.

Abraço.

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04/11/2019

E VEJAM O MEU CÉU NO BLOG DA CHICA

Obrigada, Amiga :)

Beijinhos


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Nota sobre o Dia da Poesia no Brasil:
Inicialmente comemorado a 14 de Março, data do nascimento de Castro Alves, foi posteriormente instituído o dia 31 de Outubro, assinalando o dia do nascimento de Drummond de Andrade.

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Veja se lhe interessar:
Modernismo no Brasil

*Além da Terra, Além do Céu - também título da
Antologia de Poesia Brasileira Contemporânea –Vol III

sábado, 7 de novembro de 2015

E agora, José?

Melhor poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade
JOSÉ

E agora, José?
          A festa acabou,
          a luz apagou,
          o povo sumiu,
          a noite esfriou,
          e agora, José?
          e agora, você?
          você que é sem nome,
          que zomba dos outros,
          você que faz versos,
          que ama, protesta?
          e agora, José?
          Está sem mulher,
          está sem discurso,
          está sem carinho,
          já não pode beber,
          já não pode fumar,
          cuspir já não pode,
          a noite esfriou,
          o dia não veio,
          o bonde não veio,
          o riso não veio
          não veio a utopia
          e tudo acabou
          e tudo fugiu
          e tudo mofou,
          e agora, José?

          E agora, José?
          Sua doce palavra,
          seu instante de febre,
          sua gula e jejum,
          sua biblioteca,
          sua lavra de ouro,
          seu terno de vidro,
          sua incoerência,
          seu ódio - e agora?
          Com a chave na mão
          quer abrir a porta,
          não existe porta;
          quer morrer no mar,
          mas o mar secou;
          quer ir para Minas,
          Minas não há mais.
          José, e agora?

          Se você gritasse,
          se você gemesse,
          se você tocasse
          a valsa vienense,
          se você dormisse,
          se você cansasse,
          se você morresse...
          Mas você não morre,
          você é duro, José!
          Sozinho no escuro
          qual bicho-do-mato,
          sem teogonia,
          sem parede nua
          para se encostar,
          sem cavalo preto
          que fuja a galope,
          você marcha, José!
          José, para onde?


Carlos Drummond de Andrade: Foi um poeta mineiro, nascido em Itabira em 31 de outubro de 1902. Faleceu aos 84 anos em 1987.  É considerado um dos maiores poetas da literatura brasileira e construiu extensa obra ao longo dos anos de vida. Ficou conhecido pela sua pacata vida de funcionário público, que se colocou em contraste com o poder de sua poesia. Drummond está ao lado dos modernistas, que reivindicaram na poesia os versos livres, sem metro fixo definido e com temática cotidiana. Sua poesia circula entre os temas sociais, existenciais e metafísicos, marcados por uma fina ironia. Quem nunca escutou o verso “E agora José?”.

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Daqui 

sexta-feira, 10 de julho de 2015

A palavra mágica

Por vezes sinto que já está tudo dito, tudo escrito, tudo falado. Que nada que se diga irá desviar o mundo da sua rota. Que o ser humano preocupado consigo próprio não se ocupa da grande tarefa de tentar adivinhar os gostos e as preocupações do outro: Se está triste procurar saber o porquê e consolá-lo; se está alegre, congratular-se com isso. Mas, não poucas vezes encontro pessoas que me fazem crer o contrário e uma lufada de esperança me invade. Com efeito, no nosso quotidiano vislumbro as que conseguem renovar-se e renovar a língua e a linguagem, com um toque de génio, um sorriso, um olhar. E eu aí fico contente e admiro essas pessoas. Como quando passo por alguém que abranda o passo e me diz: "Como está? Hoje o dia vai estar bonzinho". Parece banal, não é? São as tais palavras que de tão repetidas parecem banais mas que são o motor do nosso relacionamento humano. Outras há que de tão escondidas no nosso íntimo parecem nem existir.



Atentemos nestes dizeres:

Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira 
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura 
ficará sendo 
minha palavra.  

É A Palavra Mágica, de Carlos Drummond de Andrade, aquela que nos fará sublimes se nos dedicarmos a encontrá-la. A tal que desbloqueará conversações, negociações, mal-entendidos. E, como diz o Poeta, "É a senha da vida, a senha do mundo".

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Diógenes de Sinope, pintado por Jean-Léon Gérôme