Este é o título de mais um artigo do Público dedicado a Alberto da Costa e Silva, desta feita por Diogo Ramada Curto. Nele é referido que a atribuição do Prémio Camões-2014 a este diplomata, que desempenhou funções em Portugal como Embaixador de 1989 a 1992, historiador, poeta, ensaísta, constitui um incentivo para se ler a sua obra.
O articulista mostra como este intelectual brasileiro encontrou em África e no tráfico atlântico de escravos a raiz a partir da qual o Brasil necessita de ser explicado. Dos seus principais livros de história indica os seguintes: A Enxada e a Lança: a África antes dos Portugueses; A Manilha e o Libambo: A
África e a Escravidão, de 1500 a 1700 ; Francisco Félix de Souza,
Mercador de Escravos; Um Rio Chamado Atlântico. Não esqueço uma colectânea de ensaios publicada há
muito em Lisboa O Vício da África e Outros
Vícios; nem a sua
recente coordenação do vol. I da História do Brasil Nação:
1808-2010 – Crise Colonial e Independência 1808-1930.
De entre eles ressalto "A Enxada e a Lança - a África antes dos Portugueses", que poderá ser lido aqui. Em 1960, Alberto da Costa e Silva foi pela primeira vez a África e conta a sua experiência numa entrevista que poderia ser resumida nestes dizeres:
— Viajando, pude confrontar o que lia e ouvia sobre a África com aquilo
que via. Sobretudo, conheci gente. E comecei a tomar cuidado para não cometer
os enganos que os viajantes apressados costumam cometer, pois pensam que estão
vendo bem quando veem apenas a superfície. É preciso ter paciência no olhar.
Principalmente, ter cautela para não construir grandes teses, que geralmente se
revelam com alicerces de brisa, sem fundamento.
Aproveito para inserir, neste Xaile, mais um poema seu:
Uma Ausência de Mim
Uma ausência de mim por mim se afirma.
E, partindo de mim, na sombra sobre
o chão que não foi meu, na relva simples
o outro ser que sonhei se deita e cisma.
Sonhei-o ou me sonhei? Sonhou-me o outro
— e o mundo a circundar-me, o ar, as flores,
os bichos sob o sol, a chuva e tudo —
ou foi o sonho dos demais que sonho?
A epiderme da vida me vestiu,
ou breve imaginar de um ócio inútil
ergueu da sombra a minha carne, ou sou
um casulo de tempo, o centro e o sopro
da cisma do outro ser que de mim fala
e que, sonhando o mundo, em mim se acaba.
Alberto da Costa e Silva, in 'A Linha da Mão'
E, partindo de mim, na sombra sobre
o chão que não foi meu, na relva simples
o outro ser que sonhei se deita e cisma.
Sonhei-o ou me sonhei? Sonhou-me o outro
— e o mundo a circundar-me, o ar, as flores,
os bichos sob o sol, a chuva e tudo —
ou foi o sonho dos demais que sonho?
A epiderme da vida me vestiu,
ou breve imaginar de um ócio inútil
ergueu da sombra a minha carne, ou sou
um casulo de tempo, o centro e o sopro
da cisma do outro ser que de mim fala
e que, sonhando o mundo, em mim se acaba.
Alberto da Costa e Silva, in 'A Linha da Mão'
Desejo-vos uma muito boa tarde. :)



