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domingo, 15 de junho de 2014

Alberto da Costa e Silva: o vício de África

Este é o título de mais um artigo do Público dedicado a Alberto da Costa e Silva, desta feita por Diogo Ramada Curto. Nele é referido que a atribuição do Prémio Camões-2014 a este diplomata, que desempenhou funções em Portugal como Embaixador de 1989 a 1992, historiador, poeta, ensaísta, constitui um incentivo para se ler a sua obra.




O articulista mostra como este intelectual brasileiro encontrou em África e no tráfico atlântico de escravos a raiz a partir da qual o Brasil necessita de ser explicado. Dos seus principais livros de história indica os seguintes: A Enxada e a Lança: a África antes dos Portugueses; A Manilha e o Libambo: A África e a Escravidão, de 1500 a 1700 ; Francisco Félix de Souza, Mercador de Escravos; Um Rio Chamado Atlântico. Não esqueço uma colectânea de ensaios publicada há muito em Lisboa O Vício da África e Outros Vícios; nem a sua recente coordenação do vol. I da História do Brasil Nação: 1808-2010 – Crise Colonial e Independência 1808-1930.

De entre eles ressalto "A Enxada e a Lança - a África antes dos Portugueses", que poderá ser lido aqui. Em 1960, Alberto da Costa e Silva foi pela primeira vez a África e conta a sua experiência numa entrevista que poderia ser resumida nestes dizeres:

Viajando, pude confrontar o que lia e ouvia sobre a África com aquilo que via. Sobretudo, conheci gente. E comecei a tomar cuidado para não cometer os enganos que os viajantes apressados costumam cometer, pois pensam que estão vendo bem quando veem apenas a superfície. É preciso ter paciência no olhar. Principalmente, ter cautela para não construir grandes teses, que geralmente se revelam com alicerces de brisa, sem fundamento.

Aproveito para inserir, neste Xaile, mais um poema seu:

Uma Ausência de Mim

Uma ausência de mim por mim se afirma. 
E, partindo de mim, na sombra sobre 
o chão que não foi meu, na relva simples 
o outro ser que sonhei se deita e cisma. 

Sonhei-o ou me sonhei? Sonhou-me o outro 
— e o mundo a circundar-me, o ar, as flores, 
os bichos sob o sol, a chuva e tudo — 
ou foi o sonho dos demais que sonho? 

A epiderme da vida me vestiu, 
ou breve imaginar de um ócio inútil 
ergueu da sombra a minha carne, ou sou 

um casulo de tempo, o centro e o sopro 
da cisma do outro ser que de mim fala 
e que, sonhando o mundo, em mim se acaba. 

Alberto da Costa e Silva, in 'A Linha da Mão'



Desejo-vos uma muito boa tarde. :)


quarta-feira, 11 de junho de 2014

Respiro e Vejo

Alberto da Costa e Silva, brasileiro, um escritor que estuda a História, resgatador da memória de África - distinguido com o prémio mais importante da criação literária em língua portuguesa, o Prémio Camões - 2014:

Hoje, aqui, connosco. Apreciemos este belíssimo poema:






Respiro e Vejo


Respiro e vejo. A noite e cada sol 
vão rompendo de mim a todo o instante, 
tarde e manhã que são tecido tempo, 
chuva e colheita. O céu, repouso e vento. 

Vergel de aves. Vou entre viveiros, 
a caçar com o olhar, passarinhagem 
dos pequeninos sóis e das estrelas 
que emigram neste céu de goiabeiras. 

mas sigo a jardinagem, podo o tempo, 
o desgosto do espaço, a sombra e o fogo, 
as florações da luz e da cegueira. 

E, no dia, suspensa cachoeira, 
neste jogo sagrado, vivo e vejo 
o que veio em meus olhos desenhado. 

Alberto da Costa e Silva,
 in 'A Linha da Mão'

Poema:Citador

terça-feira, 30 de julho de 2013

Clarice e eu



Grande ousadia esta de associar a minha pessoa a Clarice, não acham? Eu explico. Em devido tempo falei aqui da homenagem a Clarice Lispector, sob o título A Hora da Estrela, homónimo de uma das suas obras. A referida homenagem ocorria entre 5 de Abril e 23 de Junho deste ano e eu disse na altura aos meus queridos leitores que pensava lá ir e que depois expressaria aqui as minhas impressões.

Na realidade, fui à Fundação Gulbenkian fazer a visita logo em Abril. Quando entrei deparei-me com um ambiente intimista, à média luz, talvez demasiado média, que, todavia, convidava ao recolhimento. Sem pressas ia lendo as frases escritas nas paredes e em todo o lado. Havia uma divisão em que se projectava um filme com a própria Clarice a falar de si e da sua vida. Entrei num outro compartimento, todo forrado de gavetas, de cima a baixo, algumas com chaves pendentes. Estas é que eram funcionais. Delas saíam feixes de luz e dentro encontravam-se pedaços da vida da escritora: cartas, requerimentos ou petições, algumas das suas obras ou referências a elas, fotos suas e dos filhos...

Devo dizer que não sou apologista de que se traga a público tudo o que diz respeito à vida particular dos autores. Não sei se o aprovariam ou então dever-se-ia ter a certeza disso. Lembro-me, por exemplo, das cartas de Fernando Pessoa a Ofélia: por mim, estas cartas, pelo seu cariz que desnuda a alma e mostra as suas fragilidades, não teriam sido publicadas ou então só parte delas.

Mas, voltando à exposição, apesar das minhas reservas em relação ao detalhe acima mencionado, estava completamente concentrada a admirar Clarice numa fotografia com os filhos pequeninos quando sinto o telemóvel a tremer. Vi que era uma chamada a que não podia deixar de atender e saí apressadamente do recinto, à procura de uma porta para o exterior. Ali atendi a chamada e, ao rodar o corpo para voltar a entrar, tropecei no tapete da entrada que estava mal colocado e caí redonda no chão.

Bem. Seguiu-se a atenção das pessoas presentes querendo saber se me tinha magoado, fui ao pronto-socorro, fiz a participação da ocorrência... Felizmente não parti nada mas tive um dos joelhos com hematomas durante um bom tempo.

Como é natural, tive de dar a visita por terminada mas penso que, por aquilo que me foi dado apreciar, consegui apreender um pouco mais da essência de Clarice Lispector. A minha admiração por ela continua viva e procurarei conhecê-la mais e melhor através da sua obra.

Assim, não vou perder a oportunidade de enriquecer este post com as palavras do comentário da autora de Canto da Boca, aquando da publicação de A Hora da Estrela. Verão como ela é uma profunda conhecedora da obra desta grande autora e sinto-me honrada pela sua presença aqui no Xaile de Seda.

Ora apreciem e não deixem de ver o filme cujo endereço se encontra mais abaixo:



Olinda, Olinda, minha tão querida amiga, Olinda, nem imaginas como exulto de alegria ao ler este poste... Clarice tem em mim o mesmo lugar que ocupa João Cabral! E A Hora da Estrela, me é tão familiar (como toda a sua obra, que tenho o privilégio de ter e de ter lido quase toda, quase!) conta um pouco da Macabea que há em toda mulher nordestina, brasileira, sonhadora (como eu), e que nos convida a buscarmos e não desistirmos dos nossos sonhos, do nosso protagonismo, de sermos senhoras do que queremos e desejamos. Clarice nos sacode para a vida, para não deixarmos de viver nenhum momento, e não pensarmos que apenas no tapete vermelho da fama, do estrelismo, podemos ser estrelas, somos estrelas todos os dias, nessa grande labuta e ofício que é viver num mundo cheio de padrões e temos a coragem de rompê-los, transformá-los! Salvo engano foi seu último romance publicado em vida, virou filme e a Marcela Cartaxo, uma atriz paraibana, incorporou fantasticamente a personagem da trama, inclusive ganhadora do prêmio, Urso de Prata, no Festival de Cinema de Berlim, por esse filme... Desejo que todas nós mulheres brasileiras, portuguesas, do mundo todo, tenhamos todos os dias, horas e horas de estrelas, porque merecemos, por todo nosso legado à história da humanidade...

Estou feliz demais por sua publicação!

Deixo aqui o link do filme: e: http://www.youtube.com/watch?v=376JgN-2cEc

Beijo, obrigada e depois nos diga sua impressão acerca da exposição?

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Tenham uma excelente semana.
Abraço

Olinda

quarta-feira, 5 de junho de 2013

A propósito de João Cabral de Melo Neto, de 'A Palavra Seda', de 'O cão sem plumas' e de 'Morte e Vida Severina'


Queridíssima Olinda, que prazer ler aqui em seu Xaile, o meu poeta maior! João Cabral é para mim o maior dentre todos (repare bem, para mim, questão de escolha e identificação). O poeta que conta o meu Nordeste brasileiro, o Recife, o mangue, os rios que atravessam a cidade ('como a fome atravessa um cão sem plumas' - parte de um outro poema dele, que gosto muito, O Cão sem Plumas), entranhado com influências andaluzas, e elementos catalãs, dado o tempo em que viveu nessas duas regiões de Espanha.

João Cabral é um poeta ácido, cerebral, meticuloso, artífice da palavra, como já pudemos ver nesse excecional A Palavra Seda. Para ele não havia poesia sem transpiração, sem estruturação; a poesia lapidada, burilada, um lirismo carregado de emoção, palavras que correspondem aos sentimentos, aos resultados mais profundos do que há de humano em cada um de nós, e que nem sempre demonstramos ou sabemos como dizê-los, João Cabral, diz. Cabral sabe nos conduzir em seus poemas, como se fôssemos viajantes de primeira viagem, como se o mundo só se descortinasse agora diante de nós.


Inclusive recria para o local, e para o visitante, o Recife tão conhecido de todos, entrecortado por seus quatro principais rios, a vida em suas margens, a morte em suas margens, a miséria de quem vive nas margens, dependurados em palafitas, como se fossem parte natural do cenário; como se nas veias desse homem recifense, nordestino corresse junto com o sangue, a lama e o rio. E sua pele ressecada como a lama que seca quando a estiagem castiga a região, e o leito do rio se torna esquálido, quase vazio...


Por algumas vezes, aventou-se, que um dia a Academia de Oslo iria lhe galardoar com um Nobel de Literatura, em função da importância da sua poesia, infelizmente não aconteceu. A sua poética configura-se entre as maiores do século XX, no Brasil, e também no mundo. Vale a pena dar uma lida em "Morte e Vida Severina", (mais) um grande livro dele, um auto de natal, narra a vida de um retirante, Severino, vindo da Serra da Costela, limites com o estado vizinho, Paraíba. Uma leitura que permite ao leitor, apropriar-se de um Brasil miserável, mas tão real e sofrido como quando da época do seu lançamento. Uma narrativa-denúncia, com um forte cunho social. E eu vou parar de "falar", porque senão eu vou ficar insuportável. É que publicaste um poema do meu nº 01 da poesia, desculpe a minha empolgação, amiga!!

Beijos!

Deixo aqui alguns linkes para a vossa apreciação e apropriação da nossa cultura, para entenderes mais o contexto e o sentido da poética cabralina.

A letra do Chico Buarque para a encenação do musical: http://letras.mus.br/chico-buarque/90799/


O musical completo você pode ver aqui: http://www.youtube.com/watch?v=u3R3s5XeB-w







E o auto aqui: http://www.culturabrasil.pro.br/zip/mortevidaseverina.pdf


Canto da Boca

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Pensam que este comentário foi produzido agora, na publicação de 'O cão sem plumas'? Não, não, isto vem de trás aquando da publicação de 'A Palavra Seda'. Mas já antes Canto da Boca nos tinha falado de João Cabral de Melo Neto e da sua escrita, quando publiquei 'O Advento', de Jorge Luís Borges, argentino, que, por sinal, ela própria nos indicara. Como vêem neste entrelaçamento a cumplicidade e o intercâmbio se tecem. Ou isto não seria o Xaile de Seda, um xaile que, a cada dia, se vai tecendo...

Obrigada, Canto.

Olinda

terça-feira, 4 de junho de 2013

O cão sem plumas

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.
O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.
Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.
Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.
Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos povos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.
Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.
Abre-se em flores
pobres e negras
como negros.
Abre-se numa flora
suja e mais mendiga
como são os mendigos negros.
Abre-se em mangues
de folhas duras e crespos
como um negro.
Liso como o ventre de uma cadela fecunda,
o rio cresce
sem nunca explodir.
Tem, o rio,
um parto fluente e invertebrado
como o de uma cadela.
E jamais o vi ferver
(como ferve
o pão que fermenta).
Em silêncio,
o rio carrega sua fecundidade pobre,
grávido de terra negra.
Em silêncio se dá:
em capas de terra negra, 
em botinas ou luvas de terra negra
para o pé ou a mão
que mergulha.
Como às vezes
passa com os cães,
parecia o rio estagnar-se.
Suas águas fluíam então
mais densas e mornas;
fluíam com as ondas
densas e mornas
de uma cobra.
Ele tinha algo, então,
da estagnação de um louco.
Algo da estagnação
do hospital, da penitenciária, dos asilos,
da vida suja e abafada
(de roupa suja e abafada)
por onde se veio arrastando.
Algo da estagnação
dos palácios cariados,
comidos
de mofo e erva-de-passarinho.
Algo da estagnação
das árvores obesas
pingando os mil açucares
das salas de jantar pernambucanas,
por onde se veio arrastando.
(É nelas,
mas de costas para o rio,
que “as grandes famílias espirituais” da cidade
chocam os ovos gordos
de sua prosa.
Na paz redonda das cozinhas,
ei-las a revolver viciosamente
seus caldeirões
de preguiça viscosa).
Seria a água daquele rio
fruta de alguma árvore?
Por que parecia aquela
uma água madura?
Por que sobre ela, sempre,
como que iam pousar moscas?
Aquele rio
saltou alegre em alguma parte?
Foi canção ou fonte
em alguma parte?
Por que então seus olhos
vinham pintados de azul
nos mapas?

João Cabral de Melo Neto


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Mais um poeta brasileiro que aqui nos chega pela mão de Canto da Boca.
Realmente, foi através de indicações suas, em livro postado no seu blogue e aqui em comentários, que cheguei a este poeta e a este poema.
Aliás, este é o segundo poema que aqui publico. O primeiro foi 'A Palavra Seda'.

Muito obrigada, amiga.

Olinda 



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O cão sem plumas, 1949-1950:Ver análise e poema na íntegra: aqui

domingo, 7 de abril de 2013

A Hora da Estrela

'Amo esta língua', dizia. 'Não é uma língua fácil. É um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve querendo roubar às coisas e pessoas a sua primeira camada superficial. É uma língua que por vezes reage contra um pensamento mais complexo. Por vezes o imprevisto de uma frase causa-lhe medo. Mas eu gosto de manejá-la - tal como outrora gostava de montar um cavalo para o levar pelas rédeas, umas vezes lentamente, outras a galope'.

Extraí estas palavras da contracapa de Laços de Família, de Clarice Lispector, palavras que lhe são atribuídas. Este livro, que hoje vos trago, é prefaciado por Lídia Jorge, que nele traça o percurso literário e as características desta figura maior da literatura de língua portuguesa. A dado passo e referindo-se a este livro ela escreve:

'Laços de Família, obra com que na prática se inicia a publicação da Clarice Lispector entre nós, é um conjunto de treze contos surgidos no Brasil em 1960, e contêm alguns dos traços que esse género costuma ter. Tem personagens, tem aventura, acidentes e desfechos. Só que neles, tanto quanto nos romances, os personagens começando por ser comuns, logo se revelam incomuns, avançando como se não tivessem olhos para ver, e quando quisessem ouvir não tivessem ouvidos. Ou inversamente, se têm ouvidos não têm sons, e se têm olhos não há paisagem que se veja. Quando acontece a coincidência, e é por escassos instantes, a visão produz-se, dá-se a fulminação e a matéria ficcional sucede.'

Lídia Jorge evoca Sartre e La Nausée quando fala de Laços de Família, referindo-se sobretudo ao conto Amor de 'leitura obrigatória para quem se inicie na compreensão do processo epifânico de Clarice'. Mas é do conto Uma  Galinha que transcrevo as seguintes passagens, da página 28:

'Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre.
Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se poderia contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista.'
'Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcançou-a. Entre gritos e penas, ela foi presa. Em seguida carregada em triunfo por uma asa através das telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência.'
'Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, parecia uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu coração tão pequeno num prato solevava e abaixava as penas enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. Só a menina estava perto e assistiu a tudo estarrecida. Mal porém conseguiu desenvencilhar-se do acontecimento despregou-se do chão e saiu aos gritos: 
- Mamãe, mamãe, não mate a galinha, ela pôs um ovo! Ela quer o nosso bem!'

Pois bem, 'A Hora da Estrela' é o nome da Exposição dedicada a Clarice Lispector na Fundação Calouste Gulbenkian, e que decorre de 5/Abril a 23/ Junho de 2013, no âmbito das comemorações do Ano do Brasil em Portugal. Vem anunciada assim:


Como não podia deixar de ser, estarei entre os visitantes um dia destes!

quinta-feira, 21 de março de 2013

A Palavra Seda

A atmosfera que te envolve
atinge tais atmosferas
que transforma muitas coisas
que te concernem, ou cercam.
E como as coisas, palavras
impossíveis de poema:
exemplo, a palavra ouro,
e até este poema, seda.
É certo que tua pessoa
não faz dormir, mas desperta;
nem é sedante, palavra
derivada da de seda.
E é certo que a superfície
de tua pessoa externa,
de tua pele e de tudo
isso que em ti se tateia,
nada tem da superfície 
luxuosa, falsa, acadêmica,
de uma superfície quando
se diz que ela é “como seda”.
Mas em ti, em algum ponto,
talvez fora de ti mesma, 
talvez mesmo no ambiente
que retesas quando chegas,
há algo de muscular,
de animal, carnal, pantera,
de felino, da substância
felina, ou sua maneira,
De animal, de animalmente,
de cru, de cruel, de crueza,
que sob a palavra gasta
persiste na coisa seda.


De:

João Cabral de Melo Neto

Poeta brasileiro, João Cabral de Melo Neto nasceu em 1920, no Recife, e faleceu a 9 de outubro de 1999. Diplomata, exerceu funções consulares em Assunção, Barcelona e Dakar. Pertenceu à Academia Brasileira de Letras. É de 1942 o seu primeiro livro de versos - Pedra de Sono, em que se deteta a influência de Carlos Drummond de Andrade. Depois, integrou-se na "Geração de 45", seguindo, no entanto, o seu próprio caminho. Eliminando das suas imagens resíduos sentimentais ou pitorescos, instaura um novo critério estético - o rigor semântico, fulcro da sua radical modernidade, assim afirmando uma nova dimensão do discurso lírico através de uma poesia que parte do concreto para atingir a pureza da abstração, querendo utilizar a linguagem conscientemente em vez de ser usado por ela. O geometrismo de alguns dos seus poemas corporiza esse movimento de "regresso ao real" empreendido por este poeta da sensação aguda dos objetos que delimitam o homem e a mulher modernos. Entre outros prémios, foi-lhe atribuído o Prémio Camões em 1990.

João Cabral de Melo Neto. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011.

*********

Este poema foi-me indicado por Canto da Boca e retirei-o de: Aqui 

****

Vide aqui uma análise da poesia de João Cabral de Melo Neto.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

questionário difííícil...

A TétisCanto da Boca, cada uma de per si, meteram-me num bom assado, desafiando-me a responder ao questionário que se segue. Mas antes:



AS REGRAS:

1 - Avisar o blogueiro que o indicou, quando fizer o post

2 - Ser sincero/a nas respostas ou não responder.

3 - Ter que fazer 5 indicações de blogues para que tenha continuidade.

4 - No final da postagem dedicar um tema a quem o indicou.

5 - Se for contra estas regras recusar-se a fazer o mesmo.



AS PERGUNTAS:

1. Algo que você não fala para ninguém?
Ah! é que não falo para ninguém mesmo... :)

2. Se você pudesse ouvir apenas uma música no próximo mês, qual seria? 

Nha Testamento, de Ildo Lobo. Adoro esta morna. Mas pensando melhor, não me importaria de passar um mês a ouvir o CD todo.

3. Um sentimento que nunca sentiu.

Assim de repente não estou a ver... Bem, gosto de pensar que trago em mim uma boa dose de bons sentimentos.

4. A pessoa mais importante para você.

A minha filha, em primeiro lugar. Mas há outras pessoas muito importantes na  minha vida.

5. Agora onde você queria estar?

Em Paris.






6. Já deram um tapa na sua bunda, gostou?
Sim, em criança. Não gostei nada.

7. Quem levaria para uma ilha deserta?

Nunca tive essa vontade de ir para uma ilha deserta. Gosto de estar rodeada de pessoas, gosto do convívio. 

 8. Quem você mandaria para o Iraque com uma camisa escrita " I love USA"?

Acho que preferiria deixar o povo iraquiano em paz, a reconstruir a sua vida.

9. O que deixa a sua vida de cabeça para baixo?

Quando mergulho em algo que me interessa muito...

10. Se alguém lhe dissesse que você poderia realizar um sonho agora, qual seria?

Voar como um pássaro ou nadar como um animal marinho.

11. Algo que gostaria de fazer, mas que não tem ou teve oportunidade?
Ser bailarina e também tocar bem um ou mais instrumentos musicais.




12. Você não sai de casa sem o quê?

Bem, eu aqui vou fazer minhas algumas das palavras de Canto da Boca:
Sem um livro, um caderninho para anotações e caneta, barra de cereal, água, e ...umas pratas para um café. 

13. Já beijou ou beijaria alguém do mesmo sexo?

Claro! acrescento mais alguma coisa? Pois, filha, mãe, irmãs, primas, tias.

14. O que estaria fazendo se não estivesse fazendo isto?

Provavelmente a acabar um post que comecei há dias sobre a Res publica ou República. Não o terminei porque resolvi dar prioridade ao tema 'Como fazer xailes para bebés'.

15. O que está pensando agora?
O que é que vou fazer para o jantar?


 

 

Passo o desafio aos seguintes blogs:

Da Cadeirinha de Arruar

Magia

Os meus óculos do mundo

Acordar Sonhando

Andradarte



BOAS RESPOSTAS!!!

***


Depois de terminado o post reparei que tenho de dedicar um tema às bloggers que me encomendaram as respostas ao questionário. Fui à procura de Clarice Lispector. Encontrei-a, aqui, neste apontamento:




Sou o que quero ser, porque possuo apenas uma vida e nela só tenho uma chance de fazer o que quero.
Tenho felicidade o bastante para fazê-la doce dificuldades para fazê-la forte,
Tristeza para fazê-la humana e esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas,
elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos.


Clarice Lispector




Imagens: Internet
Live blog: Um Farol Chamado Amizade
Citação de Clarice Lispector
O pensador

domingo, 27 de maio de 2012

Balanço da Semana da Lusofonia no Xaile

Eis-nos chegados ao fim desta Semana da Lusofonia no Xaile, uma semana de oito dias, por serem oito os países que integram a Comunidade de Países de Língua Portuguesa - CPLP. Talvez daqui a algum tempo sejam nove esses países, na medida em que a Guiné Equatorial pediu a sua inclusão nesta Comunidade, declarando o Português uma das línguas oficiais do país.

Façamos agora o balanço das escolhas feitas, na certeza de que poderiam ter sido outras, dada a variedade, número e qualidade dos autores que escrevem em língua portuguesa. E... Parei precisamente aqui há sete dias.

Não tive a oportunidade de continuar este texto nem de fazer o referido balanço, ou de falar sobre a grande viagem do idioma que é a grande estrela neste périplo.

Assim, termino esta série, sem mais delongas, com um poema de Clarice Lispector, agradecendo a todos os que passaram por aqui lendo apenas ou também contribuindo com os seus comentários:

O sonho

Sonhe com aquilo que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz. 

As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades
que aparecem em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passaram por suas vidas.


Clarice Lispector




Imagem:Internet