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domingo, 11 de outubro de 2015

É brando o dia, brando o vento





É brando o dia, brando o vento 
É brando o sol e brando o céu.
Assim fosse meu pensamento!
Assim fosse eu, assim fosse eu!

Mas entre mim e as brandas glórias
Deste céu limpo e este ar sem mim
Intervêm sonhos e memórias...
Ser eu assim ser eu assim!

Ah, o mundo é quanto nós trazemos.
Existe tudo porque existo.
Há porque vemos.
E tudo é isto, tudo é isto!


Fernando Pessoa
in: O Cancioneiro


Penso logo existo? A partir da minha existência percepciono o céu e a terra, sinto o vento e a luz a trespassarem-me e tudo o que me circunda porque a mente é a minha fonte. Se o mundo é o resultado daquilo que trazemos em nós, então poderemos influenciar o vento que passa, o rugir dos vulcões, o borbulhar do incandescente. E se na minha ânsia de encontrar um pensamento primeiro, depois de eliminar do meu entendimento o supérfluo e os ensinamentos de antanho, cairei na dúvida metódica. Será bom negócio? Duvidando de brandas glórias, de vitórias poucochinhas talvez exercite em mim o poder do raciocínio lógico. Ou talvez não. Poderei, no limite, tropeçar no erro de Descartes.


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Poema: O citador
Imagem:daqui